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Full text of "Epopêas da rac̨a mosárabe"

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HISTORIA 



DA 



LITTERATURA PORTUGUEZA 



EPOPÊAS DA RAÇA MOSÁRABE 



HISTORIA 



DA 



LITTERATURA PORTUGUEZA 



EPOPÊAS DA RAÇA MOSÁRABE 



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I / 






HISTORIA DA POESIA PORTUGUEZA 

(S8CH0LA NÁClOlfÁL) 



EPOPEAS 



I 

I DA 



RAÇA MOSÁRABE 



POB 



THEOPHILO BRAGA 



PORTO 

IlfPBENBA POBTUaUEZA BDITOBA 

1871 




Ll*^ 



 nacionalidade portagoeza é formada de dois ele* 
mentos; perfeitam&ate caracterisados na ethnographia 
e na primitiva oocapaçSo do território, tomarse mais 
evidente esta verdade na historia da sua Poesia. Do. 
Douro até ao Algarve existiam essas povoaçSes mosa-, 
robes, que foram sendo eneorporadas no território em 
que Dom Affonso Henriques constituiu o seu reino; es- 
tas povoaçSes formam o elemento gotíiico^curabe da nos- 
sa nacionalidade, e a ellas pertence a grande poesia 
epico-narrativa dos Romanceiros. No livro das EpQ" 
pioà da Baça moaaraòe, deixamos estudada a formaçStí 
dos Romanceiros pelos vestigios das tradiçSes gothicai9 
apagadas pelo eatholicismo, mas conservadas pela mu- 
sica e dança dos árabes, até que foram renovadas pelas. 
invasSes normandas e scandinavas e pelas CançSes de 
Gesta dos colonos e jograes gaUo-frankos. 



VI 

Em outro volume faremos a historia da poesia dos 
fidalgos asturo-leonezesy que da Galliza até ao Monde- 
go occuparam as terras do primeiro núcleo da monar- 
chia; este é o elemento gothico-romano, essencialmente 
aristocrático. Â sua poesia foi uma imitação das can- 
çSes lyricas dos trovadores provençaes; tendo aban- 
donado os costumes germânicos pela civilisaçSo roma- 
na e pelo canonismo catholico, as cançSes gallezianas 
nada têm de vital, são uma moda como se usava em to- 
im BÀ 'èôrtes 'afamadas d» Soiropav láfélisEaisDte este 
géttieroi HiittiàéisiL <e fa^bri«b 0(»i«egqlÍQ 8ii|^pltotar a poen 
E^a pop«dar. O «nts^niumò poUiioo entre^ òs dois ele^ 
m&htostia tnesmaiOLaffiroiialidade ilãd é monos sdltitaito 
na Iwtaiittft ãtta9 pumas, àmçaarabe (^Fresptmdendt)' 
ás t^rea^Ses é{>ioas dbliogu»^Oil)eagraí2etíafia^ (^odsr' 
respondcaido «o lyriomQi oabfcntíivo dá imjgtta d^Oft). 

N'0S1» iivft(^' áôà «sdripto o> procomo ^m* qu» m d»« 
lata o> cnbie da movte de um povt> ; ceiteUmmaram^n& 
d«Ertiâte 'crtitQí s^bulòe a Mmnrobia e o CafthoUoisiiiOi A 
decnâmeta èí^tííií^ povtiqfiielsa, o almixAmoiito é» 0eà< 
já^éí iQnrai) a «na ilifeidariãade dfamte dos trabàlbosí 
dâi E«ltif % bio o resultado éat obtra d-es<ia8> dnlas po*- 
t(Miitâa»dhB trorasi. AbÉran^se^as €!lÍFonieal9 o&íAheêyBé 
vareanu» cob»» os vei» a» biaiiiq[iseteaf«dm « dievaetiivAm 
ou como os firadeE toftfmm oomí eheivo de; 






vn 



de. Nenhuma palavra d^essas laudas succulentas mos- 
tra ter conhecido, sequer, a existência da grande raça 
mosarabe. Mas a hora do Dia da ira vem perto, e: 



Quioquid latet apparebit, 
Nihil inultum remanebit. 



O que estava occulto apparece. Â historia nSo te- 
ria consciência d'esta iniquidade, nem saberia condem- 
nar a raina dos Mosarabes, se a Poesia e o Direito 
doesta raça que era fecunda nSo estivessem reclaman- 
do a sentença impassível das edades. Nada hade ficar 
sem ser vingado. Quem ainda tem boa fé, leia; quem 
tem vigor e ainda espera, levante-se. 



,-t 



EPOPÊAS 



DA RAÇA 



MOSÁRABE 



ELEMENTO 60THIC0 ÁRABE 

O estudo da historia litteraria^ coadjuvado pelas 
descobertas da ethnographia e da linguística, levou a 
critica moderna a determinar, d'entre as multíplices 
m&nifesUiçSes do sentimento e da intelligencia, aquellas 
formas de creaçio privativas do génio d'um povo^ que 
não sZo imitaçSes académicas, mas um resultado for 
tal das faculdades que destinguem uma raça. Chamou* 
se a esta ordem de factos Nacionalitteratum» Em In- 
glaterra achamos o elemento saxonio e o normando, 
representando ora a espontaneidade orgânica, ora o 
classiciMOio convencional; em França encontramos o 
fundo primitivo da raça gauleza, tornado clássico no 
período gallo-romano, tomado scismador no pwiodo 



2 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

gallo-bretâo, e a\idaz, altivo, cpzQ uma grandeza épica 
no período gaUo-frankp. Em Itália apparece-nos a fibra 
etrusca modificada pelo génio lombardo, ora supersti- 
cioso; ora cosmopolita. Em Hespanha temos o sangue 
ibero, tomado clássico com a civilisaçâo romana, fe- 
cundado pela virilidade gothica, e apaixonado pelo ar- 
dor e enthusiasmo árabe. Em Portugal, antes da His- 
toria, de^ Herculano, filiava-se a nossa origem jaa^anti- 
guidaâe^ biblica e* homérica; era isapossivèl descobrir 
uma feição nacional na litteratura. Chegavam os que 
viam mais longe a negar a nossa nacionalidade nas 
creações da intelligencia; e comtudo tivemol-a, mas 
para a descobrir é quasi necessário recompor physiolo- 
gicamente a existência de uma raça. Quando esboçá- 
mos o génio dos Mosarabes em Portugal, (1) tocamos 
pela primeira vez essa pulsação longiqua de um povo ho- 
jetQorto; mostrámos a sua audácia creadorana Poesia, 
no Direito, na ReligíSo, e na Arte. Agora cabe o tra- 
tar de cada um doestes factos brilhantes da sua activi- 
dade sentimental. Na grande raça germânica chainada 
OB Wisigodos, que invadiram a Peninsula, banindo o 
poder dos romanos, é preciso, para comprehender o 
phenomeho da creaçâo do povo portuguez, ter Bem- 
pre em vista, que ella era composta de duas classes 
distinctas e antinomicas entre si, os nobres godos e os 
servos ou lites. Os primeiros imitaram a cultura roma- 
na, desnaturaram-se com ella, perderam lingua, rdi- 

' (1) LUroducçào á HisL da LitL Pari,, § m. - 



ELEMENTO GOTHICO-ABABE a 

giSO; poesia, costumes e direito, que tudo affeiçoaram 
a esse typo que admiravam ; a este elemento aristocrá- 
tico, que veiu a dominar na reação christã da Penin- 
sula, devemos cliamar*Ihe os gotMco^romanos, Aos se- 
gundos, que ficaram em contacto com os árabes, e 
d^elles aprenderam a industria, a tolerância e a egual- 
dade politica, a ponto quasi de se fundirem com elles, 
chamámos o elemento gothico-arábe ; é ao estudo d*este 
período a que damos o nome de Naciooalitteratura por- 
tugueza. 



4i EPOPÊAS DA SAiÇA M08ABA9S 



©^^•ITtJljO I 



Os Hosarabes e a Nacionalidade portugueza 



Aonde se procura a verdadeira poesia de um povo. — A invasão 
germânica na Península. — O lUe germânico, seu caracter, e 
sua importância histórica. — O Foral e o oostume da tribu.— * 
Simbolismo germânico indicando nos usos. portugueses o veio 
da raça. — O wisigodo dá o elemento primário do povo por- 
taguez.-~Lucta do Cbristianismo conbra os costumes e poe- 
sia dos Godos. — Acção do elemento germânico na linfi^ua rús- 
tica. — O lite germânico na invasão árabe. — Influencia exter- 
na do semita. — O Árabe não transformou o génio poético do 
Godo que acceitou o seu dominio. — Creação do Mosarabe e 
seu caracter artístico. 



Dá-se muitas vezes o extranho pbenomeno de não 
se encontrar a poesia de um povo nos seus poetas ; es- 
tes, desvairados pela erudição académica, ou pelas exi- 
gências e fascinações do gosto, deixam-se levar pelas 
formas convencionaes, pela imitação dos modelos san- 
cionados como bellos, e esquecem a sua própria natu- 
reza, falsificam o sentimento e perdem a nacionalidade. 
De todos os povos da Europa só a Inglaterra e a Hes- 
panha souberam respeitar a sua poesia. Procurando- se 
o caracter da poesia romana debalde se encontra nos 
seus maiores poetas, que se esqueceram das tradições 
etruscas, e corromperam a metrificação orgânica da lín- 
gua latina, trocando a accenttiaçâo pela quantidade 
grega, expressando o sentimento como o fizeram Pin- 
daro, Alceu e Sapbo, descrevendo a natureza como a 



■CAWTULQ I 5 

pintaram Homero e Hesiodo^ e parodiando a vidii co- 
mo nos typos de Aristophanes e Menandro. Apesar do 
absoluto domínio dos Rhetoricos de Roma, Viço sonbe 
achar uma severa poesia na sua jurisprudência ; e pelas 
modernas reconstrueções históricas, se tem determinar 
do a existência do Canto dos irmfios Árvales, das Canti- 
gas a Júlio César, a Vigilia de Vénus, e infinitos tbs- 
tigios a que alludem os escriptores latinos. (1) Antes de 
descobrir a sua poesia nacional, a França entregou-se 
á imitação da antiguidade grega e romana, impôz as 
normas do gosto, e despresou as ricas epopêas que fe- 
cundaram a alma moderna, contando a sua inspiraçSo 
desde Malherbe. O mesmo aconteceu com a Àllema- 
nba; no século XVI, Luthero tomou escripta a ling^a 
popular, e, só depois da revoluçfto do Romantismo, é 
que se conheceu a vastidBo doesse grande cyclo épico 
dos Niehelungens. 

Isto, que aconteceu em poros com caracteres de ra»- 
ça mais pronunciados, era fatal e inevitarel em Por- 
tugal: do século XII a xnr fSmos provençaes, no século 
XV hespah^oes, no século xvi italianos, depois france- 
zes; contámos livrarias de poetas, mas apenas em Ca* 
mSes se acha um sentimento de nacionalidade e uma 
séria comprehensXo das primitivas lendas populares dá 
nossa historia. E comttido, não existe mm povo sem 
poesia, porque é impossivel a existência sem receber 



(1) Du Méril, Poesies poptUaires IcUines anterieurs au dou- 
eâme sitcte, p. 103 a 116. 



6 EPOPÊAS DA , RAÇA MOSARABE 

impneasõea^ sem a pommunicaç^o d'ell^, sçma Jingua- 
geííif sen^ a tradição, sem o costume^ sõm a theugopia, 
«em o symbolo. O povo portuguez tapfibem teve uma 
poesia própria, nacional, £lha do génio da raça ^ que 
p0rjte^icia, cantando as paixões e as pb^^ses da yid^^ 
acompanhando as suas transformações, contafido a svia 
historia mais ou menos apagada, mais ou niienqs origi- 
niaU Ninguém suspeitou tal existência; algjuns poe- 
tasr, como Gil Vicente/ tiraram d^ella grandes, xçcursos 
4e e^Qtitaneidade, mas n§^ com o respeito qu^e dá a 
verdadeira comprehensão. Aconteceu também, para 
maioir fatalidade, que a poesia nacional foi a ultima que 
e^ recolheu da tradição oral, e por eonsequeneia a quç 
^p^i*ece hoje.menps vasta e a mais obliterada. Mas era 
preciso que. essa poesi^ se tornasse .ui;n.a expressão pro- 
funda da vida, para que, passa,dos quasi oufp séculos.,» se 
encontrem ainda para cima de cincoenta Qpppéas me- 
^^y^s, que o tempo foi abreviando, nos três grapdes 
fóc<)s 4a poesia portugue;5a — Beira Baixa, Algarve e 
Ilhas. dos AçoreSé Procurax Aa.intiip^ org^isi).ção d^ 
raça mosarabe, que constituo o povo. portuguez^ os; ele- 
mentos primários que entraram na creação dos Bo^ 
mAnceiròs, eis. o que fárma o objecto. d'eçte Uvro. To- 
das as investigações seriam sem critério^ se por ventura 
ae nSo acompanhar o problen^a do génesis d^ riiça^ 
- A influenci(^ do dominio romano no terptorio por- 
tuguez não exerceu nenhuma influencia orgânica ; Ro- 
ma conquistava com as legiões, mas não povoava ; dei- 
xava os costumes e as leis ás po.yoaçSes submeii|ida9 



OAPITULO I 1 

ao seu dominio e explorava-as com uma absorvente 
administração do seu governo militar. Essas aucto- 
ridades chamadas Cônsules, Pretores, Procônsules, 
Fropraetores, Presidente, Prefeitos, etc., as divisões 
provinciaes, em nada contribuiam para a transfor- 
mação ou assimilação da raça que subjugavam. 
Quando no século v entraram na Península os Bárba- 
ros do norte, os invasores nSo ficaram em contacto 
com uma sociedade romana, para se confundirem com 
ella. Imitaram os romanos os godos da classe nobre 
que destituíram esses magistrados, e para quem era 
um assombro a sua cultura; o godo servo, trazido na 
ccnrente da invasão pelo vinculo da adscripçSLo e da fi- 
delidade, não encontrou uma plebe romana com quem 
se misturasse, mas achou essa brandura das migrações 
celtícasque ísu^ilmente absorveu na sua individualidade. 
Assim y no tropel da raça germânica que avassallou a 
Europa chegando á Península no século v, é que se de^ 
ve procurar, o elemento primário da nossa nacionalidade* 
Os Wandalos^ sempre batidos pelas outras tribus, 
vieram recuando para o sul da Europa, arrastando com- 
sigo os AlaiK>s.e os Suevos; transpozeram os P^ren- 
neos e sacudiram a dominação romana, j& de si enfra- 
quecida^ Os Wandalos occuparam a Betica, os 'Alanos 
e8tabeleeeraiD.8e no território a que se <!^am«ya Lmi- 
tania^ e os Suevos ficaram senhores da Galliaa. (1) A 

ri) «Gallaedam Wandali occup&ut et Suevi, sitam in ez- 
tremitate OooeaDÍ maris occidua. Alam Lazitaniam «t Cartha- 
ginensem províncias, et Wandali, cognomine Silingi, Boetí- 
cam sortíuntur.» Idacio. Oiron, p. 232. 



9 EPOPÊAS P4 MÇ4 ^OSAB ABE 

yei^n^dor di^ A^iça ào norte, chuoiou, para ai deeitml- 
i^ein o impejrio ro^c^aao, os Wandaloa, o» Alanoa, e o& 
Glodo;^. i^isps Suevos imiofiinente senhores daPeaio^ula, 
.Q^ iH>ff9?s 4^ Aiid^usia (Wand9Íja;9Ía) e de Catalunha 
[Qfffi^imm} ainda s$o vestígios da primeina domiiauar 
ç^f (1) 0<^ o ^^^nvolyimepf^tp do reino da Aquitania^ 
fiil^dadQ ppr I^^fíqo, o^ Wisigodos derraniiariuii-se pee 
jl^ ip^i^ula^ já di^v$i.stada e abandonada por causa 
4a Mivi^s^o do norte da A&ica* Os Wisigodos encontai^ 
v^vi 08 3uQ?^<>9 senhores da GraUisa e do norte de Eor^ 
p3k&^i 19^ foi possível s^ li^a eii^tre elles por oausa da 
4iy€^sidf^d^ às^ doutrina religiosa. 0$ fiueyos, violentos 
e )^l^Q§op; org#nisadps fím aristoorjicia mititar, ser 
g»Í9m o patholicísmo ; os Wisigodots, oem uns restoa da 
iH^nd^de iadi^na haviam abraçado a prínoipio^ Imma^ 
nidade de ^us, pregado por Ario. (2) Eram os saeerr 
^tes esitfaolicos que nSo deixavam a fiísSlo doestes ele>- 
mentos da lutesma raga; por causa d- esta questão re^^ 
giosa, intooduziraip a dÍ8cordiii( no impevio urisigethi- 
QOy e traballiavam jçonstantenijente paf a «xtingaior. a be- 
nigna tradiçio do Oriente, atrophíaode per todos os 
meios a raça rnmarabe que maia taide se havia de for-r 
Hiar. Os Sue»VDs occuparam o norte de P(»tagAl> na^ 
nSoi n'eUes que se encontra o verdadeiro. gérmen da 
raça pociugueza, que estanciou dâ Mondego até ao Al-^ 



(1) Canta, 
(t) W* ih. 



HÍ6t Univer^., t. iv, p. 34. Ed. 1845. 



lOânTVW I . 19 



garve; fiomo um pomo Bináã no estado de guerrA^ a 
ooBBtiiuiçSo era toda aristoearaítiea; porém os Wiúgo- 
doBy sedentários na Aqnitania, trouxeram para a B&- 
iunsola 08 kabito» da vida paoifiea, e com eertesft « cor 
loBsto seria um dos seue elementos* Como todos os pq^ 
708 germânicos^ os Wisigodos diyidiam*'«e em bomeos 
liTres {merhrímn) e eserAVOSi que 4m serviam na ^er- 
la ou oiikiyam os eampos; cfaamaTia^se a estes 2iiS^« 
Todas as yeaes ^ue 9e estnda efsta phfu»e da organisar 
çSo soeÂal da Beainsula» â&^se uma. ímporÉeAcm exoki^ 
siva aos werh-man, «u dasa^ acislocDiu(ÍQa, esqaei^eiido 
oompkjtainente os UUê. Tendo oss nobres Wisigodos 
abandmiado a Sdiatnytbologia odiniea pede <^th(ilUciaímo 
incutido pelo el^em arvorado em (theoeraoia, tenda 
tmoado os seus codigoapela reproduoçXo doCodigo.de 
TiíeodoaianOy e trocado a Ungua pela Uagna offieial do 
império romano, como se .pôde ir achar n'eUes esaaa 
SeiçSes oaisaoteriaticas da raça germaaiea^ quando as Jla^ 
viam desnaturado ao. seu isolamento de ckaae? D'ai|HÍ 
resulta um grave erio noa historiadores daa cousas d|i 
Penkifiula: vSo á oiganisaçâo remaaa pvocmcB|? o typo 
de certos &ctos qu^ são puraiaente geraankee> e que 
se deram aòmente porque o lelémaito servo onUte^ eq 
conservou na sua rudeza primitivia. 

Sobretudo para a investigação das origens da poe- 
sis; do direito, da arte. e da religião dos dois ppvps da 
Península hispânica, ó indispensi^vel passar um tnaço 
sobre a acção da classe nobre dos Wisigodos ou I(ipps- 



•40 EP0PÊA8 DA RAOâ MOS AR ABE 

homens^ (1) Ê noB Utes, que conservaram tiadiçSes^ 
superEAiçSes^ costumes jurídicas e designaçSes ddmes- 
tktts da antiga vida gerraaaica, que se deve umeamen. 
te ir 'iH*oourar os genHeus, da fecunda seiva de poesia 
que^se manifestou no século xn. Estudemos a origem 
«('^esta dasse serva. 

' Quando o império romano estava quasi na sua de- 
dinaçSo, o governo central, para povoar lio vastas 
províncias, ch»Bfia[va povoaçSes germânicas vagaimn- 
dais para agricultarem os campos desertos^ dando-lhès 
pòr gttffipitia uina certa egualdade civil; a esta- classe 
chamavatn Icíeéi. (2) Gomo estas povoações inteiras 
oompp^ndiain s^vos e senhores, o titulo de laett com- 
prehénde-08 a ambos, mas sendo a dupla idei^a de olien^ 
tèlaxobi relaçSlo -ao império romano. Os german<rá cha* 
mavam propriamente lidi, lite, leude, lazzi ou lige cá 
uma classe dei homens submettida a uns> certos deveres, 
sub<NKliiiadai&iUfB& classe superior, ou a um. pesvon»^ 
gepis dè úmaiôrdcim elevada, e applieada, sob condiQSeB, 
quer 110 trabalho^ dos campos, quer aos serviços ma* 
nuaesy quer aocf officios de domesticidade. d (3) TranS- 
er^vanos esta^definiçioide Giraud para dar á nossa ex- 
posiçZo a írieza da* verdade. Os> laeti no sentido roma- 
no seriam os cavaileiros^villSos; na classe dos lites wi- 
«... ' ■ . '• ' ■ 

(1) Os nomes dos príbcipes celebres entre os ffodos carác- 
ti^Étanraé púá terpilnaçfto reik on rie. Eiohofi^ Toòj. p. 26. 
.. (2) Giratf^ lti8L':dtt Zh-oU /rançais au moyen-age, t. l, 

(3) Id. ib. p. 186. 



CAPITULO I I 11 

si^thioos ocMQQpreli6iidiftTQ*ae ob mestairaes qud fimnna* 
Tsan o bnrgO; os colonoB eu aldeonê»^,e..óB homeqsde 
vocação. Todaa estasr lures! vatiedadet se enftôlitrafii nos 
nossos Foraes. O Oodigo.TiíeoâoeiaBQ, iibitado pelo Oo« 
digo Widigodiieo^ támbem iâta os Laetí» • 

£miua período em qne os dados historioos faltam 
para a observaçUo^ temos unicamente as palavras «a- 
tíg»^ para recompormos a v^da dospovois que as cria- 
ram. O floral da Peninsula, tem sido iòtexpretado-á 
luz do direito romana e por isso se lhe altribiiie 
um caracter emphyteutico; íí Foral era^ a garantia po- 
litica e civil de uma dada povoação^ e toimanse ^vádeii* 
te a sua origem na designação germânica de trU>u.ou 
fará;, á prova^ que. se exigia no difeito^iforalairo^ de^ 
viá ser feita .pelq testemut^ áo^FarbnE8 (Var^mes^ ou 
Baroneê). (1) 

' A classe qi;ie veia .a constituir-se e a TOgularnse 
pelodireito da^sua tribu, pertencia|ao gruída iradio dos 
Utes germanieos^ os servos da gleba, ladscriptos á ter* 
ra, e que com o trabalho d^ella iam •comprando as ;Sttas 
immnnidàdes. . Temos apenas i no > C^tnoi&n^ii^ do . CoU 
leffio dos Nobreé.o veTf^o que aí débcobrÂnosi^wt» que se 
íak em Çme-lige; o Ugsy segundo CnJMÍo à o^jpàesniQ 
que leude oix Wodis,^ fiel. As povoaçStò eiii Iqtie os lit^ 
ou leudea. da raça germânica se- foraiãiassentaido e en-» 



.: ' 



(1) «... tribu Scozzessi od Árabe. . . inliiigua germânica 
cfaiaiDOBsi /ara/ i capi o principi Faronea, Varonea, o BarO' 
nes.» César Balbo, Âppíiàrtíi,p^r laJStorjí^d^içk^íftíA* HàUannef 
Fase. II, p. 24. • í / \,v '. 



12 EPOPÊAS (Dil BAÇA MOSARABE 

tr6gmião«-pe ae ttittlialhe da teonea, forani lem Portugal e 
Sespaiiiia ehamadas Aldeãs, « os seus moradores Al- 
éhfoneã. AMius, nas leis dos Lombardos^ ê o: que ficou 
li{>èr<bçoin<aobrigafBo Ao trabalho; Da Cange compara 
a condição dos lítffos franceses aos Miiowes de Ita/lía. (1) 
Da CáBge cita doeuniientos do seculd x^ em ^^e sé en- 
contra no mesmo sentido a palavra LUimeB « Liddo- 
fies. (9) O^ diecionatios portuguezes deriram a pala* 
vi^ Aiãêya^ dò atube^ mas antes da invasSo musèulma- 
iMr a povoado dos coloaofs já estava assente è nSo emi- 
grou para as Astúrias^ como os senhores ou nobres go« 
dos a quem obedeciam. Em todo o caso viria esta desi- 
gnaçlo paÉ!«i a Península com os Wisigodos da Aqui- 
tatiia, ou trazida pelds WamdiJoS; que do norte da Afri- 
ca infestavam a Itália. Também nos primeiros séculos 
da monarchia era da Itália que vinham as nossas naus 
com que se c<»nbatia os Saroaoenoe do Algarve. Dor 
pois doesta 'poesia que revela uma niça, de que é um 
vestígio a palavra olêAia, temos ainda uma outra pa- 
lavra em que a fomilia nos apparece constituída; é o 
foge, Com q»e o» germanos sjmbdisaviam a fixaçKo da 
propi*iedttde. Nas Antiguidades do Dirmto aUemão, 
trás 'JiáuM)b <}rimmf o antigo costuíne do norweguez que 
chegava á] Islândia tomar posse aocendetido o fogo do 
legar 'd'eiidíd partia^ e no ponto aonde parava. 

Ainda na Allemanha moderna^ segundo Grimm^ 



[1) €^logííânimi, ^4».^ Álãiuê, AMioneê^ etc^ 
;2) iWtf., vb.« cit. 



GAPITUlia £ 1$ 

ao entiíar p«ra um» oma o óoyo possvidar^ af a0Éva«se 
oyb^o do morador antigo, e* aeeendia^se o doi qne entrai 
va. (1) Nas iikaa dos Aç^reauma casa «d ae aonaidam 
habitada dapoia que ai ae aoeeãde |)dbi primeira vba 
o lume. Naa InquirtçSea de Dom AfíbruBOiUf ehanaam* 
se caaaea de fogo-morto aqnellea «pae se adMua* dea- 
habitados; (2) e Boa foraea antigosancoiitaahae nor goe*- 
to germaEieo eatafórma tautológica a doía teamoa/o^o 
6 lagtAOy no sentido de caaae hai>ita9So>ou maidénoia; 
noa adagies popidaras do aeouloi XVII se dbiai cDo^bom. 
lôgo> bem fego^ a (3) O carvalho* sagrado dft mjrtbologia, 
teiiix)iiÍGay ft qne de ehamava Yigrtuil, 6e oarvi^lho 4 
sombra do qual sei fazia, o oonselho- doa besMbeaaeBSi 
noa £»aea porti^^iteaes; é o meamor canvaifaQ qUe'taar» 
tas vezes se toma o logar da acção nos roaianoes car^ 
valheireacoa. EBafim^ sSo tantos) oa sijrmboloay tantos os 
veatigioa das toadigSea gerntaníoasj.qtteaè eabontcaati 
no nosso pova^ qiifi' ignorando aa revohiçBoa hiatoricas 
que se deram no. século v, por inducçSesae ioiapreòin 
sar a exíateneia do veio gothieoi 

£ certo* que a. poesia gothiea foi' qiiAsii oompleta^- 
me&te! extineta pelo catfaolicispio orthodotio que empre- 
gou todo* oa meios parai combater c Arianâsnab: e ten- 
do o gado seguida a doutrinai da* humanidade de Jeaua^ 
foi também. este o mais combatido Roa eooraiiiios da Pe^ 
niiiaala^ proourando^ estinpar-aetjiie' oa seus usod, as* 

ri) Michelet, Origines, p. 79. 

(2) H«i]p«}«Kio^ JTm^. de Pòrtugéy t. ui, p. 350< 

(S) Delicado, Adágios^ pt 6^. 



14: EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 

tradiçSes eoff-sèvB-cftntos'. N» egreja^otliioRda/Penin'^- 
sula OB byimdos latinos foracn «acriptos para excluir da 
liturgisi 08 eaistoB popularesi O4;erceiro e ^o qttarto so- 
cntos gBOiO»:4elMnia^inàdos'Como 6 período de foi^açào 
do^grandeKSyoloiépKM) dá'raça gérmaaieà; a elabora- 
çÍLo'poetíé»'COÍne^e com ab ímiusSes. (1) Os raosios da 
fiEaBÍl)a>ganBâiiica entmndo na* Peninfiuia, nâo tra^iain 
oomèigo^ena. 8Uatradiç&o'j(»ral'y esses cantos?' Mas os 
historiadores' Joraandes, Paulo Diácono e Saxo Oram- 
matícifsly disieiá' que bazeam ás mxak narrativas em 
poemas iatitígrfs, è n^estee biesmos escriptoces seenoon* 
tram paginas de uma^eiação de estylo, djB um colorido 
e vi^ory qiac^areòem trechos mal disfeurçados d^essa poe- 
sisu . OjQhristíanismo traaddo da Áíríca atacou esta ef- 
floresoeneia. ( ' 

Segundo Dépping, (2) o christianismo penetrou na 
Peninsnla vindo da Africa^ no século ii, e permanècew 
lavrando aocpultas até ser reconhecido reUgiãa do es- 
tado no tempo de Consta«i1;ino. A sua apregoada in- 
fluencia foi por assim dizer nenhuma; os seus principies 
estavam em contradição com o sentámentq novo traÊido 
pela rigidffc altivez dos povos do norte: 'a humildade 
evangélica nmsioá fez desapparecer a individualidade 
germânica, que tanto caíncteriBa Ò9 tempos modernos. 
Ainda compenetrado das doutrinas da eschola dos Stoi- 
. cos de Roma personificadas em Tertuliano, q christia^ 



(1) Saitít Marc*GirardÍQ, Natices de VAUemagne, p. 83. 

(2) Hist, du Comm,y t. ii, p. llS. 



CAPITULO I 15; 

nismo foi abraçado pelas raças germatticae no que «Ue. 
tinha de severo* No eatanto as lituirgias da egr^ja^ es* 
criptas em latim, e a participação do povo nos eanioti 
religiosos foram valgarisando, acostumando o ouyidp. 
popular á dícç&o latina* É n^este po&to que-oonieça a 
rusticaçSo da lingua urbana^ dom ao Tiii seoulo*. No. 
século VII, uma linguagem popular que tinba contíaua^ 
mente recebido trausformàçSes de muitos Javasojre«^ 
ia-se confundindo com c latim, reoabendo as. suas tec-. 
minaçSesi S. Isidoro, no livro das Ethyfnohgia9^tapít,z aU. 
gumas d'es8a8 palavras; €MkfUuxn,i^ hiapatti vOoaat quop; 
manus tegat, tantum est enim breve amictiun (P. 1^02)- 
CanuL (P. 1322) CamÍ8Ía(P^ 12dS)^Ai8tfi^9U8, ãbadilafoi 
dictus, quasi maio sidere natus.» (P. ÍOQdi)JÀa, Álnày 
Caravella, Qatus, Madura, Cortina., e- Gíutra^ myâ/fca«f- 
palavras que se obliteraram no uso vulgar. Nor sebub 
vm já os nomes não tinham casoa^ erain ind^N^linia-A 
veis: (1) «Nomina latina casus habentia eos anHitt^. 
bant.9 A necessidade, que tinha o clero dé cotamuní- 
car com o povo rude que apenas o escut^va^. fa^iacMn 
que elle se servisse de- uma lingUa sem transposiçSes,* 
de verbos sem grande variedade de tempiM^ amcilia- 
dos; e foi por certo o latim eoclesiastíoo o qibemais 
contribuiu para a formaçSo das linguas rústicas Ujl.Pe*. 
ninsula. (2) No século vi e vii a absoluta e crassa igno> 
rancias do clero hespanhol coincide com a total corru- 

(1) Mayans, Epistola ad Frobenium. Dtt "Méril p.' 180. 

(2) Du Cange De Cmt8Í8 carrupUB laéikitcUis, § 13-23, no 
Glosano, 1. 1. .> . . > • 



le EPOPÊAS DA KAÇÂ MOSABABE 

pçlo âo. latim; A egrqfa prohibia a Ibitura dos livros 
pagSos, como- pro&noB; eram* ob unibos modellòs que 
obstariam algam tanto á extnema deoadencia da lín- 
gua. (1) 

Quanado 'no seoulo v os Sai%aios do norte iivom- 
peram solnre * Península, tendo já estacionado na Itá- 
lia, aonde> bai«iam conbecido os costumes e a língua ro- 
mana, muitos d' elles educados entre os Romanos, vie^ 
nttn encontrar na* n^va conquista uma língua que já 
percebiam, que íacilitaTa a» suas reláçSes, e que de 
ptott)pto> ad^ptoaram* para se faserem oomprdiender. Pó. 
d^diBBF-seipidaacçSodoB Gtodos, que prevaleciam na 
Feminsula, ^spldbadas* as^ o^itras raças pteá a Afidca, 
f<n iáteirníneiite syàtasiea, nSo obstante as muitaa pa- 
l(BMntas< que deixaram no hespanhol e no portuguez. 
(S) DeveHse-lhe (O' uso do artigo, tomado indispensa" 
vti paràf modificai^ o sentido dos substamtívos indecli* 
nutvidisí. A língua gothica n%o chegou cá a ser^ escripta ; a 
runtioaiç&cdo-latímconlínuoucomo meio de se fazerem 
oomprehelididrj introduzindo successivamaite palavras 
teutonicais com termifnaç5es latinas. Assim o povo in- 
dktincitameàtõ ia àjutítando ás pslavras ásperas vo- 
gae0 ewphonicaS' paju as harknonisarem com o seu vo^ 
cabuiario. (3)' O uso dos adjectivos como locúçXò ad* 
verbial, afpparece como dé origem scandinava. (4) Mui- 



[l) Eichkorn, Cultur, t. ii, p. 467 e 470. 
j Aldret^^ Duarte NiiTies de LeAo, 6tc. 
) Da Meril, Hi«i. de la FoesU Scandinave, p. 2%2. 
) Idem, 220, not. 2. 



CAPITULO' l 17 

tostésoript^t^ têm querido ^enliiiiii]f acrMgeib àaWhf 
tigo, que destingue todas «s linguAy totMtMM', eoÉâio 
proveniente 'do latim t2fo^ tomando cada p<y«ii^ifniá ^ar- 
te ií^ iey 2á^ ^Z^ é; outros querem que à^^ude íhfluety^ 
cia da iingiia àirabe introduzisBe d oí^ opimSo que-iens 
contra si'^o «ef ò artigo árabe empregado «éomo t^òm-' 
poné»|e dh'paiâ^a -A' qneee antepde e -folmialidó* par^ 
te d'ellíf que esU acèbtpaiihada de outro â^iigo; eac 
Al^mtlàra,' Sf^niò^ fArma nmà palavra ^^ 'qUe pvoíeiJ 
flafteF^dete^udnadajpor outro artigos (1)' i * 

O uso do prcnome demonstl^atito como ^artigO' é 
principalmente devido 4 influência das Kngtta« gothioa 
6 firankft* Ko JSmnffeOio * de Ulfilas eneòntra^-se este igoJ 
nio dalmgua, que^jfirevaleee mésnMytios éscrifiltosiati^ 
fios, eomo nas F&ríMãúê de Matbolfe,' e nos moniiitíenM 
tos frattikibbs do seoulb nn; As cèiijug^e6'dompliea-r 
das eesrtensas dos verbos latinos; para abranger tòdob 
08 moáieiitos da aoçBo^ foram substituídas pelar fórmàiEi 
dos simples verbos da língua g^thieà auiiUiaídcÍB pelo 
verbo 'Aa6é»i^ e «s«e;as prepoeiçOessubstítuiraittM va-i 
lores dos oasos dossabstantivos.' Tal é o |)robesSO de 
rusticaçllo do latim/fiiTtorecido pelo genio das linguaé 
tetttoniéas. O uso do s(rtigo> lambem pddia provir Qtí 
grego; Ulfilas na sua tradueçA^ do Evangelho (370 de 
J. G.) nem sempre traduss o artigo definido do orSgiiial 
grego. A influencia da* língua grega veíu da eoldnia 



(1) Frei João de Sousa, OHgtns attMcasj prologo. 



X9 EPOPÊAS IDA :RAÇA M0SARA6E 

gmgà do MeichDia da Fifançá, oqja eâpiial ^ra Mar^ 
selha, celel^ pelas suas etcholas. (1) .' 

O eeeaEÍmpo e « theocracia destrdirám ;o império 
wisig;othiCQ na Peniosula. Já no roiaado de. W»ihb& os 
árabes haidam intentado a iiivasSo da Hespanha^ des-* 
embarcando >0m.Algezira8'; setenta e dois baixeis fica- 
ram. déstruÂdos n^esta empresa^ Só mais tf rdb, i{iifando 
o conde JuliSo^ eos filfabs de Witisa 'desthnmados pelo 
Dttqju^ de Córdova D.> Rodrigo, se aliarain aos.Aarabes, 
é que se tomou fácil a iavasSo; casta âerStVique èm uniA 
batalha fosse desiruido o império wisigotliieo^ e que 
uma traiçZo ccmseguisse tanto, se hSo tíyermct^t.preftSB" 
te que o poyc nlo tinba entSo eristencia .poHtioa, e> que 
diaiitedius violências fisoaes dos sens: senhores iediíMU- 
te da invasSo estrangetraí^ a indiffereni^ crao: melbcH? 
partídow O Conde JuliSo convencionou eom M»![^a,M$mir 
de' Africa, o iantr^gar-lheTan^r, que governava ml*' 
Ularmente, e de o coadjuvar na conquista. de Heapa- 
nha^ Tarifc-ben Z«yab desembarcou nà Ilha Ve«de, ou 
Qibvaltar,'Oom dose mil guerreiros, em Abril de .711; 
eín 26 de «fulho .doeste mesmo íanno encontrounse com 
Rodri^ nâs margens do Cruadelète, e ái ée deu a ba- 
tftlha em.qui3 ííqou fundado ò: domínio árabe. O modo 
cdmoos poetas fu*ábés descrevem a Hespanha^ mostra 
a tendência que OS' invasores tiiàbam de fixar^se no so- 
lo! dn nova conquista; este plano determinou o^ caracter 



({)lHiêt, Litt. de la France, t. i; Giraud, Hist. du Droit 
f rançais <m moyen âge^ t^ i/ p:. 4. 



. . ' , : CAPITULO I 1» 



toleiiante e ebncUiador da aua, politica; ao inqpôram a 
contribiuçSo de guerra ás povoaçSes aaseiitea, em veis 
de sangue quiseram dinheãrd. Os colonos godos ji no 
estado de paa pagavam aos seus senhores as preataçSes 
com que remiam um pouco da sua actividade, e a &«- 
caldade de trabalhar a tenra. Assim a invasSo árabe 
longe de lhe parecer uma extorsão, approsentou-se^lfaef 
como um facto natural, uma brandura nSó de venoedo* 
res. Os poetas árabes exaltam com enthusiamno o clima 
de Hespanha : <£ melhor do que todas as regiSea conhe* 
cidas : é a Syria, pela doçura do clima e péla pureza 
do ar; é o Y^men pela fecundidade do solo; é a índia 
pelas flores e pelos aromas ( é o Hedjaz pelas produ*- 
cçSes da terra; é o Cathaj pelos metaes preciosos; 'i 
Aden, pelos portos e pelas praias.» (1) Aquelles que 
assim pensavam, entenderam que o. modo de mais de^ 
pressa se fixarem- n'esta encantada regiSo, seria o fra- 
temisar com o maior numero dos seus povoadores. Os 
godos nobres, pela oonstituiçio da sua raça e das suas 
leis, acudiram ás armas; parte morreu no campo da 
batalha, parte refugiou*se nas montanhas» O invasor 
árabe achou-se apenas em presença dos cokmos iner- 
mes, esses pobres Ute$, ou aUyones, que pela primeir 
ra vez reàpiravam a liberdade politica. 

Os latinistas ecclesiastioos ao descreverem a inva- 
sSo árabe, pintam-na com as cores da maior atrocida- 
de; exageram as cousas a ponto de se tomar evidente 

(1) Apad GesârCantH) Siat» Un. Neaviéme epo^é, oêifr, w. 



W EPOPÊ AS ^DA 1 BAÇA MOSABABE 

que VietÊpyio i^etori^i^eppeoQlaífavobertianido a rèrdode; 
laidoto de 'B»j»y S^aMtiAojdè Saiamancía/ Sattr^rb^ o 
Silense é a.Obronica dè Albttida^ duEtnamf auM ai«bee 
barbflios^ aquipariEun^iHifi ár. *p6Bt8; ui8i|iltai|[i-fto8 lí^in 
um fervoi* Bèlvagatn; Luóas de Tay, Bodrigo de To- 
hão e Álvaro de Ooirditvay falam como ftmatiòos-dedbfi^ 
perados^ eoompi^em^seem eoiaiaras regraisi de Quin- 
tiliano e dob deelainadores da.decadtticia para pintar as 
ruínas e estvagoa eausados péloe Ârábee. Todçs Kfs en^ 
criptores^que seguifTam estas. foniJés^qdaei cònteiaipdra- 
aeas 4os'faptos que relMavamy caíram no immenso ab- 
surdo de cDnsideéarém: íi^co»éiliayeÍB os 'dois elemen- 
tos, o ;gothipo "0 Á al-abe. D'aíqui resultara uma diffidult 
dade de percebot* certos ffictos què ee deram na' ordem 
otyil, poiitiéa e- social Soei dois povoe, eppr èoiisegatii» 
te' a- necessidade (de recorrer a meios 'p)iaiitasttc<(|s: para 
os explicar. Mas ob doè«Hnentoi^ legace, <» ctusamento 
dâs ftmilias, os appelltdos/ os nomes tecbnioo» toma- 
dos dos arabee, «rram por eâ bastante para indieairem 
uma perta assimilaçfto do caracter dos invasores, -senos 
próprios' documentos e queixasdos latinistas não vies^ 
sem apontados oom^ desastres esses mesmos factos 'que 
pr&irent^ umia 0(^xistenciâ pacifica das duas raças; O 
godo-lite esteriliftado pe)o'eWth^ticismoovtho!do!co havia 
perdido a memoria' das suasepòpéas do cyclo da ihva- 
são g>etmaffiica do'Recu[o>Vf evaesta já omacaiwa para 
apagar as raias da liractiçfi^ que podia.* separar as duas 
raças. Os árabes, ao pizarem o solo da Peninsula, dei- 
xaram derpé as egrcjás^òhrístls)' e permitirão^ o eulto 



. OAPJTOLai 21 

do nazwena. Que if aior braadnta? doixaram aos ren* 
cidoa a fitoulclade dê se regereiá pelas si»tô leiS; maâ 
como estos nXo as tinham, por que nmica houvemni ^ajr« 
ticipaçSo SOS òoneilios, arVomramveiivlei-o seu Çoêtu* 
me ou j^o. A dvitisafSo- que os* Árabes tratíam parai 
a £uro{úi| além > da sua tUwaDciá politica^' também, 
oontribuiu para que o baixo godo o^ proeorasse imitar' 
e adaptar oBuúto% usoá* No. Indtctdu» Luminisus (1) 
de Álvaro de CoidoTay vêm as queixas da ortbodoxia/ 
oontra esta .adherônoia das povoações ih£driorest qxiai'-' 
xa-se das amiáadès' <pxe se iaravavam entre ^s ohristios 
e os inimigos da cruz, esquecendo-se aquelles da sua' 
fé por complacência; que combatiam com os árabes, 
que lhes adoptavam o costume da ciix^umoisSo, que de- 
coravam os ^us ve^os e os seus contos (V^eráibus et fa- 
bellis mille suís delectamur) que os serviam, que lhes 
tomavasaas: vestimentas,; 08 perfumes, >frequeBtaya]ki as 
auas ésbluolas^ lendo os livroa chaldçòs ceia avidea^ ea* 
queee&da*aa dá sua. lixíguaí)iiatal/:deimodoí ^e* entie 
mU jade B8o.coilttaváMUm'queíSoubeá!Be iklarlafim, ott 
escrerer sem recfmr 4^s earoeteres árabes; Ceniiemw 
nando a natureza com o espirito catholico de maldição, 
Álvaro de Córdova não comprehendia que esses factos 
que stigmatisava eram os. m<eio9 providonoiaes pelos 
qnaes se realisava a quasi fusSó dá raça goda é árabe. 
Aos.qjae recQoheciam a supei:ioridado íq& invason», e 
que além de obedecerem áè suas leis procuravam imi- 

• • • í 

(1) Apud Florez, Espafia êogradaj t. zi. 



2t EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

tar <»H 86U» costumes) ehjumanún os firoprios oonquista- 
cbnreB Moêtaraòes €m Mosarabes, Os escriptores clássi- 
cos da Historia, ^ue seguiam em tudo as tradiçSes la- 
tinasy procuraraía .poc laiiaiogia a origem doeste nome na 
palavrat latina Mixtíf-arabes^ Era uma consequência do 
preconceito. (1) A forma árabe d'esta' designaçSo, e que 
ccoipròva perfeitamente a sua eth^olpgia, enoon1a»*8e 
eifi um Foral do século xii, dado por Afibnso vi a To- 
ledo^ ém que esses vencidos. sSo chamados Mostarcibes. 
Em Qonçaloi dê Berceo, no poema Milagres dê Nuestra 
/Se^ra>.emprega-se também a se^nda forma da desi- 
gnaçSé: 



Udieroii esta voz toda Ia olereeiA 

É muobo de los legos de ]«l Motarabia, (2) 



Por estes versos se vê que a classe dAmosarmbia 
era a léigal ou vulgo, a da gente rude, a muItidSo, a 
que não tinha a illustra;^ d» clereoia. Na sua Carta a 
Bartholomeu Quebedo, mestre André de Resende dava 
também o nodie de Mosemxbes^ posto que no sentido la- 



(1) A designaçfto Mixti-arabe nfto se deve abandonar por 
q«6 ciiracterisa o facto que se deu na reconquista, quando 09 
acabes pela soa vez vencidos, ficaram nas suas povoaçõeg ga- 
rantidos por certos f^oriies. Também se decompoz este nome 
em- Mwça^-ai^abeê, isto é, os protegidos por Muça como arabès. 
M(W9tarrtl>€êy que designava a terceira raça dos árabes, podia 
causar certo equivoco. 

(2) Ochôa, edição de Sanohez, p. 218. 



OAWTOL0 1 n 

tínista, ás povbaç068 d0'iUgarW (1) As alfaias das 
egrejascbriéiãft vmham das fabricas árabes ; as íalvas sa- 
cerdotaes eram feitas àò tecido tíi/*az, Bionãe se Kam' ao 
oraçSes escriptas na Kngiiados sarraoenòs: tO tif^»' 
era um tecido precioso da fabrica skrracoda de qne tisa-' 
vam ás pesttfoaà priofcipaés entre os mttssuhnatioSy onde 
se liam bordadas oraçSes do coito ishúnltico e sentett* 
ças do Koran. Quando os sacerdotes dá ^reja de Ar-^ 
cozelo, á qual tinham pertencido aquelles paramentos^ 
ou oa da de Vouzela, á qual se doai*am/ cdebrassem,: 
revestidos com elles, os officios divinos, os assistefntes 
que nSo ignorassem a leitura do árabe, poderiam ir 
misturando as preces da egreja com as do islamismo, 
e lendo as sentenças do Eoran, em quanto os celébran^ 
tes repetiam os textoi do Evanjgidho. > <2) Ettie doeui 
mento aehado por Heroulano no Livro Preto da 8á dé 
Coimbra em uma doaçKo de 1083, mostra que asqueiv 
xas de Álvaro de €k>rdova nSo interromperam a tor- 



(1) Sobre a «ignificaçfto da palavra Mosarahe, fala o cele- 
bre antiquário éborenss Metitre André de Resende : « Qni qnum 
inter oaptivos vidíisat. aliquan ii)u)lo8,.qui se obriatiaiios esse 
dicerent Miusarabes vocato£L hoc est, ut interpretantur, roixtoa 
Ârabas, petiissea rege, ut libertate donaretnr. Qnos ad se vo- 
catos, qnnni ÍQ$ern>gaiset rez, qui nam, aut nnde g^Qtiqm «s» 
sent, respondisse, origine quidem se Valentinos iocolas, vero 
proitaontorH fuisse ilHus, qaod in Algarfoii finibdrmaH pròmf- 
net. Borma inaiores' Valência simúl cuia oorpore .snofatjtfsioiá 
martyris Vicentii aufugisse, meta adventantis Abderamenis, 
iUoque in promontório oonsedisse domosqne, ibi panperes in»-> 
dificasse, jnxta saoellnm, ubi suncti niart^nffs oor|}iisci«iodiret. • 
Ad íartKolomeu Québedtum. Epistola, fl. 12, v. Usbóa, 1567. 

(2) Do Estado das Classes servas na Península,^ iv. 



%| EPOP£AS P^ 04QA MOSABABE 

Qp^lifMf. (nhfm^.^^Cq^filim,} iíq J^^í^ JJuMrt (tely^ís. 

^9ÍÍ0). (D .Q íi9JfP?o 4Íy^iíi4r^4ç.,wo PQpijJ*r»í WftPfr^ 
a,;lr%i^$SfQ . ar4^ ,4* ftrclwíeQtura, Q snr. ge;p\Uw9j! 
Sl«^prmW9 dq.q^p. uingweip de^wmiapU * ^^istw^ia 
pft|i,fcj^ift4i9P,l|>l9Wii;ftbp3,4e^^ Ok !tçifííit;Qfrio;,eiH.qií^.^, 
W7fi.:89cie4ftde, ^ft^y^ aswjte;. «IM :t^rTÍtorio8. 4|^ 

r^ 4Rrw^P a Jwtai. 4o qu^ oe íietric^tfs^j 4^, Ep*r^ tiou- 

tímA)r 4a^.fmHf, iw?.?te9<,. 4o#. raw;.i»tfir#ftBffl eimutu^r 

à^ ft rt^ 4çp «W* «íriíft^fii Q yift)*d0s,> (A) f!Q.8.4Í8fc(?i- 
ctof do sul doeste rio (Douro) que depois da invasão de 
Tarik e Musa tinham pertencido a maior parte do tem- 
Bq.^a^^^^ac.ew8*,«nçeI:^frVfiI^.^W pí)piUftç?,<). e3açfljÇÍiU- 
mente tn^arabe. »"(3) A Beira é o ponto aonde fere òon. 
çj^^trpn ò yerdb^piro núcleo, 4a naçipnaliàf^^ pcwrtvi»- 
goesa; aH'eéta;vaiii estabeliecidos o» mosarabeâ iio seu 
iiç^lí>^l^ iJa l^vopr^,;, nos nqxim píopripíi. pwípnír^»^ 
ain^« fosio dos dois «lementosgotbioo eai^be, totíi& 

1*4 ' I 4 I . J « . 






1 .ti 



QAVJTIOLQI y . aai 



em Vebcig^foiímiido do arabi» Bent, filhove>da gernia^. 
no £^/il^; : na JNira. éivifdgw também crimafo de< Ki-' 
S«4«'û!b<«Í3^a)iitísiidilâ^}Stfm^ eíMíiÍ»o/layi»dô^ em 
qii^ habiAMli m,ftrabQ9 Mt barr«^»;. talóa eipiíãia^dcr 
Dl^.CSa^g«.|u«lda4A:na^liKM;(^r^ Oanutojs». A Btá-* 
m «s^Adíi^a04^..Yit)4ihlSi(0y<ljde;Q'aiaiaté Afanranies^ jiia-* 
tfM^iAii^ a.jfi$x^^ qi^e eom^çQU ' ^ , ^ fiteq[uiiiladá quMUio: 
89 tcHrl^^^•iq4€gpe^4wte ofipQ^Ado.â^ Benri^ue da Bet^. 
gonha. E na Beira que ainda 'bcjje be<repetftiiilQ» paií- 
tos fQffA»ím ^m vm ^9tadei de panei» qttaaiiooim(>'.na8 
iliuul dQ9! AçQr08>) 09 tfiumoi^arlkbe» dàila\v»itta^.da.te* 
cfafQolagMly Inge tomi4a9iificelMik^ à^^ àm.iMcv 

Xh.^^os pfuiroa dft gkMdfilraça sentilfitta^é o itran 
be i^fi^ri)^ Joici^i^ ide-.Deffdertai/^a iadividàslida^j 
de; te^ tt)dp9^^ ^lM^i^teteft.da;bi«adNii^a> e^a^neanid 
tempet:iMa'lW^aeídAdAlwfjeocivel.aQ eea;<9^^ Aiviidai 
dá 4^f^ta t4mt>ehMir<^.asifkin». O gedo-pleihwr ea» coi>-. 
t2M}to. ^|iA i9^4^9abeiitb> p^eam^lgefvialio neoi qonfon^: 
dirne^!i9Qm;i«Me^} eofaxiitíremád^^^taiidi^o godot^aip fiSr-i 
mm diai^94/^vUiBa^> toiaftíniiaea eiMuseguindoí inocu^ 
laiT.m^ifti Q0| seotKieientõ^ p^ulidureaderoaiairaça^refra- 
ctariíil^ t9ida Aj AwimUeiçSo. Aiiúif dá^ee fsm eurioso* pàev 
iioi9Qfl9.;e^hi|ograpbico : {^arim»ii aedwi^nikçSea geo** 
gmpl^Ciftf^ Qji.ii«çmea de £B«qiUa^ a nomeneliífcujra.teahno- 
IogÍ9ar'Of.wria|btevi»ti«idik4às utocteriduidee'! poliUca» e 
civis dos árabes ; mas os sy mbolos poéticos do direito, 
as tradições épicas^ as, lendas o^aes. as saperstm8ei3 sSo 
puramente germânicas. Por esta ^ra^m de^crMçSes da 



26 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABB 

raça mosárabe se vê a 8Ua'>ooiíetílttíQlte) phyiáolo^oa. 
Cóiáo iirâonraarel^ o semila edde aqaeRas qàali^dAdea 
exterióras 6 vmTeis 'de ttitta<^iríHsaQSo'que'deèltit&bfa/ 
voíab wAá commmiica m wmikme/atJÒBffivàllà^^m é or« 
gadiccfs da' sua raça^ por outro lado o godoy coma 
ariaino d: atlráheiíde/ nSo podendo hbmologaf^a idina* 
satím^ adbpta d^^ki aquillo que* se liBo póde^^noobrir 
aoB<òlhò8. A de»ignáçãiD do Masarabe, eifeieiMestaiia^ 
^b» perfettomente deápida. < ^ 

lia magisteatura d^ século xii e xnty eneoirtramoB 
oíA^tiomes à» aleíide etdúasil. O primeifo termo deri- 
viHse do árabe Ú^iôom^ o mmisitro ou ooiiselheitto-do 
soberano, que nos concelhos portugueses m totilòu um 
okiofe 4 da <aãminÍ8ti;aç£ío pública loeal, represénliibdo 
poé • idelégaç&o o ^ poder sixpremo ; ( i ) o segundo 4eftiiò 
demratfie eguahaaiente do eiaà^ êbichaéi, juife de pri- 
mbina /in8(tan<iia •entre> os mussúlmaiioa; Nòs ftM^tfesdo 
typo de Cantarem o nome deaJt^dis^í^dftdd aòs juizes 
nmntioipaes é uteidos principaes earaotericiéos; nosfe- 
raés poFtnguezes mddados pek> typo de Salamanca, à 
feição distíncta está no nome de (dealãe dado aòé ma- 
gistrados jurisdicóionaes. (2) Herculano, que admira- 
vefai^ente recompdz á vida politica doesta raça, diK que 
por estas designações se mostra : cquao profundamente 
o elemento mosárabe influiu nas sociedades neo-^gbthi- 
casw • B aeçresèeáto : «As dés igftat^es das* mAgistrátu- 



(1) tíercíúino, Bht, de Porttufol, t. iv, p.'123. 

(2) M, t&tó., p. 126. • 



CAPITULO I 27 

raa bSo árabes nos mftb antigos fones» O ty^ de Sa^- 
lamanea, em que nos B{:^reoe a palavra aUaldês, pi|9* 
cedeu aos outros; seguíndo-âe-^lhe o de SanitMiein ou 
ante& de Lisboa; depob o de Ávila. •• £vora, que ser- 
viu de.modello ás organisaçSes análogas j. tinha aloo^t 
deè ainda nos -começoB do seoalo xni. O khadi, o juia 
mu88dba»ano^ repròduz^se na maioria dos nossos con- 
celbos peK&itoa... N8o m&o estes faotos indícios vehe* 
meotes, por nSo dizer provas, de que a raça Tnoscuráhe 
predominava ai entre a pbpulaç&o inferior...? A meisi- 
ma impropriedade do vocabnlo akdsU é aiáda um ifr» 
dicio de inâueneia mosaratie. Onde. predomina essa* 
designação inoorreta? Na Extremadnrá, e depois no 
Alemtejo meridionai e no Algarve...» (1) fim nm Invenr 
tarío doB Monges da Vaoaiiça feito em 1064^ de todoi» 
OB bens qlie existiam entre o Vouga e o ^ondego^ an« 
tes da conquista de Cloimbra por Fernando 1, contam- 
se vinte e três egrc^il situadas em ont|«s tantas aldeias, 
christSs, que estavàkn áindãn^esse tempo sob o doini-^ 
QÍo sarraceno. (2) Isto prova a existência de uma graní 
de povoação preexistente, que íiXo vieia dos desvios das 
Astúrias. ' * 

As povoaçSes ruraes dos mosarabes re^elam^le noe 
seguintes nomes de Alfardim., Aduares, Almadanim, 
Almagede, Alcareal, Aleolea, Feitites/ Adernas, Afin-» 
ceraa^ Alqneivinhos^ Enxarafí^, Fataca, Alpendre, Li-' 



íl) Id., %bid,, p. 127. 

(2) Jrf., t. in,p. 424. íí > 



2B EPOPÊÀS DA IRiÀíQl/MOSARABE 

sicfat ;• estafs/ nèAies «iada hoje «u^iotem & fdmtn dados 
a povoares 'igoiadás, separada^, de toda fL protécçSo^^e 
sam iTÍ8ttihança 'doa castelloé senboriaíee; 

Peh|íB eontractoaicíiris d^estesi tno»Mtórbi, se tO" 
nhaob a influencia 'da iinttaçSo>anibe; prinoípalmente 
nòs '^oinâs^ qu6 auBaa" véseansignificam umoruifaMiiento 
extfepeioaal, e quaát sempre unia idesjjgnaçSofvdLtirati^ 
mioa JKinnMÍa^ para 4èr direito' á pr€í);ecçSo. Oiojoiteiro 
déOpeatiimai(922).foi éedido ao^BispiS» de Coimqbmypor 
Abdtréncia ^t Maurotm^^et Je^lmra úicàisM^ ém Uma 
d^ÂçBo de 1086 á Váoeariçáy para a edifieáçÇo «de uma 
Qgvqa^ aSb teaÉçmúiilias Zikcoi-JbemSdAitiy^ Jvík-el^iny 
ÁhdêUaf^Árfferigfuiz, ZMoi-Jbeú-Zoúoij O-Beaahov Ser* 
cdiano^ ;qii6 apresenta esses 'ikotos^ oonsidecaiiosiiom^s 
BeHito*f> A^gétÍ€a<íOíDú godos*^ o^qob mostark' mnia cei^ 
tatend^doiai^ara o oiHiâsamento das raças. No Xti^ro 
Pt>8ta'da.8é'de Caíikibva vama dediacaaçfo «deàma 
{WQptiedadfi.eompracUiia OitellíhlbifhAlaMaUj^e a sxia 
iQvlbér &negQdi3b Jtecaly âlha dej íilb»ifa2do<i^rMtlis^ e 
deniS^nítV^tiaò anr* Heccukuio tandbem oonflidensr'no* 
vut^ godos* <SsQi vmsi vetkda de uma visàuot £^ita çm^ lO^O, 
a vendedora diz que estava pegada com a de- sea ir«- 
ra&9 Ahiir0kmanf.eaí'.mB^2kAo9ií(^ de I0d6) 4 ^ ^^ 
Coimbtiay Uái doscoiíflrnuuites é Palagiustoim^Nazur, 
quéí Ae tmàm/Peiagio padre eUiHstSiOé Todos estes, far 
clob feihm ^ÉconixAãúa peio ^ auri KeéeakxM^iiú 
Preto da Sé de Coimbra. (1) 

(1) Hist. de PoH., t. ra, p. 426. 



UABJflULOi 98 



Os nomes geograpbieofi tflBubem.sftode origem ára- 
be nas regiões em qtie o poder sarraòenp.e as povoações 
cbristãs coexistiram. No AlgArve^.para onde, segun- 
do André de Rezende se refugiou uma colónia mosara- 
be, ewcqníran^oft F^gbar, (Fmo), Mirtofah (Mprtola) 
aeíô (Silves). To^írd (Tavitft) Çl^kfYiel^iSNB^^).Ba^ 
taliaz (jEi^ajo?) Chaiich (S^ltía}^r^a(}(^eçez)it/aiia* 
rah ,(EmTB,) Jíai-íáa, (Mjwidi^) (?atfrtairae-e|-/S$yt (Al- 
cantipa^) Cwría (Qori^)iv4ííwr (Alvo?:)^ Bekh (Hl J^hhi 
(Elyafii) ifq/ííft.(B^qja)j4i-lía«fi (jAicac^p: doSia) iS^^- 
rma>,(3arj^ ChaanHreyi^ (Sf^n^arem) Xiíâ7ÍíMi«k oU wtoA^ 
&tt»a (I^^sbo^) C^iri^r^ii oA Zi^iWfà (Giolbra) uití^^íl£sk|€{6H 
(Almfidí^)}, (J):e^tí^8 flojaea 6<>m Jiev^<^ aUeraçjSes phkOi- 
neticA3 i^ip4t^.p€ariuai3H90tm boj^ <Qom ,a tenacidade se- 
mítica* O que mais. asaomWa,, quando se observa a 
profuia^i^^^ '^* içApre^%o<quQ deixou a tiiQaí avahe 
na oQrgftnis^sSp do g<>dq» éjo ainda se.usar^Rn jui^.linr 
goi^em popular as desigi^Sea ^aW dos instrumei^^ 
tos techiiplogiqo^.:e de çoiii4ft9 de.Ufto.; Apfiilavra alvê^ 
nérj .está e|cp]ÍG#idoi0.g^o aft^hitectoBico do no804> 
povo; o fus^Í4/(;|j.eguahnQntai.U0adpp^a.foiirar ail Q{^* 
sas> é um vestígio da^oreaçXo árabe. A p&Iavra o^ern 
(jpue e ^M^tjffi^r^iw «entido d^ liar bospitalidad^» sSo 
também de, origem árabe, e o povo t^m|Mrehexideu. :ialiu. 
nos seus romances.. "Ha jro^ianeâ d0 Bej/wddos, se lês 

— Sendrès, si tos pluguiesej 
i YoTOS^qtderd aposentAf.— 
Don Reinaldos habló luego : 
«Cumpla-se vuestro mandar.» 

(1) Id., Ibid., p. 326. 



80 EP0PÊA8 DA BAÇA MOSAR ABE 

HioleronlM áêt pòtwàA 

Eu acert9.do logar, 

Que ti moro es aeoêtumbrado 

A r&meroê ãlbergat, (1) 

r » 

• « 

NBÓ 8Ó na Pôninnulft a língua árabe exerceu esta 
influenda; foi ella que alargou as outras línguas se- 
mitícas, e que disputou a universalidade ao latim e 
ao grego. Em 1830 Frei JòSò de Sousa reedlbeu em 
um fivro' 08 Vestigioèdá Ungua araòica em Portu- 
gal; 8eg«riu-se-ihe depois W. H. I^geltnan^ com o 
seu Olomriò dàe pàlwírc^ heépanhola» è p&rtugitezas 
deri^eiídaê do arciAe^ publicado em Léydé em'1861. 
Também com relaçSo á França ha um trabalho atlálo- 
go feito por Fihan em 1847. Estes BaKitos representam 
uma revela^ moral; que se nSo tem devidamente 
investigado na poesia^ Diz Renan: «A Eutopa 'nâo 
escapou á aeçSo universal da 'língua árabe. Sabe^se 
quantas e quSo diversas palavras ois hespanhoes e pòrtu- 
gueses tiraar&m do idioma doto musstdmanos. As outras 
línguas romanas também encerram um bastante grande 
numero de palavras al*abes, deéignando quasi todas^ 
cousas scientificas ou objectos manufacturados, e attes- 
tam quanto os povoe èfarÍ8tSk>8 da edade media ficaram 
abaiito dos mussuhnanos em sciencia e em industria. 
Quanto ás influencias litterarias e moraes eilas têm sido 
muito exageradas; nem a poesia provençal nem a ca- 
vallaria devem nada aos mussulmanos^ Um abysmo 

(1) Ochea, Tesoto de Bomanceros, p. 34. 



CAPITULO I M 

sepam a forma e o eipirilo da poona romana cUífiSrma 
e do espirito da poesia arabe^ nada prava qae os poe^ 
tas christZoe higam tido oonheeimento da ezistenoia do 
uma.poeaia.arabe^ e pôde affirmar^-se que se a boiíTes-» 
sem conhecido, seriam incapazes de compirehender«Ihe 
a lingna é o. espirito»» (1) Esta doutrina ]^rtenee ao 
dinamarqúec Dozy^ mas apesar de bastante oontnovev* 
tida, entende-se somente com a litteraluca culta, e nSo 
com o genío' popular-; a. prova encon tra^e. em outro fa-* 
cto appresentado por Ernesto Beban^ A lingua árabe 
resistiu, ás influesicias estranhas dos, paises iqi^e avas- 
salou; aproas na Hespanhâ éqoe se chc^gou. a formar 
ttmdialectc^y que devia de ser o vehioulo para coiomunl^ 
car o sentimento da poesia*. Dis pois Banan:. <0 árabe 
qae exerceu uma acçSo tSo profundlt sobre a lingna 
doa povos sujeitos ao islamismo, em ger^i» etoffri^u pou- 
qaÍBsimo a influencia das liaguas indigenas nos paiaes 
que conquistou. A raça árabe, a nSo ser em Hespanba, 
nSo se misturou 4»>m os povos vencidos. Apenas se ci* 
tara ura> ou dois exemplos de disileotos árabes •comutar 
mente desfigurados pela mistura de elementos barba-» 
roa... Asràm na Hespanha meridional, a lingna .árabe, 
tomando^-ée a linguagem da populaçSo christli, cor- 
rompeu-se e formou o^ Mqbwii^íaU, que, pelo.qud se dia&, 
sobreviveu até ao século paasado nas montanhas de Qra<- 
nada e da Serra Morena...» (2.) 

(1) Renan, HUtaire genercdt des Langues semitiquea^ p. 
397. 

(2) Id,, iWa.^p. 412. ..... 



EP0PÊA8 :IHÍL1BÁÇJL M08ÂRABB 



i"\ 



'SàiÂh flanrdeiaiGerto pii(K)iirar{a'inâu6iidá'8a*adM na 
littijra^jufftiKikfieiqek, 'qfuatí<li>/<ii^ fiidalgoA aAtorijsiios. e 
léoaezM^' sepai^o» "pdiv «6u 'eiAgera^o oitthtrfiaioin», 
eram ols anÍGosque Itielavàm doutra adoniiiftçSoiíiiufi^ 
flttlmatia. Fajuriel foi um <doft cgtkB rastentou' «pairai» 
doxona Mfstorià da Poesia IProvenfái, (!) de (fnaifôra 
imicatíiente cuhivadá pda armtDcrapia ida 'PjdnsnMihla'; 
oómtudo Famièi^ patfá «uiteiitar a «na liy^tluMe, es-i 
triba^tre «ena fiM^to» tirados-da^reaçlo p^pflari 'Nos pri- 
imràioâiia iiÀcidtiaHdkdé poyiág^ ^ eiè^ 

mento jtidaioo d^^rd^u «Ma A<$(âd p«d«rdiá ; até 6)» iHi6 
alUllbúe a!^6fttrádad<M;ambeÉ^«<úÉbí^tílt»^;'t^ ain- 
Úttmúiú qii^<pod<ôda é^ífúer áoitfeio génio' ahtkio^ 
dó pòVò 'pOft*tttgÚ€z ecinftfiide-èe -eom- a djò« ãbftbes naa 
mesmas teí6íd6nGÍá« 8€fiii4;i6Ás. No potro po^ttiguea aii^ 
da 0xUtèhi céi*log- aneifine €im que tfali8fiareoe'o puro 
eipirito judaioo; iaeis sBo a^ mékiíúM^líãofaçéêêiêmj 
n&o te iíitá mal} P^r bem faziêr wM hítver, eto. Ha 
tamba» n^ crea^jSa da poesia namonal titti elemento 
amfie Becundatio^ a tfOÁ ehamamoft Mifttiaraòe, em 
oofitrapoêiçSki- ao Moêtarabe oú primário ^ é este oon« 
stitiiido pelafa poToaçSes muMulm^âB ^ue* duvknte as 
oonqvúfttas de D. Áffpn$o Henriques até D. Afibneo iii, 
fei*am deistada^ permanecíer nd solo de que perdiam o 
dominioy garabtitido^se-lbe o domicilio- em bairros se- 
parados ou Mourarias, e a religiSU^, arte^e industria 



(1) Op, cU,, cap. XII : Rapport entre la poesie árabe et eel- 
le dea Frovençaux, t. m, p. 310. « « . •« 



CAmVLO I M 

«m FofaftB p]^)i(|rio«. I^tato tiesn^fo «^tutidkrio tftrtMUE 
00 jogmed hi^trilfetf^ 6 tedk» áquefiM ^e peto ii«t«^ 
rft^ do B0U mi«feÁ»/ er«m oKi^fwdôs »' eoiApibttir &M 
tMd-âfi, gttiâéhus, tmitfíMM e dvfteft cbitt^ {wra m 
JBBtAff puMicaà 'd«tie«ilttaO) o* que primeiro cleteiMimm 
aésdfltencii^ política do» Jfoáitmiò«M> tMil|en âttribM 
á sua influeueia a tolierasòia eo|n q««e forait|> frat«ão0 
o» a»ab64 v^diBctdoBi Em SaÉtapum, c»á^iii«t«da em 
1093; 08 sarracenos ficaram midiíido etttnr o» novod 
povoadaret 4è(ri0i3o»^ eráo 8e«^ pêlo feml d'es- 
tet ultimeis.' Va namçfto da conquista de Linboay se 16 
«II ftieto' aiifldoga: c£ entom ftita esta boa obi« ftea- 
raov kmis' poacee de mMuros, 6 éfto oiNudlelroii, e pe^ 
èkmA pw merç^ « 6l-*yey que ok nam niMidãsse' aiAn 
tar, « 4ttê Mi0» désee hum k^» i^NMPtedo «n què po^ 
iMscffii iáff¥i»r eemf; e qiae floaseeui ipf» séoe servotf 
pifiva' sMDpnd; «*fcaeiiâô4koi» el*tey eMKineifoècfue cdies^ 
lhe mostrariam grandes thesouros d'haver que ht jâH 
ziam escondidos. Entom vendo ei-rey o que lhe pediam 
fez sobre ello fala com os do seu conselho, e foi acoor- 
dado que lhes fosse feita esta mercê, que nam morres- 
sem, e que ficassem por servos captivos.» (1) 

Esta suavidade politica em contraposiçSo com o 
fervor da cruzada guerreira, seria inconciliável se o 
vigor da raça dos Mosarabes uSo viesse temperar a 
crueza dos conquistadores; bem disse Herculano: ca 



(1) Chronica daftmdação do Mosteiro de S. Vtcenity cap. i; 
DOS Mon. Hiêt, Scriptot^ pi.40S. 
3 



U EP0PÊA8. DA BAÇA MOSARABE 

maleToleoma natoral dos dais povos, que: poe< seòulos 
disputaram o dominio do solo, era tampôtada pela in- 
fluencia das antigas £EHpilÍAs.;iiioBarabes,...»» (1) Mas 
uas consequências doeste facto flc< eyid^ioia mais » sua 
verdade: quando o elen^nto mosacaVè Jbí íMvophiad^ 
em religiik) pelo cathòlicisnlo, e em. direito pi^los romã- 
nistas, appareúe pela primeim.ye&5 a atrocidade da <le- 
gislaçSo de ^Dom Manoel e de Dom Jo8o in, e a ex* 
pulsaçSo geral e o qdeimadeiro ! ! 

As ec^nias franoezas, inglesas e allemSes que vie-. 
ram i^udar.i ctaquista e A povoaçSo.do território porn 
tugiieas^ também exerceram uma jEtcçSo importanto j^a, 
poesia.daj^açamossarabe; adiante desenvolveremos esta 
pbase. D^ois de separadas a^ filH*as .orgânicas que 
constitniram < A nossa raça, estudemos separadiunept^ 
cada um d'esses elementos no qujd..^leS'Comiii|]iiicaraB(L 
a esta ultima. oreaçBo poética dos povos indo-genna- 
meos. 



./ 



1 , 



(1) Hist, de Portugal, t. m^-p. 207v 



•• \ 



CAPITULO II «6 



OA:px?DxjriO xx 



Vestígios da Poesia gothica no poro português 



Cansas da decadência da poesia gothica. — A lucta do cathol^- 
cismo contra o arianismo. — Provas da immensa riqneaíà dia 
poesia gothica. — Os ceffos cantores e a lórmp da Checone-r^ 
As Strava gothicas sfto hoje os clamores e cantos dos mortos 
na Península. — Festas de 8. JoSo e do Natal e o culto d6 
Freya noa cantos populares, —r O carvalho de Yggdrasill e a 
Fonte de Urda nos romances antigos. — Ennumeraçfto dos 
symboloe germânicos na poesia do povo portuguei:. — As in- 
vaaõe» normandas avivam as tradições gothicas. -^ A aim*^ 
ração e a rima. — Glossário das palavras scandinavas em 
Portugal. — A lenda de Veland no Minho. — Allus&o aos bas* 
toes rnniooe nos cantos insulanos. 



Be todas as raças germânicas, aquella cuja poesia 
é menos conhecida, por falta de monumentos, é a 
raça gothica. NSo lhe faltou o sentimento pantheista do 
seu tronco arjano de que se desprendeu, mas causas 
fataes fiaeram com que a poesia gothica quasi que se 
extinguisse na sua totalidade. 'Sàbe-se com certeza da 
sua existência, porque os historiadores se referiram a 
ella, ou se approveitaram das narraçSes épicas para e»- 
creverem as suas chronicas ; sabe-se também porque se 
deu o seu desapparecimento, vendo a lucta que se tra- 
vou entre o catiiolicismo romíano e o chrístianismo 
d'Ario abraçado pelos godos. O catholicismo apossoú- 
se principalmente do godo nobre; o godo lite nunca 
pode abandonar a ideia da humanidade de Jesus, e 
sem communicaçlo com os concilies políticos, tarde 



M EPOPE AS ; P4 RAOÀ MOSAfiABE 

perdeu as suas sap^^tí$S!^ § oi ^ws costomes. É este 
o fio que pôde conduzir a procurar no intimo da poe- 
sia 4p. JW7P ppií»g\iç;í €g^WXfi8%ipiia{i#çji,(|l/?ftdp sen- 
timento da raça que nos constituiu. Precisar a influen- 
cjia da pçesia ^ermaniç^ nas epop^ fra^ce^s da ed£^- 
^ íu^U, é uw pr9<ees§Q poasír^l ÇQVfi Q mQi: im fa- 
ctos, porque na Vida de Oarlo» Mà^no^ por £iiihafid, 
4§ 4i?í que eatQ gT^a4« ponauçha íB^andou Ti^ojihçff e 
eo^servar na memoria p^ bárbaros e antiquíssimos y^r- 
8P32 íiQB q^^le# §^ ÇÃÍ^^W Qfl feiíQs Q fi^ g^q^r|^« ãQ^ ve- 
Ikos reis.» (1) Esta mesma asser^ se encontra repe- 
lada. ^W àm vew§ 4o W^ta ^S^^q, Aqui efi^Gwt^^ a 
critica um veio histórico. O mesmo acontece com a in- 
fluencia germânica em Inglaterra; o rei Alfredo man- 

dm^ . t«^^wi 9fi>i^ftdfHr 4^ Qóç oii ^^m^ «itii^l^ios, 

jírQBi40ir ^ ç<ir QR ofntoe ««.^ni^a. , ,;► (3> Fwi àrtWr 
elioAir A 0»ft|epQi^ d(^ pç!^}«^ gotbici^: 9% PQ9Ínp«A$ k^ 
apfm%& #}giim»aii reJ^rwoiftft d^ J.?^9Af d^A 9tCii»iiiQs |m^ 
p^wr^i^ «k ^ lA^mo^ tfff^p^ P m(349. 90mQ A^rt»^ p^M^ 

ji^ucçdQft § $6fm^» pcwliiws d^ flwíi^piw»^ piBopapop^, 
4Witígfll ^ íianra^Qí^, np^v^ita^l 4^ veího# poeI««M9^ 

Jop)3^4e» di* qufi a§ godíw' w ajut]^^yftm e iw^t^fem 

(í) Annaleè rerumgestarím a Elfrídij p. 43. Àpud. Di> 



em coiâttittM uà utm iahkài^ÉtíiBMi^ em tBtêo; e 
em Mth) hgat^ <}ti0 09 fiiHdS dofl ftéfod atitdjMMS&dotf 
eittttt e^«èrftâM dOtti cMAttoè, com mod#láçõ@» e Mom- 
pknhtfOiMto dé eitlittnks. (1) Este oÉfeMtto éostuiM de 
fenaítf a bi«t(»fia «obre d» éántds Ji^palttré» foi dc^i- 
do>y á «Uttieifa de Jlímáildè», p^ Affetttíè o ftaibio. A 
poeri* gõtliltíá taiâbetii «itétcèii a dita ittflâéttela BiAtiW 
6 Ittterálctra hpimtíuh, <sMiò de tê p^lò ctatd dúÉ ¥«(«' 
nHgodi^, e(MifeÈviid(> iM> tivrò d« P(tt^h^géíié€àt, ^ ^àtl 
Fkm Ma^ttiittáeti c(mdidétíi C(M(^ ittíi pòettâ ^tíkiétí i^ 
terado. (2) Na Vida de S. Luãgém, âé dk ^e élltí éi% 
cego^ e era amado pelos seus visinhos por que an- 
dava cantando em Terso qb feitos dós veis antigos. A 
este costume germânico dos cegos cantores, se deve a 
tóMk píéíicá dá OíêàôHe, ^ ôi LòthWdcfà éreàfam 
to i^idiféih HiSi, Itália. Está mé^a f^^^a da Chècoúê 

ié mtímttísii ètM Vmx^y aunèápictíhk é éth Poi^tri^l; 

nOÀ' xMAfJés* em qtré àe dèfa á itíta^Kò géMaàíéá. Ná Véi'-^ 

áo fíítóíistíriírta dtí séétilò íV dá Gkiiíte déf Gdli^ór 

HélFiMil^lieó'; itedÚildà ti6 CàúéttiHeií^ó dd ]>ótitòr (jhíál-' 
f^AÉitftírei^, ^eítí(ã*tddáeátáf&^á: ' 

^àe éti él ãé lá cAéai^ «bhi tAM^ 
Mfu» nfto htf fKtr.fiaese beVk 



(1) Eis 08 dois celebres trexos, do livro de Jomandes Dt 
Qoíkorum origine: «Quemadmodum et in priscis eonim carími- 
nibns pene hitflorico lità iià uuunAam e tecoBtur. > Cap. iv. — 
«Ante quos etiam canta majoram fasta, modulationibus citha- 
rísque canebant;» Gap. y. j * i.* Lj 

(2) Da MerÚ, Htstoirê de laPoei/íòScJMínáoej p. IJB. 

(3) Jimial mÂid^ áuí^rdê, à/%, p. », òol. 2. 



98 EPOPÊAS PA BAÇA MOSARABE 

António Ribeiro 4/(^a Santos, que adoptou eàta vw 
sSo eontra a de Frei Bernardo de Brito e de Faria e 
Sousa, diz: ^Chacone ou Çiocona.era ceitoda^sa mui- 
to aiiTQsa, de que u^avai^ o$ Heapanhoes^ palavra cer- 
tamente antiquíssima na lingua, pois que no vaseonço, 
^alecto do primitivo idioma da Qespanha, sô aoha C%o- 
cuna e Ckucuna, que signifioa qousa polida e airosa, 
coAio o.era esta dança.» Ribeiro dos Santos abona-se 
com Larramendi, no seu Vocabulário Trilingue, Naa 
Musas de Quebedo, cita-sç o romanoe dp Conde Claros, 
çaido na versão do povo: 

Se quedo en las barbérías 
• ' Con Chacanas de Ia galla. (1) 

i . • • •. • 

Os cantos gothipos eram tradicionaes^ ou históri- 
cos, considerados como uma instituição nacional, e 
além disso eram cantados pelos cegos f, que,, como fra- 
cos e n^ podendo tomar parte na gueira, serviam ain- 
da para na paz trazerem sempre, incitado o valor. A 
cheffona é de origem itidiana, n\as o facto de appfurfãcor 
na lingua basca é devido á communicaçSo dos godos 
que se refugiaram nas Astúrias. Ainda nos outros rar- 
mos da poesia germânica se descobre uma relação pro- 
funda entre os cegos e as tradif Ses poéticas. Assim se 
lê no verso do Titv/rel: 



So êinguent uns die Idinden. (2) 
(1) Musa 17, p. 465. 



1 1 



m Musa Ki, p. «00. . 

(2) Apnd Du Méfil, op. ctó., p. 311, nôt. $. 



eAPnULOII < w 

No provérbio in^By osadô pot Bem Jonhabn efflia^ 
kespMíY^y «e dia! «As i2tfid ftft a /M9<^.» Para este* 
povos aonde «e deu á inflaéàda gen&aaioa, a palavra 
cego «ymou-^se sjnoníiiiio de poetai II CVeceo de Ferra* 
ra^ Oii^o de Areeao> Ciêceo d' Aaooli na Itália, Lamber 
VAi>euffl6^ em Fvança, têm a noine de poetaa.no epithe- 
to que lhes àenxn; O 4^reipreste de Hita tambeni.es*> 

ereve: 

■ • ■ - . • . • 

Cantares fiz algunos de los que disen wgoê, 

Spí^-/», mochos otros por puert^p andiuiegpf^.. (Es^. 1488); 



Na tradiçlo oral do povo; pestagues ainda reina es^ 
taerenga: . ^ 

Os cegot que nascem cegos 
Passam a vida a camtàr; 
Eu cego que tive vista, 
A vida levo a chorar. 

Vimof o pi^ipíieiro vestígio da ppesia gothica; que 
e»ptívi»tív» dQ,poy4i,em Joman^Qs eacoatrimios ou- 
tro. veio, quje.sfto.ot^ ;CantG|s fauebresi que os godQscfui; 
ta^^n po^ foneraes 4e Theodorico ^i. (1) Adiante esr 
tadarewos p.ooatiwí p^insular doa ,ci«ito.s fúnebre» eur 

(1) Op, eit,, cap. zm. 



ée EPOPÊAa flOA. iBAf^ XOSARABE 

TiiQ^tvOf 6 fxoPMt^^lí 0.£(f)(pf(nha ii^d>e)Bim o g^om^ 

a»>pMM»lim.filf»m nl9imaMiit&iIiie(tLojiín^Fde« i^i^lânt 
ma primativa; em Portugal ainda se conservam Q%QiHh 
tos que o povo entoava sobre a sepultura do Condesta- 
vel Dom Nuno Álvares Pere;r£^. Para que se copjbeça 
a importância de tal papnumento, copiaremos este tre- 
xò de Amador de los Riewr «Julgamos tfppííífMaé no- 
tar que temos praticado quantas diligencias nos ha 
suggmdft '« bom d^ií^ .pmra ^t ailguaMl iitepflít]iâ4'es- 
tes cantares, cuio interesse não pôde occultaiyaeiaihVAt 
nos ,,eríto. Com este intento hemos importunado nSo 
poucos Grandes e 'X'itu^;^es de C^tel^^ ^^ quaes com 
illustrada complacência nos hfia pateatóAdo seus archi- 
vos; porém com tSo pouc^ forttina; ^ti$ temos achado 
insignificantes vestigios dos cantos doestes funeraes, e 
nunca signal doesta linhagem de poesias.^ (1) Os can- 
tos dó povo pôttug«ez sobre a selutdtttm dò Oòiíidésta- 
Vèl; su^p^ètn este iihinénso Vacub áá púiesfa da Pteifii- 
solá^ e ao mèsiád temt^o mostram i^ti:& dáminando ò e9é^ 
menfo mósarabe etíi Pdrtugal, x> clà*ÍBtíai!f}sttiô íbi^túíàfâ 
humáíit)) tolérattdò essáãf reminhcénòiftá dè cò^ttníréfs 
canonicamente condemnados. (2) 

(1) ffiêt Critica da LUt, eapahola^ t. iv, p. 523, not. 3. 

(2) Publicámol-08 no Cancioneiro popular^ n.^' 8, 9 e 10. 



Na VUsídõJhm IWa, ímAmt w^aUada a estes 
OÉDÉea fineoMM n f £ éepcM d'iáto kíféram-liiB o coiyow^i 
VíbImpbi noBAoá Yielbee oanm.inciidb gmnáa ekait^ 
povPom T«Uo«..> (Í).Ao norte de^orlugal eetiiiwea» 
ram oe Saatroa^ e é jaslMPMBto aai pieyiaaiaa dd Mi^ 
nhoacmde ae resai aobre^aa qtpnltnraa ■ 4^aytaa oníçBea 
ehíUBadaa €2a«of«»» Nwmíúgft poesia hçin|Mwiholá aoba» 
éssigipasio que vevela o iji^odo ooétamed 



' • 



ovieron sijb ctamoreé todos 9e bo^ti iDient. (5!) 



. *.••*•, 



. Ealiea caalest faaakaeK: emtiaipitoafcbsia oa iKMni 
ioaDdiiiàfva^.<a.araai ithamáHaa driqpa*: Aatea da Har- 
qneip' de âaÉ|til|ana> tufa «wKtOavta ap OéndéalftTèlv MàM 
do fatigo esetniiwjá Peiiikt8iila^de«anli»en»aBetio»elcM 
gnwoa;iib8 saméntas, já eia aaáA pastaip» da Caasaia 
de LiMbea/de IdH aa prohibia fUa te itaMit* mkn oii 
gÊmjÊmdOk Jlslesieaaiitos eiam jwéhtbidosi psfo deiroy 
eaBa.ae.<Tã naial^dittjtt» dd Bispo da OJrkaiia G^8a'4 
r^. pskr â&9^ contea os«:eanti(v^' rústicos amJife^ 
mdgar* ▲ poesn kliiui deâalvu DaiíiaÉa^ edos 
kyunajogoa heápanhoeo^ ena. escrípto {Mtia^ bamtf da 
tamjphiJiia oaoAoa gothièos) valgãiéft^ 



(1) 3foniifnenio« hmtm>icoêj fase^ iV pu 9Ki SsfMil^. 

566, " "t 'í ' 

(3) Jíí., ib., V. 632. í ^! . ., , V ^ 



m EPOPÊAS: DA BáiÇA /IfOBAB ABB 

': Temos outros TMtlgio; da poeBMÍ^ttiidB»'hQt can- 
tos i^upoiaes, oondemaiados péUi{ egrèjs,: com o nome de 
Epiiihalamus^jpBXS^tmaBklHmoáiemk pela daaigmçSb dó 
genlilÍBino^ e de qud resta htasl Vaga. allusSò na- pala- 
Ysa IJánna^iqua aiodataoteiapO' de DomrHMaAoel deai- 
giíava as. festas das niifcias. (1)-. Um.canoà d6>:0oii* 
cilio: Hertenfey die: fQoie uSo^coitvténi aos cbriísÊios 
que ySeiás rbodasy lapplaudir nem. s^kár, poréoi oear ou 
jantar com veneração como a christSos convém.» (2) 
Santo Isidoro, qúe abraçara à cúlttíra latina, fida dW 
te costume gothico, que também condemnava: «Os epi- 
thalamios sSo ioantos dos; noivos iCaatados ^pelos escho- 
lares em honra do noivo e da noiva.» (3) Esta linba- 
gem 46 canto» desappareoeu» taiabem dWtie» o^pai^o. 

Umides cáraotoristicos do cirrialiaiiismo: de AmOy 
abcaçaldo peide -WifeiigDdòB, ena a .participa^ liturgioa 
do povD nos cantos eoelesiastibosJ QnerimBMnsarH|ue^ 
za de poesia. que os Ckmcilios èxtiogaiiram^! Aipannòi' 
pio esses byaint)s tinham .contrasto èen^iniòaiitaidos na 

riam estabelecer a unídiadecatholicapefai uniformidade 
dei 1 língua, ou adopçfto absoluta e> forçada do 'latim; 
mAis tarde fonaimi também coindeminad^s pela tendência 
aristocrática <d|i egreja,qae saooudiudeKti a acçBo po- 
pular da eleição dos bispose dos cantos vulgaresj. A 



(1\ Vlteiibot JatocMÍarto, vbov Tamó. 
/ (S)'Cits4opdr Amador: de los Rios, MUá* da JJU.Eig^h,, 
1. 1, p. 452. 

(3) Eíhymologiaêf liv. i, cap. 38. 



■ • 



XMPrDULO U i 49 

quem se deve. imputaar A^Tuin» da poa»ia giòtUcfi seãSot 
aoeatholicisiao? Disse-o Jacob Griímn oom magoa^ava* 
liando pelas referencifM» de Jotuandes, a mmensidade 
d^essa perda; e affirma q^e nSo ae pôde medir oaltDaineti 
de ta] ruína. Por outra parte àiz taio-bem o aabio Dn: 
MérU: a introducçBo do chrístianiBdio aa Soaodinayiai 
aí interrompeu optogreAuo dapoesiab (1) JaeeblGril&ài 
explica a extincçBo da poesia gotUea pela viotoria do 
catholicismo sobre o arianismo; mastiftòfiMi só esta 
a causa, porque a unidade liturgiea do; Jatim é qne fes 
estacionar a poesia tsoaadinava. Em uma Homilia dè 
Sam Leandro fiJa-se na diversidade daalingaas oomo 
causa da.scisBo cathotica, isto é, queria que o poTO 
abandonasse a lingua wisigothica trooando-a pelo la- 
tim : cOra pois, oh irmios, recobrou a bondade o pos* 
to que a malignidade havia usurpsido e ao erro subslii-» 
tuiu a verdade, para que, se a soberba tínha reparado 
as gentes peia dimrgidade de lingwu, as afunte e ch^. 
me Qtttra vez á caridade e a um só grémio de* irman- 
dade*. •» O que significa esta saudàçlo, a nlo sw o 
triumpho solure o arianismo ? . Pela stia parte, vindo o 
christianismo da Afirioa para Hespanha, aonde enoon* 
trava o arianismo de posse da raçlt goda, traiiiai em si 
a fiíscinaçBo do latim para. a UtUrgia; e Santo Agos^ 
tinho considerava comò.providencial, que depois de ter 
servido para a linguagem do direito viesse também um 
dia a ser expressão universal do culto. Foram estes os 



(1) mtfoiire de la PoeeU scf«u^M9ovet ?aIB» 



U £POPÊ AS t> A tlAÇÀ lios AR ABE 



ooiiciHoi êm ¥étíitkmh ésiaky ^eiot» dè ctnàé é^nà^àtítiA^ 
9ÍM. No primeiro 0(meilh> dô Êi^gA> éé(êfb!râdO ^ 5S1 ^ 
ppoUbiBHse que se oamtftsBom íniu» égti^áá èftti^Oés poe^ 
tiòás á^Mlo aomÉi Mkátneíite é^ pdaliiiès. (1) No ter- 
orno CtodHo ^ Toldáò áppârécé mtêk nveMitt t)^&ki- 
Wi^ftò' pfaiurMiéá. U»i Gmou âe S. MaaNit^èlò dé 9tAgék 
eatelaedalitiit*gia «|i0ttAi^»6i«mt2i^jeo#«tt%igliré»^.i (8) 
OOoàeilio de Amcerre) oelékrida etti S98> pi^ibe 0» 
eâítUmi fànfmÉy místtiiradoft^ de lAÚm e fiu^ode^ qué á« 
ébnítôlbK dafiteiram nae e|^«(|M; OhilbéH etitt SM t&a 
a mesnia pròUbiçlld'. Mm ú ègrefar ao^ déét^èMr' a- éx- 
ti3Qic9ão da poesia gotUeA^ e tímÈtpòtíào úb éeaé kymtii^ 
efii laitm^ Abraçav» da i^raíflca^* popukt ttqueltea 
segYedonÉ^db harmottia (ftte> pertenétaíii ape^ttoà^geMia- 
BÍiteaw O que é a fánaa dd {M^oéMêé e idéMéhié^ aa 
leiras obrigadas nó principio cm firis igk ôáda t^sé; dép 
bIo um meto de Mt(»fè^ golbicía, tfsadá^ ariífidal'^ 
monte e sem Ibe oonirprcÀendé]^ a banttKmia? P^Atjw 
absõndottaraaoi oa bfamog^aphos a ^iroM^iia^ da {j^a^^- 
iidàdey proprttt* do laiiibi, pam eset^veiidifi « catittti^tti' 
scfgundo a* aA;e«lua$jlo^ SenOo pela éoii{foiiaiieia'^tejsoo- 
feite pelo ^gb* tude' que pcnetísava eá»rtatidé<? < AiMdi^ 
no sebutoi 1^ este esplHto <k''e«indèik!íi^açfto' se» ttiitíti^s-' 
tou eÉi l>0ia Duarte^ qmtiúLéiil Omédkêí^â ^ssdiibe <y 
eantar daw^^ ^^m«9i Na eeiMliMèi$áo<dÉí^)^di^ód^ 

; , J • • • • •■■•.• 

(1) Canon zn: «placuit ut extra psalmos... nihii poetice 
compositum in ecclesia psalatur. > 

(2) GerbertiV Z^ MUÈièà 6» €á9m écél\ 1 1, p^ tiè 



OiPJTOíliQW r: í 4» 

reagiu «a flmv9 clofiAf^ 9» ^«v«>; 9 4 p^ km» quo 
aiH9«iir d^twi^ 9vobiMs9e« èM 0Qii^Uaii>'dfi«ii]»IM»r«mH 

em Pâitag«4 9 S(W|)wh«i. 

^ capçSqi popi»lftroA^ ^Aa qiuMOA «a vftlmwis. «ei tpcbMi 
08 tQfppo^ Q «O» |;Qdpf( o« pi^«^8. ptr» ^ttmiiem 01 pova 
ao seu p#rtí4o.» (1) Por e^t^ fiict^ 9Q ^ísplípa » giw^df 
aveMk» dq c«th<>U<D«9mo i pç^ai» popuJifr.âQK Ckifioi^» 

ÂrgQto y 4fii MolMi^y 119 i»eu i>Í4f f(r4# s^ir^ 4 P^«mii 
ciif^A^VTiM^j p^Weaâo ^m 1675) j«nto q<mii a ^Ai^ da 
CW(a ^ Z4if«nory;i9Pmider4i q« foiowQis poimliir^ii 
h«fpmbQe« cwH^ df) origem gotbitei» eo^MPto m 0«ri^ 

ni«Mr« d^ (^njw J«9 }ii0t9)r»§ puUío»», Ij» w^n^m (to 

los sigloa passados, padiera dezir que la heredamo# 49 
los Grodos, de los quales fué costumbre, como escrive 
ÂblaviOy y Juan Opsalense^^ eriebrar sui^ hazafias en 
cantares.. •» (2) 

Egual phenomeno^ etlinograpbico se dá eom as fes- 



s 



-' Ed. de 1642, í. 1». . 



L 



4ft BPOPÊAS ÚA KAÇA MOSABABE 

têtí^^ttoMB ds ifoite ãe Stón Jo8oy què exktíãin nos 
o<mtuiii^ l^lhicofi 6 se reforçaram em presença dos ára- 
bes. O Sam JoSò era ama festa dos Gtermanos e Scaii-- 
dltiavoS/que Tariava do equinoxio da primav^à aío soU 
stieio do oatono; a egreja'eatholica nSo podendo banir 
completamente este costume das raças do norte, sancti- 
ficott^o com o nome do precursor de Christo. Na Alle- 
manha e íiâ Bélgica ainda se chama ás fogueiras que ò 
poro acoende n'esta festa, osierfsuer, pór qúe an* 
tes dá cotidemna^ do catholicismo a festa do solsticio 
se chamava de Eo^ety -por isso que séaccendiam fo- 
gueiras de àleigria em honra de Fréya. (1) No Concí- 
liode' Agda do século vi, já as fogueiras de Freya se 
diziam feitas em hcmra de 8am João. Oi Wandalos, 
que cbegaraÀi até África, para ali leVáram a níesma fes- 
ta, de que o catholicismo romano se apropriou introdu-* 
asindo-a no Ealendario de Carthago; Em todas as pro- 
víncias do reino, ainda estão no «eu vigor as fogueiras 
dèr Sam JoSo, e em bastantes romances populares se ai- 
lúde a esta festa de EVeya, pela fatalidade de uma re- 
miniscência da esitincta poesia gothica. Em Coimbra 
se canta: 



— Oh Sam Joí2p« duende vindes 
Pela calma, sem chapéo? 

— Venho de vêr 9ja fogueiras 
Que me físseram no céo. (2) 



(1^ Alf red Maury, IÂ6 Fita a» moyen-coge, p. 68. 
(2) Cancioneiro popular, p. 169, 



Ma / ',! . . ' oâ.prr«LO.«n' ' :■< - - ; •' « 

Ko tommnte do.iSu^de ZÍQtwiiarrfto/ eantaiio na 
yfca^ iambenl se se lè: 

. ?Qi:. jiittaDhi^ de 8am J^&O) :i t <• 

lifaDhft de doce alvorada, 
Jib seu baldão ínuitb cedo • < • - 

A iiifanlta se assofivftva^ {!) .ri 



! / 



I ( I 



Norotnftnoe de ^râneoni^oK cantado natExtrem^i 
dura/vemi citaido^eBte coètuiiie: ! - .^ 



Oaptivaram-n^A oB.MQnroe 
pia da Paschoa florida,. 
Qnáudb andava a apanhar rosas 
JN'u;9; tqsaI qne meu pae.tiQha. (2) 



( ■ 



I 



No romanee ' àe •• Dam '' Pedro Meaina, eantado ná 
Ilha de Sam Jorge, vem egaiilinebte: . 



Já O^ litíhos' eAflòrecem • ' 

8tâQ| 08 t|igOjB em pendão^ . , , 

Ajuntem -se as moças todas 

No dià de Sam Jofto ; ' f* • ' "' ■ • 1 :^ 

Umas com cravos erosa^,. , ., . . / . ,.-, 

Outras com manjaricÁo ; 

'Aqnellès que o nftõ tiverem' / ' ' 

.Traga^m^i^m v^rde.limao. O) , 



, I' 



A poesia popuhir dos Açores, conpio a màiii genuína, 



I I 



• 1 



1) Bamanceiro geral, n.® 20. 

2) iftwi., n.^38. 
[3) Cantos do Arehipelago açotiana, n»^ 2T, p. 256^ e 28, 

p. 268. . ' i< 



4t EPOPÊAS í])A\BÀÇaÂi IfOSÁBABB 

que celebrava a primavera e'« 'vidada((BátiH)ijta;.N«á 
tradições irlandezas, n'esta festa da primavera o he- 
roe 0'Donogline que ouIrWa "faavia reinadb sobre a 
terra, subia ao céo, n^o^ta^Q Qn^.iim oavdjlo branco, 
cercado de elfs. (1) Na |x»60ia popotar do Alghrve, prin* 
cipalmente em Tavira, a noite de Sam JoSo é embel- 
kaada'/Cãm a crença. da" âppaoriçftb de moar Aloura en- 
cantada. Aqui está o resifekftdo -da isdiíiMiifiiatarabe sd^ 
bre 08 costumes godos. Quando Marcos de Obregon des- 
creve o seu captiveiro em Argel, conta tànibem as fes- 
tas a que ali assistiu, pcilâ noite de Sai^i Joãei. (2) 

A segunda grande festas dos gormanoo^ seandinavos 
e gaulezes variava do solsticio de inverno ao mez de 
Eevereiroí^ e aoi cbatbava' JbieZj» a tqfue ô» cathoUoisnié cha- 
mou Noel, apropriandoHii para o nasoiíiwiito.dè^ObristD. 
Nas linguas septemtrionaes, como diz Maury, jatd ain- 
da hoje significa a festa do NaAal^f m; tostado Jui os 
germanos vestiam-se e vagtreavani tesfifiâtòs' com pelles 
de feras, e immolavam um porco a Freiyai de^a das cea- 
ras. Na sua origem, estas festas ^txúJáaúxsáé tinham um 
caracter meio sério Tím9' gi«Qte9CQ, 4a qual se aprovei- 
tou a egreja na FestHe dos D{aeúnoÉÁ29r áe Dezembro, 
e na Festa dos Tolos a 1 ou 6 de Janeiro. (3) Nos cos- 
twncfiípopuJariiBi fovU^gfsw^Ofi a maitmçaídófl pi^r^s é 
ainda pelo Natal, e n'um romance açoriano é em uma 



(1^ Maury, Fées, p. 58. 
3) Maury, ib. p. 58. 



i 



OÂPrraiiO II M 

ftoite âd Métad que um eâvdlcivo lhe um mêinin» «tit^ 
cidwleflc eis o eòHMQO 4ob rotUMieeá de Júã&9inh9 
hamio, % ie Fh^ttê 4 ¥êiUo$^ 



JoftMsnèo £in joipftr 

anbou cem do'bra8 de ouro 
Marcadas e por marcar. 

Mato^ xm p«dr9 de vw^ 
xteveéildo no altar, 

QOi» ^etavuin |iar9>p^Ar ; 
E furtou sete castillos 
ftMoi ^ pasu otaâ* (1) 



Na Tcirfilo de fóbcAm de AMMf «e •reptffee : 



OMandiM Flores e bentos 

Deshonrou sete donzellas 
ToAâs d^ Mii|[oe leai ! 
AxTAepa sete cidades 
Que o pae tinha p'ra lhes dar. 
.]if«l»i] ««is paáfes âe mCssii 
Revestidos vco altar I 
Jogou cem dobrões de ouro 
M ercaitos «e «por tnatt^ar . . . (Ô) 



Nae iraâiçSes poetieas dm pores do norte, 6 «a noi- 
te do Natal 'que ee dá a caça de Odin, denominaçSo que 
na Snecia tênvi a tradíçAo da festa nocttima dos espi- 
ritos qne se ajuntam iras clareiras das florestas; d^es- 



fl) Cantos do ArchipelagOf n.^ 17, p. 230. 
2) Ibid., n.» 18. 

i 



50 EPOPÊAS DÂ RAÇA, M0SÂRA6E 

ta õrença se ori^naram as Ilidas genuanidas da. Ca- 
çador elemo. do Caçador selvagem^ do Caçador nòetur- 
no do Riesenzebirge, e do GrtindeH^açadoir da fiores- 
ta de Fontainebleau. (1) Quem não vê no começo do 
romance de Joãosmho o Banido, oano de Flores e 
Ventos, este mesmo vestígio da crença que deu corpo á 
lenda do Caçador feroz?- 

Apezar do culto de Odin ter sido vtqleíitígfnente aba- 
fado por Carlos Magno e pelos concilioscathòlicos, o po- 
vo conservou sempre veôtigiôs das suas impressões pri- 
mitivas. As festas com que a raça germânica celebra- 
va* a primavera tornaram-se sob o christianismo as 
Maias. 'Ssk Itália permatieceram os {jo^burdos, e aí se 
encontra os Maggi, ou cantos de Maio, com que o po- 
vo italiano vae saudar os seus protectores .com ramilhe- 
tes; esta identidade provém do mesmo sangu^e germano. 
A significação das maias ou giestas postas a cada por- 
ta, segundo a explicação popular, é uma lembrança 
dos signaes que se pusieram pelo eaminho para que a 
Senhora se não perdesse na sua fugida para o Egypto. 
No Accordam da Camará de Lisboa, do tempo de I )oni 
João I, prohibe-se o cantarem-se as maias, como cos- 
tume gentilico : « Outrosim estabelecem que d^aqui em 
diante, n'esta cidade e em seu termo, não S0 caãtem 
janeiras, nem maias, nem a outro nenhum mez do 
anno, nem se lance cal ás portas sob titulo de.janei- 



(1) Alfred Maury, Fées, ib. 



GAFITULO II 61 

ro« > (1) O erudito ^Atiquarioi Joio Pedjro Ribeiro, diz 
qae ainda no .aono de 1895 yiu fec^ejai;' na cidade do 
Porto as Janeiras, e no primeiro^ de Kaio enramar as 
janellas com giesta amarella, e q^e na^ aldeias nSo se 
£dlAa ao eosl^iuDe immemorial.deaQ pôr nas cortes je nos 
linliaetf* (2) H^os romances populares da Peninsula» é 
frequente assignar^se epta época para determinar a ac- 
çSo. Nos Romances iief Dam Duardoa.e FUrida, vem: 

Era .pelo niez de Abril, 
Dé Mato antes um dia ... (3) 
• Qqaodo Ijnios o rosas 
Mostram roais sua alegria ; 
Era a noite mais serena 
Que faesr no oeo podia. (H) 

Nos Romanceiros hespanhoes^ e na antiga poesia 
franceza^ é vulgar o referír-se. esta época, que Du Mé- 
ril julga ter devida 4 tradiçSo orien^* (5) . 

Em uma i^elaçSo que desoreve^ as Maias em Beja, 
encontramos; teste brinquedo no mez de jy^aio,. impe- 
de a itiuitM. pessoa9 de sairem ao dqmingo ou dia sai^- 
to de tarde, em alguma» partes. Aqui juntam-w, as 
críanfa» de ambos os sexos, especialmente do feoiini- 
no, enfeitam uma rapariguinha mais pequ«oa, vestida 



(1) José Soares da Silvd^ Memoria* de JX João L t. iv, p. 
359, n.<> 37. 

(2^ Reflexões históricas, Part. i, n.® 11, p.'26, noL a. 

(3) Cantos do ArchipekLgo, n.*^ 56. 

(4) Ibid., n.» 57. 

(5; Vid. o desenvolvimento d'ettte ponto nos Cantos do Ar- 
chipelago açoriano, nota 56 e 57, p. 449. 



te EPOPÊÂS b ttAiçll líOSARABB 

áéséfútktii-iiá è6k teâia t^dc^itíià^ q«ké t^^Uoòá» s^bfè 
túnfá inè^á e^àímélitéi!»thkAá, é àéixJAíh mèeriáii á po- 
Ijfè pis<|tl6íiá tdâft a Uú-Ae^ 6th ^jUkihtb qiiè bUt^oM ^eâftti- 
dá^sein tbàót Úá ÍaHA\ cántlÉttti «6Cém46 'áduféii> í«^ 
^tié Al^èái páhsá/ll^^htà-ôè «k^MlIb diíustíiA á«*<t1A^to. 
iks tB ítt^kH^ii, è á^aii^lli^tò \Mid« Uà^lhof podèfii Adi- 
tá!r ks tiilb)i^, fázètti M ^ftl&àdà q«tè é[ttèíx^ «^ qai«^ 
vêr livre d^ella tem de ir prevenido com alguns cobres 
para lh'o8 distribuir; muitas vezes ainíla .#e nSo está 
livre de um grupo^ já dois e tree aadaitai pledindo para 
a Maia, e nSo desistem da persèguíç^ em quanto os 
nSo satisfazem com àlguiiltt co«Ba«» (1) 

cÁo romper da aurora do primeiro de Maio^ vSo os 
li^ábltaàt^ Ae V^^díil pentàtàr nftft ^««itàsd^ê cur- 

fkòB âbs bóis, ^imptím)^, ruté^m, é(^«> mm^^mt- 

valho, tojo ^ oú#06 àrbufittòà; â Èak de obstftl*elâ boís^B- 
tí-áj^á ^è ^titè méz edâttt»áa íkteit m^ g^tob.  este 
Yi^bManiiâ, ^t tíkò i »ó tMadb tti^éáa íir^gueK^ Mftd ^«re 
% tSointtititíi àM«^ft6mâittt«<«ékriKé dapttMmciibj^dldÉníSMfti 
afrtídi- 'b tfádó.^B (2) 

D(B LkgéB «è «6ttta ft seg^âitttfe tradi^So: dBrft ^tm- 
túiné n-èítà 'tí^àde C^tlijfttk' o iA*iikt«íii^ dè Maio em que 
ia toda a gente da terra, e na frente montado no nie- 
IkiM* òi^aHo> 4ím tapaasote adof^mdò de nfuitals flores e 



(1) Apud., jDtcc. dé<^hórò]^.,^\í. A, >áèA]tàeíàeíy t. i, 
p. 129. Esta obra ofto tem crítica nem vel-ltcfdádé^mfts^ curío- 
Vfli ttn ^attè etbtiotakbbicsi. . 

(2) J. A. d'Alin&!llà, Dióc. dê {M^bgft'., t; iu, p.t99. 



QAP|çps.a n » 

deu porém um anno que o rapazinho, ao passar a pirpt 
císbBo junto a uma das portas da cidade, metteu espo- 
ras á cavalgadura, deu á» d» viUa^ii^O; pela estrada 
fora, e ainda hoje e^p^PAPi pPr ^h fím l^os, onde se 
nSo fida no mes de Maio, mas skn bo mez que hade 
nr.3 (1) 

Em fim as supersticSes germânicas ressaltam a ca- 
da PA9P9 fts^ poUftii^ popttUr p^^usv^ei^ J^ eppiu^as 

Qsl»rain quaf» a^w^t^ i 9<Hnlbff f^ 4? W4 ff ^^rvt4h9 í ^^ í^^- 
8ia germânica é debaixo do carvcMo gigante de Yg- 
gdrasill, ao pé da font^ de Urda ^^%mnpmes estSo li- 
gados pelo encantan^njto. No romai^ce hespanhol da 
Infanta de França, çitanie também A mrvalho como o 
sitio em que a princeza está encantada: 

^mmara-ee a un roble . 
Por esperar cotnpafila. ' ' 



A.uni whk 
41to e^ à inar^vill^a^ 
%n nna rá&a mais alta 

«fltor ons JUt&BtíiSA» (3) 



Àl ni^ die ppoB altos robles 
Tioo un caballerô estará 
Amado .Aè nnaiiãriosA 
Sin estoque ni pufifde. (3) 

■ ' 

(1) J. A. d^AlmeidíuJWpÇM». WnHI^f ffc ÇhrQgTet ♦• %p- *• 

(2) Ochôa, Teêor0r4e Ipf JJwWWWW» 9* .7f 

(3) Id. ib., p. 14. 



54 EP0PÊÂ8 tíA ItÀÇA MOSARABK 

Nós romances açamiios àúCaçaãôr e é Bmz^iit, 
d& Pilha do Rei de França, é Dam^HãénbanUidayhh 
ludè-se ao carvalho de YggdrasiU apenas |)Qla flua gran^ 
dezá: , ■ 



1 1 



Se seiktuia: a, deicançar 

Qe tflo cançado que ia ; 
Debaixo de um arvoredo 
Bev^ o^o de françaria*. 
Levantou olhos pr'a cima, 
Viu estar uma donzilla. (1) 

Na versão oral da CovilhS nSo se alkide á granjlc»^ 
zá da àrVòré, niás á remíiíisceneia dai fonte de Urda: 

Deitou úB olhos ao largo - : > 

• . Viu lá çstar uma doozijfay .,.. 
Penteando o seu catellò 
'lSittítantan^deagtíafriui{2) 

Isto comprehende-se, se nos lembrar-mos que era 
na Beira Baixa aonde se propa^gou mais a raça dos mo- 
sarabes. Esta mesma lenda e:fciste contada no Nobiliá- 
rio, sendo passada coiíi o oavalletro«DèrorDiogo Lopes. 
Nos Foraes portuguézes também sé encontra com fre- 
quência apontado como lo^ar do tribunal, debaixo dos 
carvalhos que estSo á porta da egreja. (3) Aqui vemos o 
mesmo génio germânico s^ revelar-sè fatalmente na poe- 
sia e no direito. Â lenda do Nobiliário colloca a don- 

'.'II. , * 

[1^ Cantos do ArchipdagOy n.® 3, p. 188. 

S Romanc^i^o gerUl\ d. •^10, p. '56* 
[3) Hist, do DÍi'éU& portuffuez, p, f^, \ . , 



CAPITULO II 66 

zella encantatiUi «ébro uáia pedra^ o qpe é devido á pro- 
ximidade da ^reaça dos menhir», e malhons, de qae Vi- 
t^bo.fiuB menção. 

Em ViUa Nova de Fqscôa, qttando se fasem preces 
a Nossa Senhora para vir chuva, e ella iiSo cáe, «jun- 
tam«8e nove donxelks, queé essencial se chamem Ma- 
rias, vSo em procissfto a distancia <de melo quarto de 
legoa, a uín mtio chamado Lameiro dè Àzmhaiej e ali 
ydtam debfiixo para cima uma gramde pia de pedra, 
que pesará trinta arrobas, se nilo mais, regressando 
depois pa#a casa á espera de chuva.» (1) Que sSo as 
diversas Fónti^s milagrosa» e Áffuoã SanUnê, que temos 
pelo reino, se não um re$lo da tradiçXo germânica da 
fonte de JJrdaf (*) 

Da Yilla de AJearrede, diz o auotor do Diccioncí^ 
rio ahreviado de ChorograpRia de Portugal: «Entre o 
estinoto convento d'esia villa e a fre^esia da Mendi- 



(1) Júmeida, Diec*y t. m, p. 229. 



Sobre a crença popular dos carvalhos, e das Fontes san- 
tas, se encontram bastantes vestigios da tradição aproveitados 
pelos agioj^raphOB. Falando da pussagem de 8. ' IVancisca de As-' 
8Í8 ea». Por^iigalj difc o auctov ^^.Paraist^ fSeraphicp ; c ... eptrou 
no nosso Reynode Portugal ; e junto á cidade da Ôuarda, exis- 
te sirida úm carvalhOySiXsvtjii sotnsbrá esteve o Santo descauçan- 
do na hoi;a 4s se^ta. Eata arvore que sempre M tida em vene^ 
ração pelo povo f estába poucos annos iuçluida com o. seu ter- 
ritoriD dentro dos mtlroâ da cêtcti do' nosso convetíto ; e não 
longe da mesma arvore se desciibriu jima fonte $fi,ila^rosa,K Pa* 
raizo Seraph,, por Frei Jofto Baptista de Santo António, Part. 
II, liv. 3. cap. 12, p. 249. Também se lê : cDe Guimarftes pas- 
sou o santo á cidade de Braga ; e faasendo eaminhô por Ponte 
de Lima, d*(iÁde b«béi] áe uma fonte qúé hoje èé ohamia a Fon- 
te de 8am Francisco . . . . » 



M EPOPÊAS I^A BAÇA. MOSARAfiE 

gBs^ há 4ÉÉ IdgAr ^^ B<3F<)b*ma iiiitK» Cabs^^ onde ha 
uin «úMT<i2io> iMV pé do qií«iy <}iio podwá te£ trtoâ piL' 
moB de altuca, abriu-se uma espécie de <)(»(¥« on grade» 
heM^l onobchso oAa d9 agaapttvial^ e tt^eUnâé eokÉser- 
varja enk giiuadi quanÉídflde: por tiQ4o> o aitío,.aa iiB<^ 
fiMÉs ««liUdà fÊÍH^ê iiabUantea dai fragiiteliiat viaiabasy 
pára dí'«Ua iaaeMte liio eúA diffietaot^s ocoasiSn». Di« 
tem ellés ^|ite bebida 'iio>Te diiis 9k&á é ranadio iiaáaUi*^ 
yri oopMt aôf 5«lB .^ lyiaixas d« «isWmago^ %aa é axtftiK 
IclAta para tintita» 4 . é tasabem b^ pavul eutaif brusa^ 
ría^ « ainda iqelbor paila saiatat o piotiiQ das* ikvm bor^ 
rifiwdota» aam élia «ko 9abbado sattto. PdM nafa^í^^ 
UioaaB viffi^dea cU agua é aj^ftelidadOi G€krv0Íb^ êUnn 
to.9 (1) N'este facto colhido por um 4ijUct(N^ <irtdillO| la** 
moa \mú prova 4a aupevâfiçSo garaMíikfa ãO> ^duitfdho 
Ygffdí^á9ÍU « da fottte de Urdak ' • \ 

«Na fregaaais» de Bã^ tíu Qaa^; ha vm ^^orvaiha 
vetustissimo denominado de Barbosa, cujo tronco car- 
comido mede quarenta j^lnioadeciyeâknferemtiUyiôndo 

VLiSia úÁyídá&Q étíi qué cabem otito ou d&a ^e»»oas. 
Oon«ta> ^1^ uÉi século pouco mais. oiu m^enoB» estava 
«oillbiMâ h^^^ft e;iíviàátie Mmá íúèta áé ptAvkt^m aaM- 
s(9ntQs epnvaiiiiantesi^ OQde jcigavam os «enbxxres.ja Hon- 
fk éh Beí^Éit\ d^tti sríAKk o di^er^e^ ali íK^&aiam 
as audiec^íaa*^» (2) £ste costume juridieo elxisí^b eka 

' ' , • • ' ". 

.1 ' ' • 

a> %^ »#♦» ^ i> »• »* .! 

p. 4. ..,'., 



A iraflUfSi»^ ám Mmriam encai^iida» é um éqiiv^oco 
{MPoduidúi uft m^nte do poro pela múãSogm odm mákra 
e iaatir> %Htt»íBS8 Ungotm do Bortd àuàg^aò espirito in^ 
cubo; pela palavra ae filia a tmdiftii Sbuúí 4e aúuúíi 
liar com a ideia dos thesouroa enterrados^ thema funda- 
mental sobre que laboram as epojpêas germânicas. Em 
geral na tradição portuguesa^ áa nunwrciê «ncantadas é 
que guardavam os theêouros. Maia tan fhefo em que se 
mostra a influencia da convivência com os árabes so- 
bre o génio gothico. No tempo de Dom Jofto i, em 
1108 fú aatabeleomi) cNSo-.s^ nenhum lio 'qusíhdo^ 
que {poiT bvâear iOttftt> ^ poala.aii eulro 'bainta^ laiHiC| ttá^f 
rm^ rteuk &$& cino^aem vc^a em eep^ho^mij^ <kitBas> 
partniOfi(l)Jir|aaCWnsttlttif8e»doBifi^adè>id6 Evofaaf^) 
paéeo»-€gtia| jliofaibiçSo =oe»thlt aÉtetiina éofoivo^te 
GKl^ioeBtp) dele: . . l ;. 



i: «•'» « 



1 • 



• / • 



Íii tenho m^itpn tbwpuros , 
ue Iné poderáo ser dados, 
*i MÍMffieiítatti éOMtrêèfm •• :i * ' > 

. ^ W$^ 4o tBippo doswíwraíu. ..... 

D elieíB do tempo fiassado. (2Í) 

O' 'drá^ que guardava os tíiedottròs taii épo^i^ 
SeHMttftas, ok)/bo ^afi&fr, tMMbeb a)^«l)ret6é-iko toniiitt^^ 
ce oral da ilha de Sam Jorge : 

A teft;eil:a.gtMitÍft w$ ^ *' ' 

Uma Içôa ^rid*. <3) ' " 

' ■■■ . • I . "A 

(2V Ga Vicente, 06ra#, t. u, p. 489. v i a » ; v • 
(â) ItUroducçâo á HiHoria da Litteratwra portuguesa^ p. 78. 



€8: EPOPÊAS DÁ RAÇA MOSARABB 



' " Ncy.Diraito ooriMOstudiíiwioportugóeB ^bondain os 
vestigioB^o ftjmbolkmo germanieo. (1) Na. eançSo da 
Engêítá^a, àoàíígmcvey vem o sjfmbolageniiiinioawii' 
ficado? cebi «8 tradiçSes do oriente: 



Kfto conheço pae nem mãe, 
' - <Neili n*)e«tà terra parentes; 

Neta das aguas correntes, (2) 



4 .i: 



!'! i :!'■♦, ' <:•••>.•,.•. .. •> 



•i A' pobre fiiha das épvae tem a mesmá/oeadição oi- 
vihque*jQiftíu>>:da floreHa- e o champi no direito íran* 
ee0J^:Adoptavainnii'« as aguas c&atv&nibeB^ coavô as orian^ 
çifpi: aiMuidodadéa ^8 inargenp .dos rios/qae depok fo-. 
Dam Moysép'^ Bomnioi iO- ^eniooríentali pela ceiíabi* 
tacão do árabe com o godo, apparece de>longe em''lòi>- 
ge nas nossas tradições populares: adoptava-se uma 
criança fazendo uáia libação dé agua á^uelle que nSo 
tem filhos. (3) O noinedamSede Romulff, ília ouRhea, 
significa conjunçtamentepef^^7vam^m^^jper valles si- 
nttantur; Porphirion, commentando Horácio, fala do 
oftfi^pai^i^to, de, ília com o rio Til^re, aonde. fôrf^jpr^pi- 
t^» (4) 41ÍA} A.m2e.|io a\)^donado BumulO|. sigo^^ 



.• ' ■ 



^1^ Hist, do Direito portugyez,. cap. ;^i.. / 
1.2) Cancioneiro popuU^r, p, 147. . i 

[3) Leis de Manu, p. 342, § 168. Trad. de Loiseleur des 
Longctiamps. 1863. 

(4) Da Meril, Foesieé^papukdres UUnMiloMlèrimrk aé XII 
sikele, p. 6, not. 2 e 3. ^ - •....• .- / !:•) « i. 



CàPITOLO.lI ' : . 69: 

em ^go Jtoreêim. éSir êa agua e do hil> bcáçSo 
portagaeíza do seeuk) XTi^ que ugnifica ser panonte ou 
adherente. (1) No Romamce de Dona Axisenday Uaa^- 
bem ha tima- gravides' íttíiribuida a eerta erwi : 

A porta de Dona Asenda - 
Está uma ervafaéada^ 
Mulher que ponha a mfto uVlla 
Logo se 86nt^ pejada. (2) 

NavèpiSo dé Coimbra/ éhamada JUoAa Járama^em 
vez da er^ay a vii^liide^ostá-ita agua deiuna óerta fenfe: . 



A alâ)ad& da- Coimbra . j , » 

Tem nm^L fonte de agua clara,; 
As moças que bebem n*ella * ' 
Logo se vêem pejadas. (3) 



O mesmo symbolismo se encontra nos Romanceiros 
hespanhoes ; no romance anonymo de Tristam de Leo- 

La cama bafian en agua: 
' ' ' Ali nâcè ^kí aVbolè* ' — 
,''^^ Que «wi40cw> a^ llamabaj . • ,< f 
' •, ; Cualquier muger que la come 
''''' * Luego sesetiteprôliaâa. * ^ 
Cemiola la reina Iseo 
, 'P<M?^,la sua de84ita mala. (4) 






t ' 



. . \ 






fl) 'J<if^ FeTreira(,>£^ro«ma, aoti ii, ai^iu^ p,>9S, 

Í2) Garrett, Botiumceiro, t. ii, p. 172. . 

r3^ Bamanceiro gieralj n. 33, p. 87. 

(4) Ochoa, 1\9orò-dt'^^thMmcer&9f p.- l<â. - 



66 EPOPÊÂS hâ baça mosarabb 

A ílôr.áa açuemuif eiáolbidA pam p^soiMfifSfr ,% 
emfaSaâadfL, denota «inflttfaíQmartJM^ i4TÍY^f^^Uk 
pabrra de ãàsumná. Em iiin.nimiM|c?[4a8^Ap^JM 
também Tem eaA^.meamo lymbolillQlQ jq»y9l»fiÍ«iB9; . 

Uaj uoa yaiftii ea ol Ofiippo - 
Que 86 llama k l^MPJH» 
Toda mujer qne U pm 
Luego 86 8?S)tc preiMi^^ (1) 

O roroZZâ iriítoaú da O^Domgbhâ, dés IméiçSarpo- 
putapeb da Irlanda, é o meamoem: ^ve «ppiur^oe SaiK& 
Thiago vencendo os Mouros, como em Clavijo, e em 
que o Cruzado partia para a gueite^ oMio no romance 
da Bella Infanta: 



Levava cavaUo branco, 
ÇaoíOfLo irçípco feyava. 



A superstição germânica de Nothehendi, ou ^;%qaip^ 
invulnerável, tecida em uma só noite, acha-se condem- 
nada no Canon Lxxv «le S. Martinho de Bra^a, e na Con- 
stituição do Bispado de $}viQr4» qU9 probibe este rito 
aos Feiticeiros, benzedores e agomvíros. ^9) Quem tra- 
zia a camisa de soccorrp (^) pQACa podia 's^r ferido na 

'1^ Daran, Bomanceró generàt^ t. n, p. 6M, 2.* ediçfto. 
|2) Historia do Direito portuguez, cap. iv, p. 52. 
[3} lÉto íPMmadd AleMmdfiej e^t* «8^ vem á di^Miipçip da 
camisa de êoccorro : • * • . * 

DicroBlfe doi bootedM por bl«& U acater, 
Qulqnler qae U vefttfltte Aimm siempre leal» ete. 



it)MMcèf Aá ^dtisèHa qtkfe vàè <e«i vee de msafM à gaer- 
Ytj <)WllQi4o te "té i^íí^se^dA p6lo filho db 0É(iitl5 que 
BQftpÃitoèef ^Iti liitia rAfMing^ « {«im «tptriuentiid^ 
coti^rída^ii para i\yttiúfem jnvitot, é ecde «nearilo que a 



Tenho feito jutamento 
ETspero de o nfto aaebrar, 
EmquaDto eu andar na gutlttá 
As ceronlafl náo tiran (1) 



No romance do Comde da ÂUemanhm ha um terrí- 
vel juramento feito |)6lá1& tnattgab da tMiisa: 



Mangas da minha camiBd: 
Náo as chegue eu a romper, 
8e meu pae vier p'ra casa 
8e lh*o eo nfto ftt dizer. (^) 

No Romance de Syltiàend, a ^Mntézá diz ao pae, 
que a provoca: 

If as déAtMMr-mk ir a fudaicio 

Vestir foptra comUa, ; . 

Que eRia que tenho no corpo 
^eecàdo têBbò o faria. 

Um outro symbolismo germânico se encontra nos 
roMiiiotfg p<s|>«ia»» 1)e«p{i)tihoe», e 06'tbelitro ^rtttguez 

(1^ Eomanceiro gtral^ n.* 4, p. Vt. 

(2) Cantos do Archipdago, n,^ l^ pi 208. 



68 EPOPÊAS. DA. :B;AÇ4r MOSARABE 

edm.refoçSo i fiettldn da cami^ i(30rtiMda. 1)1^ amajei 
angiof^«usf)]iia: tSeumamulhei? ou rapariga .fôr^^kçb^da 
em dèslwiéstidadie^ qve a$-e)uae fraldas lhe. fiiq^ia cor- 
tádatteuttifqâa, á altura daeiata^ e qu^iíeji^ fuatígada c 
umudada emboi» no mçía do9 apupos do ^YPf^ (í) O 
mesmo se encontra em uma lei de Galles, citad^.por 
Jacob Grimm. No Romanceiro do Cid, Ximena vae 
queixar-se ao rei do ajSBassitio de seu pae, e do mal 
que jurara fazer-lbe: 

Yo te cortará las faJtdas 
Por vergoyizoso lugar, 
' For cima de láS rodiUàs, 

Un paluiQ y inupUo n^s. (2) 

Em outro romance: 



• I 



— Envioso-lo á decir 
Eiivio-ti)e á nienazar, 
Que me cortara mis háldas 
Por vergpnKoso lag^r^ (3) 



;i'' 



Em Jorge Ferreira de Vasconcellos, que recolheu 
todas as locuções populares do seoalo XYI nas suas co- 
medias, também vem o mesmo symbolo germânico : te 
se não bastar isto, cortar^o8*hei dê fraldas pelos gio- 
Ihos, e lançar- vos-hei a avor.» (4) A maneira das epo- 



(1^ Micbelet, Origines d^ DraUfrançaie, p. i389i ^386* 
(2^ Ocboa, Tesoro de los Bomanceros, p. 105. 
(3^ Id., ibid.^p. 131. ♦ . • '. ,: 

(4j UllyêsipOy flí 47. . ^ 



CAPITULO II 68 

pêa» firaBces&A8y' creadfts pele génio gtâlo4naplkDy ae xMMh 
sas e{iQf>êaft mosarabea ereadaa pdb génio gothiooHacar 
be^ appresentáiii nm quaãió ooniplelchdo ajuibolièioo 
gennaniod;' antes porém deentrlirjxioen'e«ietQaqApt) axr 
plendidfi^ljpeda. profundidade doa &cto8| terimnemolB^ a 
exposi^ ^aa superetíçSes g<^tbioa«. q^ae aiodA ceoserva 
o nossa poVfo. O LoUthomem, è o homem lo^yaWwr^ 
i «Tttf.geRáaniceí; 'eâs a sua desciipçSio: «a.evíiKkmiQÍa 
dos lóbishomena é popularmente aoraditadar^bKffiam 
Miguel (Açores). O ultimo filho de uma serie nSo inter- 
rompida de sete varSes machod dò mèàmo ventre é 
lobishomem. Nâo ha modo de illudir ease fadário que 
espera o recem-nascido senão impondo-lh^ no baptismo 
o nome de Bento, e dando-Ihe por padriqho seu irmSo 
mais velho, o primeiro dos taes sete successivos. Á natu- 
reza do hbíêhomem-é horrivelmente «oibre^natujsah Em 
noites e horas fataes um poder magico o obriga a diva- 
gar pelos legares ptiblieos, aljé encoi^tràr, qualquer ani- 
mal quadrúpede em que logo se metamorphosêa, passan- 
do a accommetter sob esta fórlha, a ^ueity acerta de en- 
contrar no caminho* £ de taes bixos,. dizem que não é 
fácil descartar-nos sem lhes fazer sangue, com o que recu- 
peram stibiljameBte a pntibeil-a naturem husMmaii^ (1) 
Esta . snperçtiçfto é de origem scandiiaavo-tetttoliica; 
deu-lhe talves naficimento a antiga i^enaUdAde yheroiea 
do banido^ comparado nos códigos bárbaros ao lobo no- 
cturno, wargus. Na Lei Ripuaria se lê : « Wargus sit, 

I (1) Almanach do Archipelaga úçoricmoy para 1868, p. ^1. 

í 
I I 

! 

I i 



U EPOPÊAS' Dâ UAÇÂ mos árabe 

kot ««t, okpokitik» (1) Doe icòMamêtUj a^joe^tmiberp 
W'fraii(ièasQ8'ehaitiâ!m lomp^arou, seumooi^a jcatia de- 
«ori{iç&>:n.ft8 0^6 JmpmoÍMic «Vimos fireq«eii|li9aieQte 
^m '^i^gifttelra; pelas JuiiaçSes^ nii^lafam^Be homens em 
ioÍ0e>'aíqiiftlicaita 4è homens diamÃm4»8 (Salled â^eraí- 
y\»9-; oevAíiglaft porém lhas ehatnam Welr^-whif; pfer 
^•n Ingleá >flk trarAo^ e «90// labo<*> ((Q)'No Semanee 
«nonjwfvda Lcmumd&de Lago rem um ^vestípa doaste 
STfiàbolnmò do aorte: ' ^ 



f *• í 



Três hij[ne}o0, que 00 más;. 
' For eabjd qoe hubo â*^le« 
' . ' Todoa ló^Uos bf ha; ,. 

ÉI uno se túmó /derpo, 
' mdtto^seiòtné ean. ' 

>' A amaoto die' Lanzarote pede ao ««viaUeiíÀ. 



--^,y fH^ 4iÁflelc^e de AjiaâQM 
4 <{weí ciervo dei pie blanco. 

,, I^<9pf^oB,«40gradi> . ,. 
Si supiesse yo las tierra^s 
• B^onde e! úíerv^ èra criada. » • 



I ^ 



' 1 



Lanaar^íte 4da*^lga pcíla flopeeta para acanhar o. 

^ irattíyo, 'ettiO' «neozAraa^ nm ermilSo pergunta por 
elle. Â tíeèpèi^a do «cílí^ario era medonha': ^ 



< í\ 



(1) Tit. 87. 



[2) De occuHs apertis post peccatum. Apud Leibnitz, He- 



CAPITULO II 66 

Por aqui paaBÓ esta noche 
Dos horas antes dei dia, 
Siete leonês com el 

Y una leoa parida, 

Siete condes deja muertos. 

Y muclia caballería. (1) 

A crença nas Fadas, desenvolvida peias tradiçSes 
bretãs, já tinha entre nós por demento fandamental 
a fatalidade germânica. No Cancioneiro ^eroZ de 1516, 
diz Affonso Valente: <As fadas que me fiEtdaram^» etc. 
e nos cantos popnlaros da Infantina: 

SetefadcLs me fadaram 
Nos braços de uma mfte minha, 
Qae estivesse aqui sete annos, 
Sete annos e um dia. 
Hontem se encerraram annos, 
Hoje se acaba o dia. (2) 

Um auctor anonymo do século xiv, citado por Le- 
ronx de Lincy, na introducçSo ao livro das Legendas, 
define Bafadas d'este modo: «Meu filho, as/acíoseram 
entes destinados e feitos uns para bem, outros para 
mal, segundo o curso do céo ou da natureza. Assim, 
se um nascesse em tal hora eu em tal curso, estava 
destinado que seria enforcado ou afisigado, ou que de- 
sposaria uma tal dama, ou taes destinos, por isto se lhes 
chsLm&ya, fadas, cá fada, segundo o latim, vale tanto co- 
mo destinado, fatatrices voeabantur, » (3) Nas epopêas 



fi 



1) Teaoro de loa Bomanceros, p. 11. 

Cantos do Archiptlago, n.° 1, p. 183. 
(3) Apnd Maury, Fées, p. 24. 

o 



66 EPOPÊAS DA RAÇA M0SARA6E 

do norte, Sigurd foi fadado para viver uma vida breve 
mas cheia de gloria. É esta fatalidade a côr predomi- 
nante da poesia do povo, a inspiração de todas as can- 
tigas; ainda hoje a phrase tinha de ser, é ao mesmo 
tempo a sua consolação, a consolação de quem se re- 
signa e cumpre. 

A adivinhação por varas é também de origem ger- 
mânica. Diz Tácito: «Os Germanos consultam a sorte 
por meio de pequenos ramos de arvore, sobre os quaes 
se gravam certos signaes, e os lançam depois ao acaso 
sobre um panno branco. Tomam-se depoi» também ao 
acaso, por três vezes, em successão diversa, e a combi- 
nação dos signaes serve para formular o pressagio.» (1) 
Nas Constituições do Bispado de Évora se prohibe lan- 
çar avaras para achar haver, . . nem faça para adivi- 
nhar figuras ou imagens de metal nem de qualquer ou- 
tra cousa;» (2) Segundo a critica moderna, esses si- 
gnaes usados pelos germanos eram as Runas mysterio- 
sas do Norte, talvez as figuras prohibidas pela Consti- 
tuição episcopal de Évora. O Sabbath nocturno é uma 
das superstições germânicas conservadas nos povos mo- 
dernos. A deosa germânica Holda, personificação da 
lua, foi equiparada pelo catholicismo a Herodiades^ a 
que pediu a cabeça do Baptista; as vacaçoes das mu- 
lheres duravam n'este culto até ao cantar de gallo, e li- 
gavam-se ao conhecimento do Seidr ou arte de se trans- 



(1) Germ,, p. 60. 

(2) Const /, tit. 25. 



CAPITULO II 67 

formar em qualquer animal. Nas superstições açoria- 
nas, reminiscências dos antigos colonos do século xv^ 
as feiticeiras vão á índia em uma casca de ovo, e afun-» 
dam-se no mar se acontece cantar o gallo durante a 
viagem; os lobis-homens também se transformam no 
primeiro animal que lhes apparece, e só perdem o en- 
cantamento quando lhes fazem sangue. (l)Estacircum- 
stancia do sangue para quebrar o fadário, corresponde 
ao horror que entre os povos do norte produziu a arte do 
Seidr. As mulheres de virtude, que dominavam a na- 
tureza e sabiam os segredos da medicina, qualidade 
designada pelo nome de alruner, e também Volur e 
Spoknur, sSo as Entre-abertds das superstições do nos- 
so povo. Em uma Visita do Vigário Simão da Costa 
Rebello, na egreja de Sam Fedro de Ponta Delgada, 
em 30 de Março de 1696, se lê: «Ha n'esta ilha umas 
mulheres a que chamam entre-abertas^ que por arte dia- 
bólica affirmam que as almas vêm da outra vida a esta 
para atormentar os enfermos, sendo tudo o que dizem 
contra o que tem e ensina a egreja catholica nossa mãe, 
e como tal se castiga com grande rigor no tribunal de 
Santo OfBcio. » (2) Depois de explorar as superstições, 
em que brilha o pantheismo da alma germânica, resta- 
nos vêr o symbolismo do seu génio indo-europeu appa- 
recer vigoroso e fecundo nos romances populares de 
Portugal e Hespanha. 



(1) Almanach do Archipelago açoriano para 1868, p. 160. 

(2) Almanach do Archipelago, p. 609. 



M EPOPÊáS Dá raça MOSARABE 

Um phenomeno estupendo da grande verdade da 
poesia popular^ é essa idlusSo á classe dos Malados (1) 
ou godos-liges ou letes, que se encontra com frequência 
nos Romanceiros da Peninsula. Acima tratámos da ín- 
dole politica do malado; vejamos como a tradição go- 
thica anima a creaçSo épica. No mesmo romance da 
Infanta de França, em que ha uma reminiscência od 
carvalho de YggdrtuiU, se lê : 



En el médio dei oamino 
De amores la requeria. 
La nifia desque lo oyera 
Dijele com osadia ; 
— Tate, tate caballero, 
No hajaes tal villania, 
Hija soy de un malato 
Y de una malatia, 
El hombre que a mi Uegasse 
Malato se tomaria. (2) 



No poema de Berceo^ Vida de Sam Domingos de 
Silos, vem também esta palavra: 

Non uvo el malato mester otro padríno. 

Poder-se-hia considerar esta referencia aos mala-- 
tos casual, e sem consequência para a determinação do 
génio gothico dos Romanceiros^ se na poesia popular 



(1) Do árabe mowaUad, o que nasceu de um pae árabe e 
de uma mãe estrangeira. Engelmann, op. cit., p. 87. 

(2) Oclíôa, Tesoro de loa Bomanceros, p. 1. 



CAPITULO 11 W 

portttgaeza se não repetisse tantas vBaes, quer na Beira 
Baixa, como nas ilhas dos Açores. No romance da Fi- 
lha do Sei dê França ; 



NAo me leres por mulher, 

Nem mais pouco por amiga ; 

Leva-me por tua moça, 

Por tua escrava cativa, 

Que eu sou filha de um mcdatOy 

Da maior maZataria, 

Homem que a mim se chegassOi 

MaloJLo se tornaria. (1) 



O romance do Caçador e da Donzilla, fiinda-se 
n'este impossivel entre a classe serva e a nobreza; 
termina d'este modo original: 



Valha-te Deos, oh donzella, 
Valha-te Deos, douzilla ; 
Disseste que era mcUataj 
Tu és uma mana minha. 



Que eram os Mosarabes antes da invasSo mussal- 
mana senão o godo servo ou maiadot O povo vae re« 
petindo esta palavra, mas já não lhe liga sentido ; res- 
peita a tradição e transmitte-a. (2) 



(1) Cantos do Archipdago, n.® 1, p. 184 ; e pag. 187. 

(2) Sohre a natureza do Malado, vid. Cantos do Archipela- 
goy p. 399. Amador de los Rios considera MaUUo oomo leprozo! 
Hist. de la Litt, SffMm., t. vn, p. 445. Este homem nAo compre- 
hendeu o Romanoeifto da Península. 



70 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

O estado social do século xi e xii ainda se encon- 
tra reflectido nos nossos romances; a mulher casada 
trazia p cabello atado, a viuva usava de toitcaj e a 
solteira andava em cabello. Em Gonçalo de Berceo, 
na Vida de San Domingos de Silos, vem o symbolo 
das viuvas : 

LoB varones adelante, et apres las tocadas» (1) 

No romance de Dona Helena, a moribunda esposa 
deixa o filho recem-nascido a sua velha avó : 



Com as lagrimas dos olhos 
É que t*o hade lavar ; 
Com a coifa da cabeça 
É que t'o hade limpar. (2) 



O symbolo germânico do cabello atado, além de se 
achar em uma cantiga contemporânea da Ilha de Sam 
Jorge, (3) já apparece citado em uma canção proven- 
çalesca de Pêro Gonçalves de Porto-Carreiro, da col- 
lecçSo Vaticana, do século xiv : 



Por deus, coitada sigo, 
Pois noD ven meu amigo ; 
Pois non ven, que farei ? 
Meus cabelos comsigo 
Eu non os liarei. 



(l) Op. cit, V. 568: 

(2^ Cantos do Archipelago, n.® 16, p. 230. 

(3) Cantos do Archipelago, p. 387, e 388. 



CAPITULO II 71 



Pois no vem de Castela 
Non é viv* ai mesela 

el-rei 

Mais toucou da Castela 
Eu non vos tragerei. (1) 



O cabeUo solto e comprido, como signal de soltei- 
ra ou de donzella, encontra-ae no romance de Dom Va- 
rão: 



< Venham armas e cavallo, 
Quero ser filho varAo ; 
Quero ir vencer as guerras 
Entre França e Aragão. 
— Tendes o cabeUo grande, 
Filha, conhecer-vos-h&o. (2) 



Nas leis Saxonias a donzella chamava-se eapiUaía, 
ou filia in capiUo; (3) segundo uma Chronica de Ro- 
berto de Gloucester, os homens de baixa classe sBo fi* 
lhos dos Saxões, e isto explica a simultaneidade dó sym- 
bolo entre elles e o godo-lite. 

No Código Wisigothico, mistura dos Códigos bar' 
baros com o Código Theodosiano, inflige-se a pena do 
fogo contra a mulher livre que se abandonou a um «er- 



(1) Varhnagero, Catusioneirinho de trovcu anHga»^ p. l, 
canç. xvn. Communicaçfto de Adolpho Coelho. 
r2^ Cantoê do Archipelago, n.® 11, p. 212. 
(3) Historia do Direito portugue», p. 59. 



72 EPOPÊAS DA KAÇÂ MOSARABE 

vo; (1) nos romances pòpalarea acha-se este mesmo es- 
pirito : 

Oh Lizarda, oh Lisarda, 
O pae te manda queimar, 
cNfto se me dá que mo queimem, 
Que me tornem a queimar; 
Dá-se-me doeste meu ventre 
Que é de sangue reaJ, (2) 

Que se herdero tuviesse 
Que no huviesse de herdar 
Que a vos ya el Conde Claros 
VÍV08 08 haria quemar, (3) 

• 

Lizarda não se queixa da pena, mas sim da affron- 
ta de suppôrem que se corrompera com alguém a nSo 
ser da alta linhagem. Segundo uma lei dos Ditmarses, 
citada por Jacob Grimm, a rapariga que apparecesse 
grávida, podia aer enterrada yjva por conselho dos seus 
parentes; (4) em um romance hespanhot vem este me»* 
mo espirito : 



Que quien buena hija tíene 
Bico se debe llamar ; 
E el que mala la lenia 
Viva la puede enterrar (6) 



A pena infamante do direito germânico, de ir mon- 
tado em um jumento com a cara para traz, levando o 



1^ Cod. Wk., liv. m, tit. 2. cap. 2. 
2) Romanceira geral, n.* 31, 32, 33. 
r3) Ochôa, Tèsoro, p. 26. 
US Michelet, Origines^ p. 387. 
^5) Ochôa, Teeoro, p. 56. 



CAPITULO II 73 

rabo por freio^ que ja vimoa citada no Nobiliário, (1) 
apparece em um romance hespanhol da tradição orai * 

DeBciendole de una torre 
Cabalgando en bu rocin, 
La cola le dan por riendae 
Por nuu deàhonrado ir, 
Gien azotes dan ai Conde, 
E otroB tantos ai rozin. (2) 

Em outro romance hespanhol : 

Una cadena a sa caello 
Qae de hierro era el coílar; 
Ccbbalganle en una mula 
Por mas deshonra le dar. (3) 

O r<Mnance da Sylvardnka é um resto da poesia go- 
thica; em Gregório de Tours Tem uma lenda tenebro- 
sa^ análoga á que anda na tradição oral portugueza; 
conta die que Deuteria, mulher de Theodeberto^ rei de 
MetZy yendo sua filha chegar á edade núbil; e reoeian- 
do que o rei a quiflsesse gosar, meteu-a em uma carrua* 
gem puehada por touros furiosos e fel*a precipitar. Á 
lenda popular tem mais bondade; a mãe é implacável 
para a filha Silvana^ mas não a mata« Quando eDa es- 
tá fechada na torre, e lhe pede uma gota de agiia^ a 
mãe com toda a barbaridade feudal responde : 

— Guart'e tu d'af Aldina, 
Triste filha malfadada, 
Que ha sete annos, vae em outo, 
Que eu por ti sou malfadada. 

(1) Historia do Direito portuguez, p. 56. 

(2) OohÔA, *. p. 3. 

(3) Id. ib, p. 23. 



■Âm& das tra- 
em quanto 



nÈ^^% S lií^ttt 'SmCsIS f^ SUvana Be 






^«.««<l 



.^tfS/tA^B sua mKe que 
.^tt:nii!9^ em virtude 

•í|)!£til«r- (3) 



'^iJ»ft|i^kÇ}^^«li|l^6^j^>*'4i<mhsl meti 



I^^g^M^de sobe á fb- 

^ '^S^ínini, a eapada 

eJKe^is quando su- 

iM^tl^o nome de es- 

^^B^D deitado com 




t«'flil 







. JJ. ^.•"•*- ^. «jj. «JJ. .^. 




76 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

encantamento; a leoa é o mesmo que o loba Fafnir ; os 
dois irmãos que ella tem são Hagen e Gutorm, innloa 
de Gudrune; por quem Brunhilde foi abandonada. O 
valor marcial da Donzella qtte voe á guerra é também 
uma tradição das Walkiries^ como Brunhilde. O sym- 
bolo germânico da ahjuratio terrm forma a acção de 
romance insulano D&na Maria. (1) Ás armas tempe- 
radas no sangue de um dragão^ como na poesia scan* 
dinava^ vem citadas no romaoíce hespanhol do Infante 
Vengador: 



Siete veces fae templado 

En la sangre de un dragoo. (2) 



Que é o romance do Bico Franco senão o retrato 
de um Barão da baixa edade media, senhor absoluto no 
seu castello roqueiro, gosando com toda a bestialida- 
de indomável àomaritagiof Quando o povo da Penín- 
sula deu forma poética ás suas tradições, já este typo 
feudal estava mais humaniaado. O juramento pela bar- 
ba é também frequente nos romances populares. Diz 
Michelet : «O juramento pela barba, ou tocando a bar- 
ba não se encontra nas leis, mas sim muitas veses noa 
poemas, principalmente nos do cyclo carlingiano.» (3) 



(1) Cantos do Ârckipelago, n.o 43, p. 435. 

(2) Ochoa, TesorOy p. 6. 

(3) Origineê, p. 334. 



CAPITULO II 77 

Quando o Marquez de Màntua vê sen sobríiilio morto, 
ejura vingal-o: 



Las barhtis de la sii cara 
Enpezólas de arrancar, 
Los sus cabellos may canos 
Couienzolos de mesare 



Juro por Dios poderoso 
De nunca peinar mis canas^ 
Ni la« mis barbas oortare. (1) 



O elogio ao cavalleiro valente era chamar-lhe bar- 
ba comprida: 



Mereced ya, Gid, barba tan compltda, (2) 
Dios como es alegre la barba velida (3) 
Por aquesta barba que nadi no mesó. (4) 



A mão descoberta levantada para o ar, como signal 
de juramento, encontra-se em um costume de Reims; (5) 
em um romance hespanhol vem : 



Alzaron todos las manos 
En sefial que se juro. (6) 



í: 



1) Ochôa, Tesoro, p. 16 e 19. 

2) Poema dei Cid., v. 267. 
(3) Idem,, v. 938. 

(4^ Cid., V. 2842. 

(5) Chassan, Symbotique, p. 119. 

(6) Ochôa, Tesoro, p. 118. 



78 EPOPÊÁS DA KAÇÁ MOSABABE 

Na sentença dada no tempo de Dom Sancho ii, 
para determinar os limites entre a Covilhã e Castello 
Branco, praticou-se esta forma do juramento, usada 
nos romances populares: c Feito isto, todos os de Cas- 
tello Branco erguerão as mãos para o céo, e farSo pe- 
rante Deos a promessa de observar e manter para sem- 
pre tudo quanto n'este accordo se contem.» (1) 

No direito consuetudinário do Rheno, nao se devia 
enten*ar o cadáver em quanto a sua morte não fosse vin- 
gada ou compensada a dinheiro. (2) No romance de 
Marquez de Mantua dá-se o mesmo : 

Prometo de no enterrara 
El cuerpo de Baldovidos 
Hasta Bu muerte vengare. (3) 

Nas epopêas da edade media era á mesa que se de- 
cidiam as mais serias questões; os lances mais terríveis 
dos Niebelungens passam-se á meza. Em um romance 
hespanhol, e no do Conde Alarcoa, portuguez, se con- 
serva a mesma tradição: 



Logo se assento a comer ^ 
No por gana que tcnia, 
Sino por hablar ai Conde 
Lo que hablarle queria. (4) 



(1) Herculano, HUt, de Port., t. xv, p. 444. 

(2) Michelet, Origines, p. 320. 
Í3) Ochôa, tò., p. 19. 

(4) Idem, ib,, p. 27. 



CAPITULO II 79 

O Bymbolo do pão constitnia a confratemidade he- 
róica dos gennanos : 



Áqni, aqui los mis doscientoâ, 
Loê que comedes mi pan, (1) 



A palavra porto, que nos poemas da edade media 
apparece no sentido de desfiladeiro, passagem diílicil, 
Gonsenra-se ainda nos cantos tradicionaes da Península : 



Nunca lo ccharan menos 
Hasta los puertos passare. (2) 



A la entrada de un puerto, 
Saliendo de un arenal. 



Se estes factos ainda não bastam para deixar em 
evidencia a origem germânica dos cantos populares 
portuguezes, privativos da raça mosarabe, temos ou- 
tras analogias mais intimas, tiradas das próprias desi- 
gnaçSes poéticas. Os velhos poetas allemSes empregam 
indistinctamente as palavras mgen e singtien, signifi- 
cando dizer ou cani-ar; (3) o qveda islandez tem o mes- 
mo sentido duplo ; o Ruolandes-liet, o poema de Gutrun, 
o Parzival de Eschembach, empregam dizem e can- 
tam. (4) Na linguagem popular a palavra cantar em- 

[1^ Ochôa, ib,, p. 61. 

2) Ochôa, í&., p. 55. 

3) Historia do Direito portugvez^ p. 44. 

4) Dn Meril, Hist. de la Poesie Scandinave, p. 290. 



80 EPOPÊAS DA BAÇA M0SARA6E 

prega-ee no sentido de referir, dizer com emphase, como 
quem lança em rosto ; o nome de Disidor, usado antes 
do século XVI; equivalia a poeta, que cultivava a forma 
do Dizer ou Decir. O poeta cómico António Ribeiro 
Chiado tinha a alcunha de Dizidor. O Marquez de San- 
tillana, na sua Carta ao Condestavel de Portugal, fala 
de ter visto um volume «de cantigas, Serranas é Deci- 
res portuguezes é gallegos.» E n^esta mesma Carta, 
falando de Gonzales de Castro, diz que era: «gran de* 
cidor.n O mesmo espirito se encontra na poesia da eda- 
de media, inspirada pelo génio germânico depois de re- 
ceber forma do génio gallo-franko. Em uns versos de 
Denys Pyram cita-se uma forma análoga á que nos at- 
tribue o Marquez de Santillana: 



Li rey, li prince e li cortur, 
Court, baruni e vavassur, 
Ayment cnntes, chauceurs e fables, 
£ los 2>te, qui son delitables. (1) 



Tanto na poesia franceza como na ingleza, é fre- 
quente encontrar-se Dictie, Dict, Dities ;Du Méril de- 
riva estas designações de uma mesma forma poética, da 
palavra allemSL Dichten, posto que raramente appareça 
nos documentos anteriores ao século xiv. Em uma Or- 
denance de Police, de 14 de Septembro de 1395, vem : 
«Nous defendons à touts dicteurs, faiseur de Dictse^t de 



(1) Poeifie Scandinave, p. 290. 



CAPITULO II «1 

chançcms et à tous autres menestriers de bouche et re- 
cordeuTB de Ditz.. . » Por esta Ordenanoe, se vê que o 
ditz pertencia aos jograes, aos que cantavam entre o 
baixo povo, distinguindo entre faiseurs de dits, e re- 
cordeurs de dits, entre o que compunha a canção, e o 
que a decorava para cantar. O dizer, de origem popular, 
foi adoptado pelos trovadores do século xiv e xv, como 
mais tarde o romance foi cultivado pelos poetas do sé- 
culo XVI e XVII, que lhe imprimiram uma forma littera- 
ria. O ditz, como elle se encontra já na poesia proven- 
çal, era uma subtileza de amor, um requinte quasi in- 
comprehensivel, como se diz de Qiraud de Bomeil: 
cPerque fo apellatz maestre deis trovadors, e es ancor 
per totz aquels que ben entendon subtils ditz.i^ (1) O 
povo conserva ainda um vestigio da antiga fórma dos 
Dizeres j na designação de ditado, com que exprime 
orna forma sentenciosa em verso áliterado. No Cancio- 
neiro geral, diz o poeta D. Rodrigo de Monsanto: 

Sobre a minha sepultura 

Depois de ser enterrado 

Se me ponha este dictado, etc. 

Na Vida de Sam Millan, de Gonçalo deBerceo: 

Secundo mia creencia que pese ai peccado, 
En cabo quando fuere leydo el dictado^ etc. 

Est. 2. 



(1) Raynouard; Choix de Poesiea des Troubadours, t. v, 
V. 166. 

6 



82 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

Em uma poesia provençal de Giraut de Biquier 
vem a mesma designação : 



Y eu trobera plazer 
E delieg en dictar, 
Eu volgra esforçar, 
De far beis dictamens, 
Trobau los beis dtctats. (1) 



Na Confession rimadaj de Fernão Perez de Gu8- 
man, vem : 

Tocar estrumentos, é desdr candones. (2) 

Quando pela primeira vez saíram á missa Fernando 
e Isabel, reis de Hespanha, em 1478, descreve um chro- 
nista do tempo: «Ybanles festivando muitos instrumen- 
tos de trompetas, é otras muchas é mui acordadas mu- 
sicas que yban delante delles, é yban alli muchos deci- 
doresj de la ciudad á pié de los mejores.» (3) 

Cada que las oyerdes no querades comedir, 
Salvo en la manera dei trovar et dei desir, 
Eiitiende bien mis diehos, é piensa la sentencia, í^te. 

HiTA, p. 431, col. 1. 



(1) Diez, Poesie des IVoubadours, p. 40. 

(2) Rios, Hii^f. de la JMt. e^p., t. vu, p. 431. 

(3) Aiidreaz Bt^rnaldcK, Chrmiica de. los Beys catholicof, 
cap. 33, íipud RioB, Hist. de lÀtf. esp., t. vii, p. 438. 



eAPITULO II 33 



NuQOa á»Báe esa orayo mas la pude ver: 
Envióme mandar, que puuasee eu faser 
Alguu triste ditado, quepudiesso ella saber, 
Que ca^ataa' çpn triste^sa, pues la uon podie aver. 

HiTA, p. 433, col. 2. 



Lps labroB de la bocca tenialos bien cenidos, 
Por no decir follias, nin dickos corrompidos. • 

iswaBOyVtdadeJS DamingOê^ est. 12. 

Tal és la tu matéria, Sennora, como el mar, 
Todos tus decidores an y que empozar. 

Loores de Niteatra Schora, est. 225. 

Fiz de controvaduras et de mucbo dictado^ 
Pêra dar á las gentes mucho buen gasayado. 

Loor de Berceo, est. 17. 

Menten en sus def/tadoa, desuennos et follias, 
Que no valen atanto cuemo dos chirivias. 

Já., est. 42. 



Beneyto don Gonzalvo que fiz tanto dictado. 

Hrj est. 44. 



Além doesta forma do Dizer e à-oDitado, tombem 
86 considera geralmente a Lôa como de origem germâ- 
nica. Du Méril não julga impossível que a Lôa dos por- 
tuguezes e hespanhoes se prenda ao mesmo radical do 
irlandez liod, do leod anglo-saxSo, do allemão Lied, 
do dialecto suisso liedli, do islaiidez laoi, e da baixa 
latinidade leudtis, (1) Na phonologia portugueza o «d» 



(1) Histoire dela Foésie Scandinave^p. 291, not. 2. 



ftL EPOPÊAS t)Á ttAÇA MOSABABB 

medial é geralmente syticopAdõ; doeste modo M expK- 
ca a fixaçSo da fárma lAa. A egreja amim como pro- 
curou banctificar certad su^eilstíçSefi ^pulares, lambem 
admitiu o Uvde bárbaro na liturgia, no tempo em que o 
povo cantava com o sacerdote; isto mesmo se vê com 
a pro9a, que é um canto ecolesiasticoí e que na edade 
media significava poesia. Em Gonzalo de Berceo acha- 
se empregada esta designaçSo na sua forma mais pró- 
xima do latim : 



La latuíe es matheria é vos de alegria. 
Hymno que enna alma pone placentaría, 
Por eso la pttnuncia entonz la clerecia, 
Porque dice lá pistola dichos de cortesia. (1) 



Todas me recebieron con laudes bien cantadas, 
Todas eran en una voluntat acordadas. (2) 



N'este ultimo sentido se vS que a laude n2o era só 
um cantar próprio da missa, mas sim capaz de se entoar 
em qttftlqúer festa. Venaiiòio Fortunato fkla ÓA exis- 
tsneia dos cantos germânicos chamados leudes: 

Koê tibi vetisiculos, dent barba carmina Uudoêy 
Sic variante tropo laus uno yiro (3) 



1^ El aacrificio de la Missa, est. 43. 
^2^ Vida de Santa Oria, est. 156. 
[8) Liv. ttí, epist. 8. 



A oítilfio He OereeQ ^ |i ^ Ywmw Fprtoiíi;^ 
moêtsfm %«e ^ hmà^ ou lemd» era um grgpdf cboTA^ 
Tftlves d'o9te Q»oto J9e dmyiuiae o n<wi9 do iaatnmnwto 
d« edidd ]»adU) do qo^^ fala o Arcipreste de Hito: 

El arpudo íatid, que tíene ponto á la trisca. 

Seja qual fi^ a mterpretaçSo do qu# era esta forma 
poética, á qual se prende também o género à,o%Laare9, 

portenee ella iQdubitavehaeiíte i çowppsijSo xw^^ vul- 
gMT a &eqi;im|ie dos idik^inas da Europa, p hU O hi 
eamprelmidía pantps de alegria, cooio q 7>it da jpfotV 
mm» de Alain de Ohartieri ou, eome m aUuaSo de 
Bsreeo^ aaaçSes de amor^ caixtigas sagmdasi faboj^ap^ 
eema o IjokU 4e Oiseht, elegias, e aTeoturas cavalbei- 
r^icae, ^eeo»o q L0£$ de ChewderU, Attribue-se-lbe ge- 
infaneiite moa origem bnets, por isso ^e Maria de 
iVao^a di eemp fonte dos seps, os Um bretSos ; mav 
q«asi qne «m seimlo ai^tes» bayiam ^iàí> ei^^aiadps por 
Waee» ^ at$ do Xm$ 4u BUcUwsr^^ di^s eUa; 



Qiiaiit 4s jaM fsíx» m*sp^Qmf)t 

19^6 Yofl ublier Bisdaveret; 
Bisolavenst ad aim en Boátan, 
&4WSU r^pdl«Q|i li Norrmn* 



A summa importância do canto na poesia do povo, 
com que muitas coplas ou formas fossem conheci- 
das por certas alias; a mwMcaf«ten*8e maás fÍM^ilmente 
do que a palavra; a dan^a -que media o rjrthmo, deii 



86 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

muitas Vezos O" nome ào Terso. G ?Ai'n8o era umá^ de- 
terminada forma, mas sim a harmonia com qne ella 
havia de ser cantada. 8So bastantes as? anctoridades, 
que áustèntam esta ideia; contentia.m'o-nos oòm uns 
versos do Lais de Chevrefiel: 

Por les paroles remembrer 
Tristan lui bien sayeit harper 
En aveit f eit nn núvel lãi, (1) • 

O lài está aqui empregado lio sentido de ária, a«- 
Sim bòmb tamberia no Lai de Efàarei, da poedia ingleisa. 
Edélestand du Méril combate á origem' brétS áolai 
pòr falta de um radical céltico. (2) A lôa^ Ae tbdas-^ 
fónnás da poética gothica, foi a única- que 'se conser- 
vou, pelo facto de ser admittifla no canto litúrgico 
dosMòsárábes; quando o povo creOu o theâtro no sé- 
culo xvi, a lôa' tótnou-se dramática, espécie de pro- 
logo dos autos hieráticos, decaindo em Hespanha no 
seoulò Xvm, rejuvenescendo étn Portugal na eoUecçSo 
da Thalia sa^ra. Garrett^ que primeiro 'sentiu a neces- 
sidade de estudar a poesia popular portugueza, cara- 
cterisa a lôa moderna do seguinte modo: «é um canto 
de louvor, mas por certo modo e regra. A lôa deita-se 
ainda hoje nos cyrios das provincias do sul, recita-se 
nos presepes do natal, nas provincias do norte do reino. 



fi I ■ . . .. 

j 



• ri) liaria da Fraiiicey(>tievrei8y,t.ii.;p^ .381. ; ,. 

; (2).Vêr.o desenvolvimento doesta questão, na Hiatdela 



CAPITULO II 87 

E um cantar de anjos, de génios, de espíritos, mas 
dramático, dialogado : é um coro hierático, que se en- 
toa, que se deita do céo para a terra, que entes supe* 
riores cantam para ouvirem homens e deoses.» (l)Nos 
Açores a lôa é usada como um pregão ás povoações 
circumvisinhas da aldeia aonde se representa algum 
auto de santo ou entremez, sendo acompanhada de mu- 
sica. A esta forma poética se pôde assignar três perio- 
dos de existência; o primeiro, religioso, reminiscência 
do génio gothico ; o segundo, sentimental e lyrico de- 
vido á influencia normanda, que se determina na nossa 
poesia no tempo de Dom Fernando e Dom JoSo i; e a 
terceiro, dramático, usado como prologo dos Autos 
hieráticos, que é a forma em que parece ter estacio- 
nado. 

A palavra rÍ7rui^ no sentido de verso, era bastante 
usada na poesia do norte, hrima. No poema hespanhol 
Dmlo de la Virgen, vem como na poesia islandeza: 



Si ella me guiasse por la gracia divina, 
Querría dei su duelo componer una rima, (2) 



Fiz de Sauí Domingo^ el natural de Cannas, 
Una fermosa rima sin nesunas patrannas. (3) 



1) Romanceiro, t.* iii, p. 124. 
.2^ Sanchez, Poesias castellan 
[o) Ib., Loor de Berceo, est. 18. 



2) Sanchez, Poesias casteUanas, p. 242. Ed. de Ochôa. 

i~ - - - 



a» EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

E no poema intitulado Lqotm de Béroeo: 

£8crip80 un libriello de rima mui Babrosa: 

Los miraglos son muchos, es muy luenga la glosa, 

HPeroque non son todos metndos en la prosa. (1) 

Diz o Arcipreste de Hita : 

Que pueda de cantares un libreto rimar, (S) 

Mafi se alguma cousa ha de maravilhoso n'esta re^ 
QoastrucçSo a posteriori das formas gothicas da poesia 
popular da Peninsula, maior é o assombro ao encon- 
trar o mechanismo primitivo da metriâcaçlo das linguas 
do norte em muitos dos ditados portuguezes. Casa 
construção rudimentar e própria do norte é a alit€»'a' 
ção^ a repetição da mesma letra, antecedendo a rima, 
e j^rovocando o ouvido a considerar a accentuaçSo da 
palavra. Di2 Michelet: «As poesias célticas são rima^ 
das. Ao contrario a aliteração parece ter dominado 
entre os Scandinavos...» (3) Em 1811, como confessa 
Jacob Grimm, a aliteração estava quasi extincta na 
AUemanha. O velho direito germânico abundava em 
formas aliteradas, e como diz Chassan: «principal- 
mente no direito do !í7orte e da Frisa, esses paires clás- 
sicos da poesia aliterada, aonde se encontram não só- 



(1^ Ibid,, est. 26. 

'Q^ Sanches^ F^ôsias, p. 429. Ed. <le Oohda. 
3) Origines, p. lxxxv. 



I 



CAPITULO II 89 

mente fórmulas de direito, mas também phrases intei- 
ras fortemente calcadas de aliterafão.n (1) A alitera- 
ção abunda nas locuçSes populares portuguezas, sobre 
tudo nos anexins e ditados, umas veses simples, outras 
ligada com a tautologia a dois, três e quatro termos. 
Âppresentaremos alguns exemplos tirados da collecçSo 
dos Adagias do Padre António Dttlicadò| de 1651, dei- 
xando-lbe a fárma de verso : 



ilbraçou o asno com a amendoeira 
£ acharam -86 parentes. 

Não é o òom Òocado 
Para a òoca do asno. 

Qaatro òois a um caÒo, 
Se òem tiram para cima 
Melhor para òaixo. 

Bejo-te òode, 

Porque hasde ser odre. 

O boi òravo 

Na terra alheio se fiaas manasò. 

Cama de ohSo, 
Cama de ofto. 

Falem cartas 
tMem barbas. 

Quem oala cMMeBle. 

Do contado come 4 k>bo. 

Chegaivos á charola 
E sereis dos hcmradoB. 

(1) Essai êur le SymhoUque, p. zxziy. 



91 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

Caçar e comar 
Começo quer. 

Nem de cada «lalha peiu, 
Nem de cada iiata feixe. 



NSo compras «mia «Muioa 
Cuidando ^a hade aarar ; 
Nem cases com mulher má 
Cuidando quo ae hada «Mandar. 

Quem mais tem e mais quer 
Com seu mal «mm. 

A moço mal mandado 

Ponde a mesa, mmãue^ oam recado. 

A manoelvo «láo 
Com mfto e com pau. 

Quem nffo tem molhar 
i^uitOB olhos ha mister. 

B^eninha mansa 
Todas as vaccas mama. 

A mouro morte, 
Grau lançada. 

itfoiíra Mirta 
itforra farta. 

Sol de itfarço 

Pega como pegamaçd 

E fere como maço. 

Por dia de Sam íl^oelati 
A fteve no chfto. 

PAo píookj nfto «nra m«llia . 

A |>erdiz é jMrdida 

Se quonto nOo é-oomida. 



OAPITULO 11 9$ 



Domar pottm ; porta foaoc». 

PAo e vinho 
fijMiie M> paraíso. 

Da gallinha apieUii 
Da preta apa^a; 
Da mulher a sarda. 

Nito passes o pé além da mAo. 

A pintura e a jiekja 
De looge se veja. 

Quem ^er mais gae bem 
A mal vem* 

Quem çuizer oomer, miga^ 
Quem se gaeima alhos come. 

Quando o rio dAo fas raido. 

Ou nfto leva agua oa vae oteoido. 

Quem hade «er jsrrído 
Hade nu «ofrído» 

Deitar soptm e «orver, 
Nfto pode tudo «er. 

Serre a «enfaor 
iSid>eráB que é dôr. 

^offre por «aber 
E trabalha por ter. 



Mais «abe o «andeu no «eu 
Que o «esudo no alheio. 

Lobo fardio, 
Nfto toma vasio. 

Tem- te em tons pés 
Oomeráe por ^res. 



^4 fiPOPÊ AS' DÀ KAÇ A ' MOSARABB 



T^smpo ^az (empo t - 
Chuva tTRZ venío. 

Menos vale ás vezes o vkiho, qué òorras. 

Fiuha entl^ i^inha, • ^ * ' 
Casa entre *0Í6infaa. • • < 

Fento e ventura 
«Poudo dttra. 

Bis-me vovL e venho • ' 
A um olival qtie tenho. 

Vem a ventura 
A quem a procura. 

Qa^mde verde se veste 
Por formosa se tevo^ 

Wbâo couvoíto 
NAo é vinhateiro. 

O bom, vinho 

A venda traz oomsigo. . 

O velho põe a vinha 
E o velho a viédima. 

Se chove, chova, se* neva, neve*; ' 

Que se nfto faz vento não faz mau tempo. 



A grande riqueza da poesia gothica, que o catholi- 
cismo extinguiu, apenas revela o que deveria ter sido pe- 
las lendas intercaladas nas historias que escreveram Jor- 
nandes, Paulo Diácono e SaxoiGrammaticus. Sigamos 
este veio para determinar nas crcaçSes mosarabes os 
vestígios d'essa gigante poesia. Áo constituir-se o povo 
portuguez no século xii, quando as tradições gothicas já 



CAPITULO II 96 

estavam desnataradas, assim como conserroa uma remi- 
niscência profunda dos symbolos jurídicos, edas super- 
stições e costumes, também devia fatalmente guardar 
as lendas da raça, ultima forma e a única que subsistiu 
da poesia gothica. De facto, grande parte das lendas 
dos primeiros três séculos da monarchia port^gueza 
têm uma origem germânica, ou pelo menos coincidem 
pela homogeneidade da crença. 

Começamos pela lenda de Oaya, contada no Livro 
velho das Linhagens. Quando o Rei Ramiro vein pro- 
curar sua mulher, que lhe fôra roubada por Âbeoicadâo : 
«&etou seis naves, e meteuceen ellas, o veio aportar 
a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela 
foz, cohriua de panos verdes^ eni tal guita qm cuida»- 
sem que eram ramos, cá entonce Douro era coberto de 
homa parte e da outra d'arvores.i> Em uma lenda fran- 
ka, contada por Jacob Grimm e extrahida de Âimonius, 
se encon1a*a este mesmo estratagema de guerra : « Quan- 
do Childebert entrou com ura poderoso exercito nos es- 
tados de Guntram e Fredegund, a rainha exhortou os 
frankos a defenderem-se com arrojo... Fredegund ima- 
ginou um estratagema. A meia noite, no meio dás tre- 
vas, o exercito, guiado por Landerich, tutor do joven 
Chlotario, poz-se em marcha, e foi para> uma ifloresta ; 
Landerich pegou de um machado e cortou para si 
um ramo de. arvore; depois pendurou umas campainhas 
ao pescoço do cavallo que montava. Deu ordem a to- 
dos os seus guerreiros para fazerem outro tanto : cada 
um d'elles tomou um ramo de arvore na mão, prendeu 



% EPOPÊAS PA BAÇA MOSABABE 

■ 

campamha» m pescoço do «eu cavallo^ e todoa^ logo 
que o dia oomeçou a alvorecer, puzeram-se a andar para 
o caaipo inimigo, •• Uma das vedetas do exercito oon- 
trarío 09 descobriu através da lus duvidosa do orepua- 
oulo ; gritou logo ao seu companheiro : ssr Que floresta é 
esta que aqui vtgo, em um sitio aonde hontem á noite 
nSo havia o menor graveto Is» Tu ainda estás ébrio e 
de nada te lembras, disse a outra roída, é gente nossa 
que acharam na floresU visinha forragens para os seus 
cavallos. Não ouves tu o som das campainhas pendura- 
das ao'pescoço dos oorseis que pastam?. •• Em quanto as 
vedetas diiiam isto, os Frankos deixaram cair os ramos 
e a floresta ficou depojada de folhas, mas eriçada de lan- 
ças brilhautes que se levantaram como troncos. Entrou 
a confusik) no exercito inimigo; o terror se apoderou 
d'elles; deixaram o somno para entrarem n'uma bata- 
lha sangr^ita, e os que nSo puderam fugir, foram cei- 
fados pdio ferro ; os commandantes só deveram a salva- 
vaç2U> á rapidez dos seus cavallos.» (1) O rei Ramiro 
era do numero dos refugiados das Astúrias e conserva- 
va as tradições da estratégia dos guerreiros do Norte. 
A lenda de Gbraldo Sem-Pavor, que tomou Évora 
aos sarracenos, por causa dos amores com a donzel- 
la moura, filha do alcaide do castello, também se en- 

(1) Lendas allemãs, t. ii, p. 107. Trad. de L. Heretier (de 
TAin) ed. de 1836. Nfto transcreveremos as lendas portugue- 
zas para não augmentar este capitulo, reservando -nos para um 
trabalho especial, intitulado Lendas, tradições e contos portu- 
gutzes do seculó XII a XIX, 



CAPITULO II gr 

contra narrada por Jacob Grlmm : t Didier refugiou^se 
com Adelgis, seu filho e uma de suas filhas, nos muros 
de Pavia, aonde Carlos o sitiou muito tempo. Didier 
era bom e humilde; tinha por costume, segundo a tra- 
dição, levantar-se sempre á meia noite e ir para uma 
egreja fazer oraçSo; as portas das egrejas abriam-se 
por si mesmas na sua presença. Or|i, durante o cârco, a 
filha do rei escreveu uma carta ao rei Carlos e a lançou 
sobre outra riba do Tésin por meio de uma besta; 
resava a carta:— «Que se o rei quizesse tomal-a por 
esposa, ella lhe entregaria a cidade e os thesouros de 
seu pae. — Carlos respondeu-lhe de modo a excitar 
mais o amor que a donzella concebera por elle. Entfto 
tíroa debaixo da cabeceira do pae, que estava dormin- 
do, as chaves da cidade, e faz saber ao rei dos Fran- 
kos que se preparasse para entrar de noite na cidade. 
Quando o exercito se approximou das portas e entrou, 
a donzella saiu contente ao seu encontro ; mas aper- 
tada pela multidão, caiu debaixo dos pés dos cavai- 
los; e como era nas trevas da noite, ficou esmaga- 
da. O relincho dos cavallos acordou Adelgis; sacou 
da sua espada e matou muitos Frankos. Mas seu pae 
lhe prohibiu a resistência, porque era da vontade de 
Deos entregar a cidade ao inimigo. Adelgis fugiu en- 
tSo, e Carlos tomou posse da cidade e do palácio que 
habitava o rei.» (1) 

A lenda de Fernio Rodrigues Pacheco, alcaide do 



(1) Jacob Grimm, Ltnáaa aUemãê, t. n, p. 185. 
7 



98 BPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

castello de Celorico, que fez com que o conde de Bolo- 
nha, depois Dom Affonso iii, lhe levantasse o sitio por 
meio de um ardil em que dava a entender que es- 
tava bastante provido de munições, também se encon- 
tra na tradição germânica ; Jacob Grimm conta doeste 
modo: a Quando a rainha Adelheid, mulher de Lotha- 
rio, estava apertacl^mente sitiada pelo rei Berenger 
na cidade de Canusiura, e ella já tratava dos meios 
de escapar-se, Arduin lhe perguntou: — Quantos al- 
queires de farinha ainda tendes na praça? — Já não 
ha mais que cinco alqueires de centeio e três quartas 
de farinha, respondeu Atto. — Pois bem, segui o meu 
conselho, fazei que um porco coma essa farinha, e sol- 
tae-o pela campina. — Assim se fez. O porco sendo 
agarrado e morto pelos inimigos, acharam-lhe na bar- 
riga uma grande quantidade de farinha que elle tinha 
comido. Concluiu-se d*isto, que seria impossivel redu- 
zir pela fome esta praça, e o cerco foi levantado.» (1) 
A lenda tão popular e nacional de Dom Fuás Roupi- 
nho, salvo por intercessão da Virgem, do abjsmo em 
que o seu cavallo o precipitava, também se conta na 
AUemanha attribuida a Hermann de Treffart. Jacob 
Grimm recolheu-a deBecherer, Toppius e Melissantes; 
depois de descrever o cavalleiro allemão como um se- 
nhor feudal, arbitrário e devasso, continua: «Isto nâo 
obstava de ser muito recolhido, e de ir sempre á mis- 
sa, e do resar com devoção o officio da Santa Virgem. 

(1) Lendas allemàsj t n, p. 175. 



I 

! CAPITULO II 99 

De uma vez, partira a cavallo para um colloquio de 
amor, depois de ter convenientemente, segundo o seu 
costume, resado muito religiosamente o oíBcio da Vir- 
gem ; mas como cavalgava de noite, sósinbo e nas tre- 
I Tas sobre o Hellestein, enganou-se no caminho, e che- 
gou ao cume mais elevado da montanha; ali o cavallo 
estacou de repente; mas o cavalleiro, julgando que se- 
ria medo de algum animai, esporeou-lhe o flanco; o 
cavallo atirou-se com o cavalleiro do alto do rochedo, 
e morreu da queda; a sella desfez-se, a espada do ca- 
valleiro ficou em estilhaços ; mas na sua queda o ca- 
valleiro invocara a mãe de Deos, e pareceu-lhe que era 
tomado por uma mulher, que o depôz em terra leve- 
mente e sem mal. Depois doesta conservação miracu- 
losa, retirou-se para Eisenach a um convento^ reformou 
os seus costumes . . . b (1) 

Por ultiii^ko resta-nos citar o paradigma à&SouçcuUi 
de Bemjica, e de Dom Pedro, o Justiceiro, lenda con- 
tada por Fernão Lopes. Vejamos a sua forma lombar- 
da, recolhida por Jacob Grimm: «O rei Otto entrara 
na Lombardia, á frente de um poderoso exercito ; to- 
mou Milão e estabeleceu o uso do dinheiro que se cha- 
mava ottolino. Quando o rei saiu, os milanezes rejei- 
taram a sua moeda ; porém voltou a traz para os punir, 
forçando-os a servirem-se de uma moeda feita de sola 



(1) Idem, ib. p. 442. 



100 EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 

velha (1). EntSo uma mulher saíu-lhe ao encontro^ e 
Teiu queixar-se de que um homem a violara. O rei 
disse-lhe : — Quando eu aqui tomar te farei justiça. 
— Senhor^ tomou a mulher, vós me esquecereis. — 
O rei apontou-lhe para uma egreja e volveu: — Aquella 
egreja me avivará a lembrança. — Regressou depois 
para a AUemanha e submetteu seu filho Rodolfo que 
se tinha revoltado. Quando, tempo depois, voltou á 
Lombardia, achou-se precisamente em frente da egreja 
que havia mostrado á mulher promettendo-lhe fazer 
justiça. O rei mandou-a chamar, para ouvir a sua 
queixa. — Senhor, lhe diz ella, o culpado é hoje mieu 
marido legitimo, e tenho d^elle filhos que amo. — !Eu 
jurei pelas barbas de Otto, respondeu o imperador; 
é de força que prove a minha hacha* — E para punir 
o culpado mandou-lhe cortar a cabeça segundo os ter- 
mos da lei. Assim fez justiça a esta mulher contra sua 
vontade, j» (2) 



(1) Não podemos deixar de lembrar aqui a tradição do 
dinheiro de sola, canhado no reinado de Dom Jofio i, na occa- 
BÍfio do cerco de Lisboa. Esta lenda foi posta em memoria por 
José Soares da Silva. No Dicc, Nvmiamographico lusitano, se 
lê a pag. 31 : «Os rústicos quando querem provar que alguém 
tem muito dinheiro, dizem: Ainda tem dinheiro de sola,* E 
accresceiita : «Diz>8e que em certas casas distinctas ha bahuH 
ou cofrcH, cheios de moeda de sola. » Esta lenda nAo dista mui- 
tos annob da que se conta da Bouçada de Bemfica, o que em 
certo modo descobre o fio da tradição lombarda. 

(2) Lendas allemãs, t. ii, p. 201. Na lenda portngueza nfio 
ha a queixa da mulher ; Dom Pedro, pelo appellido de Matíça- 
da é que descobre o crime já sanado pelo casamento, mas ape- 
sar d*ÍB8o manda executar a stricta justiça. 



CAPITULO II 101 

Os Wisigodos e os Borgundos, os únicos que abra- 
çaram o arianismo, foram os mais combatidos pela egre- 
ja catholica, que ligou a vitalidade dos seus dogmas ás 
ambições politicas; a poesia gothica, apesar de extincta 
yiolentamente, conservou-se nas classes servas da Penin- 
Bula emquanto de algum modo se ligava aos costumes, 
ás superstiçSes e ao direito, mas não bastaria este fraco 
recurso para salvar tantos vestigios, se as invasões nor- 
mandas no século ix nSo viessem retemperar ainda es- 
tes restos de seiva germânica das classes inferiores. 
liasdeu, o inflexível critico da historia de Hespanha, 
fala doestas terríveis invasões. Na antiga vida de Sam 
Rndesindo, se descreve o combate d'este santo contra 
08 Normandos que desembarcaram na G-alliza: <N'este 
tempo, ausente o rei, a Galliza foi invadida pelos Nor- 
Qiandos, e Portugal era devastado pelos Mouros. Rude- 
sindo, reunindo o exercito, confiando mais na miseri- 
córdia divina do que n'elle, e repetindo o versículo do 
psalmo : Hi in curribus et in eguis; nos autem in no^ 
mine Domini Dei nostri invocabimus, susteve os Nor- 
mandos e 08 Mouros; com o auxilio de Deos expulsou 
os Normandos da Galliza...» (1) No meado do século 
X occuparam os Normandos as margens do Minho; 
eram uma espécie de ogres, que roubavam e devasta^ 
vam tudo, mercadejando com o resgate dos cativos. O 
castello de Sam Mamede foi levantado por Mumadona 
para defender um mosteiro de que era protectora; Yi- 

(1) Mon. HÍ8t,y Seriptores, p. 35, ool. 2. 



102 EPOPÊAS Dk RAÇA MOSARABE 

terbo cita um documento do século xi em que se con- 
tracta o resgate de duas mulheres apanhadas pelos leu- 
domanos. (1) Os piratas devastavam segundo um di- 
reito commercial que se arrogavam, de todas as vezes 
que no mar lhe faltassem os viveres vir roubar pelas 
costas e praias; chamavam a este direito terrivel «^ran- 
dhug. (2) Os Normandos que invadiram Portugal, se- 
riam já os scandinavos sedentários de França, mas 
pela recrudescência das invasões do século ix, se vê 
que este movimento coincide com a proscripçâo do rei 
Harald Harfagher, que absorveu sob o seu dominio 
todos os pequenos estados da Noruega, d^onde resul- 
tou a expatriaçSlo de muitos guerreiros e familias, e 
ao mesmo tempo a prohibição da pirataria e do tre- 
mendo direito do strandhug. (3) Â fundação da villa 
de Gundarem é attribuida aos Normandos; partidários 
das formas mais exageradas da liberdade, os Norman- 
dos, passado o primeiro impeto da devastação, haviam 
de encontrar nas povoações novas uma certa sympathia, 
porque lisongeavam o espirito de independência. Te- 
mos determinado os factos; resta agora vêr as suas 
consequências ; temos as tradições e a lingua. Em uma 
aldeia do Minho ouvimos a seguinte lenda: Havia um 
ferreiro no monte da Arcella, e outro no monte de Gui- 



Historia do Direito Portuffuez, p. 74. 
Deping, Hiit, des expeditiona maritimeadea Normanda y 
t. n, p. 57. 

(3) Augustin Thieny, Hist, de la ConqtíètedeVAngleterre, 
1. 1, p. 136. 



CAPITULO II loa 

sande, mas tinham entre si apenas um malho com que 
trabalhavam. Quando um descançava, atirava o malho 
ao outro^ de monte a monte. Que é esta vaga tradi- 
ção a não ser um mal apagado vestígio da lenda scan- 
dinava do ferreiro Velanãf Doesta lenda diz Du Mé- 
ril : «Entre as tradições mais espalhadas dos primeiros 
tempos da poesia moderna, ha duas muito mais geraes 
e mais populares do que as outras (Wieland o Ferrei- 
ro, e Ogier le Danais); provou-se que a Scandinavia 
era o seu ponto de partida, e que ellas tinham uma ra- 
zão e uma base na historia.» (1) Du Méril referiu-se 
a um trabalho especial de Francisque Michel e de Dep- 
ping; no prologo escripto por este ultimo se lê: cÉ pro- 
vável que a Hespanha, a Itália, e o Oriente sobretudo^ 
possuam tradições análogas. Ellas nos ficaram desco- 
nhecidas; outros terão talvez a boa fortuna de as en- 
contrar.» (2) Mal pensávamos que ao ouvir da boccade 
um octogenário do Minho este conto do ferreiro scandi- 
navo, entre sorrisos de malicia que o resalvavam da 
credulidade, colhíamos á mao um fio da tradição inter- 
rompida, mas, sem dúvida, tradição do tempo da colónia 
normanda. (3) Vejamos essa influencia na linguagem 
vulgar: 

1) Histoire de la Poesie Scandinave, p. 14. 

\2) Depping e P. Michel, Veland le Foraeron, p. vn. 

[3) Das invasões normandas, lê-se na Chronica Gothorum: 
«Ura icLiv, viii^ idus septembris, veniunt Lormanes ad castelo 
lum Verniudii, quod est in província BracharenBÍ. » Mon, Hiêtj 
1. 1, p. 9, col. 1. £* justamente das cercanias do CasteUo de 
Vermoim, que se conta a lenda de Veland, 



104 



EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 



OLOaSABIO DE PALAYSAS BOAUDIVAVÀS NA UNGITA POATUaUBZA 



Amha (mater) ama. 

AsK (hasta) ascona. 

Babba (garrire) baboso. 

Bakbobd (siniatrum latas navis) 
bombordo. 

Balaz (in aUum surgit) balisa. 

Bal& (sevUt) balcão. 

Basb (vtnculum) banda. 

BAin>iGi (captivus) bandido. 

Bann (anatnema) bando, banho. 

BAMirA (interdicere) banir. 

Barata (pugna) desbarato. 

Babiêl (vas teres) barril. 

Babtabd (spnrius) bastardo. 

Bauta (propeUer^ botar. 

Beck (scamnum) banco. 

Belia (mugere) balar. 

Betsta (ferire) besta. 

BlakiL (Mus) branco. 

Blok (truncas) bloco. 

Boba (foramen) buraco. 

Bobd (ora, tatus navis) bordo. 

BoBDi (finÁria) borda. 

Boro (urbs) bur^o. 

BoLL (globus) bolla. 

BRAaA (insoíenter se gerere) bra- 
gante. 

Braka (frangere) quebrar. 

Bbibiko (pnma) brasa. 

Britia (in partes dividere) bri- 
tar. 

Bros (risus) brioso. 

Bruoya (insidias struere) bruxa. 

BucKA (subigere) abocar. 

BusK (virgidtum) bosque. 

Dans (saUatio) dansa. 

DoB (hasta) dardo» 

DuiJD (cúecus) doudo. 

Eybt (oWeffwJéste. 

Falsa (aAvJUetare) falsar. 

Fata (vestire) fato. 



Fatiste (ant. froín,) Fadista. 

Fen (palus) feno. 

FiNN (politus) fino. 

Flaska (lagena) frasco. 

Flod (caterva) frota. 

Flor (superfícies) á flor. 

Floti (classis) frota. 

FoBS (furor aaiimi) força. 

Frisk (recens) fresco. 

Frygd (volúpias) fragaeiro. 

Gabba (deludere) gabar. 

Gaon (vitoria, lucrum) ganho. 

Galeida (navis actuaria) ga-* 
leota. 

GrAssi (anser) ganso. 

Gata (observare) catar. 

GoRT (jactator) gordo. 

Grafa (spulpere) grayar. 

Grata (lugere) gnt&, 

Gru (multitudo) grupo, 

Halla (inclinare aliquid) aliar. 

Hallda (tenere) alta. 

Habd (shrenuus) ardido. 

Habdnbskia (caiaphra^ta)a,Tnez 

Harpa (cithara) harpa. 

HiSA (/unibus aioUere) içar. 

Hlut (pars) lote. 

Hnacki (occiput) nuca. 

Hreim (aonus) runa. 

Hross (égua) rocim. 

Eaih (cymba) canoa. 

Kapa (pallium) capa. 

Kapum (gaUus eviratus.) capão. 

Kassum (scrinium) caixa. 

Kasta (m&nere) castigar. 

K&MPA (pugilf athleta) cam- 
peão. 

KiAL (cUveua pjtem oarina wms 
formai) quilha. 

KioL (carina) quilha. 

KoKÁ (vemrej caminho. 



CAPITULO II 



105 



KoxPAs (êociuê) ootnpaaheiíM). 
KoRT (mappa geograyh,) carta, 
Kbtppa (curvamtn) garupa. 
KuMPAS (menKwta) compasso. 
KuHNATT (scientia) contar. 
KupA (vos rotundum) copo. 
KniDiLx. (lux) candil. 
Lao íordoy modus) laia. 
Lab (laqueus) laço. 
Latum (oi^halcnum) lat&o. 
Last (mensura oneris nautici) 

lastro. 
Lista (marginare) lista* 
LuD (buccina) alahude. 
Mal (fibula) malha. 
Ma« (êtrvus) manata. 
Mabk (nota) marca. 
Mabk (limes) marco. 
MAwnngAT.y (fnagÍ9teT eqíkUum) 

marechal. 
Masts (maluB navis) mastro. 
MATBHAirr (nauta) matalote. 
MiHKA (minuere) mingar. 
MoT (concursusj motíjíí. 
McsTABD (sinapi) mostarda. 
NoBD (septentrio) norte. 
Packi (volumen) pacote. 
PsaLA (margarita) pérola» 
PiAKA (stimulare) picar. 
Plats (spatium) praça. 
Pbofa (eaqteriri) provar. 
QvEDA (dicere) cuidar. 
QuiTTA (liberare) quitar, 
Beoist (Índex) registro. 
Rbnta ffoenus) renda. 
RiCK (potens) rico. 
Booie (colus) roca. 
BoLLA (volumen) rollo. 
RosK (strenuus) risco. 
Sa» (êuccuê) seita. 



Sax. (atrum) sala* 

Salat (lajctuca sativa) salada. 

Saup (juscvlum) sopa. 

SiQLA (navigare) singrar. 

Skaka (quatire) escachar. 

Ska&n (sordes) escameo. 

Skif (navia) esquife. 

Skipa (ordtnare) esquipar. 

Skopaz (injuriari) cospir. 

Skobda (fulcire) escorar. 

Skum (sptmia) escuma. 

SiíELTA (fusto mttallorum) es- 
malte. 

SoRTNA (niçrescere) soma. 

Spadi (enstê) espada. 

Spiot (hasta) espeto. 

Spori (calcar) espora. 

Stada (mansio) estada. 

Stiobobd (dtaUrum laíus nanriê) 
estibordo. 

Stofa (coena,culum hypogeu) es- 
tufa. 

Stock (baculwm) estoque. 

SuD (meridies) sul. 

SuHD (natatio) sonda. 

Taka (tanaere) tocar. 

Temia (subigere) timSo. 

Toa (kuUfichm) tôa. 

Tbafali ílabor) trabalho. 

Trappa (calcaTe) trepar. 

Trubla (confunitrt) tropel. 

Tumba (cadere) tombar. 

TuNKA (doHum) toneL 

Vao (/luctuê) vaga. 

Vabri (cautela) arrhas. 

Vest (occidéns) oeste. 

YxAA (eontuetudo) guiaa. 

Voga (audere) vogar. 

Upp (sursum) uppa. (1) 



(1) IhLWaíí,Higt.dehiPoeiieSeaMdkum,i^.ím %2B(k 



106 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

No século X (945) o islandez ainda era falado na 
Normandia; muitas doestas palavras, que parecem de- 
rivar-se para nós da lingua franceza, pertencem ao 
mesmo período histórico da invasão normanda e da 
rusticação das linguas neo-latinas. Âs palavras que ci- 
tamos são quasi todas de giria e de termos teclinicoS; 
justamente o que exprime a parte exterior de uma ci- 
vilisaçâo, e a communicâção com as classes inferiores. 

Piíra bem definir a acçSLo dos Normandos na vulga- 
risayao das tradições poéticas da edade media, e o que 
elles poderiam ter trazido nas suas invasSes a Portu- 
gal, extractamos algumas linhas da Historia da Litte- 
ratv/ra antiga e moderna de Schlegel : «Alem das Cru- 
zadas, foram os Normandos os que mais coutribuiram 
para dar um impulso novo á imaginação das nações 
europêas. — A crença poética no maravilhoso, nos he- 
roes dotados de uma força gigantesca, nos génios das 
montanhas, nas sereias, nas fadas, nos anãos hábeis na 
magia, últimos vestigios da poesia do Norte, ainda 
povoavam a imaginação; mas os Normandos trouxe- 
ram um novo espirito de vida, tirado immediatamente 
da sua origem, e com o qual communicaram como que 
uma seiva nova a todos estes elementos da cavalleria 
e da poesia já existentes. Este espirito não os abando- 
nou quando se converteram ao christianismo, e quan- 
do falaram o francez ; pelo contrario foi então que elle 
se espalhou completamente em França e em toda a Eu- 
ropa christã. Este espirito seguiu os Normandos para 
a Inglaterra e para a tíicilia, e mesmo nas expedições 



CAPITULO II 107 

á Palestina^ em que tomaram uma parte tSto importan- 
te. NSo somente o seu espirito, mas também o seu gé- 
nero de vida era essencialmente fundado sobre o gosto 
natural e particular pelas aventuras. Escolhendo e ou- 
sando sempre o que havia de mais atrevido, apaixona- 
dos pelo maravilhoso, os Normandos exerceram uma ' 
inflaencia immensa sobre a poesia da edade media.» (1) 
Na poesia popular portugueza ha este culto pelas fadas, 
pelos encantamentos, pelas sereias, misturado com o 
maravilhoso christão; no romance insulano de Dom 
Pedro Menino j se encontra: 

Vinde, vinde, minha filha 
Oavir tao doce cantar ; 
Ou bAo 08 AnjoB no céo, 
Ou as Sereias no mar. (2) 

Este romance fundado sobre a historia do Conde 
Pêro Niiio, pertence ao século xiv, ao período anterior 
ás nossas expediçSes marítimas. De quem podíamos 
ter recebido este maravilhoso, senão dos Normandos? 
Demais estes versos, como acontece sempre aos mais 
antigos na tradição, tornaram-se cent&o forçado de 
muitos outros cantares. Assim podemos concluir, que 
pela invasão normanda, o elemento godo corrigiu al- 
gum tanto a sua esterilidade causada pela adopção do 
catholicismo. 



íl) Op. cU., cap. yii, p. 203, ediç. de Berlin de 1842. 
[2) Cantos do Arehipektgo, d.» 27, p. 256. 



lOS EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

Nos cantoB populare» açorianos apparece um vesti- 
gio doB costumes dos poetas scandinavos, no modo de 
escrever os versos no bastão runico. No romance da 
Pobre Viuva, se lê: 

Toma lá tinta e tinteiro 
Escreve n^esêa bengala, 
Já que 86 perdeu o corpo 
Que se lhe não perca a alma. (1) 

E n'uma variante, intitulada romance de Florbella, 
egualmente se lê: 

Pastores que andaes aqui, 
Escrevei isto a mi madre ; 
8e nfto tiveres papel, 
No bastão d'esta bengala. 

Também em uma saga islandeza, em que se conta 
como o scaldo Egil, tendo perdido o seu segundo filho 
Banduar em um naufrágio, se recolheu para deixar- 
se morrer com tal desgosto, sua filha Torgude quíl-o 
acompanhar e morrer com elle, e envenenaram-se am- 
bos. Mas o veneno que lhes deram era leite, e entSo 
Torgude, exclamou: tQue fazer, agora, que a nossa 
intençfto ficou gorada? Ainda nos resta vida bastante 
para que possas compor um canto sobre Banduar, e eu 
o gravarei sobre o meu bastão. "» (2) Sobre este modo 



fl) Cantos do ArcMfdagOf n.<> 51 e 50. 
[2) Marmier, Re9, Jks Deu» Mondes, 18S6. 



CAPITULO II 100 

r 

de esoripta, transoreyeixios das Antiguidades scandi- 
fiavas j de Fierre Victor: cAs runas traçavam-se não 
só sobre a pedra, mas também sobre pau . • . Este uso 
ainda não desappareceu completamente no Norte, e o 
bastão runico ainda serve de kalendario em muitos 
cantões da Suécia.» (1) De ordinário cos kalendarios, 
oraçSeSy meditações, e missivas são traçadas sobre pau, 
sobre bastões achatados ou arredondados.» (2) Nos 
dois cantos insulanos, que citámos, o primeiro dá a 
entender que se escreve na bengala, para deixar ex- 
presso este pensamento moral : 



Toda a mAe que tiver filhas 
NAo case- as fora da terra. 



Na versão de FlorhMa, o que se sscrevs no bastão 
da bengala é uma missiva á mãe da infeliz esposa do 
Duque da Turquia. 

As runas, eram empregadas pelos scaldos em ora- 
çSes para ganhar victorias, ressuscitar mortos, saber 
o futuro, aliviar mulheres de parto, dar saúde, ven- 
cer rigores de amantes; (3) conhecidos estes caracteres 
comprehende-8^ como os índices Expurgatorios comba- 
teram as orações do povo portuguez. O Index â4i 1624, 
prohibe: cTratados ou orações, ou para melhor dizer 
superstições que promettem a quem as fizer ou mandar 



(1) Op, cit,j p. 23. 

(2) Id., »., p. 26. 

(3) Mallet, Introd. à VHigt. de DanntínarCy p. 93. 



110 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

£Etzer, que alcançarão o que pedirem, como privança, 
grande vingança de inimigos, vencimento de dernan- 
das, ou que escaparSo de todo o perigo ou cousa simi- 
Ihante.» (1) Este uso, propagado com as colónias nor- 
mandas, prevaleceu no nosso povo por causa da medi- 
cina árabe. 

Por todos os paradigmas de symbolos, tradições, 
formas poéticas e superstições germânicas, se toma 
evidente, que só o godo-lite, que desconheceu a civi- 
lisaçSo romana, podia conservar estes vestígios da vida 
sentimental da sua raça. O árabe não influenciou or- 
ganicamente n'estas creações geniaes, por causa do seu 
isolamento de semita. O mosarabe assimilou simples- 
mente qualidades exteriores ; é por isso que a poesia 
popular portugueza permaneceu fecunda, e o que não 
seria, se a cultura clássica e a intolerância catbolica a 
não combatessem ha tantos séculos? 



(1) Op. ctó., p. 184. — No tempo de D. Jofto i se prohibiu 
o lançar varas para descobrir thesoaros. 



CAPITULO III 111 



Elemento árabe na Poesia popular portuguesa 



Erro dos historiadores acerca da influencia da poesia árabe. — 
Incompatibilidade da poesia árabe com o génio christ&o. — 
Lenda árabe no Nobiliário, — Existência do árabe popular. 
— Versifícaçfto oetosyllAbica. — A quctdra qo» AB C de. amo- 
res. — O romance mosarabo chamou -se antigamente ^rai;ta, 
por ser cantado por tonadilhas árabes. — Fectos tiradu3 das 
colónias hespaoholas do Peru, e das colónias portuguezas 
dos Açores. — A linguagem de aravia era uma espioi'; de 
giria. — Costumes' árabes nos romances do povo. — Cíirncter 
dos romances sacros. — O •Igrihait e salgribaU. — Instru- 
mentos músicos árabes usados pelo povo na Peninb.ilti. — 
Os jograes mouros na sociedade portugueza. — Os (vontos 
orientaes na tradiçfto portugueza. — A acç&o dos arabos na 
poesia da Peninsula, é exterior ; exerceu-se pela musiua e 
pela dança. 



Depois da invasão árabe no século vii, os mussul- 
manos foram cedendo terreno^ ao constituir-se o reino 
de Portugal, de modo que já no reinado de Dom Âffon- 
so III haviam perdido totalmente o dominio das regiSes 
do oeste; ficaram permanecendo no território portuguez 
fôrrosy com foraes e isempçSes até á cruenta lei de Dom 
Manoel que dçu como praso o mez de outubro de 1497 
para que os Mouros saíssem do reino. (1) Durante este 
longo periodo, o godo plebeu viveu em contacto com o 
árabe, já domado pela sua politica tolerante, e mais 
ainda pelos immensos recursos da sua industriarei ven- 

(1) Ordenação manoelina^ liy. n,» tit. 41. 



112 £POPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

cedor pelo facto de conquistadores christSos lhe darem 
essa superioridade. Do século vii ao seeulo xiii o godo 
tomott*Be Mosarabe ou imitad(»r do árabe: do século 
XIXI ao seeulo xv o povo continuou a reconhecer essa 
influencia sustentada pelos Mixtiaraiés ou árabes fôr- 
ros que viviam entre as povoaç3es christâs. Na Lei de 
Dom Manoel fala- se n^esta influencia sob. o ponto de 
vista religioso^ que era o que mais preoccupava os 
nossos reis fanáticos; (1) mas para que tal se desse, 
era necessário que a presença d'estes árabes tolera- 
dos pelos antigos monarchas produzisse uma revoluçSLo 
mais profunda na alma do povo. A lingua, os costumes, 
certas formas de industria, alguns cantos e festas indi- 
cam esta absorpçâo do génio oriental. Cumpre definil-a 
sem preconceitos e sem deslumbramento. Com relação 
á Hespanha, aonde o dominio árabe foi mais vigoroso, 
tem-se procurado determinar a acção do elemento mus- 
sulmano; a falta de um critério seguro e a má inter- 
pretação dos factos tem feito de umas vezes exagetal-a 
até ao absoluto, de outras negal-a até ao pyrrhoniBmo. 
Exporemos em primeiro logar o estado da questão, pa- 
ra assentarmos depois com mais segurança os nossos 
principies. Pergnnta-se se este colorido de paixão, se 
este sentimento exuberante, se esta metrificação fácil, 
se esta inspiração sempre prompta dos povos da Penín- 
sula seriam herdados do génio árabe? Em 1693, Huet 



(1) «... mas ainda a maitos cbristAos fazem apartar da ver- 
dadeira carreira, qae é a «anta fé catholica,» Ibidem. 



m ««» Origm»( dQ9i Romance,. ««açQtoiji qaj& aç. GcçjH^ 
oaviUbeiresoaii haviam «(ido introduzidas pelpei ar^b^c^ 
he^wsiboeq ; a^gaiu-o dapgia J^aaniQu, Quadriof ç. War- 
toa. O quQ Huet partiçulaíciftára, q abbade Ai^dres wa 
IIÍ9iQrÍ0 ck toim as léUteraturc^ ampliou ao pouto d^ 
dar á poQsia proyaaçal uma oo^igem árabe, dizç(D,dQ: 
ceate U0o doa baapanhocia voroQJarQm ua Uuguai na ri- 
ma Q na medida do9 arab/esi pôde dizer-ae com funda- 
mento a pcinmra origem da poesia moderna.^ Foram 
na piata do aabio je$uita bespanbol os bisto^iadorea 
Guinguenét Sismondi, e oa continuadorea da maioria 
Ktt^ruria 4a Fr^mça^ (1) António Joaé Conde derivou 
o rom^wice pçoinaular da poética axabe> e Fauri^l ain- 
da procurou na biatoria da poeaia provençal a influen- 
cia ara^, derivada da acfão que a cultura doeste povo 
exerceu no m0ÍQ dia da França. 

Em 1^9 a queat%o mudou de aapecto ; Dqzj, no aeu 
livro Jndagaçdes eohre a hi»taria politica ^ littemnç^ 
iaHespanha na edade media , negou a influencia da ppe- 
8ia árabe aobre a creaçSo da poeaia nacional, partindo 
do ponto que oa arabea beapauhoea, como oa do Orien- 
te, tinbam uma po^aia artiatioa, ariatocraticai de um 
aubjectíviamo lyrico summamente obscuro^ e por liodoa 
eatea caraoter0a inintelligivel para o povo. A ideia de 
Dozy, verdadeira emquanto á lógica da abatracçSo, foi 
applicada aoa romancea mouriacoa por Wolf, que oa n%o 



(1) Tioknor, J5R»f. de la lUter. eep,, t. iv, p. 169. Ed. hes- 
pauliou. 
8 



114 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

considerava participantes do génio árabe, postoque 
n'elles o tom lyrico e um colorido mais vivo e brilhan- 
te encubra uma certa ausência de sentimento. Mas a 
realidade e a vida tem também a sua verdade. Assim 
como ao lado da poesia provençal, producto da erudi- 
ção e das tradições latinas, se creou uma poesia vulgar 
e, por assim dizer, parasita d'ella, os cantos dos jograes, 
também ao lado do lyrismo artificioso dos árabes se 
criaram formas populares, que se communicaram aos 
habitantes da Peninsula. Mas vejamos da natureza mo- 
ral do árabe e do caracter da sua poética se era possí- 
vel uma imitação da parte dos hispano-godos, uma ad- 
missão ou nacionalisação das suas formas ; e também, 
se essa poesia académica e cortezã coexistiu com uma 
poesia rude mas simples, baseada na aceentuação, e 
corrigindo o lyrismo vago, pelas narrativas vigorosas. 
Entre estas duas theses está a solução do grande pro- 
blema, e o justo meio entre as exagerações de Huet e 
as negações de Dozj. 

Quando no século vi da nossa era se desenvolveu 
o islamismo, todas as raças semitas já estavam exhaus- 
tas; somente o árabe ainda jazia intacto nas suas fa- 
culdades e paixões, era chegada a sua hora de niani- 
festar-se, de absorver na sua lingua todos os dialectos 
não fixados pela escripta, e de oppôr ao dogma da Trin- 
dade indo-europêa, adoptado pelo christianismo, outro 
dogma não menos forte do Monotheismo semítico. O 
árabe a contar doeste período reconcentrou em si a vi- 
da da sua raça; diffimdia o seu domínio da Ásia até á 



CAPITULO III 116 

Europa á casta de um egoismo 8olitario> do arrojo das 
suas impressões, redueindo o universo í personalidade 
do forte, tendo a vida errante do deserto como supe- 
rior a críaçSo civil. Até ao século vi a lingua árabe 
&2o havia recebido fárma escripta; a contar d'este temr 
po manifestasse também a efflorescencia da sua poesia, 
resultado doestado moral que produzia o novo dogma, 
e a nova forma da linguagem. A vida errante trasia 
comsigo a necessidade da egualdade, a propriedade 
fondada na força, o direito dependente da audácia; for- 
mava do homem uni movei agitado pelas paixSes maia 
fortes e contradictorias, o amor e a severidade de cos- 
tumesy a vingança junta com a hospitalidade, o roubo 
a par com a abnegaç&o. NILo admira que hajam analo- 
gias com os sentimentos da oavalleria da edade media 
da Europa. Havia a necessidade de transmittir a me- 
moria dos feitos audaciosos das tribus, de levar muito 
longe o seu nome e com elle o terror; os próprios guer- 
reiros eram os poetas, que ás noites no aduar recita- 
vam os poemas do seu heroísmo; estes poemas repe- 
tindo-se, foram dando a unidade á lingua; originaram- 
se então os congressos de poesia, em Ocazh, em Mac- 
jna, e em Dzon Medjaz. Os poemas que se recitavam 
em certos períodos do anno n'estas cidades eram intei- 
ramente lyrícos, referiam-se á trifou do cantor, ás suas 
vinganças, á sua coragem, á sua hospitalidade; pinta- 
vam a magnificMieia da vida do deserto, a belleza do 
cavallo, a rapidez da gazella, e os encantos do oásis. O 
semita não se eleva ás grandes narrações, e nunca con- 



116 EPOPÊAS DA BAÇA M0SARA6E 

oeibett o dratna% A su» poema «ra indoinaranicavel ttí- 
mo o MU geoio. Tal é o perioda dhitmada ante^iBlanui- 
ticd*; ouja exiatenóia se oonhece pehis ^^àllafôàs, ou 
po«ma« approvados na» rodtaçSes. publicas d'Ocazb^ e 
pendurados no Kaba «m reoempeiita da sua bellessa. Os 
peregrinos d'ali levavam na memoria o novo poema, e 
ú espalhavam pelas tribus ^ ú6 passado» séculos è que 
teoeberam a fóifma tf scripto^ depois de bastante trans- 
formados na tradifSo oral. A fórma doesta poesia era 
nm oerto piirallelismo em que o |>eiaisameiito se distri- 
buía em dois versi^ulòs^ separados pela assonaneis. 
Este petiodo poético não penetrou na Europa senSo 
còiiio tradiçãiò murta^ e recebeu uma transiòrmaçâo ra 
dioal oom a unidade r^igiosa fundada pelo islamismo. 
Nem tinlta coildiçSeS para ser recebido pelos povos in- 
do^-europeus^ de uma comprehensâo mais funda más 
também maiti morosa, e de soa natureza simplificado 
ves,. preferindo sempre a verdade á rheturioa. 

Quando os Árabes entraram na Europa^ já a. sua 
língua attingira a fórma litieral) que lhe deu a supe- 
rioridade de todas as linguas somitiqas se ruma deiica- 
deasA, e riquea^a incalpulaveis; a sua pureza estava ao 
cuidado de certas tribus, princâpaltiaente às. beduinss 
ou erranlos^ quô julgavam a vida sedentária daa cida- 
des conto um meio de degeneraçSo* Entre os árabes 
das cidades enUravà como principio de dduoagfto o ir 
tiver por aigum tempo no dezerto, para adquirir a agi- 
lidade, a energia, a cora^m e a abnegação. Do pe- 
ríodo ante^slamitico coniservaram os árabes uma poe- 



1 



^AnWLO III U7 

8ÍA aptoFktwa eu gjàoniioa, ISofroqueatte ainda am ViOf^ 
togai e Heapanha^ a que ae ebama a qmdra ou «siantí^ 
aâlta. Diz wm aatígo a^lor avahe iciiado por Soyirtbi ( 
«Os antí^M ambas nâo tinham outra podsia «enio oa 
versos dâstaqatjaa; que eada tua proferia .a propósi- 
to.» ^1) Pade-se oonsídçrar esta fónma dos dii$ticosie<^ 
mo a Tuigar a coexistente com o o^elo A09 MoàlUneás, 
e a que presistiu jânda depois da rèdaeçSo do Korafi* 
Adiffixte inyestigaresnoB esjbe ponto. 

Na tKadifSo portugueza fí»neontra-Be nxm vestígio da 
poesia asabe dõ período em que principiou a niissSo da 
MahcMnet^ Ma historia Aos amores do joi^en poeáa Jáur 
i;skkioh^ q4ie pedindo em oasamecito sua prima Eama, 
fi&a 1^ Aitf^ este lh'a reousou, ^iseúdo .qii/e eta criaAt 
çft ^ pebre^ e se fosse nolbilitar era feiAos gnerFeti-^ 
w% {^raeiramente. Mumkikicli voltou passados aiioioa. 
rioo e ooberto de gloria; seu tio havia óasado Eaiiqa 
com um.sarabei opulento do Yéipen, mas occuIéxhí ao 
maneabo a (cnia upTa, diaendo que aua iSlha tuba mor-^ 
pido« O poeit^ vfi(m « /desoobir lO ictasaimento de «ua fru 
na, e»^aid mojribusdo^ lãesòmpaoifaadio por dota aacra-'-. 
Ym^ padrtiu para\a8 terras de Nádjiiua; o oansa^ pro»^: 
troB-0; e os tqftie o letr^awn^ dopoaenamnna em uma 
gruta e deíxMraiiir'iio por onorto. Tradoaúmois «gora a: 
seguinte passagem; .pim.appiro^imal-a da toidiçSo ppr- 
tug«fi»a: iMMArakJkidby ahaodQttado laseám e iir(9)tando> 
a sif ^ àâíssx^x^ aa.iCiaromia por um paftor i^ue 

(1) RenaD, HiH. gtneraU des Tjmgu^ éendtique$, p. 366. 



'N \ 



ÍÍS BPOPÊÂS DA RAÇA MOSARABE 

guardava os rebanhos do marido de Esma. -^ Âppro- 
ximas-te tu algumas vezes da mulher de teu senhor, 
perguntou Murákkich^ e poderias tu levar-Ihe uma 
mensagem secrçta? — Nfto, respondeu o pastor, mas 
eu vejo eada dia uma das suas escravas, que vem ordi- 
nhar o leite das minhas cabras, para o levar a sua ama. 

— Pois bem, disse Marakkich, eu reclamo de ti um 
serviço, de que serás largamente recompensado. Toma 
este annel, e lança-o no leite que a escrava leva a Esma. 

cA noite, á hora em que a escrava trazia o tárro 
em que bebia sua ama, o pastor ao deitar-Ihe o leite, 
também deixou cair o annel. Âo beber, Esma sentiu o 
annel que tiniu contra os seus dentes, tomou-o na mSo, 
olhou-o ao clarão do fogo, e conheceu por certos signaes 
que n^elle gravara quando outr'ora o dera a seu pri- 
mo. Pediu explicações á escrava, que também estava 
espantada. Então ella chamou seu marido e lhe disse : 

— Manda chamar o pastor das tuas cabras, e sabe 
d'elle d'onde lhe veiu este annel. O pastor respondeu : 
— Eu recebi este annel de um homem que encfontrei 
na caverna de Djebban. Pediu-ikie que lançasse esse 
annel no leite destinado a Esma. Fiz o que elle me 
mandou. Quanto ao mais, ignoro o seu nome e a sua 
tribu, e quando o deixei na caverna estava quasi a 
expirar. — Mas a quem pertencerá este annel, pergun- 
tou o marido á mulher? — É o annel de Murakkich, 
respondeu Esma; está a expirar, apressemo-nos a ir 
buscal-o.» (1) 

(1) Lamartine, Histoire de la Turquie, 1 1, p. 79« 



CAPITULO m 119 

Esta mesma peripécia se reproduz na historia do 
Rei Bamiro que procurava sua mulheri que estava em 
poder de Abencadão, contada na ingénua prosa do 
Livro velho deu Idnhag&M: ce huma donzela que ser- 
via a rainha levimtouce pela menhS, que lhe fosse pela 
agoa para as mSos ; e aquella donzela havia nome Or- 
tiga; e ela na fonte achou iazendo rey Ramiro , ^ nem 
o conheceoy e el pedio-lhe dagua pela aravia, e ella 
deulha por um^autre, e el meteo hum camafeo na boca^ 
o qual camafeo havia partido com sa molher a rainha 
pela meadade; el deuse a beber, e deitou o anel no 
autre, e a donzela foise^ e deo agoa á rainha, e cahiu- 
Ihe o anel na mão, e conheceo ela logo ; a rainha per- 
guntou-lhe quem achara na fonte; ella respondeu que 
não era hi ninguém : ella dice que mentia^ e que lhe 
non negaoe, ca lhe faria por onde bem, e mercê : e a 
donzela lhe dice então que achara hum mouro doente e 
lazarado, e que lhe pediu dagoa que bebece, e ella que 
lha dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce por 
d, e ae o hi achasse que lho aduceisse.» (1) Em vista 
doeste paralello, é fácil de concluir que a tradição árabe 
86 naturalisou em Portugal, accommodando-se ás nos- 
sas lendas nacionaes; não tinhamos os rebanhos como 
as tribus do deserto, mas uma fonte traduzia ainda a 
mesma ideia; acolá tinha sido a amante do poeta que 
fôra casada á força pela avidez interesseira de seu pae, 
aqui era a mulher que fôra roubada ao Rei Ramiro; 

(1) Mon, Hut.f Scríptores, p. 180. 



tíá EPOPÊÂS ^A bAÇA ^atOSARABE 

Àttibos a6 ^uêitiatii tèf e mxibos ém|)i^egflrâ!ni 06 mesmos 
mieiod. Bdta tradiçSò "peíi^enee fto cycb ém ntoêMacàts, 
qtte ftndaraín na memoria das tribus «té receberem fiv" 
ma esòripta; ièmaii9 natural qtxe fosse «ommimieada pe- 
hiB relaçSes àas ciasses inferiores, como mn -dosmttitos 
coutos do oriente, do que pela impressão directa rece- 
brdà do poema. 

'Com o áppareeknMto de I^ahomèt, a poe1$&a árabe 
recebeu tmia transformação radical^, o alliò purismo a 
que ^ra lèvadà a lingua exigia o principio da quanti'^ 
dade (1) como base da metriãcaçSo. 'Os povos neo-la^ 
tinos nSo podiam gosar a magia â'esses versos, porqtte 
nBt) percebiam a ^uaíntidcede latina, que sttà pêlos poe^ 
tas clirl^Sos Arti abandonada pe}a tKecimt«a$ab. Àsmm 
as escbolas de poesia árabe em ^í^^Wà »o século V, «em 
Sihres e Stotarém no secub Vi, e em Meftola no se- 
tíiâo Vil, d» que ftila Ribeiro fios Santos (8), nfto po- 
d^áni dei^r ^^lestigios da sua Ctíltura entre as *povoa- 
çSos mosambes, que se revelassem depois de eonstitm^ 
da^ n^omdifladè portugueza. INtto obstante, Álvaro 
de 'Córdova, no índiculú» tumtnosftís, faia da imitado 
da poesia árabe pela mocidade t^hriíM: «Et dum^eorum 
versTbus et fabellis mille suis délectamur eisque in- 
servire, rei ipsís nequissimis dbsecundare "etiam enn^ 
mus ...» Álvaro de Córdova liSo condemnava a po^ia, 
más 08 requintes da vida palacSana a que éUà letndava 



ri) Renan, ib., p. 3^2. 

(2) Memariae da Am&ania,% vu^p. 896. 



OáPITCTLO in »» 

HgÊÃA Ha efcHe 408 kaUJTaft d« Ooi^do^rm. Retiiui, o» sua 
admiavel íRiBiúriu gér^l da» liwgws» ãemitieas, earno- 
terisA a <lvftxiBfoFinBç8o da paes^a «rabe d^MMB de Ma^ 
homet'; Mando da prosa, ^e perdeu a suafiiapma oa- 
dencíada ^bx^ «e tomar correhite; >di s da poesia : c etlta 
mesKta «soffipeu «ma transfermaçSt» a&aloga; sté entfto 
havia sido 'mtre os Semitas puvai»eiite fèjrthmioa, ntto 
86 distinguindo da prosa a nfto ser por um arranjo de 
phraee mMiai arti^ioeo, por trooâNlíttiOs dè pifldavras e 
de Icdras % por am «oeírte eaptiioho dè ttmas. Destina* 
da a eicprimir sentínienios mdÍTÍ4hiaes e si tttaçBes ti^^iMH' 
itotias, eHa SueMUáTa na tradi^ sem -oh^gar tmnoa à 
xan leittte fisado Byllai>a por cryjlaba. A partíí* do<«ecu« 
lo que precede o ifllanmméy ao contrario, *a'poeaâa'tet- 
im*se ^Simdíta, acrmptieada, isujekaia^Qma yposodiaviMn» 
afastada de génio primitil^o dasiingua8«eniitioi». UnMi 
singular oi^igimilídade de inspiraçSo sustenta etMq es* 
tas OMipèBÍ^s :iiMi pottoo aiDiimes tatá líScmaj ima«, 
depeís^ islamitftíiO; a poee^a dase^rada .pelo:Prepb^ 
ta, ^ril»«âa das $n«ti%U909én que* a>(fi|»t«iiíi <vnf^j ^i^oím 
rspídKtmeate. Stla se eofi/tiniÍMt aíadia 'np d«s6rt0 por 
«hu» «ni^lreB géTa<;^s de poetas l»edutnos, quMtoi^xtrai^ 
idios '80 i«iianfi#mo; 'depois, úê progressos da vcKgifts^ 
myra, as cemmoçCds pw^itioas *e o abaiacamonto 4tSL raça 
ars%e, quairi'C[ui9]Íie>es<kitfgueiii«o« véstigios. Ibaaspor» 
tâida4o éeseito para as e&^les da 43jTÍa, da Bsiwia;^ 
Sâtaiíasan^ 4e Maivoom, 4e ^Hespat^m^ ^a pbenii aidbe^> 
nas mSos de Monténabbi, d'Abulalá, e de seus imita- 
dores nSo é mais do que usHt (mrilwii<W»; a>dteioada 



IS2 EPOPÊAS PA BAÇA MOSABABE 

ves maia, em consequência da inflnencia persa^ na affs- 
ctaçSo e no mau gosto. Mas é preciso lembrar^ que o 
génio semita nSo entra por aada n'estas miseráveis 
sttbtileiBâs. O gosto semítico é de si mesmo, sóbrio, 
grande e severo, e nada tem de commum com esse es- 
tylo detestável que se costumaram a chamar oriental, 
emquanto a responsabilidade d'elle deve pesar sobre 
os Persas e os Turcos.» (1) 

Por esta tàese fundamental se vâ que o g^iio aiya- 
no do godo nada tinha que receber da poesia islamiti- 
ca que o fecundasse; que essa pompa de estylo devida 
4 influencia persa e turca, nSo condissia com a f^^rma 
gnomic|t< dos disjticos populares, e que a primeira pre- 
valeceu nas cortes com quem os colonos godos nSo ti- 
nham conununicaçSo, em quanto a segunda era im- 
provisada sc^gundo os actos da vida a inspiravam. Co- 
mo podia o génio gothico deslumbrar-se com a poesia 
dos árabes, se elle recebera com a organisaçSo da sua 
raça o. apanágio das grandes e assombrosas legendas, 
a propriedade dos symbolos eternos, as ficçOes mais gra- 
ciosas, e se a poesia do árabe era de um lyrismo pecu- 
liar á vida isolada do deserto, ás predilecçSes pessoaos, 
nSo tinha o vigor da narração épica, nem se fundava 
sobre uma mythologia? Dozy tinha rasSo quando ne- 
gava a influencia da poesia árabe nos povos da Penin- 
sttla; mas nSo viu a segunda face da questSo. Assim 
como a par do árabe litteral, artificioso e puro, se cieou 

<1) Beaan, Op. eit.^ p. 382. 



CAPITULO III 128 

o árabe oral, falado pelo poiN>, reduzido á simplicida- 
de nataral, devera também criar-se uma poesia adequa- 
da a esla forma de uma linguagem nascida para pw 
ella se oommuniearem. Uma das distinoções entre o 
árabe litteral e o oral, era que este ultimo faaia p(Nr 
meio de prefixos o que o litteral &2Ía pela combinaçSo 
das vogaes finaes ; esta predileoçSo pelos prefiacos é uma 
das qualidades distinctivas da riqueza do hespanhol e 
do portognez. O árabe vulgar tinha a prosódia da oo^- 
centuaçâo, já abraçada pelos povos neo-latinos, e intro- 
duzida nft poesia litúrgica por Sam Dâmaso. Bouter«- 
weck copia uma passagem do Koran, que, posta em 
caracteres romanos, é oomo um modelo das estrophes 
da redondilha octosyllaba dos romances monorrimos. (1) 
Sem saber essa> Ungua basta Idr os versos árabes escari- 
ptos cofD oe no9Sos caracteres, para reconhecer a inSaen^ 
eia que os monorrimos dos Avabes tiveram sobre a anti- 
ga poesia castelhana. Vede, por exemplo, esta passa- 
gemado Koraa : 



Va Soiamsi, va dhohàha, 
Vai Eamari eda talàha, 
Vau nabari eda giallàha, 
ValLaili, eda jagaeiéha. eto.» 



O insigne arabista Dom Pascual de Gayangos, aor 
notando a Historia da Idtteratura hespankola de Ti- 
cknor, citando as objecçSes de Dozy, diz: cpero creê- 

(1) Eiêt. de la LUt espa^mU^ t.vV, p. Z8. Ed. êk 1812. 



1M EPOPÊAS ODA BAÇA HOSARABE 

mds^ Aimqne el' lo megne^ que Ipi ' aarábes espMfioles 
teniftnMifeaHibíeii •» poasia vnlgar ml aIaaBxe:jd(Ei laa mes^ 
aas dd-piiisblojiquefiWbafoesiA prodiajo.oantacM, oajo 
oantfsliér j^ auinle tu^ cisnfeos puntos- deiOMitaote oon 
Ift ^Qflia Fulgar espa&oh^ Atendiia fe difeisenoia de re« 
ligioa 7 «oMtinabrefi»» .(1) Afgcéej áe M«1íd8^ do 2)£ti- 
auprao B0brs la Pjowíç. >€spah^, traz eikdexas eaeriptat 
em 'lúrali^ vulgar; i(ã). estos cantos pebrteBbeift á. perda 
de.OsaiKaãa,- mas patni atestar a «íia elJatencijib tios se»- 
oubB fMtoxinosá invasabii ^armeeaà, temi» «ira «loio ior 
dineoto^ mas batíaiiíteieoQQdo em resultadosi. Em quan- 
ta Ji poesôia .ambe daa. cortes oe âoatneganna; a v^m Ijriia- 
mo iwqmitaAo; .a reoitatívos certifiQâaes^ entre lo 'poRro 
d^seBíMQiTia^feaébiii&inmiTátiKa «do AUiadiés^ ou con- 
t(Mt ivkij^f historia «m werBo-y de .que itaDie cieiecisa fOr 
ra 4àr íiacma áa ttrfdiçSQS :^nn«iijea8 ique aânda »(MHir 
seUTttki» náominBmáç jMsa/expbear (este igosto ee pmt^ 
bea iáfianfaiMês iofimaay ^fi;seiíaih-8e feantmies aml»ii]an* 
tes, e crearam o estylo aljamiado, Vejattoe kls Mme*- 
teres artificiosos da poesia palaciana. 

Masdeu recopilandioiOasirí áeevoà^la^oetica árabe, 
escreve: cOs árabes x&o escreviam .fpemas épicos, 
nem comedias, xiem tragedias que mereçam rigorosa- 
mente este nome,' mas sim elegias, satyras, epigram- 
BMus.e ijutras conipeaiçSeô semQhaiEtefi. Das <0dfis, ique 
por seu ^arte>e, artificio tpodBm cotejarsseiòttD ais lAetfio^ 
• • . * ) • j • • • ■ • . . • 



$ 



1) Op, oU.j t. I, p. 514. 



GAPITULO m fie 

r$tioy Soi prnqeim ioveiiÉor um odebre poeta oordotm, 
chamada ;Alittiad^ filha ÒB Absabx, a «faeni iaútarftin 
deede Ic^ raiiísH hespanlioca consecutívmiiiefite tis 
Qríeiítaes* . A m jthologimr cem qoe os Árabes adornam 
as anãs csmipoaiçdea poetkas, não é a grega^ nmi a ro- 
mana^ s^silo ouiara particular^ que elles próprios forma- 
ram segundo o génio da sua religilo é oostnmes. 

cO Terso oompSe-sfr de péi, e estee de: syllabas itnó- 
vidoã OQ gmieéMj isto é, longas ou breves. O pé da «yl- 
laba^ ebamat^e eúrêa], e: o de tfez, obama^se j»da. Ha 
cordoe ligeiroi^^ cardas pet^doi^ páoe unidúê, e páús 
zeparadas^ A covda ligeira tem- uma syllaba movkla e 
outra quieta; e ai corda pesada di^ui «yliabas movidae. 
O páo tem sempce três syliabas^. duas moridas e itma 
quieta; <diama-se páú unide, se as duas sylfaibas mo- 
vidas esifto juntas entre si^ dando á quieta o tevceiro 
logair; e 4eiiamína-se páa eepomido, quando as duas 
moví<da»t6stãii> desuni das/ tendo em meio a quieta.' Qs 
versos dS6 .de cinco medidas di&centes: omoêtafelon, 
eompõeH»e de uma eorda ligeira^ um páo separadp, e 
outra cQrda semelhante; ofaul<m^àe um páo uniido^ e 
uma corda ligeira; úmaUrfismhn, de uma corda pesa- 
da, outra ligeira^ e Um páo unido; ofailaton, de> asm 
corda ligeira, um páo unido, e outra corda como «^an- 
terior; o mofaUaton, de um páo imido, uma corda pe- 
sada e outra ligeira. Divide-se cada verso em dois 
meios versos, que chamam portas, e cada porta em 
outras duáft portas, a primeira chamada entrada, a se- 
gunda preposição ou assento. O consoante arábico oon- 



JOB EPOPÊAS ' PA BAÇA MOSAB ABE 

Partegal^ e étainb umal > aa& oolMáas do^ Áechi^elago 
açoriano, o mesmo facto se dá em Hespanha^. a(mào esse 
termo está substituído pela palavra romance, mas se 
conserva nas colónias hespanholas da America do Sul. 
A aravia é também aioda boje aaowp wba4a á guitar- 
ra, a quitarce, que tomamos dos árabes. 

Nas pqp^lji^ões hespanbolas dos Andes, usa-se a 
palavra Yaravi, no sentido de poesia antiga, que se 
atcompittiba á guitanm. «Em um Uvro de S9eam9 é pai- 
õagrniê dm Ande»/ àeBmí Marcffojy «e lê: cchantait 
nn Yaravi, eo; a^aoeoiBpiigiiant snr 4a guitarra.» Em 
nota explieatÍTft,! define Yoirem: aPoésie ameionne^. qui 
m ehante suruft mode lent et tripte...» É esta o ci^ 
racter 4m> velha» aravf(W portuguezas, coma aiodUi 
se. usam nas illpyaç dos Aforea^ Se Marcroy conhecesse 
à origem da palavra atratna^ dBo daria á Yurwi a ety- 
molo^a f cd«. Yar€WÍ€u, poete ou plutôt rkapsQde, da 
tempa des Ineas.» (1).A YwrfMi, é a Q«rrup$âo caaie- 
tbfl^na dft páJayjra tmma, introduzida peles soldados 
hespanhoea no século xvi, aquellea para qiiein tam.bevi 
nos Faixes JBfMxoa ! se imprimiram ascoUeeçoes de ro- 
mances. Este faeto deseob^o por ujiíi esctiptoar que 
ike n3o.o(Mibeoiao aicance, mas por isso mesmo. ii^sus- 
peito, prova que a designação de arcwia era commum 
no século x v a Portugal e Hespanba* Deve porém ter- 
se em vista, qoe & palavra aroma íoi empregada pelos 
éscriptopes daesicos, e pelo povo; os eruditos usaram- 

(1) Of ctí., p, 61. 



I I 



OAKTITLO III «9 



DA no sentido do «rabe oonrupio, de geritígoíiça) de 
embuste, e ás vezee de oanto; o povo aerviu^ae sem- 
pre para designar com ella os oantos heroieos e sein- 
timentaes; até ha bem pouco tempo nSo tinha este 
sentido sido admittido nos Diocionarios da lingua, 
pela rasão dos nossos le:!s:ieographos nunca oonsul- 
tarem a linguagem oral. Paulo Marcroy cita uma 
trsdiçSo da cidade de Puno^ no PerA, aonde a palavra 
arama é asada oomo. canto nacional; é a Yaraivi do 
Padre Lersundi... cperguntet á senhora Matara, quem 
era este padre Lersuudi, cujo nome revi via em um 
csnto nacional?-^ Um Excommungado! disse a ma- 
trona, um homem que sem respeito pelo seu santo ha- 
bito, se enamorou loucamente de uma rapariga sua 
parochiana. Esta morreu e foi levada a enterrar; mas 
o padre Lersundi combinou com o coveiro, que, nanoi- 
te seguinte a tirou da cova e a levou secretamente a 
casa do cura. EntSo este despregou o caixSo, tirou a 
morta, e tendo-a assentado em uma cadeira, rodeada 
de cirios, se prostrou diante d'ella, e começou a fazer- 
lhe. declarações de amor, que misturava com gritos e 
gemidos* Quando a defiinta começou a cair de podri- 
dão, o padre, obrigado a separar-se d^ella^ oaVou-lhe 
orna sepultura dentro em sua casa, e antes de a enter- 
rar, despegou uma das pernas do cadáver e fez do 08< 
80 uma gyueyna com cinco buracos. Durante cinco dias 
o desgraçado nSlo fazia outra cousa senSo gemer e so- 
prar n'esta flauta, cujo som, diziam que gelava a me- 
duila dos ossos. No fim doeste 4;exnpo os visinhos, nâo 



190 £P0PÊA8 DA BAÇA MOSABABE 

o onrindo mais, entraram em casa do padre e acha- 
ram-no morto, tendo a sua flauta entre os braços. O 
Yarqm que ides ouvir foi composto por elle durante 
esta semana lúgubre...» — 

cOuvindo esta explicaçSo que me fez estremecer, 
Anita, o melhor que pôde, afinou a guitarra, e com um 
gesto iterativo de sua mSe, começou a preludiar; ini- 
mediatamente cessaram as conversas, cada um tratou 
de se chegar, e a executante, cercada de uma roda de 
ouvintes, entoou com uma voz áspera e plangente a fa- 
mosa Yaravi em la menor, a qual nSo tinha menos de 
dezeseis coplas. Permitir^me-hXo de citar aqui a pri- 
meira como amostra : 



Querida dei alma mia 

Mientras yaces sepultada 

En tu lobrega mansion, 

Ta amante canta y Hora, 

Al recordar-se el passado, 

Mas sus cantos y gemidos 

Que yà no puedes ouvir, 

Se los va Uevando el vieiíto.» (1) 



Por estes versos se pôde conhecer a forma da Yara- 
vi: é em verso octosyllabo, na redondilha dos roman- 
ces peninsulares, em assonancia. O espirito dWa com- 
posiçSo é lyrico como os mais antigos romances popu- 
lares do século XV, como Fonte f rida, Rosa fresca, ¥o 
era mora Moraima, e outros. 



(1) Paul Matcroy, Scenes et Payêagee dana les Andes, p. 
240. 



CAPITULO III 131 

Em um estudo de Elisèe Redus sobre a A Poesia 
e 08 Poetas na America hespanhola, publicado na Re- 
vista dos Dois Mundos, em 15 de Fevereiro de 1864, 
também cita a Yaravi como a única forma da poesia po- 
pular que aí se conserva. Traduzimos esse trecho, que 
é para nós de uma alta importância ethnographica: 
(Antes que a guerra separasse violentamente as coló- 
nias hespanholas da mãe pátria, os diversos grupos de 
creoios dispersos no âmbito do continente colombiano, 
não formavam mais do que uma nação de mudos. Á 
liberdade de linguagem foi deixada somente áquelles 
a quem o espaço protegia, aos llaneros, que corriam a 
cavallo as vastas solidSes, aos bogas ou barqueiros que 
vogavam de recife em recife, ou remavam sobre os 
grandes rios, sem ter outra pátria a não ser a sua bar- 
ca. Estes, nascidos viajantes e livres, eram poetas a 
seu modo; cantavam para se distraírem nos plainos 
desertos ou para acompanhar o rumor cadenciado dos 
seus remos. M. Samper, diz maravilhas dos gallerones 
compostos pelos pastores nas savanas neo-granadinaà 
de San-Martim e de Casanare (1); mas elle nSó cita es- 
tas cançSes, que se perdem sem ecco. Apenas se conhe- 
ce um pequeno numero de Taravi peruvianas, gracio- 
sas poesias de amor, que brilham a um tempo pela fi- 
nura e ingenuidade, e que se parecem com a de todos 
08 povos infantes, principalmente com os ritomdli dos 

(1) José M. Samper, Ensaio sobre las revolueiones poUH- 
cos y la condicion social de las JRepublicas tiolombianas. Paris. 

1871. 



132 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

Toscanos, tanto é certo que os meemos sentimentos se 
manifestam por toda a parte do mesmo modo. Citare- 
mos em hespanhol duas Yaravi^ para lhes nSLo tirar a 
delicadeza e graça que as distinguem : 

Pajaríto verde, 
Fecho colorado, 
Eso te sacede 
Por enamorado. 

^ Aun entre las flores 

Se suele observar, 
Tributar f ragancia 
A quien sabe amar.» 

Em uma nota accrescenta Elisée Reclus: «Estas 
Yaravi foram trazidas do Peru por um viajante fran- 
cez, M. Berthon.9 (1) Em vista d'este facto, a revelaçiio 
de Marcroy tem mais valor. Nem Jacob Grimm^ nem 
Depping, Duran ou Fernando Wolf, conheceram este 
bello facto, em que a própria designação popular de 
aravia revela a influencia do canto árabe sobre a ry- 
thmica em que os mosarabes moldaram as suas lendas 
épicas. N'um dos mais antigos romances faespanhoes, 
de origem anonyma, cita-se este termo ainda nSo con- 
traído como está actualmente: 

Yo me era mora Moraima, 
Morilla de un bel catar; 
Christiano vino á mi puerta, 
Cuitnda por me enganar: 
Hablóme en algarahia. 
Como quien la sabe bablar. 

« 

(1) Revut des Deux Mondes, t. xlix, p. 908. 



CAPITULO III 188 

Segundo Ochôa este romance, tirado do Caneione^ 
ro de Romanceê de Anvers, de 1555, pertence ao sé- 
culo XIV ou xy. Em Portugal já se achara a palavra 
dgarabia contraída em aravia, na cançfto popular do 
Figueiral, e na Memoria avtdea de Santa Cruz de 
Coimbra. (1) Em outro logar fizemos a historia d'es^ 
ta palavra: Arav%a,em sentido próprio, a linguagem 
árabe ou arábica falada pelos naturaes da Arábia; es^ 
te sentido obliterou-se para designar depois a lingua- 
gem árabe corrompida pelos chrístâos que conviviam 
em contacto com os árabes, e também a linguagem 
yolgar ou vernácula em contraposição a ládinha. É 
empregada pelos escriptores do século xiv. No sécu- 
lo xv e XVI, começou-se a empregar no sentido de gi- 
ría própria para embustes e trapaças, como se vê pelo 
Cancioneiro geral de Garcia de Resende. No Diccio- 
nario da Academia vem todas as auctoridades que abo- 
nam estes sentidos: «Especialmente um dia Frei Ber- 
nardo que d'elles era o mais principal, e melhor sabia 
arábia,., 1^ (2) «Dizendo que a estas terras nXo podiam 
ir se não soubessem aravia.w (3) «E dizendo clausula 
e clausula, lh'ia tomando (a instrucçSo)em arábia Jacob 
Rute. (4) «Ninguam me fale aravia,j^ (5) «Uns vereis 

• 

(1) Vid. as auctoridades dos Cantos do Archipelago, p. zi. 
nt\ Rujr de Pina, Ckronica de Dom Affonêú II, cap. 9. 

(3) Francisco Alvares, Verdadeira informação doa Terroê 
ie Preste Joãê, cap. 103. 

(4) Álvaro Pires de Tatora, Hiãt, do» Vmòeê iUuêtres do 
dfpeludo de Távora, p. 28. 

<5) Jorge Ferfsjrár de VaseonosUos, Áukjg/ràj^tíé. aqt» n* 
BC. 10. > * . . ^ ■ 



184 EPOPÊAS DA RAÇA M0SARA6B 

que nSo falam senão a aravia do inferno^ como são os 
que pedem a Deus favor pêra cousas dô offensa sua. » (1) 
— A palavra arábia ou aravia emprega-se na lingua- 
gem popular no sentido de romance ou lenda cavalhei- 
resca em verso de redondilba; este sentido falta em 
todos os Diccionarios. A poesia popular portugueza es- 
tá mais obliterada no continente do que nas ilhas dos 
Açores; é por isso que a palavra aravia ficou nas pro- 
víncias do reino completamente esquecida. A poesia po- 
pular está nas ilhas dos Açores no mesmo estado de pure- 
za em que para ali a levaram os colonos do tempo de D. 
Duarte; esta poesia dos Romanceiros é privativa da raça 
mosarabe, fundo ou elemento originário do povo portu- 
guez; :a forma épica dos romances é uma modificação do 
génio germânico sob a influencia do lyrismo e dos can- 
tos árabes. A prova está na homogeneidade entre os Fo- 
raes e os Romanceiros. E por isso que a designação de 
aravia explica por si este bello probfema ethnographi- 
co.» (2) Consideramos a influencia árabe como exte- 
rior^ exercendo-se apenas no rjthmo, pelo canto dos 
jograes vagabundos; como prova temos uma.passagem 
do Padre Fernão Guerreiro, em que a aravia se em- 
prega no sentido de canto : «EUe começou a entoar hua 
aravia^ de que nada lhe entendemos.» (3) E de que ou- 

• (1) Frei Filippe da Ijuz, Sermões, Fart. ii, liv. 2, fi« 51; 
col. 3. 

(2) Frei Domingos Vieira, Theaouro da língua portugueM^ 
t T, p. 521, completamente refundido pelo anctor d este livro. 

(3) Jtelaçôes ai\iniae8 das cousas que fíxeram os Padres da 
Gompadbia de Jesus na índia é Jatyfto ie^ie oe aonot ie 16DD 
até iBD9y vol. o, livi 4, dip. 3. 



CAPITULO m 1S6 

tra forma poderia o Árabe commanicar-Be, fundir-se 
com o Gk>do-litey Be elle era de todos os ramos da raça 
semita o mais reconcentrado, o mais tenaz e senhor de 
si mesmo? Analysando as palavras que os árabes dei- 
xaram na lingua hespanhola e portugaeza, diz Engel* 
mann: «Salvo algumas raras excepçSeS; todas estas 
palavras sSo nomes concretos, que os Hespanhoes re- 
ceberam com a cousa que designam.» (1) 

Antes porém de vermos como o árabe influiu na 
poesia popular da Peninsula por meio da musica^ veja- 
mos se alguma iniitaçSo vaga doe costumes da raça se- 
mita penetrou nas epopêas mosarabes. Em uma versSo 
de Reginaldo, da Beira Alta, quando o pagem está pre- 
so para ir a morrer, canta: 

Tenho aqni dois passarinhos 
Que me trazem alcanfôres; 
Élles Yfto e elles vem 
Com novas dos meus amonss. 

Em uma nota perguntava Garrett: €Alcanfdr^f 
e, trazer cUcanfdrest quid?» (2) A resposta está em Frei 
JoSo de Sousa: cOs Mahometanos usam muito do ai" 
cahfôr (alcafurj gomma aromática, que depois de ou- 
rada se faz branca) principalmente quando amortalham 
08 seus defuntos; embrulham um boccado de cUcanfâr 
em algodSo em pasta, e com elle tapam os ouvidos, 

Op. ctt.| p. s* 



1) Op, est., p. s. 

[8) Qarrett, àtúmanctín^ t o, p. 167. 



IM EPOPÊÁS 0À RÁÇâ MOBARABB 

ventBê e vià posterior do deftmcto pafa impedir o flu- 
xú do9 humoreB corraptod. » (1) O prisioneiro queria 
dar a entender qne estava perto da ínorte; isto se con- 
firma quando o rei pergunta; á filha^ de quem é aquelle 
cantO; e ella lhe responde que é do 



tríàte Sdm venturft 

A qtem mandae» degoUar. 



A influencia árabe conhecesse em alguma^, curaete-* 
ríetioas exteriores dos romances; no da Bella Infaêirda, 
da Beira Baixa^ vem : 

Um móe o cravo e a csf^lla 

Outro móe do gerzerlim, (Do sx&he jelzdim.) 

Nos cantos populares encontra-sa bastantes vezes o 
costume árabe de se deixar á mtilber o deéidir certos 
pleitos. Aqui se dá outra vez a aliiança entre o direito 
é êí poesia da raça mosarabe; assim nos eostamea de 
Sanfiai^em se iè: «coetume é que sò alguém que tenha 
pleito disser qtie está peias dedlaraç6e« de alumia boa 
dona (mulher da classe mais elevada) que vS» a> casa 
d^ella receber^lh'as q alcaide e os alvasis, nSo setde mu** 
Iherquev^ao tribanah » (t) SFos Cantos populârea lie»« 



f »• 



(1) Vestígios da U^gua arahicay p. 2T. 

(2) Inéditos da AòOÃemiai t: it, p. SÊÍB, *^ 



CAPITULO m 1S7 

panhoes apparece uma mulher fevogaindo nma senten* 
ça de morte. No Romance anonjmo El Palméro: 

Qae no hijo solo que tíenoB 

Ta lo mandas ahoroar. -^ 

Oido Io habia la reina 

Que ae lo paro a mirare : 

«Dejedeslo, la justicia, 

No le querais hacer male. . . (1) 

No romance de VirffilioBy quando o rei se lembrou 
de ir vêr o seu prisioneiro, diz-lhe a rainha, exigindo 
a sua liberdade r 



Despues que bajamoe comido 

A VergilioB vamos ver. — 

Alli hablára la reina : ! 

''^To no comerá sin el. 



No tomance português do dmde da AUemanha, o 
namorado é condemnado á morte por sentença da prin* 

ceza : 



— Dize pois^ oh minha filha, 
Que castigos lhe heide dar ? 

« Quero escadas dos seus ossos 
Para o jardim passear. 

— Gal-te lá, oh minha filha, 
Vamos p'ra meza jantar, 
Que á manha por estas horas 
Vae o Conde a degolar. (2) 



(1) Ochoa, TesorOj p. 5. 

(2) Ro7mnc(Ah> géfíúy n.^40,.f« '^^^ 



198 EPÒPÊAS DA RAÇA MOSABABE 

No romance de Jóãosinho o Banido, é sua mâe 
que o sentenceia: 



Nfto mateis o nosso filho, 
Qae bem custou a criar ; 
Maodae-o pVa longes terras, 
Fora do céo natural. (1) 



Como vestígio doesta influencia exterior^ encon- 
tram^se vários termos árabes nos romances insulanos. 
Engelmann, considera malado, como nome árabe dado 
ao que nasceu de um árabe com uma christS; este sen- 
tido é mais moderno que o dado pelo direito germani- 
CO, mas um não derroga o outro« Ás palavras hajú, ves- 
te curta usada pelos árabes, bizarria, belchor^ corrup- 
ção de elche, e gibão, são signaes de uma coexistência 
material com uma raça civil isadissima mas inaccessi- 
vel quasi ao cruzamento. No romance de Bemal Fran- 
çoilo : 



Trago-te saia de g^ana 

£ baju de carmezim. (N.<^ 8.) 



No romance de Dom Varão : 



Von*me a casa do alfaiate 
Fazer apertado gibão, (N.* 11.) 



(1) Omtoe do ÁrakifeUigo,^**' 17, p« 230, 



CAPITULO III 1S9 

No romance de D(m> João, Rei da Armada : 

Aondo vinha um hdchor 
Que na reta-guarda vinha. 
— Dizc-me tu oh belchor 
Que navios traz Turquia? 
>Se Dom Jofio me perdoa, 
Eu tudo lhe contaria. (N.® 45.) 

E também : 



Eu nfio se me dá doe navios, 
Eu outros de pau fazia ; 
Dá-se-me da gente d*elle8 
,Que era a flor da bizarria. 



Nos Romanceros hespanhoes é mais evidente a in- 
fluencia exterior dos costumes árabes. O romance de 
Moriana y el Moro Qalvan é uma situação da socieda- 
de mosarabe; a festa de Sam JoSo^ do kalendario go- 
thicoy renova-se nos costumes populares pela presença 
dos divertimentos árabes. Eis como se descreve esta 
festa no Roínance de la Batalha de Roncesvalles : 



Vanse dias, vienen dias, 
Venido era el San Juan, 
Donde christianos y raoros. 
Hacen gran solenidad. 
Los christianos echan juncia, 
Y los moros arrayan, 
Los iudioB echan encas, 
Por la fiesta mas honrar. (1) 



(1) Ochda, TVflOn^ p. 67. 



140 EPOPÊAS DA RAÇA MÔSARABB 

Nas cantigas populares do Minho também se re- 
pete : 

Que festas f arfto os Mouros 
Em dia de Sam João ? 
Correm todos a cavallo 
Com canas verdes na mão. 

Nos romances portuguezes o tempo da acção deter- 
mina-se pela festa de Sam João. Também se vê as tra- 
dições gothicas e os costumes árabes contradizerem-se 
na poesia : temos o e2:emph) no romance de Santa Iria, 
em que, segundo o costume do Foral de Santarém, se 
nega pousada ao cavalleiro peregrino, e ao mesmo tem- 
po a lenda de Jesus Mendigo em que se incute no povo 
o sentimento da hospitalidade por meio de uma piedo- 
sa allego^ia. 

Os nossos emitos d desgarrada são derivados dos 
costumes árabes. Fauriel traz uma descrip^ doeste 
systema de improvisação árabe, que é tal como ainda 
hoje faz o povo portuguez: «Entre os Árabes, um de- 
safio entre dois poetas consistia em tratar em eommum 
um assumpto dado, o elogio de um homem, creio eu, a 
descripção de um combate ou outra Cousa. A sorte de- 
cidia qual dos dois antagonistas falava primeiro. En- 
tão esse estreiava-se logo: improvisava um hemisty- 
chio, o primeiro hemistychio do poema a fazer áobre o 
assumpto convencionado : o adversário devia immedia- 
tamente terminar o verso por um hemistychio que com- 
pletasse o sentido do primeiro. O segundo verso, feito 
da mesma maneira que o primeiro, tte^ia <iotitlnual-0; 



CAPITULO III 141 

e assim por diante, até ao fim. Dos dois adversários 
era declarado vencedor aquelle que mais francamente 
seguira sua carreira com os melhores rasgos de impro- 
visação.» (1) Cantar ao desgarro, faz lembrar o raouie 
árabe de Hespanha. Citamos um exemplo açoriano: 



— Nasce a aurora em mar de zimbre, 

No mundo deita eeus raios ; 
Só tu nasceste menina 
Pa/ra eu sentir dewiaioa. 



«Se por mim tentes desmaios, 
Nâo corre da minha conta ; 
Se o amor é de vontade 
N'Í8so me n&o faz afronta. 



*— Se a ti te não faz affronta 
Batas penas em que vivo..., etc. (2) 



Entre os artifieios da poética arabe^ como diz Ca- 
siri e Masdeu, coutam-se os poemas que começam cada 
strophe pelas letras sucoessivas do alphabeto. Tanto no 
continente, como nas ilhas dos Açores, o povo ainda 
canta o A B C de Amores, (3) 

Os árabes, pela sua hombridade semitica, nSo po- 
diam influir sobre as lendas épicas que formam o con- 
texto dos Romanceiros peninsulares, porque elles pró- 
prios' não tinham mythologia. Comtudo nos Romancei- 

(1) JSist, de la Poesie provençak, t. m, p. â37. 

(2) Cant^ do Archipelago, p. 119. 

(3) IMd,, p. 87, e 164. 



142 EPOPÊAS DA RAÇA MOSABABE 

ros apparece uma forma particular e antiquissima, que 
os mosarabes imitaram dos poetas mussulmanos : é a 
dos romances stzeros ou ao divino. Diz Fauriel, que 
em árabe apparecem estas primeiras falsificaçSes ro- 
manescas das lendas bíblicas e evangélicas, e acres- 
centa: «O próprio Mahomet é um exemplo frisante 
d'esta licença de imaginaçSo, convertendo em uma his- 
torieta trivial a historia t^ tocante e admiravelmente 
contada na Biblia, de Joseph e de seus irmSos. Ainda 
hoje existe em provençal uma traducçSo do Evangelho 
apocrjpho da Infância; ora na época em que ella se fez, 
esta traducçSo não poderia ser feita senão sobre o ára- 
be.» (1) Justamente os primeiros romances que no sé- 
culo XV se recolheram da tradição oral no Cancionero 
de Hemã de Castilho de 1491, foram romances sacros. 
Um d'elles começa: Durmiendo yva el Seiíor, outro: 
Tierra y cielos se quexavan, cada qual mais lindo e 
sentido. Se o Evangelho da Infwncia foi conhecido na 
poesia provençal pela versão árabe, no romance sacro 
insulano O Presemtimento da Paiooão ha uma relação 
intima com esses monumentos. (2) Nas províncias de 
Portugal aonde mais se conservam as tradições poéti- 
cas, Beira Baixa, Algarve e Açores, os romances sa- 
cros são os primeiros que apparecem nas versões oraes. 
Cumpre notar que o romance de Jestis Mendigo além 
de apostolar a hospitalidade, também encerra o cara- 

(1) Fauriol, Hist, de la Poeaieprovençale, t. iii, p. 341. 

(2) Cafitôs do Àrckipelago, not. 70, p. 460, onde se trata 
largamente este adsunipto. 



CAPITULO III 143 

• 

cter 9acro. Os índices Expurgatorioêy€ivLe no século xvi 
mataram a creaçfto opulenta da poesia popular da Pe-' 
ninsula, condemnaram cos romances ou cantos tirados 
do Testamento Velho ou Novo ao pé da letra.» Ticknor 
traz vestígios mais extensos d'este género de poesia, 
DO Alhadita de Jueuph, ou poema aljamiado de José el 
Patriarcha, na Hietoria de Glexim, e na Historia de 
Abdtdmutalib, (1) 

A forma do verso é também um accidente material, 
ainda que ande ligado ao génio rythmico de uma lin- 
gua. O verso em que foram cantados os romances po- 
pulares é ordinariamente redondilha maior ou octosjl- 
labo, e redondilha menor ou quintisyllabo; antes de 
vermos as hjpotheses sobre a sua origem, manda a 
verdade que se confesse, que qualquer d'e8tes versos é 
tão natural e fluente, que insensivelmente o compSe 
quem fala; e que sendo acompanhado de musica, como 
sempre se costuma, pollula cotn uma abundância da 
bocca do povo, que espanta os maiores improvisado- 
res. Para quem nSo tiver a fortuna de assistir ás im- 
provisações ou desgarradas peninsulares, pôde ver a 
prova doesta facilidade na conversão da prosa da Chro' 
nica general nos romances octosyllabos de Sepúlveda, 
publicados em 1555, os quaes raras vezes alteram nos 
seus cortes métricos a largueza da prosa. Comtudo, os 
eruditos quizeram reduzir a accentuação dos versos de 
redondilha á gitantidade latina, classificando-os como 

(1) HieL de la lAíteraiura espaSí, t. iv, p. 247. 



144 EP0PÊA3 VA BAÇA MOSARABE 

hexametro cortado em dois hemiatjchiòSy ou como qua- 
tro pés troehaicos ; era esta a opiniSo de Sarmiento. 

Pela soa parte o profundo Bouterweck oonsidera-os 
«antes como uma reminiscência das antigas canções mi- 
litares dos romanos, que se ouvissem muitas vezes em 
Hespanba, e das quaes a memoria poderia ter sido trans- 
mittida pelos provinciaes hespanboes aos wisigodoBy^eus 
conquistadores. » (1) Na poesia hjmnica da egreja en- 
contraram outros a forma octosyllabica; esses cantos 
eram entoados pelo povo, e mais tard« foram banidos 
pelas Constituições dos Bispados; em vários hjmnos 
de Sam Dâmaso já apparece a aceetUuação revolucio- 
nando a poética latina, pela qual se imprimiu esta for- 
ma harmoniosa do rimanoe que brilha nas linguas ro- 
manas. Ârgotey*de Molina, diz: «Los Poetas cbristia- 
nos mas modernos dieron a este verso la consonância 
que ya en la lengua vulgar tenia, como hizo Santa To- 
maz ai Himno dei Sacramiento.» (2) Doeste facto se des- 
cobre a mutua influencia da poesia vulgar e da religio- 
sa, principalmente entre os godos. 

Veio por ultimo a hypothese- de António José Con- 
de, a mais verdadeira e a menos comprebendida; elle 
considera a metrificação vulgar da Península, como de 
origem árabe, por isso que o octosyllabo: c£ o rythmb 
mais usado na poesia árabe, como diz elle, e que sem 
duvida alguma nos serviu de modello.» (â) Quii&eram 

(1) Hist. de la LUt. espahole, 1. 1, p. 77. 
'2) Conde de Lucanor, fl. 127. Ed. 1642. 
3) HUL de la d<mÍ9iacion de loa Árabes en jgêpa^, prol. 



CAPITULO llt 145 

aehar n'68taB palavras a origem arabd dás tfadiçdes qtre 
fiSo o entrecho dos romances, mas é impossível admil- 
tir isto, como deixámos provado. SSo de origem atabe 
os romances sacros, é verdade, mas só se deve attribuir 
a essa origem a fórma exterior, a metrificação, a as- 
sonariciaj elemento diverso da aliteração gothica. Para 
fasier comprehender a sua theoria da métrica popular, 
Conde escre-ve o octosyllabo da mesma maneira que o 
Qsou Jacob Grlmm com raro tino na Silva de rofMmeês 
viejos, redu2indo-o á parelha alexandrina. Tomamos 
um exemplo do nosso povo: 

Passeava-se a Sylvana — por um corredor acima ; 
Seu pae estava mirando — passos d'oiido ella vivia. 
— Bem puderas tu Sylvana — gosar minha companhia. 
<E as penas do inferno, — pae meu, quem os passaria? 

Tomando cada um d'esie8 versos alexandrinos, te- 
mos o typo do verso árabe com o saldribaitj ou pri- 
meiro hemistychio, é ogrilbait ou hemistychio final. A 
hypothese de Conde é tanto mais admissivel, quanto 
abundam os factos que mostram a existência dós jo- 
graes árabes entre as povoações mosarabes no século 
xn e xui, cantando ao som da quitara, do advfe e do 
alahvde cantares que incutiam no ouvido do povo a 
accentuação octosyllabica. O mesmo idi^lecto otl árabe 
vulgar ainda que não percebido fazia sentir esse rythmo, 
como vimos pelo exemplo citado por Bouterweck; da lin- 
gua que falatram os mouros da Península diz Masdeu : 
íO dkúei^, due faluvam os nbsftos mooiús era o Ch(h 



X46 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

roiãta, qa& é o mesmo que o do ÁlcorSo.» (1) A este 
termo se refere a canção D. Mendo Vasques de Bri- 
teirosy achada por Frei Fortunato de Sam Boaventura: 

Co Alchoroista da ralé pegaajosa. (2) 

Esta creaçSo poética dos jograes árabes tem suas 
analogias com os jograes que corromperam e vulgari- 
saram a poesia provençal. Da grande influencia d'elles 
fala o poeta anonymo do Loor de Berceo: 



Los ioglares crístianos que porá fer sus prosas 
Deinandan el accorro à deidades mintorosas, 
Semeian paganismo que ora dioses é diosas, 
E* precia mas follias que verdades fermosas. 
Estes vna\o6 joglares tienen a Dios grand tuerto, 
Van por camin ejrado, errado que non cierto, 
Lexan por las deidades ai que fue por nos mucrto^ 
Merescen los atales colgar en un veluerto. (3) 

O Arcipreste de Hita compôz bastantes cantos para 
os jograes mouros cantarem ; elle mesmo appresenta es- 
tas regras da poética árabe vulgar: 

Arábigo uon quiere la Viuela de arco, 
Sinfonia, guitarra non son de aquesto marco ; 
Citola, odrecillo non aman Cagtdl haUcuio 
Mas aman la taberna, é sotar con bellaco. 



fl^ Hist. critica de Espana^ t. xni, p, 110. 

f2^ Cancioneiro popular, p. 202. 

[3) Sauchez, Oolkcç. Ed. de Ochôa, p. 269, eet. 39*40. 



CAPITULO in 147 

Albogaes e mandorría^ caramillo é zampofta, 
Non se pagan de arábico caanto dellos Bolonha, 
Como qaier que por fuerza disenlo con vergofia, 
Quien gelo desir fesiere pechar debe oalofta. (1) 

Em outro logar das suas poesias cita o Arcipreste 
de Hita, todos os instrumentos músicos jogralesoos, da 
edade media da Peninsula: 



Alli sale gritando la guitarra marisca, 
De Ias voses agada é de los puntos aríBca. 
El corpudo laud que tiene punto á la trísca, 
La guitarra latina con esos se aprisoa. 
El raòé gritador coo la su alta nota, 
Cahél el oraòin tauiendo la su rota, 
El saltério con ellos mas alto que la Mota, 
La tnhuela de pendola con aqu estos y sota. 
Media caho et arpa con el rahé marisco 
Entrellos alcgranza e] galipe Ffancisco, 
La rota dis con ellos mas alta que un risco, 
Con ella el tamborete, sin el no vale un prisco. 
La vihuela de arco fas dulces de bayladas, 
Adormiendo á veses, muy alto á las vegadas 
Voses dulces, sabrosas, claras et bien pintadas 
A las gentes alegra, todas las tiene pagadas. 
Dulce caho entero sale con el panderete 
Con sonajas de asofar fazen dulce sonete, 
Los organos y disen cbanzones é motete, 
La andedura albardana entre ellos se entremete. 
Dulcema, é aoíaòeba, el fínchado albogan, 
dn/ania é baldasa, en esta fiesta son, 
El francês adreciUo^ con estos se compon, 
La reciancha mandurria alli fase su son. 
Trompas é ahaJUes saleli con aiambales, 
Non 1 aeron tiempo ha plasenterias tales, 
Tan grandes alegrias, ni a tan'comunales, 
Dejuglares van llenas cuestas é eríales. (2) 



8 



1) Idem, ib.y v. 1490, p. 508. 
Idem, lô., V. 1202, p. 492. 



148 EPOPÊAS DA BAÇA MOSAKABE 

Na poesia que se intitula: «JSn qtialea instrwnientos 
convienen los cantares de arahicoií conta o Arcipreste 
de Hita que escreveu bastante para os jograes couros: 

Depões Ase muchas cantigas, de danza é troUras 
Para Judias, et Moras, é para entendederas 
Para eu tnetrumentoc; de comunales manaras, 
El cantar que non sabes, oilo à cantaderas, 

(v. 1487.) 



Na Ordenação Affonsina, prohibem-se os jograes 
clérigos, por causa da communicaçfto com os mouros: 
fTòdo clérigo yogrraZ que tem por officio tanger, e per 
elle soporta a major parte da sua vida, ou publica- 
mente tanger por preço que lhe dem em algumas fes- 
tas que não são principalmente ecclesiastioas e servi- 
ço de Deos. . . » (1) E no Cancioneiro ger<ã, reflecte- 
se o mesmo espirito da legislação : 

alympemos negrygençias, 
e sofísmas 
de falso pronosticar 
e mouriacaà giomancyas 
seytas, cjrsmas. (2) 

No antigo Cancioneiro de Baena. encontra-se esta 
curiosa epigraph^ aos versos de um poeta : « Aqui se co- 
miençan las cantigas é decires que fiso é ordeno en su 

m Liv. m, lit. 15, § 18. 

(2) Cancioneiro geral, (fl. 24, col. 4, &. v.) 



CAPITULO III 140 

tiempo Qarci Ferrans de Jerena; el qoal por sus peca- 
dos é grand desaventura, enamoró-se de una judiara 
gue ama sido mora, pensando que ella tenia mucho te- 
Boro, é otrosi por que era muger vistosa, pediola por 
mnger ai reu, e djogela; pêro despues halló que non 
tenia nada. » (1) Por causa doestes factos a nossa legis- 
lação tomou-se severíssima, condemnando com pena de 
morte quem entrasse desacompanhado nas mourarias. 
'As jogralessas e cantadeiras eram ordinariamente 
mouras ou judias; temos bastantes vestigios doeste cos- 
tume popular portuguez do século xv: 

. Toparam troteiro com cousa tam pouca 
Tam pouca, tfio leve, que quem a levava, 
Diz, que tam leve, co'ella agachava, 
que dava taes saltos, tara alto pulava, 
Mais alto que Çaide bailando com touca. (2) 

No Cancioneiro geràlj vem uns versos de: t Anri- 
que da Motta a Vasco Abul, por que andando huma 
moça baylando em Alanquer, deu-lhe zombando huma 
cadeia d'ouro, e depois a moça nam lh'a quiz tomar, e 
andaram sobre isso em demanda. . . 



Uma gentil bayladeira 
d* Alenquer, 
fremoaa gentil mulher 
me chupou d*e8ta maneyra. 



s 



1) Oomchnero de Baena, t. ^, p. Wt^ 14. áe ISGO. 
CioMeúmeára g»raiy (i« 166^ cal. 2 &.) 



 



IflO ' EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 



Por me nfto parecer fea 
vendo-a baylar um dia 
lhe mandei per boa estreia 
huma cadeya 
que no pescoço trazya. 



Baylava bolho vylam^ 

ou mourisca; 

mas chamo-lhe*eu carraquisca 

mays viva que tardiam. 

Eu nam sey quem me vençeo, 

pêra tomar tal trabalho. 

Calay-^^os que mais perdeu 

poys morreu 

esam Joham per hum só balho. (1) 

Á maneira das entendederas^ da poesia popular hes- 
panhola, tinhamos os Mouros da buena-dicha :. 

Pareceys Mouro alienado 

c^adevinha pola mfio. . . (2) ^ 

Jogral c^anda em estaao 

com berymbaao. (3) 
, Biomensinho poleguar 

que com más graças enfada, 

Judeu qu'enB8Ína a dançar, 

pardal com capa e espada. 

D*arremedar e Trovar 
• soys em Tomar * 

outro Roupeiro segundo. (4) 



1) PI. 208, col. 3,v. 

J2) Caríç, ger,, fl. 225, xíol. 2. 

r3) Idem, fl. 226. 

[4) Talvez se refira a estes versos de Roupeiro : 

De arte de eiegoJiigUr 
I Que ea»t» v^aa haiafiaSf 
Õfi» 0911 nn solo eaailar * 
Cala todu laa Bi|>aflai; (Rk*, t. r?, p. SSS^) 



CAPITtJLO III 151 



e cnidaes que soys profundo 
nam teudo mais que palrrar. (1) 



Tem um geito de bedem 
Com que pedir á Mourisca 
e que seja muito trísca 
quem se^a tudo nfto arrisca 
nam pôde parecer bem. (2) 



Os árabes também introduziram em Portugal a me- 
dicina; em uma lei de Dom. Affonso iv se lê: «Sabede, 
que Mestre Alie meu Fisico me disse por sy, e todolos 
os outros Mouros do meu senhorio ...» (3) A esta in- 
fluencia se deve também attribuir a medicina popular 
quasi toda fundada em orações; um dos factos que 
mais deixa sentir esta verdade é a Oração de Santa 
Apollonia que diz a velha Celestina, (4) comparada 
com a antiquissima versão da ilha de Sam Jorge. (5) 
Chamava*se a este género Ensalmos; o canonismo ata- 
cou-o. No Index de 1681, prohibem-se: a Oração do 
Conde, a Orarão de S. Christovam, a de S. Cypriano, 
a da Emparedada, a da Imperatriz, a de /S. Leão 
Papa, a de Santa Marti nha, e a Oração do Testa- 
mento de Jesus Christo, (6) Estas Orações, á excepção 
da de S, Cypriano, estão totalmente perdidas. 

(1) Idem, fl. 226. 

(2) Idem, fl.>177 col. 3, &. 

r3) Ord. Ajf., liv. ii, tit. 101, p. 533. 
[Ú Germond Lavigne, Celestina, p. SB. 
lp\ Comias do Archipelagoy P*^^^* 
(6; Yid. também Ináêx de 1624^ p. 165. 



ipí^ EPOPÊAS PA {(AÇA 9f OSARABE . 

 influencia musioiU do» ar&bes tomasse natural- 
mente mais sensivel na dança do que na poesia; temos 
dos árabes a Mourisca, a Cativa, a Gritana, a Carra- 
quisca e outros muitos bailes usados pelo notso povo. 
Nas Ordenações Affonsinas se legisla sobre estas dan- 
ças: «El Rej Dom João^ em seu tempo estaibeleceo por 
Lej^ que quando os Mouros fossem a o receber, e bem 
assy á Raynha, ou fazer outros jogos alguus, nom le- 
vaai^in iurma,s algtt9.a, sob certa pen»-. » (1) Na pem^ es- 
tal^el^çida aos ju(|eq8, sedesorere o elles sf^rem aare- 
c^hov com trebeltios a nós ou m llainha minha mulher, 
e Iffs^ntes mei^s filhos ; e outro sy quando sahe a alguas 
vQda&9 ^^ jogOQ para alguas honras, e festas dod ho^ 
n]^ee§ hoS«i dçsses lugares honde vivem, usio dWevan- 
t^ í^rroidofi, pelos quaes se seguem antre ellea muitas 
fçjridfiiS, e mortes, e grandes omizids,,,)*^ (S) Na iHiac^í* 
la^Bbea,^ ainda' Ô-^rcia de Besend^ ooptava: 



Seus bailes, galanterias 
de iumiQ.^ formosas mauras; 
sempre nas festas reaes 
a'er»m 08 dias prinoipaes 
festas de mouros avia... (3) 



Em uma relação de João Baptistíi Venturim), que 
veiu na comitiva do Cardeal Alexandrino, legado de 
Pio V ao rei de França, Hespanha e Portugal, em Xbll, 



1) Liv. II, tit. 1^7. 

2) iWd., tit 76; 

'3) Floresta de JSomances, iptfpcl* p- zzi^. 



deacrevem-^aa aa' danças populares em Elvas na reoe* 
pçSo do cardeal; transcrevemos essa passagem para 
que se veja o seu caracter mourisco : «Ao entrar a dita 
porta, appi^receram muit(^ homens e mulheres do modo 
que já tinhamoB visto em Castella, estando com o Car* 
deal SpiqQsik, Formavam estes três corpos de dançari- 
nos, A primeira dança chamada da FoUia, compunha- 
se de outo homens vestidos á portugueza, com gaitas e 
pandeiros accordes, e com guises nos artelhos, pulavam 
á rodi^ de um tambor, cantando na sua lingua cantigas 
de fotgiM^y de que obfcive copia, mas que nao ponho aqui 
por me não parecerem adaptadas á gravidade do as- 
sumpto. Bem merecia tal dança o nomede/oííía^ por- 
que volteavam com lenços, fazendo ademanes uns para 
os outros, como quem se congratulava da vinda do le- 
gad0| pi^ra o qual, constantemente se voltavam. A se- 
gunda danaa chamada Cativa,, era de outo mouros agri- 
Ihoados, que dançando á moda mourisca, se declara- 
vam escravos do legado« A terceira, chamada a Oitar 
na, era composl;a de ciganos, vestidos e bailando, camo> 
os já descrevi do Cardeal Spinosa. Vinham entre elles 
du49 mouroÃj^^ txassendo cada uma em pé sobre os hom- 
hroa uma rapariga vestida de panos cosidos em ouro, 
e talhados de galantes e variadas modas. Com aqueUe 
peso bailavam levemente ao som de um tambor, en- 
fuxvando-£^ com e^ vento 09 vestidos das raparige#, qv^qr 
faziam esvoaçar um lenço por vários modos, ora com a 
mão direita ora com a es(]^uerda, ora se^urando-o de* 



154 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABB 

V 

s 

baixo do braço, ora nas costas, momos estes que de- 
poÍE repetiam com facas de diversas maneiras. » (1) 

Segundo Fétis, as danças árabes tem o caracterís- 
tico particular de serem inventadas pelo povo; para o 
árabe culto a dança repugna á seriedade, ao contrario 
do que se dá na Europa, aonde ella é admittida na 
mais alta sociedade. (2) Por este facto se comprova a 
influencia árabe nos povos da Península, aonde as dan- 
sas são variadíssimas e significativas. 

Os poetas da côrte de AfFonso v e Dom JoSo ii con- 
sideravam o baile da Mourisca lúbrico e doce, capaz de 
fazer desvairar os sentidos; mas ná côrte de Dom Manoel 
assim como se extinguiram os Foraes políticos^, as dan- 
ças também soffreram a invasão dos costumes italianos 
dapavana e da galharda. É por isso que Gil Vicente, 
como o ultimo mosarabe, se queixa da tristeza do povo 
na tragicomedia Triumpho do Inverno, Depois da de- 
cadência de Portugal com o accesso da casa de Bragan- 
ça, o povo portuguez adoptou para consolar-se nos seus 
desastres a ^ma da prophecia, de que os árabes tanto 
se servem. 

Um eseriptor árabe ennumera os' seguintes instru- 
mentos, dos quaes, grande parte ainda hoje é usada na 
Péninsula: O Adufe, Alguirbal, Almarafih, Alkimar, 
Alazaf, Almizar, Alaúde, Arrabil, Alkirren, Asangha, 
Alkitrara, Almiazaf, Almizmar, Almeya, Alcuceba, 



1) Pamynma, t. v, p. 309. (1841 .) 

[2; Fétis, Eiatúire ^emrale cte ta Musique, t. n. 



CAPITULO III 155 

« 

Albuque, Altabal, Alcozo, Alhuba, Alayre, Atambur, 
Albarbet; Alcasib, Axakika, Assaãlz, Axirofi, Alki- 
tharet^ Alantaba^ Alcudiba, Kabar, Xahin, Mizamir^ 
Tambor de Cofa, Camretes^ Xabeda^ Sofar, Alataran, 
Juf-taf, Sofar-Array ou assobio de Pastor, Cariba-Ar- 
raj ou Çanfonba de Pastor, Xakikas, Mizmar, e Neyo.» 
Estes nomes são tirados por Soriano Fuertes do ms. ára- 
be do Escurial, n.® 69. (1) Os árabes foram pouco af- 
feiçoados aos espectáculos scenicos como diz Fuertes (2) 
e é esta uma prova indirecta do génio do nosso povo, 
que só no século xvi conheceu o theatro hierático. 

Os árabes e os judeus, finalmente o ramo semita, 
influenciaram sobre a poesia popular da Peninsula, não 
pela fiSrma litteraria, mas pelo rythmo musical. Na 
Historia de la musica en Hespafla^ de Don Mariano So- 
riano Fuertes, encontramo&r bastantes factos comproba- 
tivos: €0s hespanhes, principalmente os lusitanos e 
gallegos, desde o século vi, serviram-se das notas ra- 
hinicoà para escreverem a musica vulgar ou cançSes 
populares, ás quaes eram naturalmente inclinados, d E 
em seguida accrescenta este sábio auctor: «Os Suevos 
dominadores da Galliza e de Portugal, 'ainda que gen- 
te afeiçoada ás sciencias e ás artes, eram tão propensos 
para a musica e poesia como qualquer das nações do 
norte, que formavam o antigo reino da Scandinavia. 
Os judeus estabelecidos nos dominios dos seus successo- 



8 



Hiêt. de la Mimca keepafíola, 1. 1, p. 81. 
Siet. de ta MuHca heipaJhola^ t. m, p. 51, 



166 EPOPÊAS DA RAÇA 1Í08ARABE 

res, para se oongrassarem com os soberanos, eoltiva- 
rani a musica com esmero. Doesta cultura por parte 
doa judeus (que eram os que mais necessidade tioliam 
da graça dos seus novos senhores) se originou a inven- 
ção das notas rabinicas.» 

Em seguida Fuertes descreve o caracter da antiga 
muaica popular, primitivamente oppoata á notação ra- 
bixúca: «Por parte dos Lusitanos e Gallegos, gente af- 
feiçoada por natureza nlo só á poesia e a muaica vocal, 
senSko também á instrumental de corda e sopro, se in- 
ventou outro género de notação musical, própria para 
indicar os sons dos instrumentos, compostos de Unhas 
horisontaea, pontas e números collooadas entre ellas. 
As linhas para significar as cordas; íí^ pontos, os sons 
que deviam produzir segundo a affinação do instrumen- 
to ; e os números indicavam os dedos. Se o instrumen- 
to tinha duas cordas, os pontos collocavam^so sobre 
duas linhas horisontaes somente; se três sobre três; e 
se quatro, sobre quatro, etc. Se a notação musical era 
para algum instrumento de vento^ marcavam tantas li- 
nhas na eeeripta, quantas era preciso figurar noa aeus 
espaços de uma á outra o numero de agulheiroa que ti- 
nha o instrumento, coUocando n'essea espaços outros 
tantos pontos, uns inteiramente tapados que figuravam 
os agulheiros, que os deviam abrir, outros cobertos & 
maneira de oeulos que indicavam os çue deviam êleixap 
sem tapar. Doestes dois géneros de notação musical, 
se formou um terceiro, mixto dos dois; porque com o 
tempo os hefareus de Foitugal tomaram as Uaiw dos 



CAPITULO III 157 

portuguezes, com a nota chamada ponto, ou os portu- 
gaezes e gallegos tomaram dos rabinos as notas musi- 
cães resultando d^sto, o systema da notaçSo musical 
que Beda explicou com tanta prolixidade*» (1) 

A influencia árabe se deve a introducção dos contos 
da edade media na Europa. O povo portuguez ainda 
hoje se delicia com à Historia da Donzella Tkeodora, 
que, segundo Dom Pascual de Qajangos, foi escripta em 
língua arábica por Abu-Bequer Al-warráe, escriptor do 
segundo século da Eygra. Amador de los Rios acha 
€sta pequena novella composta dos seguintes elemen- 
tos de lendas árabes : vence a Donzella com a sua soien- 
cia os sábios, como os da lenda árabe de Harum-Ar- 
Bazid; augmentando por isso o preço da sua pessoa, 
e devolvida ao mercador de Bagdad, outra lenda ára- 
be; ou finalmente salvado a fortuna de seu amo, mer- 
cador húngaro, que contracta em Tunis. (2) 

A zambra árabe, era uma festa nocturna, partida de 
homens que passam a noite contando conto» a que se 
chama asamir, no mesmo estyllo das Mil e uma noi- 
tes. (3) Este mesmo costume, ainda se encontra pelas 
aldeias de Portugal, e todos nós tivemos a infância em- 
balada com estes contos, que eram um resto das zam- 
hras mouriscas. 



(1) Htst. de la Musica espa^ola, desde la venida de los 
Fenícios hasta el a%o^ de 1860, por MarisAo Seria ao Fuertes, t. 
I, p. 68a70. 

(2) Hist de la lit. espah,, t. vi, p. 340. 

(3) Engelmann, Ojp» ctí. p. 97. 



158 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

Em Hespanha a influencia árabe revelada nos con- 
tos é mais sensivel; a collecçâo da Dièciplina derí- 
calia de Sephardi, o Conde de Lucanor de Dom Joio 
Manoel, são imitaçães directas das fontes orientaes. O 
Oesta Ronuinorum está cheio de tradições indianas tra- 
zidas pelos árabes de Hespanha. O catholicismo apro- 
veitou-se doesta tendência. popular e substituiu os Con- 
tos felo^ Exemplos, que os pregadores' introduziam nos 
seus sermões. De Sam Domingos, diz Herolt, abunda- 
hat exemplis. No Lecd Conselheiro diz Dom Duarte : 
cE na conversaçam dos amygos, a que se faz em mu- 
dança das condiçooes mostrasse por aquel exempro: 
vay hu vaaes, com quaaes te achares tal te farras.» (1) 
Os contos do Conde de Lucanor acabam, á maneira 
oriental, sempre com um anexim. Quando Sá de Mi- 
randa ou Gil Vicente alludem a algum ditado ou rifão 
abonam-se sempre com o dizer do exemplo antigo. Gil 
Vicente chegou a recolher da tradição árabe a conto da 
Bilha de azeite. 

Eis algumas passagens em que a palavra Exemplo 
está empregada no sentido de conto mor^: 



Porque diz o exemplo antigo : 
Quando te dão o porquinho 
Vae logo com o baracinho. (2) 



íij 



Edição de Paris, 223. 

Obras de Gil Vicente, t. ii, p. 466. 



CAPITULO III 159 



Amigo, dioen por villa 
Un eysiemplo de Pelayo, 
Que una cosa pieusa el bayo, 
Y otra quien lo ensiJha. (1) 



E diz o exemplo dioso : 

Que bem passa de guloso 

O que come o que não tem. (2) 



Pois diz outro exemplo antigo 
Quem quizer comer comigo 
Traga em que se assentar. (3) 



Em Sá de Miranda também encontramos : 

f 

Quanto á de Pêro e Rodrigo? 
Que bem diz o exemplo antigo 
Que nâo são eguaes os dedos. (4) 

« 

No AtUo da Mofina Mendes^ escripto por Gil Vi- 
cente em 1534; apparece pela primeira vez o conto da 
Bilha de azeite; eis as fontes orientaes aonde elle se 
encontra : No Pantchatranta^ no Calila et Dimna, no 
Hitopadessa^ no Anwâr-i Suhaili^ e no Specimen Sa- 
pientice indorum, vem este conto, que reproduziu Dom 
João Manoel no Conde de Lucanor, n.® xxix. Gil Vi- 
cente deu-lhe a forma dramática : 



3) Ide/m^ t. m, p. 371. 

4) OhroB^ foi. Í14, v. 



JcZem, t. in, p. 369. 
Idem^ t. iii, p. 370. 



léO BP0PÊA8 tk RAÇA MOSARABE 

Vou -me á feiía de Trancôbò 
Logo, nome de Jesu, 
E farei dinheiro grosso. 

Do que este azeite render 
Comprarei ovos de pata, 
Que é cousa a mais barata. 
Que eu de lá posso trazer. 
E estes ovos chocarão; 
^ Cada ovo dará um pato, 
E cada pato um tostfto, 
Que passará de um milhão 
E meio, a vender barato. 
Casarei rica e honrada 
Per estes ovos de pata, 
E o dia que for casada 
Sahirei ataviada 
Com hum brial de escarlata, 
E diante o desposado 
Que me estará namorando : 
Virei de dentro bailando 
Assi desfarte bailado, 
Esta cantiga cantando : 

tJBJsiaê coésaê diz Mofina Mendes eom ô pote de azeite á, 
cabeça, e andando enlevada no baile^ cáe-lhe : 

Por mais que a dila me engeite, 
Pastores, não me deis guerra ; 
Que todo o humano deleite, 
Como o meu pote de azeite 
Ha de dar comsigo em terra. (1) 



Na coUecção castelhana a Mofina Mendeê chama- 
va-se D. Truhana. A influencia oriental conhece-se 
melhor nas fabulas da Raposa, que na edade media 
da Europa receberam um sentido aggreisiiro, mas que 

(1) Obras de Gil Vicente, t, i, p. 117. 



CAPITULO III um 

em PoráigAl fioaram na fórma do apologo eôm a mia 
moralidade^ do mesmo modo que e&la^rain para a tr»* 
dição popalar. O que são os anexins acerca da Raposa 
senão a moralidade da fabula^ que preivalecíui Ba oblite- 
ração da peripécia? Ainda no principio do século xvil 
se dizia: 

<A raposa faz pela semana^ com que ao domingo 
nlo vá á egreja. (Delicado, Adágios, p- 20.) 

«Muito sabe a rc^asa, mas mais qruem a toma. 
(Id., ib., p. 22.) 

«Mal vae á raposa quando anda aos grillos, e peor 
quando .anda aos ovos. (Id., ib., p» 22.) 

^Raposa que muito tarda, caça aguada. (Id., ib., 
p. 24.» ' 

Quando em Portugal começou a manifestar-se a 
vida politica do terceiro estado, n'esse mesmo periodo 
Fernão Lopes alludia a uma das peripécias do Roman 
du Renard: «Como a raposa que estava ao pé dâ ar- 
vor.i (1) Na lingua portugueza ainda se encontra o 
verbo arraposarse, significando ; fingir-rse morto como 
a raposa: <E o caso foi senão, que ò demónio viu que 
apertavam pelo sacrifício, arraposoiirse,]pQr8L que haven- 
do-o por morto (assi o faz o raposa) o deixassem.» (2) 
Ê certo que nenhum dos ramos do Roman du Renard 
cbegou a Portugal, por causa da intiolerancia do ca- 
tholicismo ; mas a tradição portuguesa recebeu, e não 

é 

(1) Chron, de Z>. João /,. part. ii^ cap. 42^ 

(2) Frei Roque do Soveral, historia do Ápparecimento de 
y, S., liv. m, cap. 8, 



162 EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 

desenvolveu, os mesmos germens trazidos do Orien- 
te no Panteha Tantra, e traduzidos em árabe no Ca- 
lila et Dimna. Na Carta v de Sá de Miranda, encon- 
tramos a fabula ãa, Raposa e do Leão: 



Os desejos são sem termo 
A esperança é sabrosa ; 
Eu contento-me d*e8te ermo, 
Pela rasfto que a Baposa 
Deu ao Lefto que era enfermo : 



cMea Bey e senhor Leão, 

Olho cá e olho lá ; 

Vejo pegadas no chfto 

Que todas para lá v&o, 

Nenhuma vem para cá. — (Est. 45-46.) 



Também na sua Carta vi, Dom Francisco Manoel 
de Mello traz a fabula da Raposa e do Lobo: 



Quando tudo era falante 
Dis que a Baposa caiu 
N*um poço d* agua abundante ; 
Chegou um Lobo arrogante 
Que passava acaso e viu. 



De uma polé pendurava 

Í Porque o poço era fundo) 
Jma corda, a qual atava 
Dous baldes ; um no alto estava, 
K*outro a Baposa no fundo. 



CAPITULO III ' . IW 



Pois ft bicha que erft arteir» ' , , 

Chama ao Lobo e diz: «Senhor ! 
«Já que Dfto fui a primeira, 
«Soccorrei Tossá parceira, 
«Que eu sei que tendes vajor.» 



Ora auim sem mais porfia, 
O Lobo, que é f anf arrfto, 
Já no balde se metia, 
EUe cáe, ella subia 
Por uma mesma inyençflo. 



Toparam-se ao prepassar, 
E o Lobo, meio canindo, 
Nem lhe azava de falar ; 
BUa a rir e arrebentar 
De se vér tflo bem subindo. 



Emfim, ao medo venceu, 

Fala o Lobo, e diz : -7- Comadre, , 

Isto voB mereço eu ? — 

Ella a zombar do sandmi, 

Nem lhe quiz chamar Compadre. 



Mas diz*lhe : «D'um vagabundo 

«Teus queixumes nfio me empeceiín ; 
«Acaba já de ir-te ao fundo ; 
«Isto sfto cousas do mundo, 
«Quando um sobe* os outros decem«> 



Eis aqui nem mais nem menos 
(Mas que nfto haja hi mais Fraudes) 
Nos estados mais serenos 
Por levantar dous pequenos, 
Abaixa o mundo dez grandes. 
* 



' >• 



> I 



I 4 • ' 



'): 



Iè4 EPOPÊAS :da> baçã mosàbabe 

Porém de ^tocl^âs as itiflaêiicias descr^tas^ ha uma 
que ainda se exerpe tip^uio ei]^ IPortugal como em Hes- 
panha — é a cantiga salta, improvisada em todas as 
circamstancias da Vida, com as metaphoras mais ar- 
rojadas e brilhantes. É a quadra ou seguidilha, tal co- 
mo os árabes a usaram na sua poesiaTuIgar. Diz o his- 
toriador profundo das linguaa e da civilisação semiticas: 
f E preciso conceder um altíssimo grau de authenticida- 
de aos innumeros e pequenos discursos em verso que se 
acham nas colIecçSes de historia e poesia ante-islamicas. 
Tal é com effeito, o género o mais antigo da poesia 
árabe: uma poesia. in^e|r£^ente pessoal, exprimindo 
em alguns versos uma shunçfto do' author, e ligando-se 
a uma narrativa. E esta forma primitiva da poesia se- 
mítica, forma que se acha nos mais antigos monumen^ 
tos da poesia hebraica^ e, qiiasique.desdfe os primeiros 
tempos do muádo, na canção de Lemek. {óen. iv, 23-24.) 
Um antigo author arabei citado por Soyuthi, na curió- 
sa obra intitulada MouzíITj notou muitíssimo bem : Os 
antigos arahes não tinham outra poesia senão os versos 
destacados, qué cada ump^^onunoiaiMi a proposito.it (1) 
E egualmeUte esta, a poesia do povo portaguez e hespa- 
nhol, a que aind^ está viva & robusta^ por que é inspi- 
rada no ehfádoe isolamento do irábalhof basta vêr as 
imagens de que elle se serve nas suas comparações, pa- 
ra conhecer o génio. orieatal. O povo tira as imagens 
dos phenomenos que mais lhe ferem os sentidos; como 

» 

(1) JBist, generàle des Langues semitiques] p. 356. 



!.-: .'. V. QiaiTVSJO III ; ' .'; icn.-f m. 



na primitiT» poesiaçUt índia, « Bol^s^estK^^^ã^v^, 
Liixia. aniikiaçâia egualiá Buay amaía^fse^ !aQiitipireh^ri4&?nnf 

se do mesmo modo : , >! ^í] /,>.[-■ ') 

O «ol prQíBjettw é>^. '; ;.^': . , ,,\ vv*a\v.[. 
Uma ftta de mil cores ; \ 

Qtiatido o h6í fnròm^tte^ á lilà, ^ - «<•-«'»' J ' h t ; i í 
. QaefMrá, qu^m t0iQ.apaoi:f;8?, ., .> . :,,. *, ..; 

'BjSk aqui uma falalidadie da ^nio.oriental, ^SM]|iiieMai 
imaginação e pantheismo que caraòlerisa a ^wàffíèr 
ça indo-europêa a que pertencemos^ despertada nas suas 
faculdades pela presença do ramo mais vigoroso da raça 
semita. A comparação e referencia d^ fitas, nos cantos 
populares, não será uma reminiscência doesse único or- 
nato da arte árabe? 



Sobrancelhas como as vossas 
É impossível havel-as ; 
Sfto laços de ftta preta 
Com que se prendem estrellas. 



A linguagem das flores ou solem, com que o nosso 
povo forma as suas cantigas, é um vestigio dos costu- 
mes mussulmanos : 



A giesta se embalança, 
Deve de querer chover ; 
Não seja isto mudança 
Que o amor precisa fazer. 



O género dos retratos, em que o povo descreve mi- 
nuciosamente todas as partes de uma mulher^ servindo- 



IW EPOPÊAS DÁ liÀÇÂ> IfOSARABE 

8è'd!ad' mail9 engraçadas comparaçSeB^ perteioce egual- 
métilTeá poe9}a dos árabes^ como vimos pela citaçSo de 
Casiri. De todos estes géneros se podem vêr abundan- 
tes provas no Cancioneiro popular, e nos Cantos do 
Archipelago. Em vista doestes factos, cremos, que sem 
nos deslumbran^Qs com o ardor da poesia árabe, e at- 
tendendo sempre ao caracter inconciliável do génio se- 
mita, são estes os elementos exteriores ou quasi concre- 
tofc, ^iiie o povo portugoez recebeu dos árabes .na ela- 
héTB/ç^ da sua poesia. 



':•• í! "l! 






1 



CAPITULO IV 167 



Hythos da sociedade mosarabe — Lenda do 
Abbade João — Canc&o do Figueiral 

Epopêas formadas pelas relaçOes sociaes e politicas 4I0 godo* 
lite com o árabe. — A lenda do Abbade João, e o vestígio 
de um poema antígo. — Origem da Ccmção do Fiawiral. — 
Critério novo para comprehender este cauto. — A lenda do 
tributo das cem donzellas e os reditos ecclesiasticos dos Votos 
de Sam Thiago. — Origens orientaes do tribato das donzellas. 

— Esta lenda é propagada pelo clero em todas as terras que 
se recusavam a pagar os Votos. — Recusa da S4 de Braga. 

— Simaucas, Oarri&o, Quirós, Peito-Bordelo, em Hespanna ; 
Figueiredo das Donas junto a Viseu, Alfandega da Fé, Cas- 
tro- Vicente, Cbacime Balsemfio em Portugal, têm a lenda do 
tributo das Donzellas. — Era popular no século zin. — Pa- 
raleUo com a forma que. Ibe deu Gonçalo de Berceo. — Mu- 
sica popular da Cançfio, tirada do Cancioneiro do Conde de 
Marialva, que Brito viu e boje appareceu em Hespanba. — 
Paradigmas com os Romanceiros nespanboes. — Nova ver- 
bAo popular do Algarve. — Erros da critica sobre este nosso 
monumento litterario. 



Depois de havermos determinado os vestígios e ele^ 
mentos da poesia gothica e árabe que entraram na for- 
mação da poesia popular portuguesa, importa recon^ 
stituir esses factos desligados, em uma synthese que 
nos revele a vida social da raça mosarabe. A natureza 
e a verdade se encarregaram de formar por si os poe- 
mas inspirados por estas novas relações ; sSo muitas as 
lendas, os contos, as tradiçSes que nos restam da com- 
mnnicaçSo dos árabes com os godos em quanto á vida 
civil; labora pelo sentimento nSo fossem tSo intimas 



IW. EPOPÊÁS DA BAÇA Jtf OSARABE 

essas relaçSes, a paisiSo da alma peninsular soube criar 
de coUisoes inconciliáveis o interesse de situaçSes pro- 
fundas. Ctínheoemos a lenda dos amores de Oaia, mu- 
lher do rei Riaiiiiro com o mouro Abèncadão ; (1) a da 
Moura Saluquia; (2) a dos amores de Giraldo sem Pa- 
vor; (3) a de Mendo Vasques de Briteiros; (4) a de 
áoror j^iipunda, abbadessa de Arouca; (5) e im^ tra- 
dição hé^spanhoU; a lenda romanceada da Julianeza, 
4ia MQraima, do Moro Galvan. Todos estep poemas 
tradiciot)açs parecem desmentir o caracter semita dos 
árabçà; por elles se vê que os godos e os árabes em 
todas ás classesrse entenderam sentimentalmente* Ií*es- 
te pontq.a historia está de aecordo com a poe^ia^ 

' Como resultado d'esta nova phase da vida social 
tomamos para a, analyse dois poemas antiquissiznqs, 
um'({aa8Í obliterado e já sem fórma poética, outro cor- 
rompido pelas versões oraes, em que aiuda appar^ce o 
ódio entre a cruz e o crescente, circumstancia devida 
á sua origem monachal: é o primeiro a Lenda do Abbade 
J^j Q, 6 49^rmi4o m ÇiJitnç^o do Figmimh' Tio^ oa)itoB 
pwnam^l»te piop^lar^s nSo existe este odío, esta sêd^ à» 
smg^e. !È^ta unta Qara(eíterÍQti()a infaJUveld^^creAjãt^ 



!• • 



íl) iPjcoloço.da ediçftQ da Gaia, de Jofto Vae, p, v. Bdiç. 

. i2V IràTaêii€fào d Historia dá LUteratura, p; 58« 

^., Í3J Vi4. »upra> p. %. 

?4^ Cancioneiro popular, ^. 202, 
^i'.i(í(()( JorgeíQavdoso, Agiêlagiio lM9Íianà^.t[ i^.p.'llfidk • ' ' ' 



CAPITULO IV . :i 160 

Nos príiàeiras «eoulos d» moiHU^chia^ ios' feitos do 
Abbade João contra os sarracenos, ocoaparam as tra^- 
diçSes looaes e os poetas cultos. Pouoo sé sabe da exis- 
tência histórica d'este personagem; era irmSó de Dom 
Bernardo o Diácono^ filho bastardo de Doiq Fmela, ir- * 
mSo de Dom AffonsO; o Catholioo. Floresceu este pre- 
lado pelos annos de 815, e renunciou' lem Theodomiro, 
sendo conhecido pelo nome de AlAdê h¥ií6inén»iê. (1) 
A lenda das suas façanhas, que cbego|i |ilé nós, toca o 
extr^no da barbaridade gothica; parece que sefêuma 
devastação dos Ntebelungens, Eis como^ellft se encon- 
tra em um thesouro de contos moraeé, intitutlâdo Itine- 
rário histórico : cnSo menos admiraTei èo quQ sUqce- 
den... em Coimbra, do reino de^Porttigal, em cuja 
fortaleza se recolheu grande parte dos Oavalleifos e Ca^ 
pitâes coin suas mulheres, filhos, e faí^ttdà; para ôe! 
defend^em dos Mouros, os quaes vieram tíontra ^Mes 
com o seu rei Almançor de Córdova, eoni oefn mil er^m- 
batentes, com desígnio de extingiftir aqu^tla diduinuta' 
centelha que havia ficado viva, da lei i^aiitá de Christo. 
Trea annos resistiram os valerosoe oavaUeitos á i^imeU^ 
sa mourisma, que com tão prolixo cerco os affligia, ten- 
do por caudilho a santa Virgem, cuja imagem venera- 
vam em uma capella, por ordem dó Â^àãe c|e Sam 
Bento, chamado João, que era como seu (h«{)iifcão que oê> 
commandava; o qual ven|lo-os consummidys^ s^in ar- 






(1) Âi^ador de ks Bios, Sht trit* de éa ííôteráiufa etm^' 

fihoUli i. *», p. 114. • -:•{.■ jfi Mi'!', ii: ; » Tu > 



170 pOPÊAS DA BÂÇÂ MOSARABE 

mas e sem victoalhasy e que se nSo era milagroso era 
impossível defender mais a fortaleza, jantou os cabeças 
e representando-lhes o perigo, qnè seus filhos e suas 
mulheres haviam de cair em poder dos infiéis, e muitos 
por sua fraqueza deixariam a fé de Christo, que seria 
acertado matal-os, e ao pouco gado que restava, e sair 
aos Mouros e y^íider as vidas a preço das d'elles. To- 
dos abraçaram este conselho, e apunhalaram suas mu- 
lheres e filhos; pegaram fogo ás fazendas e gados, e 
saíram denodados contra os Mouros, nos quaes fizeram 
tantos estragos, que mataram noventa mil, e colheram 
grandes despojos. Voltaram victoriosos ao castello, ain- 
da que pesarosos pela morte das mulheres e dos filhos; 
porém consoiou-08 Deos, porque chegando á porta, saí- 
ram a recebel*os, cantando em procissão, ressuscitados 
pela Santíssima Virgem, em cujo collo, e assim no de 
todos estava o signal colorido da ferida, para memoria 
do milagre; pelo que, e pela victoria, prostrados ante 
a sua imagem, derramando doces lagrimas de goso e. 
alc^ríf^, renderam as devidas graças, como á auctora 
de tamanha maravilha.» (1) Esta mesma lenda existe 



a . I 

(1) P. Alofiso de Andrade, Itinerário historial, p. 686, 
dol. 1. Ediç. de Lisboa de 1687. Em seguida transcrevemos um 
documento legal sobre a : IhbtituiçIo dab festas do Abbáds 
João: 

«Com JoáóVpor graça de Deos rei de Portugal e dos Al- 
garves, d'áquem e d'álem mar em Africa, Senhor de Guiné, etc. 
-v- Faço saber a vós Juiz de Fora, Vereadores e Procurador da 
CkMnaroa^xda vílla de Monte Mòr o Velho, que se viu a vossa 
Gonta em que me representastes, que os moradores d'essa vills 



CAPITULO IV 171 

na tradiçSo hespanhola attribuida a Dom Garcia Ra- 
mirez ; em Portugal recebeu o conto do Ahbade João 
forma poética^ a qual era ainda conhecida em 1340, 
por que nas estrophes que restam do poema da Bata- 
lha do Salado, por Âffonso Giraldes, se lê: 



OatroB falam da gran razon 
De Bistorís, gran sabedor, 
E do Ahbade dom João 
Que venceo Bei Almanzor, (1) 

Na Dedicatória do Cancioneiro geral, Garcia de 
Resende refere o motivo da sua colleccionação, por cau- 

celebravani todos os annos o portentoso milagre que obrara 
com os seus maiores a sanctissima mfle de Deos, com titulo da 
Victoria ; pois sendo degolados pela direcção do Abbade João^ 
tio de el-rei Ramiro, todos os velbos, mulheres e meninos, por 
não caírem nas mftos dos Mouros, que tinham cercado o cas- 
tello d*essa mesma villa, antes dos catholicos que defendiam o 
castello saírem a pelejar com os bárbaros, alcançando doestes 
um maraTilboso triumpho, acharam depois da batalha ressus- 
citadas todas as pessoas que tinham degolado ; conservando-se 
na garganta o signal das feridas, que se continuaram muito 
tempo em algumas famílias d*essa villa, e de todo o referido 
houvera sempre tradiçfto immemoríal continuada successiva- 
mente de pães a filhos ; por cujo motivo nflo só se repetia a 10 
de Agosto a memoria d estes prodígios ; porém está soberana 
Virgem era a protectora a quem essa mesma villa recorria em 
todas as suas necessidades, nas quaes tinha mostrado muitas 
vezes o poder, e a piedade do seu soberano patrocínio, e qa« 
estas patentes e sagradas circumstancias persua^írsin muitas 
pessoas d^essa villa a que tomassem por padroeira d*ella a Se- 
nhora da Victoria, e assim o requereram a essa Camará, e que 
esta a festejasse oom esse titulo e fizesse numerar esta festa 
entre as suas : por cuja rasão vos resolvereis a convocar toda 

(1) Brand&o, Monarchia Lusitana, t. iv^ fi. 26. 



lii' BPOPÊAS OA RAÇA MOSARABB 

sa 9os itiiiitòs poen^as antigos que no seu temjpò já es* 
tâTafn perdidos: «muytâs còusas de folgaat e gentyie- 
zas dsâm perdidas ssem aver delas noty eia. :d E adiante 
^continua: <E sse ad que ssam perdidas- dos noesofl pas« 
sados se podèram aver . . . creo que esses grandes poe- 
tas, que per tantas partes ssam espalhados, nam teve- 
ram tanta fama como tem.» E' certo que ainda no tem- 

a nobreza e povo, que todos uniformemente proclamaram que 
fosse a mesma Senhora da Victoria a sua padroeira, de que se 
fizera o termo que remetteis ; e para que este tivesse toda a 
validade precisa, esperttveis que eu fosse servido mandal-o 
observar. E visto o' mais que referistes, e o que constou por 
informação do Provedor da Comarca de Coimbra e resposta do 
Procurador da minha coroa, a quem se deu vista e não teve du- 
vida,; hei.^or bem. e xos m^ndO) que observeis o termo da ac- 
olamaçâo que âzestes. com ,a nobreza e povo d^essa villa, para 
5[ue a Virgem nossa senhora, com /o titulo da Victoria, se- 
}« padroe^ira d'ella; e que nunlereis a sua festa entre a mais 
d^essa comarca, para fiícar perpetua a memoria doeste prodígio. 
Cnmpn-o assim ; e esta Provisão fareis registar nos livros da 
Oamai;a7 para a todo o tempo constar que eu assim o houve por 
baija. — El-Rei Nosso senhor o mandou pelos Doutores Manoel 
Gomes 4® Carvalho e 'Fernando Pires MourSo. ambos do seu 
Cpnrolho e seus; pesembargadores do Paço. — ^^ Manoel Ferreira 
S^r^ftq a .fe? çm Lisboa, a 20 de Dezembro de 1746 annos. — 
José Galvfto de Castello branco,, a fez escrever. Fernando Pi- 
vfi» Mourão-— Manoel Gomes de Carvalho, —r Por despacho do 
Çl^eimbargo.dQ.Paçp, de 19 ^e Dezembto de 1746.» 

•• ' ' ' . 

Bá de Miranda em uma Carta a Jorge de Monte-Mór, na- 
tarai d -esta viUaí, refere-s^ á lenda dò Aãade JoâayBiaáei tra- 
dicional, em 1668 í 

■ I • 

I * • I . 

Fne Monte Mayorya mentado en guerras 
Del 's&nto Ahbad Don JVton (euentaée «Mi) 
• 'Agom dex*. atrai «gnaAjgeiTas. . . 

Quando los Moros lançavan de aqui 
(Al^^oa muçhofl peccadot de ehristianos) 
'Quédákéel^leAtMoiitèfén ÉâNoaRk < . . 



CAPITULO IV 173 

po d6 Brandão ora conliecído o poema da Batalha de 
Solado; 0ia3 o po^fna do Abbade João, conhecido oo 
fim do Boculo XI v, pordeu-ee no intervaUoda collec^o- 
naçSo de Resende. O povo conservou apenaa a parte 
milagi!OBa, prop<tgada p^oa.agiographos. 

Por maia ^eoulos se conservou na tradiçjyp da Beira 
e do Algarve o poema ou, Cwm^o do FigueirqJ,, sobre 
o qual até hoje a critica ainda nSio tem dito senão ine- 
pcias. Creada ou vulgarisada'pelo menqs nps princi- 
pias do século ziii, ainda no século ^vxi a Cançàodo 
Figmirai era repetida nas povoaçOea ruraes do centro 
6 do sul de Portugal^ nos pontos em que existiu a raça 
mosarabe. O senhor Heroulftno, que primeiro :do que 
mnguem de&iiu a vida. politica doeste noyo elemento 
da tiacionalidade portugueza, deixou o fio pai;a a legi- 
tima interpertra^ão dn Canção do Figueiral; dia ellei: 
c lenda ^erca do tributo das doqzellas, pago pcir 
Aurélio e por Mauregato aos sarracenos, a qual já se 
^contra em Luc.aa de Tuy.»t e em Bodr^gc^ Ximenex*,. 
é, quanto a nós, um mjtho tradicional, que symboU^a 
as t^n^denoias de fjasão nos fin^ do século vm, e a pre- 
ponderfuicia transitaria do mosarabisnH>.»> (X) A intel- 
ligencia doesta fórmula é simples : segundo o Biapo de 
Salamanca, Mauregato era ãllio de el-rei Dom Affonso i 
e de uma^ moura; privou do throno a. seu spbrinho, e 
emquanto reinou manteve a paz com os mussulmanDp, 
á cu»ta da.prepoiíiderancia que deu ao elemento ,c^l^- 

(1) íri#(. da Portugal, t. t^h ^v. 8, Part. j, p/ 180. 



174 BPOPÊAS DA BAÇA MOSAR ABE 

■ 

nial, que tinha relaçSes intimas e de interesses com os 
árabes. Para desauthorar este periodo em que o ele- 
mente mosarabe prevaleceu sobre a parte aristocrática 
dos nobres refugiados das Astúrias, os historiadores 
ecclesiasticos quizeram infamar o reinado do filho da 
serva árabe, e attribuiram a paz que manteve ao tri- 
buto ominoso das donzellas, pago annualmente para os 
haréns de Córdova. Tal é a causa moral e primaria 
sobre que se creou a lenda da negra oppressSo. Mas que 
ideia levou a inventar este caprichoso tributo? Seria a 
de ferir a sensibilidade e o orgulho da classe nobre e 
mesteiraes, por ambos obedecerem a tSo infame vexa- 
çSo? Para solver estas questões basta ter sempre pre- 
sente que a lenda é de origem eodesiastica, e como tal 
nSo tem originalidade; é, como todas as lendas chris- 
tSs, copiada de outras, calculadamente, e renovando- 
lhe o sentido. A lenda do tributo das domdlas appa- 
recera no fim do século vi, nas versSes dos horrores 
praticados por Khosroes ii contra os romanos do Baixo 
Império; a raça semita em lucta com os byzantinos 
pelo ramo pérsico, dava elementos para se tornar odio- 
sa na luta do ramo árabe contra o resto da civilisaçSo 
romana e da aristocracia goda da Península. Os histo- 
riadores ecclesiasticos Lucas de Tuy e Rodrigo Xime- 
nes, bem como o falsificador do celebre Diploma do 
Voto, presentiram o valor d'esta lenda attribuida a 
Khosroes ii, e implantaram-a na lucta com os sarrace- 
nos ; havia apenas um século que ella andava na tradi- 
ção, estava recente, era fácil de localisar e de personifi- 



CAPITULO IV ^ 176 

car* Entre as condiçSes da paz postas por Efaosroes n 
ao imperador Heraclius, exigia-lhe o tributo annoal de 
mil talentos de praia, mil vestidos de seda, mil cavai- 
los, e mil donzellas. (1) Mas para deixar mais em evi- 
dencia a origem da tradiçSo oriental, vemos reproduzi- 
das estas memas condiçSes em um tratado entre Abder- 
rhamen e el-rei BVuella, irmão de Maaregato; n'esse 
tratado o rei árabe exigia o tributo annual de dez mil 
onças de ouro, dez mil libras de prata, dez mil cabeças 
de cavallo, dez mil cabeças de muares, cem mil lon- 
gas, mil espadas e outras tantas lanças, durante o pe- 
ríodo de cinco annos. Assim temos determinado o 
fio por onde os historiadores ecclesiasticos foram leva- 
dos a reproduzirem o conto persa do tributo das don^ 
zeUas. 

Antes de entrar na explicaçSo do processo da ela- 
boração poética, ha ainda uma segunda phase da vida 
genesiaca da lenda persa. Abraçada pelos legendários 
religiosos para anathematisarem uma época em que 
predominou a classe mosarabe, seria improductiva a 
soa assimilação, se os ecclesiasticos se não aproveitas- 
sem d'ella para a fazerem produzir reditos pecuniários, 
como acontece com todos os successos milagrosos com 
que exploram a credulidade do vulgo. Vamos vèr como 
o clero da Península fez doesta lenda guerreira e poli- 
tica um instrumento de oblatas, com que abasteceu 
as suas egrejas. Primeiramente descreveram a fraque- 

(1) Gibbon, Hiet, da deoadenda do Império romano. 



178 BPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

tributário, concertando com elles (como já o disse- 
ram do rei Aurélio) de dar-lhes cada anno cincoenta 
donzellas nobres e outras tantas do povo; é uma fabula 
mal forjada e destituída de todo o Aindamento. O ce- 
lebre Diploma do Voto da batalha de Clavijo, que at- 
tribue em geral este vergonhoso assento aos primeiros 
reis das Astúrias, ainda que reproduzido com boa fé 
pelo padre Mestre Florez, tem muitos e mui paten- 
tes indícios de ser apocrypho, como pode vêr-se nas 
Dissertações ecclesiastieas^ do Padre Mestre JcMsé Pe- 
rez... (1) Até aqui vimos como se fez o trabalho da 
falsificação diplomática do milagre e do Voto; mas co- 
mo o primeiro era fácil de acreditar, e o segundo diffi- 
cil de admittir, porque era bastante oneroso para as 
povoações e trabalhadores, é natural que provocasse 
nos povos uma certa reacçSo contra o novo vexame fis- 
cal que vinha substituir uma oppressâo apenas imagi- 
naria. No Diploma dos Votos apparece entre os outros 
signatários Petrus Iriensis, ou como melhor entende 
Florez, Petrus Bracharensis Episcopus; este facto in- 
dica a introducçâo nas egrejas de Portugal do costume 
do novo tributo. Todos os documentos revelam que as 
egrejas de Portugal se recusaram a pagar os Votos; 
isto se vê pela confirmação dos Votos, pelo Papa Imio- 
cencio II, como conta Florez: «Confirmou também por 
outra carta escripta aos arc^^bispos, bispos, reis, prín- 
cipes e demais fieis de Hespanha os Votos que deviam 

(1) Historia critica de Eapafla, t. xn, p. 87. 



CAPITULO IV 177 

pUbééi^ (1) Conta-BO em seguida o appareciíhento do 
Apostolo Sam Tbiago a el^rei Ramiro, e a gloriosa ba- 
talha de Clavijo, em que o abominável tributo se extin- 
gaiu coro a derrota dos Sarracenos* O que conta Ro- 
drigo Ximenes, nao rrfere o numero de cem dotizellas, 
como o Diploma do Voto, mas dis somente que ei^am 
nobres e plebeias. A mesma lenda da batalha de Clavi- 
jo e Ramiro i, localisou^se outra vez na batalha de Si- 
mancas e Ramiro ii, um seoulo depois; na Relação cas- 
telhana, o numero das donzellas varia: tdaban cada 
aSío sesenta màno«ia« en cabcllo ai rey moro, de cada 
rtino por parias : las trinta fijas dcUgo, y las òtras 
trifUa Ji)€bs de labrador,^ (2) Esta ciroumstancia do 
mamro das donzellas iitoporta para saber a fonte dos 
diversos cantos peninsulares sobre este ponto ; a tra- 
duoçSo eastelba&a a que nos referimos é, segundo San- 
dovál, datada de 21 de Septembro de 1387. Sejam quaes 
forem as formas em que nos appareça, foi esta lenda 
forjada pela egreja de Hespanha para justificar a exi- 
gência de um pezado tributo de dizimo que os casaes 
de todas as terras cottieçaram d'aí em diante a pagar. 
O sapientissimo Masdeu derrogou a validade histórica 
do Diploma dos Votosj quando disse: «Nâo se sabe 
d'e8te príncipe (Mauregato) acç&o boa nem má; pois 
dizem nossas historias modernas, que para conseguir 
o throno recorrera aos Mahometanos, declarando-ae-lhes 



(1) Hiepa^ sagrada, t. xix. Privilegium, §. 2. Era de 
827 a m. 

(2) Aptid 6al1ohèÊ, iJAd. 



180 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

menso sentimento poético da raça mosarabe, que levan- 
tou a ultima epopêa da humanidade conhecida com o 
nome de Romanceiros, O clero aproveitou-se d'esta ten- 
dencia, dando um elemento á actividade poética do po- 
vo; fez reviver a lenda do ignominioBO tributo das don- 
zellas nos cantos da tradição oral. A situaçSlo dolorosa 
em que as donzellas eram entregues á sensualidade dos 
kalifaS; exaltou novamente a imaginaçSo do povo, e o 
milagre da appariçSo do Apostolo Sam Thiago sobre 
um cavallo branco, impoz respeito ao scepticismo do 
clero. Os primeiros cantos que appareceram foram ne- 
cessariamente de origem litteraria, como se vê pelo que 
escreveu sobre este assumpto Gonzalo de Berceo. An- 
tes porém de entrarmos no problema da elaboraçBo poé- 
tica, vejamos primeiro como a lenda se difiundiu por 
certas terraâ, principalmente n^aquellas aonde algum 
nome se prestava aos equivocos etymologicos, ás expli- 
cações mythicas sobre as designações locaes. São mui- 
tas as terras de Hespanha em que a lenda do tributo 
das donzellas veiu vigorar a obrigaçSo do tributo geral 
e perpetuo de pagar á egreja de Sam Thiago annual- 
mente as primicias das colheitas e da vindima, bem 
como a sua parte nos despojos e pilhagem alcançados 
em todas as expedições contra os Mahometanos. (1) 

Assim como a batalha de Simances é calcada sobre 
o maravilhoso da batalha de Clavijo, é justamente n'es- 
sa terra que apparece a forma mais original da lenda : 

(1) Masden, Op. cit, t. xa, p. 138 a 141. 



CAPITUIO IV 181 

1 .^ Tributo das Donzellas, em Siuancas. Acha- 
86 contada por Ambrósio de Morales e por Lobera ; Frei 
Bernardo de Brito resumiu-a d'este modo: cA yilla de 
Simancas, chamada antes Gureba, cobrou este nome^ 
por que sete donzellas que d^aqui haviam de ser leva- 
das, se cortaram as mãos, para doeste modo escaparem, 
e como as amostrassem aos Mouros que vinham arre- 
cadar o tributo, dizendo : — Que nfto podiam ir, por 
estarem mancas,— elles responderam: —que asin man- 
ca« as queriam ; mas o povo compadecido de tanta vir- 
tude, arremetteu tumultuariamente contra os Mouros, 
e mortos de mão commum, foram as donzellas postas 
em liberdade, deixando por nome á villa a resposta que 
deram aos bárbaros: — ai mancas as queremos — e por 
armas, as mSos cortadas das donzellas. • (1) Aqui está 
um dos primeiros processos de formação erudita das 
lendas, por via dos mythos e analogias etymologicas» 
Quando Berceo escreveu o seu poema sobre o tributo 
das donzellas, seguiu a tradição da narrativa da batalha 
de Simancas, como abaixo veremos I 

2.^ Lenda da Egreja de CabsiIo. Seguindo as 
mesmas auctoridades. Brito copia a segunda lenda hes- 
panhola d'este modo: a Na Veiga de CarriSLo se fundou 
runa egreja da invocação de Nossa Senhora da Victo- 
ría, em lembrança do extranho milagre com que foram 
livres certas donzellas, que os Mouros já levavam com- 



(1) Frei Bernardo de Brito, Monarch. i^., Partt n, lív. 7, 
cap. 9, p. 297. 



182 EPOPÊÀS DA RAÇA MOSARABE 

sigo. Porque chegando com ellas a este logar, onde an- 
dava pastando grande numero de vacaria, se ajunta- 
ram alguns touros, e feitos em ala, accommetteram o es- 
quadrão dos Mouros tâo impetuosamente, que mortos 
e desbaratados todos os mais d'elles, acaram as donzel- 
las livres, e cobraram por via dos brutos a liberdade 
que perdiam pela fraqueza e cobai^dia de seus próprios 
parentes.» (1) 

3.** As Armas dos Qukiroz. Por esta lenda se vê a 
tradição tentar filiar-se em Portugal por meio dos no- 
mes de titulares e tradições heráldicas : «Nas Astúrias 
de Oviedo, ha um solar de fidalgos que se chamam Qui- 
rós (e não falta quem diga serem todos uns, como os 
Queirós de Portugal) que trazem por armas cinco ca- 
beças de donzellas, por outras cinco que salvaram do 
poder dos Mouros.» (2) Pelo ramo nobiliarchico, coad- 
juvado pelas etymologias das terras, é fácil de vêr co- 
mo a lenda vem a approximar-se de Portugal ; os nomes 
de Figueiredos, Figueirôas e Figueiras, a tradição daa 
armas que lhes servem de distinctivo, trazem comsigo 
a implantação da lenda. 

4.® A Lenda de Peito Bordello, na Galliza. 
O verbo peitar, significa pagar, e Morales explica este 
nome como a designação do tributo ou paga de bordeh 
Frei Bernardo de Brito, que escreveu antes de 1597, 
recopilando Ambrósio Morales (Hb. 13, cap. 27 ou 30) 



fl) Idem, ihid. 
[2) Idem, ibid. 



CAPITULO IV 183 

e Athanasio Lobera (cap. 3) commenta assim: cnSo fal- 
tavam algumas vezes pessoas animosas e de espirito 
verdadeiramente honradas, que com lastima de tama- 
nha afironta se offereciam á morte por salvar alguma 
doestas donzellas, como se conta de certos Fidalgos da 
Galliza, que vendo levai* as que se recolhiam d^aquella 
província, lhe saíram ao encontro, duas legoas da 
Corunha e uma de Betanços, e tomando os Mouros que 
iam de guarda, em um recorte Íngreme, que se faz 
perto da ponte de Sarandenes, os desbastaram e puze- 
ram em fugida, com a morte da maior parte d^elles, e 
pozeram as donzellas em salvo com animo de verda- 
deiros hespanhoes, ficando para eterna lembrança does- 
te caso um nome ao logar em que succedeu, accommo- 
dado á significaçSo do tributo que ali se remiu, e se 
chama até nossos tempos Peito Burdello. 

«Este assalto dizem alguns que succedeu em sitio 
onde havia muitas figueiras, e que d'alí se começaram 
a chamar alguns dos cavalleiros Figueiras ou Figuei- 
rdas, e tomaram cinco folhas de figueira; aqui perto 
está a casa e solar dos cavalheiros doeste apellido, inda 
qae Ambrósio de Morales tem para si que o recontro 
saccedeu em Mondonedo, e n2U) duvido que em Galliza 
acontecesse tudo isto, pois ha indicies tão claros, e tra- 
dição de tanta antiguidade.» (1) Ha aqui visivelmente 
a justaposição de duas lendas, a etymologia formada 
sobre a designação da localidade Feito Bwrdello ou 

(1) Idem, Briã., p. 295. 



IBá EPOPÊÂS DA BAÇA M08AHABE 

peita de bordel, e a heráldica, que procura trazer de 
Mondonedo a gloria do feito para nobilitar o symbolo 
das cinco folhas de figueira do solar dos Figueiroas. 
Qualquer da8 duas formas aocusa também origem eru- 
dita, aonde se vêem ainda os hábitos doa latinistas que 
proouram a origem dos factos e das palavras em meras 
analogias. Quando BsímipAiOjiiSL Nobiliarehia portuguê- 
za^ trata dos Figueiroas, diz : cDeram principio a este 
appetlido cinco oavalleiros irmãos, chamados Pedro, 
Sancho, Fernando, Sueiro e Âffonso, da Família de 
Fernando Temes, tronco da Casa de Oordova, os quaea 
no togar de Figueirôa do campo de Petobardelo, entre 
as oidades da Corunha e Betanços no reino de Oailiaa, 
defenderam as trinta donzellas que leravam os Mou- 
ros em satisfação do tributo que prometteu Mauregato, 
entre as quaes iam Sancha e Ií$omerana, suas irmfls, 
deixando em aquelle 9Ítio o solar da famiiia de Figuei- 
rda de que foram progenitores. S%o suas armas oineo 
folhas de Figueira em aspa: tjmbre vtm braço v«8ttdo 
de vermelho, com um ramo de Figueira na mHo, de 
ouro, com cinco folhas de figueira verdes.» (1) Pelo 
numero das donzellas, que cita Sampaio, se filia a tra*- 
dição com a lenda da relação da batalha de Simanoas. 
Faiando dos Figueiras^ se vê em Sampayo, como a 
lenda gallega chegaria a Portugal^ e em que tempo: 
^Figueiras: Tem por armas em campo de ouro Qinco fo* 
lhas de figueira verde, e uima boráadara vermelha cheia 

(1) NobUiarch,, p. 279. 



CAPITULO IV U5 

de chaves de prata: tymbrey duas chave» das armaa 
em aspa, atadas oom um ramo de figueira branca que 
tem duas folhas enire ellas huma em cima, outra em 
baixo. Procedem de Gonçalo Figueira, que veyo a* es- 
te reino em tempo de ei-rei Dom Fernando, e diaem 
ser dos Figueiroas da Galliaa, cujo appellido se mudou 
em Figueira. E parece assim ser, porque aa armas sSo 
as mesmaa: e aecrescentaram a orla, porque alguns 
d'elles se ajimítaram com as chaves.» 

Não admira que a tradição do tríbuio das donzMoê 
se recebesse em Portugal no século xiv, reinando Dom 
Fernando, por isso, que no meiado do século XV, Gx>- 
mes Eanes de Azurara, na Chromoa da Conquista de 
Ouiné^ ainda debatia a questSo dos Yotoa de Sattk 
Thiago: cel Bey Dom Ramiro, desejando de non scor-* 
regar da memorya dos Espanhooes a grande ig'uda qud 
lhe fea o bem aventurado apostollo Santyago, quando 
08 livrou do poderyo dos mouros e prometeo de aeer 
nosso ajiidador em todallas batalhas que oom ellea ou«> 
vessemos; fesa escrever a estorya doeste acontecimento 
em os privillegios que outorgou dos V9íqs, os quaea 
agora recebe a egrej^ de Santyago de toda a Espanha 
em que entonoe vivyam xpaSos.» (l)E^ta Chronica foi 
aci^bada de escrever em 1453^ e por este trecho se vé 
qual o resultado que surdia da implantação da lenda. 
È justamente do século xw que data o Cancioneiro da 
Comàe és Marúdva qae Brito viu,^ oontende o oanto per*^ 



(l> Bdi^o de Paris, p. 7. 



1«6 EPOPÊAS DA BAÇA MOSAEABE 

tuguez do Figtuiral, bem como pertencia ao Beculo sv 
o Cancioneiro doDr. Oualter Antunes^ qae Ribeiro dos 
Santos analysou. Portanto, antes de entrarmos na ana- 
lyse do poema e das discussões que provocou, vejar 
mos primeiro a localisaçào da lenda em Portugal, que 
tanto reagira contra os Votos: 

5.^ L^NDA DB Figueiredo das Dovas, sm Viseu. 
Esta lenda divide-se em duas partes distinctas, que 
importa discutir separadamente: as circunstancias, os 
nomes, as explicações da tradiçSo, e finalmaite o mo- 
numento poético em si. Para a primeira parte, em 1597; 
Frei Bernardo de Brito nSo tinha documentos históri- 
cos, ou propriamente escriptos ; sabia o conto dos No- 
biliiu^ios hespanhoes e mais nada. Quwendo embelle- 
zar as nossas chronicas, e elle mesmo tendo certo sen- 
timento poético de que nSo desconfiava, aproveitou-se 
do nome de uma localidade nas proximidades de Vi- 
seu, cbamada Figueiredo das Donas, e fácil lhe era 
mesmo com boa fé de heráldico acreditar no mytho de 
um libertador de donzellas. O que até aqui é um acto 
de credulidade, toma-se uma falsificaçSo, quando elle 
inventa o nome Goesto Ansures, que é da sua pura ima- 
ginação, bem como os parentescos que lhe attribue. '— 
O canto popular com que se abona é authentico, porque 
precisando auctorisar a sua fieçSo, só em ultimo recur- 
so se serve d'esse rude documento; ainda assim nSo 
nos fiaríamos n'elle se nSo tivéssemos três meios segu- 
ros para provar a sua veracidade. Ouçamos primeiro 
BrítO; e depois determinaremos o que é ^pociTpho: 



CAPITULO IV 187 

<E porque em matérias onde faltam authores vaZe muito 
a trcuiição vulgar e as cousas que antigos traziam en- 
tre si como authenticas e verdadeiras e as ensinavam 
os seus descendentes nos romances e cantares, (1) que 
então se costumavam , porei parte d'aquelle cantar ve- 
lho que vi escripto em um Cancioneiro de mSio, que foi 
de Dom Francisco Coutinho; Conde de Marialva, o qual 
veiu á mâo de quem o estimava bem pouco e depois ou- 
m cantar na Beira a lavradores antigos, com algu- 
ma corrupção, e sem duvida foi posto em memoria doeste 
successo na forma seguinte ...» D^aqui se segue que 
Frei Bernardo de Brito apenas viu a versão manuscri- 
pta do canto, que apresenta na, forma como o cantavam 
na tradição oral da Beira. Além d^isso a referencia do 
canto ao facto que localisa em Figueiredo das Donas 
conhece-se que é hjpothetica, por isso que diz sem du" 
vida, para desfazer qualquer objecção* Frei Bernardo 
de Brito desculpava-se de intercalar este rude canto 
entre a sua narração, dizendo : «Servirá a velhice d'este 
verso antigo de alliviar o en£adamento da historia, que 
minha tenção não é trazel-o para maior credito, nem 
authoridizde do que merece um cantar ordinário^ sup- 
posto que os antigos não deixaram de ter sua probabi- 
lidade. 9 (2) Portanto na lenda do Figueiral pertence a 
Frei Bernardo de Brito: 1.® A localisaçào, aproveitán- 
do-se do nome Figueiredo das Donas, a três legoas da 

(1) Adiante veremos a que cantares e romances se referia 
Brit^ 

(2) Manaria. Lu9.y fl. 296. 



18S EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

cidade de ViseU; junto ao concelho de LafSes, par» ai 
assdntar o canto do tributo das donzellas ; 2.^ a inven- 
ção do nome de Goesto Ânsures, por isso que nas tra- 
dições populares o que primeiro se perde sSo os nomes 
dos pesonagenS; e em seguida os nomes das terras. 3.^ 
a interpretação do canto oral da Beira^ querendo achar 
n'eUe uma allusSo á lenda heráldica que transportou 
para as cercanias de Viseu. 

6.® Lenda bm álfándboa da Fé. «É tradição 
que d'esta villa saíram vinte cinco homens de esporas 
douradas a expugnar um Mouro potentado^ que tinha 
sèu domicilio em um monte, que está á vista dá villa 
de Chacím, feiaendo^^se no dito sitio insolente, confiado 
nos mouros que ah o defendiam, pedindo por feudo ás 
villas ctrcumvisinhas umas tantas donsellas; ao que os 
moradwes da villa e seu concelho responderam com 
armas; e pelejaram aquelles vinte cinco homens com 
tal valor, que matando o Mouro e seus sequazes, des- 
assombraram os legares visinhos* • . > (1) 

7.^ IjESDa em Castbo Vicente, t Tiveram os Mou- 
ros uma fortaleza no alto do monte Carrascal, a pe- 
quena distancia para o nascente da antiga villa de 
Chacim, e ali residiram sugeitos a um Alcaide ou rei 
Mouro, e obrigavam a muitas terras circumvisinhas a 
que em certos tempos dósse cada uma o penoso e bár- 
baro tributo de uma. donzella, que sendo pedido á villa 



(1) JDftce. abreviado de Chorographia de Pari., poi^ A, 
d*Almeida, 1. 1, p. 37. 



CAPITULO IV IM 

de Castro Vicente^ seus moradores repugnaram na en^ 
trega, tomaram as artnas e pediram socorro á villa de 
Âl&ndega, que saindo contra os Mouros com muita 
resolução e valor os destruíram ; e porque os morado- 
res de Alfandega se distinguiram singularmente con^ 
fiando em Deos, iioou a villa d'ali em diante obaman^ 
do-se Alfandega da Fé.» (1) 

S."" Lenda em Chacim e Mosteibo de BalsamIo. 
Ha n'esta freguesia a tradição da marcheta exigida 
por um castellão mouro* Um habitante da Alfandega 
da Fé recusou-se a ceder sua noiva para á prelibaçi^ 
d'onde resultou uma renhida peleja entre christãos e 
árabes; como os christãos eram poucos, Nossa Senho- 
ra veiu socorrel-os, trazendo uma ambula de bálsamo 
na mão, com que ia dando vida aos mortos e sarando 
08 vivos. Em reconhecimento da victoria alcançada por 
este modo, o povo erigiu uma ermida a Nossa Senho- 
ra do Balsamo-na-mao, e ainda hoje n'ella se celebra 
a festividade do Cara-Mouro, resultando para a aldeia 
o nome de Chacim, da chacina que ali se fes nos infiéis, 
e para a povoação da Alfandega o titulo da Fé, (2) 

N'esta lenda ha já o elemento germânico dâ mar- 
cheta a confrmdir-se com o bálsamo das tradiçSetf cél- 
ticas. Vejamos agora a authenticidade da CançoQ do 
Figtíeiral. Na Historia da Musica hespanhola, Soriano 
Fuertes traz a Canção do Figueiral, com algumas va- 



s 



Idem, ibid. 

0]p. cit.f t. í, p. 274. 



190 EPOPÊAS DÁ RAÇA MOSARABE 

riantes da que recolheu Frei Bernardo de Brito ; mas 
pela citação do Cancioneiro de Dom Francisco de Ma- 
rialva, d'onde Fuertes extraiu outra canção antiga, e 
egualmente pela musica que transcreve, se deprehende 
que o referido Cancioneiro existe hoje em Hespanha, e 
ao mesmo tempo prova a authenticidiEide doesta reliquia 
poética. (1) Eis o que diz Fuertes : < Para dar alguma 
ideia da poesia portugueza do século xii e principios 
do século XIII, copiaremos uma Canção extractada de 
um Cancioneiro antigo, que foi de Dom Francisco Cou- 
ti^nho, Conde de Marialva: 

A reyna groríosa 

Tan é de gran santidade.» etc. 

«Esta cantiga tem a sua melodia notada com as 
mesmas notas musicaes que se vêem nas CançSes de 
Affonso o Sábio.» (2) D -aqui se deprehende que o Can- 
cioneiro do Conde de Marialva, foi visto por Mariano 
Soriano Fuertes antes de 1855, em Hespanha; talvez 
que seja o mesmo que esteve na mSio do Dr. Gaalter 
Antunes, e que por sua morte desappareceu. N'e8te 
Cancioneiro a poesia tinha a musica notada, e Soria- 
no Fuertes transcreve na sua obra a musica antiga da 
Canção do Figueiral, e da Reyna groriosa. Reprodu- 
zimos aqui a musica da Canção mosarabe que discuti- 
mos, e que é uma raridade archeologica : 



;i) O». cU. 1. 1, p. 112. 
^2) Jáwi, <5. p. 117. 



CAPITULO IV 



191 



CANÇÃO DO FIGUEIRAL 



musica antiga, extrahída do GancioBeiíro do Conde 

de Marialva 








No fi - guei-ral fi -gfaei-re - do A no 



3 



pzr r ...m4-#f=T 



1^. J ^^wf 



F 



fi - - - guei - ral en - - trey 



Seis 




■A^fcp^^' * I ^1 



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1 [ ■■" ■ " '■ k - '' "■ 



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È 



93 -«- Typographia Hasical 



Laranjal, S a 92— Porto 



192 



EPOPÊAS BA RAÇA MOSARABE 



]i-^nj \ jp^ 




ni-ilas en-con- traíra Seis ni-âas en-con- 



|(g j ;j J- | J Jj ^ ^ 1 




trey Pa-ra e - - -lias an^da-ra Pa-ra 





e ^llas an-dey Lho - - ran-do las a- 




CAPITULO IV 



193 




cha - ra Lho - - ran-do las a - chey Lo-go 

i 



L^U-^ll il.M'^ 



J Jj lu 



Jng i 



las pes - - cu - - da - - ra Lo-go. 



m 



P 



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las pes - - cu- -dey 



Quem 




^^ 



T C^ 






196 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

enidito cidadSo da cidade do Porto^ que nol-o mostrou, 
e d'elle copiámos as ditas obras.» (1) Em uma nota ac- 
Crescenta Ribeiro dos Santos: a Por morte do Doutor 
Oualter Antunes, nSio sabemos aonde foi parar com os 
mais Mb., livros e preciosidades do seu formoso gabine- 
te.» No seu tempo o Dr. Gualter era considerado como 
famoso antiquário, (2) circumstancia que abona o Can- 
cioneiro manuscripto, que suppômos ser o do Conde de 
Marialva, que por ventura passaria para a Hespanha, 
aonde em Barceliona se serviu d'elle Sorianno Fner- 
tes. No século xvii publicou Miguel Leitfto de Andra- 
de a Canfãú do Pigueiraly como tendo«'a ouvido can- 
tar na tradiçSo do Algarve. (3) Abaixo provaremos a 
verdade doeste asserto; agora só discutiremos sob o 
ponto de vista da metrificação e da rima, comparando-a 
com um cantar do século xiii. 

Brito, LeitIU), e todos os transcriptoreS) dividiram- 
Ihe 08 versos em redondilha menor, sendo elles alescan- 
drinoê, circumstancia que embaraçava a sua analjse: 

Cavção do Figueirál 

No figneiral fig^treircdo, a no figttèifál entrei, 
Seis Difias enoontrara, seis iiifias encontrei. 
Para ellas andara, para ellas andey, 
Lhòrafido m achara, Ihorando aê achei, 
Logo lhes pe^oudara, logo lhes pescudei 
Quem las maltratara y a tão mala ley ? 

(I) Capitulo publicado no Jornal dos Amigos ãaê Letras^ 
n.° 3, p. 47. Anno de 1836. 

BebeUo, Descriwp^ da Cidade do FoHo, cap. iz, p. 330. 
MiêceUaneã, p. 27. 



CAPITIÍIX) 'IV W 



No figueiral figueiredo a no figoeiral oniroyt 
Uma replicara : < Infançom Dam sey, 

< Mal honvesse la terra que teme o mal Rcy, 
« 8'eu las armas usara y a 4iim fee uod Bty 

c Se hombro a mim levara de tfto mala ley. 

< Â Deos vos vayades, Garçam, ca nem sey 
« Se onda me falades mais vcns falarey. » 



No figueiral figueiredo, a no figueiaal entroy 
Eu )he repricara : — Â mim fee non irey, 

— Ca olhos dVssa cara caro los comprarey ; 
•^ A las long^ terras entraz vos me irey, 

— Las compridas vias eu las andarey, 

— Lingoa ae aravias en las f alarey, 

«^ MofiniB se me visse eu los mata^ey. ~- 



No figoeirtl figueiredo a no figuéiral enttiey, 
Mouro que las goarda cerca lo achey, 
Mal la ameaçara eu mal mo anogey, 
Tn>noom desgalhara todoloa machitqaey, 
Las nifias furtara, Ias ninas furtey. 
La que a mim falara n*alma la chantey. 
No ágttfiral figueiredo a no figneiral entrey. 



O systema de rima da Canção do Figueiral, acha-se 
empregado também por um trovador portuguez do 
principio do século xiv, chamado Pêro da Ponte, que 
pertence ao Cancioneiro da Vaticana. Diz elle: 



Se eu pudesse de»amcur 

A quem me sem|»re desamou^ 

E podesse algum bem busóar 

A quem me sempre míd htmeaUf etc. (1) 



(1) Tfrwãê « Cantarcêj »,• U3. 



198 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

Seguem-se mais três estrophes em que a rima va- 
ria com 08 tempos dos verbos, sendo a mesma palavra 
em cada dois versos. Esta circnmstancia exterior aju- 
da a provar a antiguidade da Canção do Figueiral. 

Sobre este mesmo assumpto do tributo das donzel- 
las, e na mesma versificaçSlo em alexandrinos mono- 
rimos, encontrámos uns versos de Gonzalo de Berceo, 
que floresceu nos fins do século xii, havendo ainda do- 
cumentos que provam a sua existência em 1211, em 
1220 e 1221. (1) Isto é já um grande indicio para ca- 
racterisar o poema do Figueiral, por que Frei Bernar- 
do de Brito que primieiro o publicou, nSo teve conhe- 
cimento d'essa forma poética monorríma dos poemas 
de Berceo, que só foram publicados no século xviii, 
três séculos depois. Na Vida de San Milan, escripta 
por Berceo, vem um appendice ao livro terceiro em 
que se conta a façanha das donzellas, que resumiremos, 
para facilitar a approximaçSo da reliquia portugueza: 



369 El Rey Ahderraman, sennor de Iob Paganos 
Un mortal eneiíiigo de todos los christiaoofi 
Avie pavor echado por cuestas é por planos, 
Non avien nul conselo por exir de sus manos. 



370 Mando à los christianos el que mal sieglo prenda 
Que li diesseu cada afio LX. duefias eu renda, 
Las medias de lignaie, las medias chus sorronda : 
Mal sieglo aya preste que prende tal ufreuda. 



(1) Saiichcz, CoUecç,, p. 71. Edição de Ochôa. , 



CAPITULO IV 199 



371 Tftcie toda Bspafia en esta serWdiimne 
Da eati tributo cadanno por costomEie, 
Fazie anniversaríos de mui graut suziedumne ; 
Mas por quitarse ende non avie firmcdaioDe. 



372 Todos estos quebrantos, esta mortal mansiella, 
Era mas afincada en Leon é en Castella ; 
Mas todo Cfarístiano se die man à massiella, 
Ga para todos era una mala postiella. 



373 Nonqua f aé en Christianos tan fnert quebrantamiento, 
Por meter sus christianos en tal enconamiento 
Una ssríe grant cosa dexar tan grant conviento, 
Nunqua fué sosacado tan mal sosaoamiento. 



374 Mucha duefia dalfaya de lignaie derecho 

Andaban afoutadas sufriendo mucho dcspecho : 

Era mui mal exiemplo, mucho peor el fecho 

Dar christianos á Mouros sues duennas por tal peoho. 



Gonzalo de Beroeo leva a narrativa até á estrophe 
489, descrevendo miudamente os signaes no céo, qne 
indicavam a necessidade de negar este odioso tributo; 
conta a embaixada de Ramiro a Âbederramen^ o voto 
feito a Sam Thiago e a Sam Milian, a batalha em que 
08 dois paladins celestes entraram, etc. Pelo numero 
das sessenta donzellas, se vê que Berceo fez o seu poe- 
ma sobre a nan*ativa castelhana que cita Sandoval. En- 
tre os nomes das terras que cita, as quaes pagavam o 
voto, traz : 

Valdesalz, Valdamiellos, Rinoso cpn Quintana, (Est. 473.) 



EPOPÊAS.DA BAÇA MOSARABE 

É sem duvida este nome Val-doncd, iftonde moder- 
namente se (juiz filiar a lenda das donzellas ; n^este lo- 
gar de Hespanha havia mn covento de monges; o tro- 
vador António de Vallmanya, a fl. 2370 de um Cancio- 
neiro manuscripto da Bibliotheca de Paria, trait um JSõrt 
em labor de lês Mongeê de Valtdonzella, lida no consis- 
tório doestes monges a 33 de Maio de 1458. (1) E na- 
tural que estes monges, com a sua tendência para for- 
marem lendas etimológicas, quisessem adquirir para 
o seu mosteiro o tributo censitico imposto aos casaes. 

Nos poemas sobre o tributo das doneellas ha duas 
phases de elaboração poética: uma erudita e ecdesias- 
tica, representada ém Bereeo, e outiva popular^ compro- 
vada pela Canqão ãò Figueiral^ que pela sua metrifi- 
caç&O alexandrina e fórma monorrima, se vê que é an- 
terior á vinda dos Fidalgos da Galliza para Portugal 
no tempi^ de Dom Fernando i. Em Hespanha a elabo- 
ração popular começou mais tarde; quando Brito «m 
1597 se referia a romance e caiUtares, sem duvida co- 
nhecia o romafice Unonymo do Rei Ra/mito, que tam- 
bém fôra recolhido pela primeira vez na Flor de Vários 
de 1597, e copiado no Romancero generaie de 1602, 
(Parte ik, pé 312.) Para que fique completamente elu- 
cidada a questSU), aqui transcrevemos esse notável ro- 
mance do principio do século xvi, quando a tradiçSo 
já luctava com o artificio litterario : 



(1) Amador de los ^ios, Hièt criticti da Litt. de S!êpaha, 
t. VI, p. 19. 



CAPITULO' IV SUt 

En consulta êstavit un 4|a • 

Con sus grandas y consejo 

El Doble re^ doD Ramiro, 

Vários oasos disoqrriendo, 

Qaando sin pedir licanoía 

Se eDtró por )a sala adentro 

Una gallarda donoella 

De amable y hermoao gesto, 

Vestida toda de bianco, 

A quien el rubio cabello 

Bordaba de oro los hombr^s, 

A oansa de Tenir suelto 

Correu los ojos en ella, 

T poniendoloe en elles, 

Ella comeiDBÓ á liablar, 

Y ellos á darle silencio: 

— Perdóna, díce, rey. 

Si tu oonsejo atropeilo 

Aunque si te lo dao maio, 

Antes soy digna de premio. 

No sé si de rey crístiano 

Te dé nombre, porque entíeodo 

Que oon fingida aparência 

Debes ser moro «meubierto. 

Que quien dá á los que lo son 

Las doncellas ciento à ciento, 

Si ya no es moro, à ellas 

Las soboraa para serk>. - • 

Si por darle muerte oculta 

Vas desangrando tu reino, 

Por harto mejor.tuiricra 

De una vez pegarle fuego : 

O sino entnbutoy parias' 

Dieras hombrcs á lo manoa, i 

Que era darlQ* enemig^s^ 

De que vivieran con miedO; 

Fero si les daa donoeOas^* 

AJhf em dejando de serio, \ 

Kaceran de cada una 

•Cittoo ò seb contrários nueatfDS.^ 

M^s bien acordado está 

Que tus hombres se esten quedos, 

Pof que paedan mígêuãnx >• 



i02 EPOPÊÂS DA BAÇA MQSARABE 

Hijas me pagaen feudo ; 
Que solo para eogendrallas 
Deben de tener «ugeto 
De hombres, que en lo demas 
To por mugeres los teugo. 
Si te acordaban las guerras, 
Las mismas doncellas creo 
Que han veuirtela a dar 
Por el mal que las has becbo, 

Y sin dttda yenceran 
Si lo ponen eu efeeto, 

Que ellas son mugeres hombres, 
T hombres mugeres aquestos. — 
Alborotaran-se algunos, 

Y el rey corrido y suspenso 
Determino de morir 

O libertar à su reino. 
Junto su gente de guerra^ 

Y prestandole su esfuerzo 
El glorioso Santiago, 

Dió la batalha y vencieron. 
Qucdó medroso Almanzor, 

Y el rey oon aqueste hecho 
Dio libertad à CastUla 

Y asi mesmo honroso premio. 



Se este romance fosse puramente littèrario, não se 
esqueceria o auctor de citar o nome da heróica donzel- 
la; foi o que fez Frei Bernardo de Brito. quando teceu 
o commentario á Canção anonyma do Figueira!. Co- 
nhecendo Brito este e outros romances^ 86 houvesse fal- 
sificado o canto, seguiria fatalmente a redondilha maior 
usada nos cantos populares da Peninsula' do século xiv 
em diante, e nSo o verso de redondilha menor, que é o 
hemistichio do alexandrino, usada anteriormente. Brito 
não conhecia ainda estes factos, porque os monumen- 
tos d'onde se deduzem estavam ainda inéditos. 



CAPITULO IV Vm 

Se nos lembrarmoB que Miguel LeitSo de Andrade 
diz ter ouTÍdo cantar este poema á sua velha criada 
natural do Algarve, oomprehende-se o sentido d'esta 
situação interpolada no romance da Infantina, e a que 
no Algarve ainda hoje se chatna Almendo, talvez da 
terra Valldalmiellos, que também pagava os votos de 
Sam Thiago. 

Miguel LeitSo, dizendo «tuna das muitas cantile- 
na»^, accusa a existência d'outros cantos populares so- 
bre o tributo das cem donzellas. Do Figueiral, diz : €A 
qual me lembra a mim auvil-a cantar muito sentida, a 
vma velha de muita edade natural do Algarve, sendo 
eu muito 7nenino.9 (1) Interrogada a tradição oral does- 
ta provinda, acha-se que isto é verdade : 

VbbsIo obal bá CançIo do Fioubibal 

— Que fazeis aqui senhora 
Qaem vos aqui prantaría ? 
Quem veiu aqui deixar-vos 
N*esta chaparra sombria? 
CoQtae-me la vossa historia 
Que eu por gosto a escutaria. 
«Sou filha del-rei de França 
Neta sou del-rei d' Hungria; 
Aqui me trouxeram Mouros 
Com sua feitiçaria. » 



A caminhar se pozeram 
Quando a lua mais lumbria, 
E dava o clarfto no rosto 
De la infanta que fugia. 



(1) MiaceUaneOf p. 27. 



204 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 



QuABdò tio Bifião do loaminhct . 

Perro Moiro lhe saía^ 
Que era quem a vigiava, 
Que era qwem m guardarieu . 

— «Tem-te, tem-te, cavalleiro, 
âe a vida nâo te agonia ; 

8e la 4ÍoncMÍk lut levas, 
Levas a lux do meu dia. 

— Só m*importa o que levo, 
De ti oio me ímpoitaria. . 

— «Se ^ doua tu me roubaras 
Logo aqui te mataria. 

Para ella avonça o Monro 
Pensando que a deteria, 
Mas ao pucnar pela Infanta 
A mAo aos pés llid caia. 
Quéda-ae çlle pensativo 
Sem saber o que fazia. 
Emquanto o Mouro pensava, 
JBmquimtçt ^k Bp dQria, 
O Chrístane con la infanta 
Voav^^ que n&o corria. (1) 



Quem não vê n^eatç bello rommce ama nova ver- 
são do século XV da Cançio do Figueirai ào século xui ? 
O facto de nâo o tçr cpmpreheadiáa O collector do Al- 
garve, é uma garantia da sua genuinidade. Os versos 
que sublinhamos mostram a identidade da lenda, co- 
mo a vimos, com o que se passa no romance. A forma 
octosyllabiea em quQ. elle está, accUda essa transição 

(1) Romanceiro do Algarve, p, 43. Fqí uma infelicidade 
para esta provincia o ser explorada pelo snr. Stacio da Veiga, 
a quem falta o critério, prevertido de mais a mai9 por. umas 
pretençOes a erudito de convento. 



. — , ,, , 



CitPiTíJLO IV 



da redondilha menor para fnAior^ operada nos cantos 
populares, quando os árabes da Penmsul^ reduzidos á 
escravidSO; começaram a exercer a profissSo de jograes, 
6 a influírem pelo caiato ç> pela dança Of 9ietrica do po- 
vo. O desfecho do romance do Álgiafre &z lembrar a 

» 

lenda de Simancas, quQ nSo chegou 4l receber forma 
poética. 

Faria e Sousa também allude á exjistencia de ou- 
tros muitos cantos sobre este assumpto: «Omito unas 
canciones, que en Portugal se çopaervan, 7 que con 
antigua linguage relatan esta aventura.» (1) 

No meiado do século. %sif Xtorenzo de Sepúlveda, 
compondo os seus Rwnances so/cados de varias histO' 
riasj pôz em verso octQsylIabo a lenda de Peito Bur- 
dello; eis o romance, como se publicou 6m Ânvers em 
1551: 

De Leott 3^ ks Aatniias 
Ramiro tUiie el reinado c 
EsoB Itf oroQ dq BaréMa 
Le enviaroD bu «sandado, 
Que si paa i|iiièi«9 eon clloa 
£1 tributo loa aea dadft 
Que Ua daba aquese rey , 
Mavregate era lianiado. < 
Cada pflo eon oten doucaUaSy . 
Las ciDOileiíta hijaa dalg^ 
Para %% oaaar eún «allaa'' ) 

T ^«Daiiaa à bq maiMlo. 
Gran pesar oòbTaJba ai ragp 
Eq vir el tal raoada, < 
Entro en tiert aa da loa moròi^ 
Mttofaoa loa habia estragado» 

(1) Europa portugtiíiéza, t. t, p. 996. Parti iV) cap. 5f 



»6 EPOPÊAS DiA BAÇA MOSARABB 

En Alyela eeç .lugar 
Muy ^an lid habian trabado, 
Despartiéralos la noche 
Ed Glavijo ese coUado. 
Los orístianos con fatiga 
A Dios estaban U amando, 
LloraDdo de los sus ojos, 
Muy grandes suspiros dando. 
Lo que lo pedian era 
Que no los ayas olvidando 
Ni consienta que de moros 
Queden mnertos en el campo, 
Ruéganle que los acorra, 
Pues es su Dios soberano. 
Adormiose el-rey Bamiro, 
! Santiago la ha hablado, 
Pijole : — Bey, sabe cierto 
Que quando Dios por su mano 
Nos repartiera las tierras 
Do fuesemos predicando, 
Solo Espaíia a mi la dió. 
Que la tuviese á mi cargo. 
Defendella he de los moros. 
Favor soy de los cristianos ; 
Despierta tu, rey, no duermas, 
No dudes lo que te hablo. 
Que yo te vengo á ajudar 
Contra los moros paganos. 
Con una cruz colorada, 
Asy, me vecás peleando, 
Sefia blanca sobre mi 
T tambien los tus vasallos^ 
Herid de recio que los moroa 
Muertos quedarán en campo. 
Llamad ei nombre de Dios 
Con el mio apeUidando. — 
Despierto que fue el buen rey, 
El snefio habia rebelado ; 
Hizo lo que lo mando 
Santiago el apóetol santo. 
Hiríeron fuerte que los moros 
Del campo los han lanzado, 
T taQto0.<nurieron ddlos 



CAPITULO IV 



207 



Que no paeden aer oontados. 

De alli quedara en CastíUa 

£1 invocar á Santiago 

Al tiampo de las batalhas 

Que han habido los crístianos. (1) 



Com este romance termina o çyclo épico da tradi- 
ção do tributo das donzdlas. Por esta exposiçSo ae ve- 
rá; que em Hespanha prevaleceu sempre a forma cuha 
e littemria, e que em Portugi^l foi mais robusta sem- 
pre a tradiçílk) oral. Ainda n^esta tenacidade mostra o 
nosso povo vislumbres do seu caracter mosarabico, por 
que reahnente foram os árabes o povo que conservou 
maiores poemas de cór. Andou infundadamente JoSlo 
Pedro Ribem, quando só com o dar por apocrtfpho, 
negou a authenticidade da Canção do Figueiral; (2) o 
erro dQ iUa«tre jugitiquariofoi querer applioar á critica 
litteraria os mesmos proeessoa da ciitica paleogra*^ 
phica. (3) 



r ■ 



^1^ Êomancts sacados de varias historias^ p. 26. 

(2) Dissertações Chron.,U t^p. 181. 

(3j Na Hisforia,da Poesiapr<n?e7tiÇaJportuguem,.^n^Mis' 
tona' aa formação de Amadiz ae Gaiãa^ discutimos as outras 
refttàiitftiarír^liqtíias da poAsSa poitujgnesa, tidas p(>r4aVidoiá8, 



206( EPOPÊÁS DA RAÇA M0SARA6E 



OÁI^l-PtTl-O V 



Romanisação das Bpopéas genuaiiíoas pelo génio 

gallo-firanko 



Os Gállo-f rànkoB e as Oanççes de Gestc^, formadas pelo agru- 
paBMntô da« CanêUenaa germânicas. — Oé^Allèiros francezeg 

. ^9, pQnquÍ9f;^ gIq UábQa. --- A lepflfi do CavalJ^irp Bcimqu^f 
— Às tVdnciae^ noiqe vulgar quQ os hespanhoes dfto ás tra- 
diçõeê gallo-fratikas. -— Infioeucia dos jograeS. -«^O Ojrciòrde 
Carlps MagQo na PeniusiiU. ^ í^hotna da fQrmaçJip' d^ Bo- 
mance popular pela renovação da Arcana com a Canção de 

i'6fefto'. '-'^Refierenoias á França nos Cantos po^ulaírea portu - 

..gvi^;9Ç9.— A Poesia do feud*U#«io,--08 ffitw d?^ 4iwfia^-^ 
Cyclo da Tayola Redonda, e a influencia, gallo-bretft. ^— O 

' Cyelo erudito. — O romance popular de VfrgiHòé. ^—'Ooino 

9f}9b^ 9 Período dA «reaç^ poética d» Qd^de. ^^diUr ; 






'.'. Â pooaia ^ goãop efttaivs» qtiasi 0É!t{iiota peloB 
eeiQJNitefli eon^tantei qtie Ibe 4eu o- cathoiiciême^; se- 
guindo a doutrina de Ario, que se servira da lifigua-' 
gem poética para espalhar a ideia da humanidade de 
JesuSy os godos e os burgundos foram os povos da £&- 
milia germânica que mais perderam das suas tradições 
diante do estéril canonismo romano. Quando os árabes 
entraram na Península, a sua tolerância politica e re- 
ligiosa, bem como a sua incommunicabilidade semiti- 
ca, deixaram uma livre expansão aos restos da poesia 
gothica qi(§ ainda coQservavam os lites e colono^ que 
não fugiram diante dos mvasoresu 

'(^uátido do século ix ao «ecnlo ^t se áera;in fts in- 
YMSep jaonqaadas e aoMidiíiavaj), airimur^ na «IsM 



CAPITULO V 409 

gothica a tradiçBo epioa, mas fragmentada, meoiApIe- 
ta^ com amas vagas reminiscências dos Eddatj mas já 
sdm a força de oreaçlô para as reconstruir, comKi ties 

D^entre todos os povod da Europa um havia que 
ainda conservava as tradições germânicas, e que lhes 
dera uma nova fórtna, oom que as tomou outra Tez 
vuIgareA e etithusiaaticãs: eram os gallo-frankos. Á in- 
fluâaoia gaUo^fraíika em Portugal é attestada por dt&- 
cumentos positivos; porém a acçSo que exerceram na 
poesia popular comprehende-se pelo caracter do tempo 
em que vieram a Portugal, justamente quando estaVa 
em elaboração o cyclo das epopêas francesas. Os meios 
de transmissão da nova poesia foram, primeiramente 
OB Joj/raes, que percorriam o mundo espalhando as no- 
vas estrojdies das OançSes de getia, que os' p6vos per 
onde passavam repetiam, abreviando-as ; depois, os Ca- 
valleiros que iam para a Cniaada, e ao dirigirem^se ao 
Mediterrâneo, apartavam em Portugal; e finalmente, 
os peregrinos e romeiros que pagavam a hospitalidade 
com 9A suas cantigas. Ainda assim todos estes meios 
seriam casuaes, e actuariam sem profundidade, se no 
território portuguez se não houvessem estabelecido co- 
lónias de gallo-frankos, com foraes e privilégios, que 
lhes gmrantiam a integridade dos seus costumes jurí- 
dicos. Mais tarde, quando a França do norte venceu; a 
França do sul, também os gallo-romanos encontraram 
em Portugal um refogio deíxanilo-nos em recom|)etòa 
o gosto peias canções provençalescas» 



210 EP0PÊÁ8 DA RAÇA MOSARABE 

Nfr C^roniea gothorum, falando da era de MCi#xxvnx, 
•diz-My qUe n^eate tempo chegaram ao Porto de Gaja 
alguistfUB náoSy vindas inetperadaniente das partes das ' 
Gallias com cavalleiros armados que iam com voto de 
eombatar^n Jerusalém; Âffonso Henriques soube do 
evento e foi &lar com elle^^ que eram perto de setenta 
cavalleiros, para irem cercar Lisboa, elles pela parte 
do mar, e o rei pela banda da terra. Depois de um 
longo e infructuoso cerco, o monarcha re^^essou á sua 
terra e os cavalleiros seguiram a direcção da terra san- 
ta* (1) Também da era de mclxxxv, accrescepta, que 
tendo o rei cercado Lisboa no mez de Julho, por um 
rasgo da providencia, chegou a Portugal uma multidão 
de navios vindos das Gallias, que Ihé prestaram um 
poderoso auxilio. (2) Durante os cercos e os assaltos 
das cidadãs mouriscas, não foi abondonada a poesia, 
como já vimos na analyse do Cármen Ghminus, Tam- 
bém na Chronica da funda,ção do Mosteiro de Sam 
Vicente, se conta a parte que tiveram Os cavalleiros 
francezes na tomada de Lisboa: «Entom os christSos 
do senbcMrio de França e de Bretanha e de Guitania, e 
as naç3es dos Gontonicos, veendo elles qlie era grande 



(1) Mon, HisL, vol. I, p. 13, col. 1. 

(2) Bra iiolxxxv. «Et in eodern anno, mense JuKo, UUix- 
bonauí obecdit, cni provideDte ex alto divina clementia multi- 
tudo iiavium de Galliaruin partibus celitus transmiesa, súbito 
exinsperato adveoit in auxilium, quorum auxilio valde fretus 
obsedit civitatem per quinqne menses, fortiter vexans et op- 
pugnans eani terra et mari, nullum permittcns oggredi vel in- 
gredi.» Idem, ih., p. 15, col. 1. 



CAPITULO V 211 

serviço de Deos e salvaçan das almas dos ohrístios o 
que el-rey dom Âfonse de Portugal fasia^ ouTeromllie 
enveja, e quiseram ser participantes em tal guerra co- 
me esta, por que tal «iveja como dito é cabe em Deos, 
que é enveja de se haver de acrecentar o seu serviço. 
Entom cada uma doestas naçSes de gentes se aparelha- 
rem com muitas naves que ouverom, e veerom todos 
juntamente a Lixboa com grandes companhas bem ar- 
madas e prestes para trabalhar, e desejavam haver vi- 
toria dos emigos da santa ft . • • » (1) 

D'eBta vinda dos Cavalleiros franceses data uma 
tradiçXo épica, que nXo chegou a receber fórma poéti- 
ca, mas que tem o caracter sublime do cjelo carolino. 
Copiamol-a na sua linguagem primitiva: 

«Estando já assi a cidade de Lisboa su o poder 
dos christSos, e ordenada em serviço de Deus aoaeoeu 
hum dia que soterrarem no dito moesteiro de Sam Vi- 
cente hum cavalleiro que havia nome Anrique, e fbi 
natund d'huma villa a que dizem Bona, que faz qua- 
tro legoas aalem de Colonha: cavalleiro boo, e bem fi- 
dalgo e abastado de todos bons costumes, e foi morto 
na entrada da cidade, fazendo muito bem per seu cor- 
po e vertendo de grande vontade o seu sangue antre 
os mouros, pala paixom de nosso salvador Jesu Chris- 
to. .. Depois d'esto a poucos dias acaeceu que um es- 
cudeiro do sobredito cavalleiro Ânrique que fôra na en- 
trada da cidade, fôra mal chagado dos enmiigos de 

(1) Idem t6., p. 408, coL 1. 



CXfc2 EPOPÊAS VA RAÇA MOSABABE 

grandes feridas, •em tal maneira que a poueo tempo 
depois da morte do ditei cáválleiro Ihirtqaè seiLaeiidftor, 
passou* o dito seu escudeiro no me8tefix> de S«n Vioen- 
te 6 i foi hi sepultado em hnma sepuiturf^ a longe oodie 
JBfiÍBí o dito seu senlaor. E depois qod este 'escudeiro 
asai foi enterrado a longe do muimiento de iseu sedbor, 
como dito he/ o sobredito cavidleiro Enrique apareceu 
de noite em sonhos aaquel que era. guardador e servi- 
dor da egreja do dito moesteira: oeste eraEiaique 
leigo, o qual fôra estabeieàrab pêra serviço da dita 
egreja como dito fae: e^aj^arecendclbetO ditoCSa^leiro 
^sselhe aesi: «Ler^ita-te e vái. aaquel lo^r onde o^ 
ofaristXaos «nierrarom aaquel meu escudeiro, a longe 
de mim e toma o corpo deUe e trage^ aqui ianto.c^ocii- 
'igò»9i Ejo dito Eíirique servidor veendo.ésta primeira 
vissom noiti corou dWIa nenhuma cousa. Ecktfto veo 
outra vez o dito Gavalleiro ao dito Enrique servidor e 
disse-ibe que fiaesse e cumprisse aquello que lhe dito 
avia: e o dito Einriquenon curoudeelo.nenbun^a cou- 
sa.. E quando veo a terceira ve«5, apíaneceulhe o dito ca- 
Talleiro mui bravo, e com rosto e faoe mui espantosa, 
e com seu idiser de grande medo e espanto porque nom 
eompria aquello que lhe já por tantas vjezes mandara 
£a«er. Entiom o dito Enriqae servidor, yeendo o dito 
eavalleiro em como vinha ijrado contra elle, ouye gram 
temor e. espanto e levantou-ee logo donde jazia dormin- 
do, e foi com oandeas aa (sepultura daude jassia.o dito 
escudeiro, e desenterrouho, e levantou o corpo d'ali, e 
trouxeo pêra aquella sepultura onde o dito eavalleiro 



OAPIVULOV S18 

jáúa^ e fkza-^lhè uma 8e{)ultura a melhor que el pode 
bzeTy e Bulen^ou o escudeiro em eila iunto com seu se-^ 
nhor, asfti Qomo lhe fòra mandado. E todo esto fez dé 
noite com grande medo que avia do dito cavaileiro: e 
quando veo na manhZa^ achou^se este Enrique tam seih 
afiuHy nem trabalho que no corpo sentisse, que bem pa^- 
reoee que nunca per elle tal trabalho com aaquel pas- 
sara.» (1) 

Pelo caracter grandioso d'esta lenda, em que a fi* 
delidade mutua de oavalleiro- e de pagem nos appare^ 
oe inquebrantável além da ínorte, se conhece que a Por- 
tegal chegara a mesma corrente de inspiraçio que esp- 
iava ditahdo a Chanson dê Rolando Aqui está o pri** 
meiro gérmen de uma eixipêa, trazido peio génio frau'* 
cez, que por circumstancias fisitaes não recebeu fórmá 
poetieai Antes, porém, de determinar quaes foram es* 
sas circurnstancías^ é forçoso fundamentar com textos 
a existência das colónias francezas no solo de Portugal. 
Ha Ghrofma gothorum, se conta como Coimbra foi 
povoada, depois de tomada aos mouros, por uma colo^ 
nia fraaceaa* (2) Na Chroniea da fundctção do mo^teu 
TO dê Sain Ficsnte> falasse da partilha das terras de- 
pois da tomada de Lisboa: <e entom partiu as terras 
por esta guisa: deu aos /rancssM e aaquelles que com 

« 

(1) Mon, J7Í9<.,Tol. I, p. 410, (cap. ti e cap, yu.) 

(2) «Conímbríam ab iniiuicis possessam heremitavit, et ez 
Gaí^ects, postea populavit, multa qaoque aiia castra subjocit.» 
Mon, HÍ8t,y vol. 1, p. 9, col. 1.— Na Èrtvis historia gothorum, 
se diz de nm à^odo luíaiè explicito : «et ex Galledej restanravit, 
ficilicet, fccit coloniam (íauaióàni/ln, * 



214 EP0PÊÂ8 DÁ RÀÇAMOSARÂBE 

elles quizerom ficar das naçSefi snsoditas, o senhorio 
d'Azambuja, e de Villa Verde e de Atouguia^ e da 
Lourinh&a, seendb os ditos logares em aquelle tempo 
terra chãá; e depois forom os ditos legares poboados 
das ditas nações.» (1) Este mesmo facto se repetenas 
Qhroniccts breves > e Memorioã avulsas de Santa CfTiz 
de Coimbra: <e forem em soa ajuda em esta toma 
muitas companhas dalemaees e framengos e doiítras na- 
çSles, que veerom per mar^ antro .os* qnaa«s forotn hi 
qnatro capítftaes qite a^ain 'nome dom- Garlhim de 
Lícorne p dom Rooim'*e .dom Juàhertz, odom liigel. 
Estes quatro demandavam, parte da villa a el Rey dom 
áfifonso porque^ fo^om itk tomada delia. EieLihe disse 
que o nom £aria, mais lhe daqa outros logares que po^ 
boraasem elles e sua licdiagem. pêra todo o sen^pre, e 
que lhe òonbecesaem d'eUes o senhorio. £ a kum.delles 
deu a azambuja, e'a outro villa verde, e ao onirea 
lourinhSo ; e estes dizem que foram de Flrandes e trou* 
zeram todos seus linhagens e seus averes, e poborarom 
estes logares. D (2) De facto no foral da Louri&Ul en- 
coãtra^se uma pena que falta em todos os focaes dó ori* 
gem portugueaa : a do assassino, ser enterrado vivo so- 
bre a sua viotima. No foral de Atouguia^ a independen* 
cia dos colonos, firancezes leva a formular a is^pçSo do 
serviço militar. A colonisação franceza continuou ain- 
da depois da morte de Afibnfio i, dando-se-lhe Ponte- 



(1) Cap. X. Mon, Hist.y vol. i, p. 411/ cql. 2. 

(2) Mon. Hi8t.^ vol. i, p. 29, col. Z. 



\ 



CAPITULO V n5 

yel e seu termo, approximando^a da margem direita do 
Tejo, (1) pela doação aoB frankos de Villa Verde e Lou- 
rinhã. K'este8 foraes se encontram as duas designações 
Gallict e Franci, como se vê no foral de Atouguia; é a 
mesma divisão de raça dos gallo-frankos com os gallo- 
romanos que se dava nas colónias portuguezas; òs iraij- 
kos tomaram-se privilegiados da colónia, tendo mais 
garantias, sendo todos cavalleiros, em quanto entre os 
francezes meridionaes prevalecia a pionagem. 

Esta divisão de raça, que ainda se descobre nos 
Foraes de Atouguia, está-nos indicando as fontes da 
tradição poética em Portugal : os gallo-frankos, por si 
ou pelos jògraes que os visitavam annualm ente,. repe- 
tiam os cantos épicos do cyclo da lucta dps grandes 
vassallos, as Gestas carlingianas ; ao mesmo tempo, 
desde o principio da monarchia, encontram -se os poe- 
mas dos milagres . dos Santos trazidos para Portugal 
pelos poetas do sul da França, os perseguidos, gallo- 
romanos. 

Na poesia culta hespanhola, o primeiro signal da 
influencia franceza são os versos alexandrinos; mas 
procuremos de preferencia o veio popular. Logo que 
08 jograes repetiram as immensas Canções do cyck) 
carlingiano, o povo ficou com a impressão vaga do 
conto, e assim como chamaram Araviaa ás suas canti- 
lenas gotbicas moldadas pelo rythmo árabe, chamaram 
aos enredos da imaginação jogralesca Fransias, Diz 

(1) Herculano, Hiat de Port,^ t» u, p. 67. 



I 



Ít6 EPOPÊAS DA iLAJÇk MOSARABE 

Btt M^ril : «N« velha lingua faespanhola, . os contos 
eram chamados fransiás, e esta expressíLo havia cer- 
tamente sido inspirada por um conhecimento directo 
da litteratura franceza^ que era rica d^elies em extrè- 
mOé» (1) Pela sua parte os eruditos reconheciam a sn- 
perioridade da poética franceza. Diz Berceo : 



Sabran maiores nuevas de Ia tu alabancia 

Que DO renuncian todos los Maestroê de Francia. (2) 



No Livro dé ApoUonio proclama-se a nova maes- 
tria, que vinha acordar o génio peninsular, &zendo 
Cútá que a linguagem do vulgo, entSo chamada roman- 
tBj servisse para todas as fórmas épicas : 



En el notnbre de Dios e de Santa Maria 

Si ellos me guiasseu éstàdiar queria 

Gomponer un romance de nueva truiestria, (Est. 1.) 



A par d'este movimento culto da poética franceza, 
existia Uma creaçSo popular, despertada também pelos 
ttvrveiros francezes, e que os eruditos despresavam. 
No Poema de Ahxandro, publicado por Sanchez, se 
revela este antagonismo: 



i 



1) Du Méril, Hist de la Poeêie Scandinave, p. 317, uot. 

2) Duelo de ia Virgèn^ esti 6. 



CAPITULO V 2IT 



yiea^x %J»ig^ tc^mçfBQi. nofi 00 de ioglaru^. 
Mester es seu peccado, cá es de clerecia, 
Fúèhar curso rimado^ per la quaderna via, 
Á 9ÍlUiòa9 cwttkkdas, ca es grqmt maestria. 
•>■■••••••••••«•••••<•••••■••••••• 

Qui oirlo quisier, á todo mi creer 
Pr^drá bopa» gestqfi^ que sepi^ retraer. 



Estes Tersos suprem a &Ita de doouineQtos da 
tnmsfiDoniiaçSo épica da poesia portuguesa; mas como 
n'e8te tempo a alma do pavo na Penitisula estava no 
mesmo estado moral e obedecia á mesma influencia^ 
oompletam-se as phases da sua vida pela mutua lu« 
dos seus vestígios. N^esítes versos do Poema de Áler 
xcoMlr», 8ie vê que. existia uma ordem de cantos que 
dSo eram propirios da gente instmiida^ ou cleresia; que 
bIo ^am rimados em quadras, nem por syUabas cou- 
tadas, que eram cantares históricos, ou de GeHas, mm 
que nXo meree^am conservar-se de memoria: a esta 
ordem de caxUoa chamava-ee de iogluria. É isto o qu9 
dá a ixàtelligencia dos seis versos acima transcriptos ; 
abandetaemos a preconisada maestria, e investiguemos 
o ^irae;ter da pioesia dos jograep, como se communiooii 
ao povo português, que transformações ou que elemen- 
tos trouxe aos cautos nacionais, e de que modo se er^ 
gueram os admiráveis Romanceiros da Peninsula com* 
muna aos dois povos, e em que ambos, separados ppli^^ 
tieameAte^ ooorpevaram irmimente, 

Pfúr» fte conlipcer este grande pbenomeno morali 
Bermm mamansiun^il» as deseabertaa sobre aa orif cm 
geimaninas das ^fOf$Si^ ItaUfit&aDksA, ista é» a> paciia^ 



21S EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

gem das Cantilenas para a& Canqdes de Oesta, confron- 
tadas com o estado da tradição gothica, ou Aravias, 
(poemas conservados pelo canto e dansa) que se toma- 
ram romances ou cantos heróicos, breves e recitados. 
Feia natureza da poesia germânica, consagrada pa- 
ra celebrar as origens históricas e os feitos militares, 
para ser cantada antes das batalhas, e durante a paz 
pelos •cegoh que andavam excitando os. brios maroiaes, 
86 conhece como ella tendia a abreviar-se na<tradiçSo 
oMiL Quando Tácito^ Jomandes, Eghinard e os muitos 
GihronÍBtas da edade media faianii da poesia da raça 
germânica, dão a entender uma fiSrma breve, mais ex* 
ten^a'do que a Ode, e menor do que as epopêas anti- 
gas.' Pelo interesse e fervor que ia perdendo a mytho- 
logia odinica diante do christianismo, os cantos ger- 
maâicos iam perdendo o enthusiasmo que excitavam 
nas multiddeS) de modo qtie com o dominio de Carlos 
Magno, que consolidou a supremacia de Roma, acaba- 
ria para sempre esta assombrosa creaç2lo épica da Eu- 
i^opa, sè o génio f ranko não acceitasse o legado ^antigo. 
É justamente este o ponto em que se cria á nova poe- 
sia do feudalismo ; i-estavam apenas na tradição algu- 
mas d^essas estrophes breves, que não despertavam a 
curiosidade nem pelos heroes, nem pelos deoses que ce- 
lebravam; 08 criticos modernos, como Fauriei, Wolf, 
Barreis, Paulin Paris e Leo(n OAutier, denominam es* 
tas 'estrophes assim estacionarias e qoasi a perderem- 
8e, com o nome de Cantileitas, empregada aatígamen- 
te fWi Oderio VitaL Na poesiu popui^ da PwiinattiaoB 



CAPITULO V fl9 

antigos caiitoB gothioos, a que o povo chaaiiava Avansicbê^ 
estvRam no liiesmo estado de decadência das OafUife^ 
nas germânicas; aómetite quando os heroes firaneeae» 
ioram caditados pelos. jograeB emUespUnha é.que o gé- 
nio náoional erigiu as epopêas do Oid, de Bernardo dei 
Oarpâev ^^ 3ete Infantes «de Lán^. O. estado da poesia 
de um povo expliea a transformação vdo seu congénere. 
As£Miinfo'2sn<íw.extinguiam*se por fíDlta! de um heroeque 
exaltassem; apparecen Clirlos Magno^ e os. trovéiròs 
irankos agruparam em Volta d^eUe todas as cantilenas 
de bravura. £ dWa uni&o cyoHea que se forma a Gan-^ 
çSto de Oeèta, composta de milhSee de versos^ e recitar' 
da nas praças publicas durante semanas inteiras. A 
passagem da Oantihna tudesca para a Oesta vulgar é 
o que se chama romanisação da poesia germânica. Nas 
CançSes de Oesta descobre-se o ponto de juncçSo das 
diversas ÊSan^iíanos nUiquellas phrases : OieZy seigrwurs, 
Ce est de Karle, ete.^ com quê o jogral que recita vae 
repousando. A Cantilena prevalecia ainda nos 'costumes 
populares duirauate a época merovingiana, cantando os 
feitos dos guerreiros frankos durante o sexto, ^eptimi 
e oitavo séculos. Com as vietorias de Oarlos Magno^ 
oa jógraes não tivei«m mais do que agrupar, em volta 
do seu íiome tudo o <que já estava dito^ dos outros rek ) 
é estQ o .costume do povo. Nas tradições finnotcontoi^ 
ses, attribue-se a Carlos v façanhas que nas chronicas e 
poemas engrandeceram Carlos Magno; (1) também nas 

(1) J[aG(A> Ghritnm, Leandha alkmfM^^t. i, ^, zzavii; Xd. £r. 
de 1838. 



KPOPÊAS DA BAÇA MOSARABB 

aldeia» do OcmÉé se tangam i conta das herdas de Hen» 
rique IV as atrocidades de antes imputadas aos Bsira* 
eeao8« Até aonde foi a espiada de Carlos Magno, lá £i- 
eon uma nova elaberaçflo poetíoa, e qiais Mada, ama 
immensa cnriofeidadè paraouyir as suas viotorias; o 
aáior que elle tinka pelos cáirtOifi áiraiikos, fez tampem 
com que sé desenvolT«s&e o gosto doa que aio tioikam 
on|ro meio de pnUieidade senSb o canto. Coexistentes 
ainda com as Canfiê8 de Gesta, se ç(^nser!iram doas 
Oantííhênas do seonlo ix/ a de Hildebrand| « a de 8an^ 
eourt; mas mna cqrrmte de in8f>iraçSo rebentava da 
niddade enropêa fikndad^ por Canbs Magno; haria umi^ 
ttodenoía cycHoa, ou inatianôto que' leva^ii a agrupar 
todos os cantos em volta de cwtos heitojes^ e este {«tn 
eesSo^ mesmo oem outros recít^Fsos, pela reuniSo de oiai- 
tos episódios constítuia a grande Can^ de Qe»ia. 
D'esta fusSo dâs Cantilena» resultou immediatamente 
três cjckis : o de Carlos Magno^ o de Guifixerme d'Oran'» 
ge, e o de Reynaldofl de Montaubaa; (1) tambesD se 
chamava G^esJba, á totalidade de cada «iil doestes cjolos. 
Log», que começou a luota dos grandes vassallòs, oosh 
stituirauh-se novos eyelos secundários de QançSea dê 
ffesia : ha o cyck> feudal dos Lorrains na Auatrasii^ ; o 
de^ Germond e Isembaaid em Po];ithieu ; o de £aul de 
Cambrai em Vennandois; o de Aubiy le BeurguigiMn, 



'.(1) Seguima^ a^ett^ psfte a Leoa Qauttslr^ ^Epapéiáfran- 
çoMef. 



xA8uQàV]:njLa y tsi 



deOirjud lie BoiuHfiUi»^ de Slie deâun QiUeB^.ÂIf Amis 
et Amil^ e de Beuves de Smnutoúe. (1) 

Qiiandp 4ia jog^aes repetiam de t^rra en terra eatés 
eantos, ínLgmmtmmm^ Meando as exigências tia »^ 
citaçZO) eo poro^ pu>^detxu'ar es episodio» que .mais o im^ 
preBuonavam^ rèdnsia^ eempre ás eituaçèes dramati^ 
oaS) e a pa^ laoenlsmo orçado pela infidelidade da me-» 
moria. Oiespçrito^joIioOy oeiniiiunioado pqkisfraiikoaás 
cantilenas, por esse motivo não pôde ser seguido na Pe- 
ninsola. Disse bem Leon Gautier, fundado em Paulin 
Paris : c A Hespanha não foi, como a França, arrastada 
por este movimento irresistível que nos levou da canti- 
lena para a epopêa. A Hespanha, á excepção do Poe^ 
ma do Cidy não transpôz este passo decisivo que nos fez 
mudar as nossas Cantilenas em Canções de Gesta; ella 
estacionou nas Cantilenas, que são conhecidas pdo no- 
me de Romances* » (2) As versSes e variantes dos ro- 
mances hespanhoes, adquiriram um caracter cyclico em 
volta.de Cid, de Bffi:tiardo dei Oarpio^ e de «potros he- 
roes beis jMa4ie>e8 com q«|e a tFaddçio populi^* xegeiton os 
eTclos fra,Dee268. Em Portugal nem isto hottine^ as can;* 
tiieiías gotfaicas qué se eonservaraiiL quasi oUitevaddui 
por falte de . suooessos históricos,! asas i Qiisti| da musâea 
6 dança árabes, receberam dos^ograes franc^es novas 
tmdiçSes cavalheireseaB efeudaes; sem oomtujdo perde- 
rem o seu caiweter. iN« liagoa portugucaa qfto ael eneoxH 

' * j I • j • » . 

(1) Idem, ttwí., t. I, p. 94.' ' 

(2) Idem, ibid., p. 100. 



222 EPOPÊAS DÁ' RSÇA /ISOSABABE 

tóa a palavra âatéd^riaosantido^de poM^a eiplcth,. como 
na poesia hespánhola, aonde ée imitaram as OamUjlb de 
Alexffiidre e de ApoUonôo^ A poesiaipopuiar píortu^neza 
recebea á Beiya^franka,.iiii^»conser¥oarfle.brev!e| desli- 
gadft; ôcal, nfkviesenp^, .« d* esta' superioridade lhe ia 
resultando a suai completa. extín«ção4£antique melhor 
se ootáprekenda este^geQeaífl intidnoftdodasiefwpêaa mo- 
sàrabes, recapitulamba a discussão no sègvpifitét . 



< K 



SCHBMA DA FORMAÇÃO. DO ROMANCE POPULAR , 



G, 




■ ■ i « ■ ' * < ■* 



■?^y .^ v* »<-. — — *-..— .-—.— — !*• ""^ífc 



C, representa as Oah^íZciio^ gemnaáicas^ fragmen- 
tadas, sâltasy sem fárma eulta, produzidas pela inapira* 
çfito primitíva, comeryadas tradicionalmente, e eaatin- 
gttindo-se por falta. d» interesse histórico, è ppr esta- 
nem emópposiçSo com«8 notas formas > que ia ^socieda- 
de e as linguas iam Ix^noando: do século ix ^ao século In, 
. Qy representa as GançSe&de (?e«toJ»/.cseadassòbifeo8 
feitos da. raça &anka, e foniiada8/'pQlo.e«pioilx>43jQ)ico 
que agrupava em volta de um mesmo heroe todas as can- 
tilenaa que lembravam ; caraçterisam-^e .por uipa enor- 



OAPITUIX) V . 2»3L 

me ext^sSo e certo artificio, e por «erem recitadtiB p^los 
jograes em toda a Europa desde o seeulo zi em. diante» 

A, representa os cantos g^ddos, análogos ás CajUi- 
Unas germânicas, e como elias quaei esctinetos pela ao-. 
çilo do cathoUeismo, e por falta de um her oe que en- 
chesse a tradição ; estes cantos foram dóbilmente sasci** 
tados pelas ínvasSes scandinavas enormaadias, e não 
se perderam totalmente, por servirem de letra sem sen-»' 
tido para a musica e dança imitada dos árabes. Esta 
revolução aeha-se expressa no nome de Arama», que o 
povo portuguez e heapanhol deu a e&ta forma. Quando 
a Arama ia caindo no estribilho sem sentido,, é que as 
Canções de Gesta vieram ministrar-lhe os assumptos 
dos seus episódios que os jograes recitavam. Um dos. 
typos da cantilena peninsular é a Canção do Figueir^alx 
á qual Miguel LeitSo chama uma das muitas canti^ 
lenas. • 

K, é o producto resultante do encontro àMi Gestas 
franceeafi com as Aravias peninsulares, que á melopêa 
d'^tas communicaram a curiosidade e novidade daa 
suas aventuras oavalheireseas. Só depois do século xiv 
é que se chamou a este novo. producto Romance ^ que é 
a primitiva cantilena heróica conservando a sua forma 
breve, e propagando-se;aa tradição não já pela musica 
e dança, mas pek). interesse dos feitos bisitoiricos. que 
por toda a pai te se repetiam. Como a legitima. CafMtfl#^ 
^germânica, o Boma^Me nio recebeu. íbriãAesQeifMia'; 
e só: no. fim do século xv, lé que.Qs livreiítos. de S^sjp^n 
nha a refiêíterwn. 



9Bi EP0PÊA8 DA RAÇA MOSABABE 

Plim rêt que a seivii poética nos reiu de França, 
baeta notar que os nossos oan^os populares s8o abve- 
viaçSes dos <^lo0 franeezes, e que as tradiçSea pcurtu- 
goezas do secuto Ta ^ xvi nio sairam da fórma pro- 
saica das lenda». Ealtava-noa q ferror que tem sempre 
uma raça fevte e Independente; assim^ d'entre os povos 
daedade^ttedia, foram os portugueses os primeirps que 
inverteram os poemas eavalbeiresoos na prosa das no- 
veUas. Nadoe no despcttismo, criámos «ma fárma que 
a Europa só aoceitou depois da fi^çSo da realeza. 

Os jograes fpanoeaes vulgarisi^ram por todo o man- 
de os^ Imantares do oydo de Carlos Magno; aonde havia 
ainda erea^ poética, reagiu^se eontra essa invasão 
femando cye\<M de heroes Qaeionaes. Em um edito de 
Bolonhei^ citado por Mm-stori, esti^tae-se: «Ut canta- 
tores frandgenarum in plateis ad cantandum morari 
non possint.» Assim na Itália, o vulto de Carlos Ma- 
gtko oaiu no ridicolo. Na poesia kespanhola do xxi se- 
euW usa-se a palavra Chariníéaneria, que ficou nas lo- 
cações populares da língua, oomo a coBdemnaçfto dos 
cantares earolino9 doe jograes. Dia Soriano Fuertes, 
na líistoria de la MusuMiheêpafiola: cOs jograes firan- 
eezes lograram por suas cançSes pouco decorosas que 
a republica, de Bolonha publicasse um decreto, para 
qu0 os di^os jograes nSo parassem a eaiitar nas praças 
pifUioas. A voa tharlatanêma é derivada da palavra 
frai!i0eza Charks. Como o» troveiros franoezes nlo can« 
ttwid h^aqnelleS' tempos além das suas cançSea lascivas 
outras a nSo serem de Carlos Magno, os ilaKaaos Ibei^ 



CáFITULO T 



duunarftm Ciàrhé, e ft palavra C(arlatmi e «dfrenós 
Charlcíiãea, foi sucicessivamente empregada ao8 qm se 
entregam a cansas BÍmilhantés.» (1) O edito de Bo1(h 
nha era do anno de 1888; eem Portugal^ começaBdo 
a reinar Dom Âffoniio ni, em 1245, implantou na «na 
corte os coátumes franceBOtl, como se. viê. por este textos 
<E1 Rej aia trw jo^areê em sa cãea e notii mais^ e ^o 
jogral que veher de cavalo d'outra terra ou sègrel dê- 
lhe £1 Bei alaa cem (maravedis?) ao que chus der^ e 
non mais se Iko dar quiser.» (2) 

Esto dooumento jHroVa que aiktee de 1245^ usavam 
os reis portugueses ter no seu palácio mais -do que tfee 
jograes; em 11V3 sabemos, da exist^icia de dois ^- 
graes favorecidos por Dom Sancho i, tendo uih d^ellee 
nome írancez, chamado Bàn Amiè^ (3) Appareeèm^hos 
estes factos desligados, mas as suas consequências só 
se encontram na poesia hespanhola, Âonde se fincaram 
melhor ^s formas. As cantilenas receberam em Hespa- 
nbà o nome de eaniareê, e depois o nome de géstaè. 
Lê-se na Chronica de Heapanha: t E lagoi» sabed los 
que esta estoria oydes, que maguer que los juglares 
cantam en sus cantares e dizen en sus fabras, que Car- 
los e) Emperador conquirio eu EspaÃa muchos castiel- 
los e muchas ciudades, e que ove y muchas batallas 

(1^ Op. cit., 1. 1, p. 143. 

(2) Meghnénto da òaaa real : (Aqui se começa o primeiro 
livro dos degredos e constituições que fez o mui nobre D. Af- 
fonso, o quinto rey de PortQg&l que M.) Mani Hidi, Legos i, 
p. 199. 

(3) Huttoni^ do The$airo pM^^ueA^ t. % p, A. 



IS» EPOPÊAS DA EAÇÃ ^MOSARABE 

cofn Moros deísâe Frafnoia fai^a Santiago ; esto non 
podre 8^, faeras ende que en Cantábria conquerio 
algo...» (1) Por este docnmetito se yê como os jo- 
graes provocavam ò interesse pelos cantares carolino8. 
O costume palaciano de D. Sancho i é D. Âffonso iii, 
i^ambem era usado por S^ Fernando, pae de Âffonso o 
Sábio: «Et outrosi pagando* se de ornes de corte, que 
sabien bi^a'de trobaf et cantar, e àejoglares que so- 
piessen bien= tocar instrumentos. Ca desto se pagaba 
el mucho et entendia quien lo fiicia bien, et quien 
non.w (2) Péla intelligenoia doeste texto se vê, que na 
corte de 'S. Fernando haviam trovadores e jograes, 
isíta é^ poetas 'Cultos que haviam condemnar os poetas 
rude^ da multidão, como se vê na verdade revelado no 
primeiro • «rçrso do Poema d^^AleAíandro : 

••■> • Mç8t«r triago f erniosâ. no es' de iogUiria. 

* 

E eiÀ Berceo^ na Vida de San Domingos de Silos, 
vem este antagonismo : ' 



Queríeo}^ las oras, uirs que otros cantares 
' Lo q.ue diçien los clérigos, mas que otros ioglareê. (3) 



Felizmente no Cancioneiro de Dom Diniz também 
se encontra uma canção condemnando os jograes, que 

(1\ Part. ni) foi. 8a v., col. 1. 

^2^ Setenarío, Pcdeogr.y p. 80 ; apud Ticknor. 

(3) Sanchesr, Fouiasj p. 318. Ed. de Ocbda. 



CAMTCTLÔ V : MT 

só cantavsm no tMipo da fi6r.' (l)'MaÍ8 iardea ^Oriê-i 
naçãa Affonsima reproduzia vima prohibiçSo de am mú^ 
turae já esquecido. Osjograes Ayras Paes, Diogo Pe- 
zelho, Lourenço, Lopo, que* appareoem Aia CoIIecçâo 
Vaticana, já nâo repetiam od datitos carolinos, mas en- 
trega vam-se á imitação dos cantos provençaes, mais es- 
timados na'<)dyte {mrtagifeM. Af> iàdo da* poeúá' dos 
trovadpres, nasoiaia>eifflore8oèiioia.|)arà6Ítift àoBJúgrae»; 
ellesdifiuiidiafaic no 'Meio Dia da Enrola oa can^o» de 
ámmr e avisivliiiyasigirerhiiras', !adba*pviaãoá è Teduaidos 
aos traços geràea .d^ intribcádas -Oestes earolma».' Oá 
trovadores ^nt^iim^^ó^dé 'atoor^ éi gÂlanteria-;' os Ipovoa 
da EiUropa/ tifi&ámrpntãb upMÍxsnriòsídade VirÍBaima de 
saber afi tk^agediaw tetriveivqtxesel passavam' nas-e^-^ 
tes; qu&Tevx^bçSeBise dayam: entre aaifComaiunáff e'C0 
senhores^ qiie boas novas trasíam-os pareg^inòs^da Ter* 
ra Santa. Quando o jogral apparecia no sokv deserto 
era como a andorinha que annunciava o verão, paga- 
vam-Ihe o canto com a hospitalidade, escutavam-no re- 
ligiosamente. Quando narrava as velhas e heróicas tra- 
dições do solar, enchíamrnOide presentes; o jogral ap- 
presentava-se nas festas dos casamentos dos principes, 
ou quando se armavam cavalleiros, como em Melun, 
quando o nosso D. Affonso lii foi armado por Sam 
Luiz. (2) Corriam todos os paizes e formavam certa- 
mes com as suas melhores cantigas; mas os fidalgos 

(1) Pag. 70, ediç. dé 1347. . : ... 

(2) Introditcção á Historia dd Hàttera^raporLyip.ldò. 



Sf8 EPOFÊAS DA BAÇA M OSARABE 

tr^vadorei odeiâTàln-lioSf pôr Ijue «Ues cantavam pòr 
dinheirO) como té vê na sirvente de Ptonrè de la Mal»: 



V«a oriiui-^dttye dny^. 
Date me qucjogíars sny.. (1) 



Mas esta invaslo dòs^^it^inet nas eaíàçSea palaeiâ* 
nas e ainorbaas dos troradoFes fèi oondenuiada pela le- 
gislaçBo; bba Leis dê PaMdasi estabelecia AffbnBO o 
Sábk)) em 1350: «qnèlos^/tfjrjarBftiionidixieaen antel- 
los otros 'oantiyres sífioft 'de (Testa -ò que fmUassen de fe- 
ches de armas;a (2);Por esta lèi' são -forçados -oe jògrsas 
ainSo. excederem ã.áraajda poesia qaeUke era, própria) 
os cantos oydioos franceaes» Estamoéma disposiçSa) 
qae vigoniu «ósio lei no tempo de Deito rDtni«, aehci-Be 
conbervada^ jA tradioionahnente, no ^lutb «íis lAmiania 
de Gil Vicente: 



Se a captiga nfto falar 

Em guerra de cutiladas, 

E de espadas desnudadas. 

Lançadas e encontradas, 

£ cousas de pelejar, 

NAo nas <|tiero vêr cantat, 

N&o nas posso ouvir cantadas. (3) 



(1) Haynouard, Choix, t. v,p. 320. 

(2) Paa-tida n, tit. 21, lei 20 o 21. 

(3) Odm^ t; srvp* ^7]i. 



1 1 



CAPlttTLO V Íá9 

Por este («vo)r concedido aoil cantos cyclicos, se ex- 
plica o citar-se frequentes vezes as Gestas na poesia 
hespanhola; lê-se no Loor de Berceo: 

Quiero f er una prosa, que noble geat encerra 
D^uu trovador formoso de Rioia tierra. (Est. 1.) 

Otrosi don Gonealvo fiz una vera historia 

Que regunza la gesta de la Virgen don Oria. (Est. 31 .) 

Qui contarie toda la giesta sobeiana 

Del preste don Gonzalvo et la cosa certana. (Est. 43.) 

Esta designação falta-nos na lingaa portugueza; e 
pela poesia se vê que as nossas Aramas nfto perderam 
a forma da Cantilena passando para a Canção ds Ges- 
ta, mas animaram-se com o seu espirito. Ha nas nos- 
sas Aravioà o espirito feudal, que nSLo tivemos, e allu- 
sSes a nomes e costumes francezes. Temos cantos de 
origem franceza, que faltam nas collecçSes hespanho- 
las, e apparecem na Grécia moderna; circumstancia 
que indica ter a tradição seguido de França para a 
Terra Santa pela costa de Portugal. O que não pode- 
mos preencher por falta de documentos históricos, será 
explicado pelos factos das Aravias, Na Bella Infanta, 
a esposa pergunta pelo cavalleiro que não voltou da 
cruzada; entre os signaes que ella dá do seu marido, 
diz: 

' E adisnte de si levava 

A Cruz de Christo pregada. (J?om. ^er,^ n^ 1.) 
i5 



232 EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 

SSo ettas as muitas alltisSes á Fran^a^ nos caatares 
portugaezes. Antes porém de caraoterisarmos os poa- 
cos cantos populares que pertencem ao cyclo carolino, 
toma-se indispensável conhecer o espirito na nova poe- 
sia do Feudalismo. Como a corrente galvânica faz mo- 
ver o cadáver, dois grandes sentimentos agitaram a ve- 
lha Europa, tirando-lhe o torpor da mina, dando-lhe a 
ebuliçSo que pressagia uma era nova: foram elles o 
Feudalismo e a Egreja. 

O Feudalismo reconcentrára em si a auctoridade e 
a força, na forma da prepotência absoluta, para impri- 
mir unidade nos elementos dispersos da sociedade der- 
rocada. A Egreja, pelos terrores da excommunhão, e 
pelo que ha de mais terrivel no geHio do homem — o 
instincto supersticioso — sonhava a unidade espiritual, 
comparando-se em Gregório vix ao sol, de quem os reis 
como os corpos opacos recebiam a luz. Assim, n^este 
período de elaboração inconsciente, em que a socieda- 
de tentava reconstituir-se, manter-se, como corpo de 
equilíbrio estável, estes dois sentimentos revelaram-se 
por uma nova poesia, filha d^aquellas revoIuçSes e 
d^aquellas mesmas paixòes; uma poesia alheia ás tra- 
dições antigas da Grécia e de Roma, a poesia do amor 
e da cavalleria, que alimentava a imaginação de todos 
os povos da Europa. 

Nos primeiros tempos em que se elaborou esta poe- 
sia da edade media, ha o mutismo da genése divina; as 
linguas ainda não sabem proferir os novos dialectos ; so- 
mente o canto é que hade vir soltal-as. A humanidade é 



1 

J 



CAPITULO V 238 

entSo coma Cedmon^ o vate anglo-saxâo, que escutou 
em sonhos uma voz a dizer-lhe: «Cedmon, canta algu- 
ma cousa ! — O que poderei eu cantar ? a Can ta-me a ori- 
gem das criaturas.» Dedde esse instante sentiu-se pos- 
suido da inspiração do céo. Essa harmonia celeste vi- 
brava nas palavras vulgares com que Sam Francisco 
de Assis falava ao povo« O mesmo symbolo se encon* 
tra em Berceo, na Vida de Sem Milan: 

Burmió quanto Dios quiso sueDno dnlz é temprado 
Mientre iacie dormiendo fue de Dios aspirado. 
Quando abrió los cios desperto maestrado. (Eirt;. 11.) 

No século X espalhasse um silencio profondo na Eu- 
ropa; é o p^iodo mais obscuro da historia moderna^ e 
n'elle se imprimiu uma nova forma á sociedade. A di- 
versidade dos dialectos rudes e vacillantes; formados 
dos despojos de todas* as linguas nos moldes da syn- 
taxe latina, ainda não servia para exprimir as paixSes ; 
era preciso que o canto viesse soltar as linguas. E»ta 
grande verdade descobriu-a Viço no seu aphorismo: 
(As grandes paxxSés alliviam-se pelo canto, como se 
observa im^ excesso da dõr e da alegria. As paixdes vio- 
lentas arrancaram os primeiros homens do mutismo; 
alies formaram as suas prin^iras lingua»oaiitando. Os 
primeitosi auctores orieaítaes, os gregos e os latinos, e 
08 primeiros eseriptores' da edade media, foram poe* 
tas.» (1) 

(1) Écienza nuova, liv. i, cap. n, az. 56, 57, 58, ^9. Trad. 
ds^KfcMeM. 



284 EPOPÊÂS DA RAÇA MOSARÂBE 

No allemSo, no hespanhol^ no portugueS; e até nos 
documentos da baixa latinidade, cantar e foliar são 
synonimos. Tal foi a acção dos jograes percorrendo a 
Europa, cantando pelos castellos soturnos as tradições 
heróicas dos solares que lhes davam agasalho, exaltan- 
do as imaginações pelas narrativas de brilhantes aven- 
turas, deixando germinar a lembrança do que diziam 
na mente do povo, que ia repetindo o cantar, soltando 
a gaguez dos dialectos rudes pela accentuaçSo prosodi- 
ca. Começarão então a ouvir-se os grandes cantos que 
formaram as epopêas seculares ; o Feudalismo repre- 
sentava a independência e a revolta nos feitos dos he- 
roes do cjclo carolino; a Egreja, na sua lucta inces- 
sante e obscura, ia-os pouco a pouco substituindo pelas 
lendas dos Santos, pelo maravilhoso do milagre e pelo 
sentimento feminino do cyclo de Sam Greal. 

As epopêas que se formaram em volta do tjpo de 
Carlos Magno, ficaram em breve offdscados pelos cy- 
clos dos grandes vassallos; os quatro filhos de Aymon, 
Oliveiros, Guilherme, Keynaldos de Montalvão, Au- 
bry o Bourguinhão, tem a rispidez franka, dominam o 
solo com o orgulho da máxima feudal: Nenhuma terra 
sem senhari O jogral fez de Carlos Magno o centro 
contra o qual confluia a revolta. Elle tira a inspiração 
do entrepito do combate; monótono na narração dos 
amores, exalta-se ao descrever os duellos, a ponto de 
não sentir a difficuldade em exprimir-se n'um dialecto 
ainda informe. O jogral canta no solar dos bardes, e 
para lisongeal-os^a sua revolta contra o poder nai, 



CAPITULO y 236 

exalta o espirito de independência que principalmente 
caracterisa o cjclo francez. Em Portugal deu-se esta 
lacta dos senhores que invadiam por todos os modos a 
esphera do poder real, e por isso os jograes acharam 
eoco nos solares portuguezes, como se vê pelos roman- 
ces que ainda restam. Em França cada provincia tinha 
o seu heroe; Carlos Magno era tratado pelos troveiros 
do mesmo modo que o pintavam os povos a quem ven- 
cerai como se vê nas tradições da Itália e da Hespanha. 
Comtudoy o povo na sua grande bondade natural, des- 
prezou a irreverência dos jograes, e deu-lhe uma sim- 
plicidade paciente e benigna, como deu a Atila nos 
Nitbelungensy e a Porsena nas tradições romanas. 

Nos poemas populares os bastardos substituíram os 
farihenios das lendas eruditas; significa isto o predo- 
mínio do vema sobre o heroe. Nos poemas homéricos 
os hoÃÍardos chegam também a succeder no throno. 
tObservaçSLo importante, como diz Viço, que basta pa- 
ra provar que Homero appareceu em uma época em 
que o direito heróico caia em desuso para dar azo á li- 
berdade popular.» (1) Nos cantos populares hespa- 
nhoes, celebra-se o Bastardo de Mvdarra; no romance 
da Filha do Imperador de Roma, da versão de Traz- 
08-Montes, vem: 

O Imperador de Roma 

Tem uma filha bastarda^ 

A quem tanto quer e tanto, 

Que a traz mui mal criada. {Bom. ger,, n.* 18.) 



(1) Soiema fntava, liv. m, oap. 8. 



S^ BPOPÊAS $)4 líU^ÇA. MOSARABE 

Na Historia de Portugal abundam as luctaa doa fi- 
lhos hastardoa dos nossos reis. Dom Diniz luctou con- 
tra seu filho Affonso Saijichez; o filho bastardo de Dom 
Pçdro Orú, subiu ao throno, fundado em Portug^^ a 
e:p6tencia politica do terceiro estiado; e também no 
reinado de Dom João i é que ^ poesia popular ppriur 
gueza teve a sua mais vigorosa expansão» Finalo^e^te 
também pela baatardia çe fundou a Casa, de Bi:i^4^Kr^« 
]$'estas cond^ições os captos do cyclo frauicez propenr 
diam para celebrar as victQrias dos v^us^allos audaf^ip- 
sos. Logo nos primeiros séculos da monarchiai oq xk^- 
SOS reis mandaram comprar ás republica^ itali^^^ na- 
vios, com que deram combates aos corsários moiros 
que saiam do Algarve a infestar as costas de Porti^al. 
Orgulhosas da sua liberdade as republicas italiana^i no 
século XIII; queriam iinitar a pompa dos imper«4oires; 
Pádua, Trevisa, Génova, Veneza e Florença no ip(eio 
de alegrias festivas, escutavam os jogr^iies e iipproyi- 
sadores que andavam cantando peLa !Q^uropa as tiri^di- 
ç^s, romanescas do cyclo ie Carlos Magno. Na portar 
daç da cathedral de Verona, estavapii esculpidos Bola^^d 
e Oliveiros^ dando-se a conhecer p^laç su^ espa4as; e 
nos theatros em 1320, os histriSes punham em sçeni^ 
as suas façanhas. (1) Na AtUegraphia^ esçripti^ W^es 
de 1554, Jorge Ferreira, cita o Auto do Marquez de 
Mantua como popular, e anterior á imiiaçlÍQ de Baltha- 

(1)' ^vçi Qespanhft erftn^ o typo 4fi. bravura,, í)iz Berceo : 

BI Bey Don Ramiro un noble caballero 

Que nol venzriçi^ dd Mj^ifflFO i^f^fil «A OI|WW>*. 



QAÇPTTOO Y 991 

zar Dm ; q que nQ9 revela, a tead^o/oia da s<H^eda4o^ 
burguesa em reduzir ao drama as tra^diçSefi heróicas. 

£. certo que aa tradiçSe» hi^orieas de um povo sSo 
as qu^ menoa ae yulgariaam entre oulroa povjos aem. 
qqe aa tiranaforn^em prim/eiro^ coui^ auecedeu com os 
perBjonagena do. çydo oaroUao em Heapwha. 

Os romappes carliogisAos também i^ raroa na 
poesia popular da Itc^ia; apenas efust^m o Buqví^ dfi, 
ifi^ofiOui l^, R^ffi^na AncroJ.q, e H libr^ chiq/fim^ JDiav^a 
EovemM. Q tjpo de Carlos Mi^gno^ aos roínaucistap 
italiauos o heapauhoi^ay deac^ da sio^ ei3(|^eraçi(o pri<i|i- 
tiva, fecem-&o no <|ue,. eUe tem. de n)ak aagrado. Antot- 
nio de ISlaetava; nos Ar^^eií <U Milan s AgUmte retr^ 
ta-o como tyraonp de auas inmSs^e suas filhas. Bertbai 
imi do Iippeirador, acha-se grivida,. o sieiguuclo a lei 
deye ser queimada viva;, o amwte é que vem liber^* 
tsi-a e foge com, ella. Temos um vestígio d'osta lenda 
nos romiKices Dona Avsenda, e Dom Claros, d^ Alem- 
mr. Depoia de r^preaçut^ej^n o rei muitas vezes pri* 
siopeii^ preates a renegar a fé que au9ten|»va pelas 
armaS) v9p feril-o tambwi na aua, desceadeucia.. dan- 
do uoif QOQie ridiciAlo ao filbo. Çarlí>tq' é baixo e co* 
varde, cbegi^ndio qtiaai a aei; (^ aaaaaainoi de açu pae; 
tem in^e^ík de Ogier, e ipi^tfi Çaldovioos. em umfi quês- 
^ ao jogo. Qi motiva d^e^e. acinte malévolo dos rq^ 
maneista^ iilíalianos e t^espa^^hoe/» coatira Ce^xhfi M^S^9i 
é Qoadjiifiyafl^ por um odiPiiaveterad^ <{QUtra o,opnq^iff^T 

Mor 4a<It^^ e d^ Seqp^nb^, N^^^ecaSp^ppipt^cm 
o romance de Dom Oarfos é o que melhor representa 



2dd fiPOPÊAS DA BAÇA MOSABAB£ 

a audaeia do8 bafSes contra o rei; no romance de 
Eghinard ou Oerinalão, a filha de Carlos Magno en- 
tregasse a um pagem ; no romance de Joãosinhc o Ba- 
nido, o filho do rei commette as maiores atrocidades 
imagiíiaveis, O espirito sarcástico da burguezia ridi- 
cularisa o ideal cavalheiresco, i^eduzindo as exagera- 
{^s do valor e dos feitos audaciosos ás proporções da 
verdade, pelo riso franco e desenfadado, que foi insen- 
sivelmente modificando a tradição; n'este ponto coin- 
cidiu com o espirito feudal, que começara a dar aos 
heroes uma independência, que annulava a realeza. 
Os jògraes andaram, sem o saber, formando esta uni- 
dade de tradições dos povos do Meio- dia da Europa, 
como as abelhas que levam o pollen em si e vfto fecun- 
dando de vale em vale as flores dispersas. Formavam 
uma espécie de Maestria; elles foram na edade media 
como oi9 homeriães na Grécia primitiva ; os peregrinos 
pagavam a hospitalidade eom qs cantares das emprezas 
de Solyma em que celebravam algum évo do solar. O 
jogral muitas vezes conta ti mesma aventura mudando 
o nome do beroe ; a lingua em que se exprime, ainda 
incerta nas formas syntaxicas, áccommoda-se com pe- 
quenas alterações á terra em que elle canta. CV>mo era 
redehida á poesia popular antes de ser excluida pelo 
cultisniò provençal, se vê n'estas disposições do velho 
direito: «Histrions, baladins^ mimes et menestréis, 
feront J6ux, exercices et galantises la dame du cha- 
teati presenle. — Peages de Provenoe.» (1) O úiesmo 

(1) Michelet, Origine» du DroU^ p. 251. 



CAPITULO V 2»^ 

se deu em Portugal, como se sabe da forma do Arre" 
medilho. Muitas tradições orientaes que andam na poe^ 
sia popular, eram trazidas pelos peregrinos que â« ean-' 
tavam como preço da hospitalidade: <un pelerín dirá 
sa romance sur en air nouveau^ et couchera' sur la pai- 
lhe fraiche, b'í1 veut passer la nnit an manoir.» (1) 
iBto mesiho se encontra no Li Sègretainês de Clugny, 
de Jehans le Chapelains : 

Usages est en Normandie 
Que qui hebergiez est, qu'il die 
Fables ou chansons à bod oste. 

r 

NoB cantos populares portugueses, existem muibig 
referencias aos peregrinos. O rumaõee á^ Romeirinha, 
de Traz*08-Montes, (2) o romance da Promessa de Na^ 
vadoj (3) os romances do Conde Presa^ (4) o TomatMse 
de Branea-fior, (5) refereim-Be á arenturas de peregri- 
nos; a Santa-Iria e o Ce^o também se fundam sobre 
a hospitalidade. Por aqui se vè que os romances de 
aventurai^ iam prevalecendo em Portugal sobre os ro- 
mances históricos oarolinos; as lendas dos Santos, cc^ 
mo a da Senhora da Conceição do tempo de D. Affon* 
80 III, destituíam de merecimento' os cantares gtienr^ 
roB. Os cegos cantavam estes romances ao divino, e 
chegaram a dar nome á forma poética da Cieeane, que 

(1) Idem, ib. 

í2) Romanceiro geral, n.* 9- 

ÍE) JUd., n.« 15. 

(4) Ihid., n.o 24 a 26. 

(5) /&»(2.,'.n*« d8. 



& • 



240 EPOPÊAS PA BAÇA MOSARABE 

se encontra em França; Hespwba e Portugal, Na Ea- 
pica Pnwma de JoSo de Barros se lê: cOorto é que 
se HoBs^ro andava agora, oantondo de QMa em easa os 
trabalhos de Ulysses como eUe &3iia por toda a Grécia, 
setoii^ mais importuno e porluxo, que ^ i^os qm can- 
gam 08 trabaihoíí da mda, ck ChristQ pof toda a EíV^ro- 
p»*^ (1) No seeulo ^v ji o Aroípireate de Hita, dizia: 

Cantares fís algunos de los que disen ctegosy 
Et para escholares qne andan nocherniegos, 
£t para muchos otros por piíertaç andanegos. (Est. 1488.) 

A chamada Canção do Traga-Mouros é um dos ver- 
dadeiros types da Ci^^one do século xui, (2) A anti- 
giúdade grega tamíbe» chama¥a cegos aos rhapsodos. 
Oa cegos cantorea chegaram, a ter nomeada em Portu- 
gal; tô^ae e«L uma dbFOnica» monásticas «Ao sair pela 
porta travessa do refeitório tem três pedms pequenas 
demaroado no cb&e o legar d^aquelle pobre cego, que 
se) chamaiva Montalto, euja veq no» r^pent^ de glosar 
íjun mote- difficuitosa pasreeia admisraml^if (3) A histeria 
da Imperatrizi Porcina^ que perteace ao cyclò caroli- 
not, foi romanceada em Portugal por esse infelia cego, 
natural da ilha da. Madeira; o Gil Vicente do tempo 
de Dom SebastiSo^ povo no seu estylo, e ceg& como 
elle no mundo; esae ignQimdo Baldiascar Sãas^ de quem 

JEopica, p. 163, ediç. de 1869. 
Provâmol-o na Historia da formação do AêmÍ» de 

(3) Ftei Manoel da Espei^ança, Ckron* seraphí ii x, p« 245. 



I 



OAPITUIiO ¥ Ml 

tio pottOD Be fMbe. Um romance popular refere*Ae a e«- 

tesnoYOB jograes: 

{ Acorde minha mAe, acorde de dormir 

Ande ouvir o Cego cantar e pedir. 

í (Bom, ger,, n.» 65.) 

Eete espitito de aahotificaçBo qué ha nò povo, e qtie 
fazia com que os oegoB explorafisem aa lendas dos San- 
tos, fess com que a egreja substituisae subrepticiamente 
08 cantos do cyolo Carolino pelos da Tavola Redonda. 
Na Chromca do Pêeudo Tbrptn ba Um elemento devo- 
to commnnioado ao cyclo carolino, e com que o chris- 
tianismo constituiu o cyclo BretSo. £m Portugal os 
romances da Tavola Redonda sSo mais abundantes do 
j que os de Carlos Magno; primeiramente sSo mais va- 
,' gOB, e nSo exigem rigor histórico, fundam-se em enge- 
nhosas peripécias; nos primeiros séculos da monarchia 
tivemos colónias de ingleses e allemftes, e finalmente 
no tempo de Dom Joio i, a poesia ingleza foi bastante 
conhecida em Portugal, pela influencia do seu casa- 
mento com Dona Philippa, filha do Duque de Lencas- 
tre. Assim deu-^se entre nós quasi que a substituiçBo 
dos poemas de aventuras, do génio gallo-bretlo. 

È curioso o processo de transmutarão do cydo 
earlingiano que ae foi impregnando do espirito eolesias- 
tico do cyclo de Arthur. Carlos Magno é canomisado; 
Ferrabrás, gigante sarraceno, converte-se ao christia- 
nismo; Guilherme d'Orange, ReynaldosdeMontblvao, 
Ogeiro o Dão^ vestem o burel doe Mon^ negroe de- 



tt2 EPOPÊAS DA' RAÇA MOSARABE 

pois ée «rtirRfeni ao pé a malha rdozente do embate 
dos golpes. Assim se ia abrindo este vácuo immenso 
e 8om1:]»rio do claustro em que a sociedade como Car- 
los y, assistia continuamente ás suas exéquias. 

O Conde de Caylus sustenta que o cyclo de Arthur 
é uma imitação do cyclo de Carlos Magno e dos Doze 
Pares. A vinda de José de Arímathia á Inglaterra com 
o vasêtel ^oii grcud em que recolhera o sangue de Chris- 
to na cruz, é uma imitaçXo da lenda piedosa da vinda 
de Lazaro de Betania a Marselha, depois de ressusci- 
tado por Jesus. Os rarissimos e insignificantes dados 
históricos sobre eUrei Arthur, faziam oom que o espi 
rito legendar pudesse crear mais á vontade os floripon- 
dios com que bordaram esse typo destinado a contra- 
por*se a Carlos Magno. Sigamos n^estas similhanças o 
Conde de Caylus: a Carlos Magno e a Arthur, attri- 
bue-se o m^mo namero e qualidades de gueixas e um 
grande numero de expediçStes; combatem ambos os 
saxSes e os bárbaros do paganismo; distribuem com 
egual generosidade os despojos aos capitães e solda- 
dos; são dotados das mesmas virtudes de frugalidade 
e economia; têm a mesma magnificência nas festas; 
finalmente^ a lei dos Capitulares está posta em acção 
por el^rei Arthur. Oauvaif^, occupa um logar simi- 
Ihante ao de RoUmd. Arthur lança a espada Escaiihor 
em um lago, para que não caia nas mãos dos infieiâ, 
pelo mesmo motivo porque Roland quebra a sua Ihir 
randal, O nome dos Pai*es desperta a ideia da egual- 
dade symb<4Í9aâa na Tavola Redonda. 



CAPITULO V DI8 

O oyclo carolino appresenta os B«a6 romaaeeá com 
am caracter anonymo; nos romances da Tavola Re- 
donda o auctor quer dar-se a conhecer, descobre-se, 
£eiz-8e eloquente. A grande analogia dos romances de 
Árthor com as fabulas hellenicas denunciam a inten- 
{^0 erudita. O troveiro compara-o com Theseu e Ale- 
xandre. TristSo combate o Minotauro | ambos os guer- 
reiros trazem o mesmo signal^ a vela negra no navio. 
Também Lanoeloí resolve o enigma do gigante, que 
o propuzera como a Sphinge a (Édipo. O rei Arthur 
é traído por Ginebra, como Hercules por Djanira. O 
romance oai^lingiatto provocou em Hespanha a ereaçSo 
de um cyclo de heroes nacionaes; em Portugal foi 
sabstituido pelo gosto do maravilhoso do cyclo bretSo, 
qae narrava aventuras sem realidade que embalavam 
mais a imaginação do povo. Citaremos um exemplo do 
espirito dos romances da Tavola Redonda, que é muito 
vulgar em Portugal, nos cantos do Archipelago e da 
Bçira Baixa: 



Morreu um e morreu outro 

Já lá vfto a enterrar. 

D*um nascera um pinheiriobo 

Do outro um lindo pinheiral, 

Cresceu um e cresceu outro 

As pontas foram juntas, 

Que quando el-rei ia á missa 

Nfto o deixavam passar, 

Pelo que o Rei maldito 

Logo as mandara cortar; 

Dum correra leite puro, 

B de outro ssogue real. (Bom. ger., n.^ 14.) 



341 EPOPÊAS DÁ BAÇA MOSARABE 

EBla<d6Íieio0a imag^m^ encontra- se na sej^inte pas- 
aaj^em àe- Tristão: c£t de la tombe monseígnevir Trís- 
tan yteoit nxrt ronoe belle et V^erte Qt bien feuillae qtii 
alloit par áessus la chapelle^ et déscendoit le boat de 
la ronce sor la tombe de Ia reyne Yseult et entroit de- 
dais. Le TÍreut les gens du pays et lô comptoroit au 
roy Maro. Le Roy la fí^t coapper par trois foys, et 
qaant il Favoit le jour faiicônpper le landemain estoit 
auBsi belle ^omme elle avoit autrefibift este.» (1) 

Na poeSilEi popular portuguesa eneontra-se outro 

' testigio dô romance de Tristão, no maravilhoso da er- 

^oa fadada^ Gatrett recolheu uma Dona AuÊeniay cor- 

rupçSo de Awsea, que no século xv se disia Izeu e 

Ysevlt. (2) Nos Romanceiros hespanhoes ha também 

um breyissimo canto que começa : 

Ferido eBt& doti ^'ristan 

aonde se encontra esse mesmo maravilhoso do arvore- 
do que nasce sobre a sepultura dos amantes : 



Llora el uno, Uorti el otro 
La cama baáati dD agua ; 
Alli nace un arboledo 
Que azucena se llamaba, etc. (8) 



(1) Tristan, Chevaliet de la Tàble Bonde, Paris íl. cxxiv. 
Apud bu Meril, Poesie Sccmdinave^ p. 331. 
^2) RomoMcetrOy t. ar, |>. 172. 
(3; Oohôa, Tééõr& de loe M&maneei^Oê^ p. 12. 



CAPITULO V M5 

O pOYo Berviu*8e da historia dos amores de Trist&o 
e Tseult para celebrar a desgraça do Conde Pedro Ni- 
fio. Os romances da Tavola Redonda apparecem cita- 
dos nos Cancioneiros provençaes portuguezes, o que 
explica a sua diffus&o erudita. Â poesia popular está 
sajeita ás mais caprichosas influencias; a tradiçZo é 
como o pólen levado pelos ventos, fecunda as imagi- 
nações rudes sem ellas saberem muitas vezes que aura 
as veiu inflammar. Os casamentos dos príncipes de 
diff&rentes estados^ concorreram bastante para a vulga- 
risaçSo das grandes lendas da edade media. No século 
XI uma multidão de provençaes veiu á corte de Fran- 
ja pela occasiSo do casamento de Constança, filha de 
Guilherme I, conde de Provença^ com Roberto; o mea- 
mo Buccedeu com o casamento de Eleonor de Âquitar 
nia com Luiz vii. (1) Pelo casamento de Dom JoSo i. 
Mestre de Aviz, com Dona Filippa, filha de Duque de 
Lencastre, além das colónias inglezas de Almada, se 
implantaram entre nós as tradições do cyclo de Arthur; 
ainda ultimamente se publicou em Inglaterra um ro- 
mance intitulado Torrent of Portugal, que é d'este 
tempo, e o poema de Gower, Confessio amantis, foi 
traduzido em portuguez por um Roberto Payno. Na 
Chronica de FemSo Lopes se conta como no combate 
da cidade de Coria, D. JoSo i desgostado de alguns ca- 
valleiros por nSo chegarem a tocai* a barbacam, lhes 
chasqueou a valentia, alludindo aos heroes da T\ivola 
Redonda: 

(1) Dó Merii, Poeni s^nUmoe^ p, 307. 



246 EPOPÊAS DA BAÇA M0SARA6E 

cElrey na tenda, segundo parece, nom foy bem con- 
tente d'alguns, que se nom chegarom como elle qnize- 
ra: deshi falando nas cousas, que se no combate acae- 
cer8 veio a dizer como em sabor : Oram mingoa nosji- 
zerom hoje este dia os boos cavalleiros da tavola redon- 
da: ca certamente elles foram nós tomáramos este to- 
gar. Estas palavras nom pode ouvir com paciência 
Mem Rodrigues de Vasconcellof, que logo nom respon- 
deu, e disse: Senhor: nom fizerom aqui mingua os cor 
vaUeiros da tavola redonda, que aqui está Mem Vas- 
quez da Cunha f que é tão bom como Dom Oalaaz, e 
Oonçalo Vasques Coutinho, que he tão bom como Dom 
Tristam: e exaqui Joham Femandez Pacheco, que he 
tam bom como Lançarote, e d'outros que viu estar acer- 
ca; e escms eu aqui, que valho tanto como Dom Quea; 
assi que nom fizerom aqui mingoa estes cavalleiros, que 
vós dizeis; mnsfezenos a nós. aqui gram mingoa o bom 
Rey Arthur, flor de lis, senhor d' elles, que conhecia os 
bons servidores : fazendo-lhes mercês porque aviam de- 
sejo de bem o servir, E ElRey vendo que o aviam por 
injuria, respondeu entonce e disse: Nem eu esse nom ti- 
rava a fora, ca assi era companheiro da tavç>la redon- 
da como cada um dos outros. Entom lançando o feito 
a riso d'aquesto e doutras cousas, leixaram tal rascado 
e falarem nas destemperadas calmas, que n'aquelle lo- 
gar faziam.» (1) 

Em outros legares da mesma Chronica, FemSo Lo- 
pes compara estes feitos aos de Lançarote. Os Caval- 

(1) Chronica de D, Jo&o I, Part. u, cap. 76, pag. 190. 



CAPITULO V 247 

leiros da Ala dos Namorados e da Madre Silva anima' 
vam-se com o espirito dos heroes do cyclo bretão. A 
honra predomina exclusivamente no cyclo carlingiano, 
que faz pela bravura o que no cjclo de Arthur se ope- 
ra pela intervenção do maravilhoso. O heroe mais po- 
pular da nossa historia; o Condestavel D. Nuno Alva- 
res Pereira, tinha uma grande predilecção pelos livros 
da Tavola Redonda. Lê-se na sua Chronica anonyma : 
(E com esto avia gram sabor, e usava muito de ouvir 
e ler livros de hestorias, especialmente iLsava mais ler 
a hestoria de Oalaxxz em que se continha a soma da 
Tavola Redonda. E por que elle achava que per vir- 
tude de virgindade que elle houve e em que perseverou 
Galaaz, acabara muito grandes e notáveis feitos, que 
outros nom poderem acabar* E elle desejava muito de 
o parecer em alguma guisa: e muitas vezes em si cui- 
dava de ser virgem... 9 (1) Entre os livros de usoàe 
El-Rei Dom Duarte, achamos citados o romance de 
Galaaz, um Merlin, e um Tristão. Buy de Pina tam- 
bém cita o romance de Lançarote: <E ao outro dia fuy 
aa Vylla, que na Estoria antiga dizem se chamava 
Âgeosa Guarda, onde está agora uma grande e devota 
Abadia de Sam Bento, cujo Abade mostrou a El Rey 
(D. Affonso v) hum muy rico e antygo .livro da Esto- 
ria de Lançarote e Tristan, por ventura mais verda- 
deira do que cá se magina.i^ (2) Nos festejos reaes da 

(1) Chronica do Condestabre, p. 12. Ediç. de 1848. 

(2) Chronica de Dorn. Affonso Vy cap. 194. — Inéditos da 
Academia, p. 569. 



248 EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

corte de Dom JoSo it, ainda os cavalleiros se vestiam 
como 08 heroes da Tavola Redonda, e o tnonarcha tra- 
java como o Cavalleiro do Cyane; esta poesia reflec- 
tiu-se sobre o povo, excluindo os romanos carolinos, e 
ficando reduzida ás aventureis caprichosas e sem sen- 
tido. 

O cyclo de Arthur é fundado sobre o de Carlos Ma- 
gno, com o espirito das lendas ecclesiasticas ; £Edta-lke 
a realidade heróica da independência, mas tem a obe- 
diência quasi monástica da fidelidade. Os cavalleiros 
procuram pelo mundo um ideal phantastico e imposai- 
vel, a urna ou Santo Graal, que recolheu as lagrimas 
de Jesus, e perdem-se n'uma viagem mysteriosa e in- 
terminável ^lo mundo; a sua íeregrinaçSo tem um 
tanto da maldiçSo de Âsbaverus, é mais uma peniten- 
cia do que wna aventura. Estes romances n&o têm a 
altivez masculina dos vassallos de Carlos Magno, can- 
tam unicamente o amor. Era o génio da passividade 
celtiva. Árthur é amado na Ilha de Avalon, como Car- 
los Magno, quando velho, isto é, quando o espirito ec- 
clesiastico fazia degenerar a sua lenda guerreira. Lan- 
celot ama a rainha Ginebra, Tristão ama a Yseult^ 
Ivain a Dama da Fonte, Eric a Enida, Merlim a fada 
Viviana. O amor mystico humanisou-se pouco a poaco, 
a ponto de sair das representações allegoricas da vir- 
tude, para a realidade das Beatrizes da primeira Re- 
nascença italiana do* século Xlli; todas estas falsifica- 
ções do sentimento, que formaram as sublimes loucu- 
ras do amor, do valor e honra, voltaram ao natural, 



CAPITULO V 249 

tornaram-se possíveis, sensatas, sociaes pelo génio da 
segunda Renascença do século xvi. Â verdade popular 
sentiu-se protegida pela revelação da antiguidade; os 
eruditos trabalharam com a burguezia. 

Entre a multiplicidade das creaçSes poéticas que 
caracterísam este génesis assombroso da edade media, 
e que formam os cyclos carlingiano (gallo-franko) e o 
de Ârtbur (gallo-bretão) em que successivamente se en- 
contra a influencia do génio de um povo actuando so- 
bre os outros, a penetrarem-se mutuamente dos mes- 
mos sentimentos pela poesia, formando assim a unida- 
de da Europa moderna, — a antiguidade começara a 
seduzir a imaginaçSlo como um presentimento da Re- 
nascença, originando-se uma nova serie de romances e 
narraçSes extensas dos heroes gregos e romanos, a que 
pertencem os romances da Ouerra de Troya, de Ale- 
xandre, de Virgílio e de Apollonio. Esta influencia 
da Litteratura bysantina na edade media, é moderna- 
mente conhecida entre as classificações dos poemas ca- 
valheirescos pelo nome de Grreco-romano. Sobre este 
ponto o nosso povo abraçou a tradiçSo etymologica da 
fundaçSo de Lisboa por Ulysses, e canta-o grutescamea- 
te nots seus ampfaiguris. 

Os poetas medievaes encontraram uma grande mi- 
na nos historiadores bjzantinos, que confundiram as 
raias da tradição e ásit historia ; Syncello, Cedreno, Ma- 
laias, repetem as fabulas que envolveram Alexandre des- 
de Áristobulo até ás versões do Pseudo Callisteoea. (1) 

(1) Ghaasang. Híê^ do Bamm. p. 434. 



250 EPOPÊAS DA RAÇA M08ARABE 

As maravilhas operadas por Âpollonio de Th^ane, con- 
tadas segundo Philistrato, tomaram a sua lenda popu- 
lar, por que o vulgo ama sempre o que é extraordiná- 
rio; o theurgo do paganismo foi sympathico aos chris- 
tSos dos primeiros séculos. Um outro elemento de for- 
mação legendar do cyclo greco-^omano eram os com- 
mentarios rhetoricos das escholas na interpretação de 
certos auctores; assim se formou a lenda de Yirgilio; 
a edade média adoptou-o como o seu poeta querido, re- 
tratou-o com as cores da sua crença: fez d'elle um pa- 
dre da egreja^ um nigromante, um paladim apaixo- 
nado, e todas estas phases da sua lenda tiveram origem 
na interpretação das suas Éclogas. A lenda de Aristó- 
teles montado e enfreiado por Lais, como contam os ve- 
lhos fabliaux, provém talvez da repugnância que cau- 
sou aos espíritos crédulos a ideia do Stagyrita acerca 
da intelligencia dos brutos. 

Doeste cyclo erudito, apenas se conhece a sua in- 
fluencia na poesia popular da Península, na designação 
de eatoria, que antecedeu a do romance, também dada 
pelos eruditos ás Aravias. Estpria substituía a palavra 
Gesta, que mal se comprehendia. No Roman de Bmt, 
d'onde o conde Dom Pedro tirou a lenda do Rei Lear, 
vem: 

Artus 86 la geste ne ment. 
E em uma variante: 

Artns se Vutort no ment. 



CAPITULO V 261 

Em Berceo encoutra-se baatautes vezes esta desi- 
gnação, como na Vida de San Domingos de Silos: 

Quiero que lo sepades luego de la primera 

Cuya es la estona^ meter-vos en carrera. (Est. 3.) 

Qni la vida qttisiere de San Millan saber 

E' de la sa estaria bien certano ser . . . (Est. 1 .) 

Si vision vidiestes ò alguna historia 

Deciditmelo demientés avedes la memoria. (Est. 172.) 

No cyclo da Tavola Redonda, chamava-se como já 
yimoay Estoria de Qahmz, Estoria de Lançarote ao que 
eram poemas. Á palavra estoria é sempre empregada 
pelos nossos velhos escriptores no sentido de tradição; 
assim o entende também o snr» Herculano, na biogra- 
phia de Fernão Lopes, o qual fora encarregado de pôr 
em caronica as estorias dos primeiros reis. A distinc- 
çSo entre caronica e estoria, usada por Garcia de Re- 
sende tem referencia aos feitos do cyclo greco-romano; 
eis o que elle diz no Prologo do Cancioneiro Geral: 
cmuytos e grandes feytos de guerra, paz e virtudes, 
de ciência, manhas, e gentilezas sam esquecidos, que 
se os escriptores se quizessem acupar a verdadeiramen- 
te escrever nos feitos de Roma, Troya, e todas outras 
antiguas crónicas e estoria^, nam achariam mores £eir 
canhas, nem mais notáveis feitos que os dos nossos na- 
turaes se podiam escrever assy dos tempos passados co- 
mo d'agora.» E accrescenta: <E assy muytos empera- 
dores, reys e pessoas de memoria pelos rrymances e 



202 EPOPÊAS DÀ RAÇA MOSARABE 

trovas sabemos suas eniorias. » Por esta cita^k) vemos 
como da designaçSo de estoria se passou para a de Ro- 
mance, que ficou definindo os cantos populares que os 
eruditos desconsideravam. 

O cyclo greco-romano, era denominado por Jean 
Bodel na Chanson de$ Saxons, «de Borne la grant.» 
Em um cantar sobre a morte de Du Guesclin^ se enu- 
mera a lista dos personagens que formavam este cjclo: 

Poar se grans faie soit escrípt en la table 
Mw:halew et des preqx de renon, 
De JosnCy David, le resonable, 
jyAlixandre, cPÉctor et Oesaron, (1) 

Percorrendo os personagens d'este cyclo vemos, que 
os poemas de Alexandre e de Cemr existiram na li- 
vraria de Dom Duarte ; (2) o romance popular de Ih- 
vid acha-se prohibido no Index expurgatorio de 1624 
(p. 174); os romances de Troya só foram conhecidos na 
forma litteraria que lhes deu Jorge Ferreira de Vas- 
concellos, (3) sendo já conhecidos no tempo de Dom 
Duarte, que os guardava na sua livraria. 

O nome de Du Gvsselin, que é equiparado aos he- 
roes do cyclo greco-romano, também foi conhecido em 
Portugal, como se conhece por este livro: €Tríompkode 



(1) Chronique de Du Guesdin. ediofio do Francisque Mi- 
chel, de 1880. Pag. 463. 

(2) JMrwluoção á Miifi.da JUiíer«iátn^pfírtiêgim<hV. IW 
«241. 

(3) Vid. Floresta de Ramanceê, p. 36 a 42. 



CAPITULO y 96a 

• 

loê nueve de la fama y ^riêa de Beitram dê Claquin, 
cmdêstahle ds Francia^ tradueida dei francês por An^ 
tonto Rodrigues, En Lisboa, Gatharde, sem data, in 
fol.B (1) Na Chronicade Du Oueêelin, também se fala 
em Dom Pedro o Justiceiro, de Portagal, (2) e pela 
vinda do Oondestavel de França á Hespanha, no sécu- 
lo XIV, se explica a introducçSo de certas CançSM de 
Oesta carlingianas. 

A tradiçSo popular deslumbra-se nSo só com os he- 
roes senSo também com os Sábios; ao lado do romance 
de Alexaiwtre ou de Carlos Magno, figuram Aristóte- 
les e Virgilio; os Bete Sábios occupam a argúcia dos 
troveiros, ApoUonio faa-se o Christo do paganismo, e 
Salamào desce a argumentar com Marculpho e a adivi- 
nhar os enigmas da edade media. Virgílio foi o perso- 
nagem dilecto d'esta8 creaçBes by zantinas ; retrataram* 
no com as côres moraes doí tempo : ora é um feiticeiro 
que vive folgadamente em uma opulenta ociosidade, 
que a sua vara magica sustenta; ora segue aventuras 
de amores que o expSem a sarcasmos e ludibries de que 
elle se sabe vingar admiravelmente. Agora fazem d'el- 
le um padre da egreja entre os outros doutores, que 
vem testemunhar o Verbo; logo os jurisconsultos con- 
sultam nos seus versos as fórmulas da justiça que o 
sentimento do bello lhe deiícou entrever;. as suas pala- 
vras tornam-se o oraeulo das êovies virigilianas. Virgi- 



1) FrancÍBqu« Mktiel, Okrom,. p. 21. 
[2) Id., ib., p. 21^. 



254 EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 

lio dirige o espirito da Renascença; veiu retemperar 
de novo a alma humana na contemplação da natureza 
odiada pelos mjsticos; é como a dolce color d' oriental 
zagiro, de que fala Dante, illuminando o abrir dos tem- 
pos modernos. Em cada logar retrataram-no com tra- 
ços característicos: os grammaticos byzantinos fiindam 
nas Éclogas um romance licencioso da sua vida; os 
mysticos da edade media tiraram do horóscopo do seu 
nome a prova da virgindade da sua alma. Como o de- 
viam representar n^este clima apaixonado de Hespanha? 
Fiseram d^elle um cavalleiro andante, que vive de aven- 
turas de amor; o galanteio vae mais longe, e o rei 
manda-o prender por ter seduzido uma dama. Con- 
demna-o á morte; a ofendida salva-o pelo direito ca- 
valheiresco da mulher. Eis o romance como anda nas 
coUecçSes hespanholas, e como segundo nos affirmaram, 
se cantava na Beira Baixa: 



Manda el-rei prender Vir^lios 
£ a bom recado o meter 
Pela traiçfio commetida 
Dentro dos paços d*elrei. 
Uma donzella forçara 
Ohamada Dona Isabel I 
Sete annos o teve preso 
Sem que se lembrasse d*elle ; 
E estando um domingo á missa 
Começou de pensar ir elle : 



— Meus cavalleiros, Virgilios 
O que será feito d^elle ? -^ 



CAPITULO V 256 

Logo fala um cayalleiro, 
Amigo de Virgilios era : 
« Preso o tem a Vossa Alteza, 
Preso metido entre ferros. 

— A comer, meus cavalleiros 
Gavalleiros, a comer; 
Depois de termos comido 

A Virgilio iremos vêr. — 
Ali faiara a Rainha : 

— cEa nfto comerei sem elle.» 
Para o cárcere caminham 
Aonde Virgilio pena 

— Que fazes aqui, Virgilios, 
Virgilios, o que fazeis ? — 
r= Penteio, senhor, as barbas, 
E também os meus cabellos ; 
Aqui me foram crescidos 
Aqui me hfto de embranquecer ; 
Hoje se acabam sete annos 
Que me mandastes prender. 

— Cala-te lá oh Virgilios, 
Já trez faltam para dez. 

= Senhor, Vossa Alteza o manda, 
Aqui ficarei de vez. 

— Virgilios, portal paciência. 
Commigo ho]e vas comer'. 

= Botos tenho os meus vestidos 
E nfto posso apparecer. 

— Eu te darei uns, Virgilios, 
EUes aqui virfto ter. 

Bom grado dos cavalleiros 
E mais também das donzellas, 
E mais agradou á dama 
Chamada Dona Isabel. 
Logo ali um Arcebispo 
A desposava com elle, 
Que pela mfto a levava 
A retirado vergel. 



266 EPOPÊAS Dá RAÇÀ ICOSARABE 

Este romance de Virgilios é um d^aqnelles que fo- 
ram recolhidos da tradição popular no Cancionero de 
Romances de Ánvers, reimpresso ém Lisboa, por Ma- 
noel de Lyra, em 1581. O povo portuguez fundiu este 
romance com uma liçSk) do Reginaldo do Ribatejo e 
Beira Alta. Em ambos os romances ha um cavalleiro 
que fez uma traiçXo no palácio do rei e é mettido em 
uma torre, aonde o rei se esquece d'elle. Quando um 
dia se lembra casualmente, é uma mulher que inteix^e- 
de pelo prisioneiro e o salva, casando com elle. Na an- 
tiga comedia da Celestina, o apaixonado quer justifi- 
car porque não resiste ao amor de Melibea, e exclama: 
«Dizei-me porque é que Adão, Salomão, David, Aris- 
tóteles e Virgilio, todos aquelles de quem costumam fa- 
lar, se sujeitaram ás mulheres.» (1) Cita justamente 
os personagens que formam o cyclo erudito de quem 
costumam falar. Prestes cita a lenda de Virgilio no 
cesto. Em Portugal no Regimento das Candelárias, 
reformado nos annos de 1566 a 1579, Virgilio vem ci- 
tado como ,auctoridade leg^l a propósito do tempo em 
que os poldros devem de ser apartados das mães. (2) 
Parecerá talvez inexplicável esta assimilação que o gé- 
nio popular fez das lendas eruditas do cyclo grego-ro- 
mano; por ellas os pregadores da edftde media crearam 
um novo género de sermSea ohamadoa Eçcemplos. Esta 
mutua influencia do gosto popular e do espirito eccle- 



8i 



CeUM/uif p. 22. Trad. de Germond de la Vigne. 
J. Pedro Ribeiro, Dissert, Ckron, t. ir. Part. 2. 



CAPITULO V 2Ò1 

siastico, encontra-se em uns versos de Heveloc le Da- 

noiê : 

Voluntiere dovroit home ouir 
et reconter et retenir 
Les nobtts ftz es anciena, 
et les prouesces, et les biens 
têêampleê prendre e remembrer, 
pnr les f rancs bornes aiuender. 

Legrand' Âussy observou muito bem que na dege- 
neração dos romances do cyclo greco-romano, existem 
yestigios das gestas oarolinas ; assim no poema de Ale- 
xandre se lé : 



Eslizez dotue pers^ qui soient compaignons 
Que meiírout voa batailles... 



Este facto mostra que nSo houve solução de conti- 
nuidade na passagem d»,B gestas heróicas para os Exem- 
plos moraes dos pregadores. 

O género dos Exemplos, conhecido por Dom Duar- 
te^ Gil Vicente, Sá de Miranda e todos os nossos poe- 
tas, foi uma das causas esterelisadoras da creaçSo 
poética, que veiu fixar as lendas na fárma da prosa. 
Mas o combate que a poesia popular soffreu da parte 
dos eruditos e latinistas ecciesiasticos merece um es- 
tudo á parte. 



258 EPOPÊAS DA RAÇA M0SARA6E 



OAJPZVXTXiO ^1 



A poesia mosarabe banida pelas canções provençaes 
dos cultistas gallo-romanos 



A Egreja condemna a poesia do povo. — Os cultistas despre- 
zam a forma de romance. — Origem da designação de Eo- 
manct e diversos sentidos que teve. — Em Portugal é somen- 
te empregado este termo no século xv. — DifiEerença entre 
Bamance e Cantar. — O povo snbstitue a designação de Ro- 
mance á palavra Aravia. — A forma antiga das SerranUhas. 
— Documentos históricos da poesia popular portugueza do 
sccnlo zii a xvia. — Os IjoUards portugueses e os Index Ex- 
purgatórios. — Os Goliardos e Estudantes da tuna. — A/or- 
sUure dos cantos religiosos. — Primeira colleccionação dos 
cantos peninsulares. 



Quando vemos um cânon de Sam Martinho de Bra- 
ga prohibindo cantarem-se nas egrejas psalmos compó- 
sitos et vulgares, logo se descobre que a erudiçSLo latina 
se encommodava com a rudeza popular. A poesia pro- 
vençal creada pelo génio gallo-romano, no Meio Dia 
da França; por isso que era um vestigio tradicional da 
poesia da antiguidade, encontrou em todas as cortes 
uma predilecçSLo e favor que a tomou exclusiva; a poe- 
sia provençal introduzida em Portugal desde o século 
XII; atrophiou em grande parte a expansSo das epo- 
pêas mosarabes. Os cantos populares ouvidos nos cas- 
tellos com gosto, tornaram-se grutescos e provocadores 
de riso. Nos casamentos, quando os senhores feudaes 
exigiam o tamo, o mets au regai de mariage, forçavam 
o povo á alegria; o noivo vinha-lhes entregar o prato 



CAPITULO VI 259 

nupcial ou a fogaça cies menestriers precedente» ; e tam- 
bém se exigia que cAvant de se retirer il doit sauter 
et danser». A extors&o feudal convertia a alegria da 
festa em uma ironia pungente ; a cançào devia de ser 
desesperada, grosseira, não merecia ser ouvida nos cas- 
tellos, offendia o pudor das damas, lisongeadas pelas 
subtilezas da poesia provençal. Ao passo que a Egreja 
condemnava a poesia do povo cada vez que se apro- 
ximava da sua aristocratisação do Concilio de Trento, 
pelo seu lado a nobreza chegou ao mesmo despreso 
quando adoptou a etiqueta para a galanteria dos sa- 
ráos das cortes, a convivência com eruditos e latinis- 
tas ecclesiasticos e a galanioe casuística da escbola pro- 
vençal. Os cultos nSio a consideravam digna de se com- 
parar com os trabalhos artificiosos em que se imitava 
as litteraturas grega e romana. O verdadeiro poeta, o 
povo, creador em toda a sublimidade, nSo merecia no 
entender d^esses palacianos da meia edade, este nome 
de poetUy que se prodigalisava a qualquer metrificador 
de officio; para elle, alma das epopêas eterna^, basta- 
va^lhe a denominação de detidor. Na Carta do Marquez 
de Santilhana ao Condestavel de Portugal, se diz de 
um invocador das Musas: «AI qual yo no llamaria de- 
eidor b trovador, mas poeta; como sea cierto que si al- 
guno en estas partes dei Ocaso mereeiò premio de 
aquesta triumphal è laurea guirlanda cuando a todos 
los otros este {ue...9 Mas o Marquez de Santillana 
descarregava mais duramente ainda o seu desprezo jso- 
bre a poesia do povo, como adiante veremos. A poesia 



960 EPOPÊAS DA EAÇA M08ABABB 

provençal estaTacm oompleta antinomia com as canti- 
lenas populares; aquella fundava**se no mais arrebica- 
do lyrísiho, estas nas mais destemidas uarraçSes de fei- 
tos de armas. Pela bu& parte a poesia provençal exer- 
ceu uma acç2o brilhante na civilisaçSo moderna, fa- 
aendo reconhecer, segundo Quihet, a egualdade diante 
do amor, a unidade civil do mundo moderno. O trova- 
dor levado pela inspiraçSo vertiginosa, nSo vê a distan- 
cia que o separa da oastellS altiva; a canção é a confi- 
dente dos seus amores; a dama entende-a, gosta de ou- 
vil-a, protege o cantor, eleva-o até si. Esta poesia gallo- 
romana tornou-se para o servo um talisman com que 
fascinava e amoUecia o senhor. A subtileza e as vagas 
alegrias sao trazidas pela necessidade de confessar uma 
paÍ3L8o que elle receia que os outros adivinhem. Em 
volta doestes trovadores apaixonados criam-se os jo- 
graes, cantores mercenários, e os reis e fidalgos, que 
imitavam sem o sentirem essa nova forma de poesia; 
quando a poesia provençal se tornou a linguagem das 
cortes j& ella estava decadente. Dom Afibnso ii e Pe- 
dro III, reis de ÂragSo, poetavam em provençal; Thi- 
baut, conde de Champagne, que veiu a ser rei de Na- 
varra, o Conde d^Anjou, rei da Sicilia, pae de Sam 
Luiz, em fim o nosso rei Dom Diniz, os seus dois fi- 
lhos Conde Dom Pedro e Affonso Sanches, e quasi to- 
da a fidalguia portuguesa seguiram a nova poética da 
pragmática palaciana. Á rudeza popular havia sido 
excluída pela affeotaçlo idyllica que só cantava prima- 
Teras, aves' e flores ; o povo levado pelas paixSes natu- 



'CAPTTULG VI iSl 

rsíe&f ignorada a galatíteria dos íris, nSLo tínha ideal ãe 
ooHvençâlo. O qtt-e tornara a poesia provençal privativa 
das cortes fôra o artificio e novidade de combinações 
da rima e das estrophes, isso que faltava na sensilhez 
popular. Chamavam<se <ítrovadare8'pe\B,s invençSesque 
elles achavam (trouvaient). JE consistia a sua poesia em 
Sonetos, Pastorellas, Canções, Sirventese Tensões.» (1) 
A tensão era uma questão de amor, proposta como eni- 
gma, e segundo os ititerlocutoíiBS se chamava AoVTiea- 
mens ou jocx pattitz; a tn/ro&nte era a «atyra (política; 
a pastoreMa ^ra o dialogo de «noor entre zagaes eSh- 
minados; asiÒrmas eram complicadas, como o s^Mo, 
^úéBcort, a hailaday a redonda^ a plnnh^ Ai^omplaifiÉê, 
a i(dba, «a serena^ a rewtruenge, a sextina. A versífic«i- 
çSo não era menos difficil, dividindo-se em Maestria 
mayor e menor, lexapren, mansobre, e enc(idenaãoSk 

Quiem podia comprehender esta poesia que não vi- 
nha da alma, senão do esforço da imitação, a não setem 
os fidalgos na ociosidade das c5rtes? Estes abandona- 
ram logo o verEK) de redondilha popular, pelo decasjl- 
labo, como di£ o Marquez de Santillana de Dom Di- 
niz, que faeia versos ^de diez sillabas á la manera de 
los lymosis^ ; a lingua em que se escreviam estas can- 
ções galantes não era propriamente a lingua Vulgar. 
D'e8ta differença entre uma lingua de convenção e a 
do povo, nasceu a designação de romance para signifi- 
car pfrimeiramente a linguagem vulgar ou vernácula, e 



(1) Pasquier, Recherches de la Fixmcv^ liv. in, cap. 4. 
17 



262 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

depois 08 cantos compostos n'e8S6 dialecto. Berceo, na 
Vida de San Domingos de Silos, já no século xui, di- 
zia: 



Quiero fer una prosa en roman paladino 
En ti que suele el puehlo fablar à su vecino^ 
Ca non so tan letrado por fer otro latino. 

(Est. u.) 



O sentido da palavra puehlo era o de arraia meuda, 
os mesteiraes^ os lavradores^ justamente, a parte que 
constituia a raça mosarabe; nó século xiii, Affcnso 
Sábio não queria que se desse este nome a taes clas- 
ses! (1) A este romance, ou linguagem vulgar, também 
se chamava abreviadamente paladina e ladina; o mes- 
mo Affonso o Sabioy nas Leis de Partidas, diz: «e las 
palabras delias, que sean buenas è llamas è paladi- 
nos, de manera gue todo hcmbre Ioã puede entender l 
retener.if (2) Na legislação portugueza prohibia-se aos 
tabelliâes mouros e judeos «fazer escripturas em he- 
braico ou arábico, mas em ladinha christengua.» (8) 
No Leal Conselheiro. encòntr&mOB: «mas o que leeo 
per liuros de latym e de toda lingua ladinha. i^ (4) Ro- 
mancar no século xiii significava traduzir em lingua- 
gem vulgar, como se vê nos Loores de Berceo: 



(1) Partida ii, tit. 10, lei 1. 

(2) Partida i, tit. 8, lei 8. 

f3) J. P. Ribeiro, Hefi. Hist., P. i, p. 80. 
(4) Edição de Paris, p. 168. 



•'^y 



CAPITULO VI 263 

Lyendo en Sant leronymo un precioso libriello 
Que fixo de los signos dei luicio esti cabdiello, 
Romanzó otra proza tau noble tratadiello 
Qnes un romana femioso, nin grant nin pequiello. 

(Est. 27.) 

N^estes versos se encontra o romance significando 
já uma narração sem forma determinada. Na Vida de 
San Milariy ha este mesmo sentido: 



Senores la facienda dei confessor onrado 
No Ic podrio contar nin romaflz nin dictado. 

(Est. 362.) 



No Martyrio de S. Lorenzo, do século xn, expri- 
me a narração accessivel ao vulgo : 

Quiero fer la passion de Sennor Sant Laurent 
En romaivtj que lo pueda saber toda la gent. 

(Est. 1.) 

Berceo, nos Loores de Nuestra Senora, chama ro- 
mance a uma composição poética rude, que merece ser 
desculpada: 

Aun nierced te pido por el tu trobador 
Qui esto romance iizo, fue tu entendedor. 

(Est. 232.) 

Na poesia franceza, como nos Lais de Maria de 
França, no Dolopathos^ Sete Sabias^ e em todos os poe- 
mas, a palavra romance significa a língua do vulgo, a 
narração em vernáculo. 



9(4 EPOPÊAS DA SACA JtiOSARABE 

Passaiido ao «eculç xiv, romance designa tiunbem 
o conto em verw); isto é, um pequeno po,em.a xiarr^tivo. 
O ArcipreBtj» de Hilia, citaijido o wpalogo de uai burro 
devorado por um leão, diz : 

A»88Í QçjElorf^s dueoas eotended el romance, (p. 474.) 

Si queredes Sefiores, vir sn buen solas, 

Escuchad el romance^ socegad vos em pas. (p. 429.) 

NSo ^e^los até ac^ui citado documentos portugue- 
zes, porque só em 1428 el-rei Dom Duarte empregou 
esta palavra pela primeira vez, no mesmo sentido de 
J5eriç,eo: jte»pr,eyy lem simples fiman^Q^ ppr «e njelhor 
reter.» (1) Mas no secijj.o xy é que ^^ d^* o phe^opaeiío 
brilhante e único na historia, em que a raça mosarabe 
fez ecfiioar por tp4f^ i^ ^enip^ula can1;fires de uma ri- 
queza e valor incalculável, a ponto de chegarem a im- 
pressionar os próprios eruditos.* O povo chamava a 
ç§t§§ su^s jspppêgs AravifiSj comioac^ma vimos; porém 
P3 eruditos ípr^yp-lhe o nopie de Romana^ par* ipenos- 
prezarem a sua origem. 

A palavra romance acha-se empregada por Diogo 
de Burgos, no THumpho dei Marquez de Santillam, 
no serjtifjo (JíB canto épico em verso tirado dos velhos 
poemas de cavalleria, e repetido pelo vulgo. Em 1449 
j^ ewípi»eg4rí^ es^e tern^Q o citado Marquez; ; em 1458, 
escrevia |iurgos: 

(1) Idein, p. 218. 



mPITULO VI 265 



Veras Lenaafotey qiiK) tanto façia 
quando oon muchos vino á los trances, 
Gala!^ oon lós' otros, de qUien lod i^onianceé 
ftoçeu' fro^aty que aqui im- oabrí&. (1)- 



No Carcel de Ámoryà» IHog^de Sái&\ Pedro se' ditf' 
das mulheres : cPor quien se canian los lindos roman- 
ces.3 

Na Carta do Marquez de Santillana ao Condestavel 
de Poptiigai, eserijMia em 1449,- vem» eote^ treelfto* im^r- 
tante :- «ínfimo» son ax|«feUe8 que sin níngunt ordetf| 
reglani cuentó^^facen oBto» romance» è oaJntâores d&qué 
la gente ha/fw i de sertíl eondician* se alegra,^» Daíspa^' 
lawas dty Marquez pai^e depréhender-se que existia' 
certa' dtfferença e&tre 9*omanc6 e ccmtar: Hiiber entende 
qae 8ão< duos fiSrmasipoetítias differeiUTes"; (2)' Du Méril, 
discriminat-ad no uso definitivo do hespanhol substituin- 
do^seao' latim-; (5) e Ticknor, quando discute o nom^= 
dei r&riwmce, tdma*o oomo indicação da única poenia 
cenheoid» na» língua^ vulgar em Hespanhav (4)' Porém 
todos estes três esoriptoi^es erraram ; ronumce e camiar 
sSo synonimos^. mas oomo O' Marquea de Santillana 
empregava* o primeiro vocabnlo em um sentido novOy> 
pÔB adiante o seil equivalente ahtigo para se fiuser en- 
tender. 



íí^ Àpud Itios, Hist^ t. Vni, p. 441. 
2^ dmwí. áèhfouiáoèú Gid, ItítH^â.jOtxtn. 

[3) Du Méril, Poesies pdpulmrts latines du moyen cLge, 
p. 296. 

(4) T&kxtofyBkt, ij^ Litt Sk8piyt\ i, càp: vt. 



266 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

O romance já no século xili significava narração 
épica sem canto, mas só no século XV é que significou 
o mesmo que cantar, que é a mesma forma épica mas 
reduzida ao essencial da acção, aos traços geraes e dra- 
nutticos. No Libro de ApoUonioj vem : 

Tornoles a rezar un romance bien rimado . . . 

A palavra Cantar não inclue a ideia musical, por- 
que sempre a lemos acompanhada de outra para a sig- 
nificar: «que los juglares canten sus cantares, 6 digan 
SUB cuentos.» (1) Contra o uso da poesia do vulgo, 
diz mais o Marquez de Santillana: «Estas sciencias 
ayan primeramente venido en manos de los romancis- 
tas 6 vulgares.» O novo sentido da palavra romance 
foi logo no principio do século xvi adoptado pelos eru- 
ditos portuguezes ; Garcia de Resende, no prologo do 
Cancioneiro geral emprega-a no seu uso actual: «E 
assy de muitos emperadores, reys, e pessoas de memo- 
ria pelos rrymances e trovas sabemos suas estorias...» 

E para notar, o achar-se nas colónias hespanho- 
las da America a designação de Yaravi, e nas colónias 
portuguezas do Archipelago açoriano Aravia, com que 
o povo intitulava as suas epopêas, ao mesmo tempo que 
os eruditos das metrópoles lhes chamavam romance. 
Qual caracterisa melhor? o que deu o nome tirado do 
meio social e artistico em que esses poemas foram crea- 

(1) Chronica d^Espaha, Part. m, foi. 30, 33 e 45. 



CAPITULO VI 267 

dos, ou o que os intitulou apenaa pela exterioridade do 
dialecto 4o romance em que eram narrados? O povo 
nunca mente, e respeita a sua poesia, como bem disse 
Jacob Grimm. 

Commentando estes versos de CamSes, nos Lu- 
ziadas : 

O Rapt rio nota, que o romance 
Da terra chama Obi. . . 

(Cant. X, est. 96.) 

Faria e Sousa recapitula os vários sentidos de ro- 
mance, condemnando a poesia, como erudito que era: 
cEntiende-se el lenguage natural de aquella tierra: 
i en estas de Espana quedo esta manera de dizer ò 
Uamar Romance à la lengua própria vulgar, desde que 
los Romanos en ellas introduxeron la suya Romana, 
que por la mayor parte era Latin: i por que ei se ha- 
blava vulgarmente, afora a qualquier lengua vulgar 
llamamos Romance, i no ai Latin de que tuve origen 
esse nombre: e tambien se Uama Romance à la prosa 
a differencia dei verso, por ser ella mas vulgar que el: 
i aun ai verso, ò composicion d'esse nombre notório se 
llama assi, por parecer prosa los Romances assi en no 
tener consoantes, como en escrevirse en ellos solo lo 
que se escrevia en ella, que eran historias.» (1) Estas 
ultimas linhas explicam perfeitamente o sentido dado 
pelo Marquez de Santillana. 

(1) Comment,, t. ir, p, 499. 



20$ EPOPÊAS DA n\^ÇA M.08ARABG 

A fini^ o poyo feambem adoptou o isuome de romance 

pana si^ifioar oi canto épico abneviodo^ acompaubado 

de B&uaôcai: 

Viola de ouro ao peito, 
Pois ella bem retinia.;. 
Pois se ella bem retinia 
Melhor romance fazia. (1) 

Este uso parece derivar-se do secujo xv, porque 
este mesmo voeabulo' se encontra nas poesias do Arci- 
preste de Hita: 

Deixem' luego apoiMesto, que le parasse miestes 

Q,iie me daria çrand palmada en los oidos retinientes, (2) 

No i«inado de Dom Dinizi, a alma mosarabesoffiíea 
um duro. ataque na sua on^içai, na^sua poesia e noiseu 
direito ; o» foraeei ficanam. supplantado» com a intror* 
ducção do direito romano na Uni^rer^ídadey o^rito mor 
sarabe foi. substituído, nacapella reaLpeUvliturgiaiiK)* 
maaoLa^. e a poesia foi julgada siok reglm ni omnio^.Q 
desprezíveis aquelles<que a- cultivaram ! Foi. poreaitas 
causa8ique>aiS.nos8aslendasi históricas ficaram* na.fórma 
da. prosa. No entanto^ a. par d^ poesia provençal, prir 
vativa da corte e da nobreza^ tivemos, uma. poesia po- 
pular^ como se pôde conhecer por estes fracos yestigíos; 
coexistindo ambas, e influenciíindo^se mutuamente:: 



(1) Cantos do Archipelago, n.° 6. 

[2) Ochôa, edição de SanchesD^ p. 401^ col. li. 



1 — Os dois jograea Bob Amiè e AcompaniadO; 
em 1193, era tempo de Doía Sancbo i ; a poesia do 
povo torna-se uma espécie de serviço feudal. Corre- 
sponde este periodo aos Remendaáores, de que fala Gi- 
raud Riquier, na antiga |ío<eBÍa da Pidninsula. 

2 — Oç três jograes que pelo > Regimento da casa 
real, competiam a Domi Afibnso Hi, em 1245. Diffe- 
rençavam-se dos trovadoras palacianos, que tinham o 
nome de Segreis. A- este* mesmo> tempo assigna Frei 
Luiz de Sousa a lenda da Nhssa Senhora dos Mariyres, 
modernamente recolhida da tradição oral do Algar- 
ve. (1) 

3 — No reinado dç Dom.- Dinis a poesia jogvalesoa 
chega a sen recolhida no Cancioneiffopalottimne^;' e nSo 
bastai encontrar a nome de cinco jogcaes entre os tro- 
vadores, dai maiâ;alta fidalguia, seailo* também vêitmoS' 
os< oultista» limosinos imitasem do povo a fórma daa 
8eimma8fim eemcmilhoA e os dizerre», que o Marques 
deSantillana classifieaiva.de poctuguezes.. Para. que se 
comprefaenda este' género, copiamos, uma. serraniUm, 
imitada por el-rei Dom Diniz: 



Maiiftadr/ óiveljiula^ 
Vou-m^a la baylia 

Do amor. 
Mha niadr*'é loada> 
¥ou-m'a lar hayjiada 

Do amor. 



(1) Bomanaehogm-al, ik° 40, einot». m^i 268\ 



270 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

Vou-ni'a la baylia 
Que fazen en vila 

Do amor. 
Que íazen en vila 
Do que eu ben queria 

Do amor. 
Que fazen en casa 
Do qu*eu muyt*amava 

Do amor. 
Do que eu ben queria 
Chamar m^á garrida 

Do amor. 
Do qu'ea muyt*amaTa 
Chamar-m'á penurada 



peni 
Do amor. (1) 

Bem se vê que esta cançoneta é feita sobre alguma 
toada popular; em Gil Vicente apparecem entre os diá- 
logos dos seus Autos bastantes fragmentos n^este mes* 
mo gosto, que o poeta nào completava por serem sabi- 
dos de todos. Dom Diniz cita o romance francez de 
Blanchajleur, que chegou a influir sobre o nosso povo, 
como se vê pela versão recolhida na Estremadura; (3) 
a origem para nós foi a provençal, porque o romance 
também se encontra na Grécia moderna. O povo ado- 
ptou a forma dos noellaire. 

4 — No reinado de Dom AflFonso iv (1325-1357), 
a poesia do povo recebe uma forma histórica ; temos 
como prova as allusões aos poemas do Abbade João e 
de Bisturis^ conservadas em uma estrophe do poema 
em redondilhas escripto por ÁfTonso Giraldes á Batalha 
do Solado, Na poesia hespanhola appareceu um género 

(1^ Cancioneiro de Dom Diniz, p, 178. Ed. de Paris. 
(2) Romanceiro geral, n.* 38. Not. a p. 201. 



CAPITULO VI 271 

« 
novo sobre as lamentações da perda de Hespanha; 
n'este período é que devem ser coUocadas as estropbes 
do JSouiÇO da Cava, e o Romance de Dom Rodrigo, da 
versão do Algarve. Por este tempo foi egualmente re- 
colhido o celebre Caaicioneiro de Dom Francisco Cou- 
tinhoy Conde de Marialva, no qual vinha, além das 
cinco reUqnias da poesia antiga, a musica do povo. 

5 — No reitiado de Dom Pedro i (1857-1367), tam- 
bém se. sabe da existência da poesia popular; o desgra- 
çado amante de Ignez distraía-se ouvindo as musicas 
do povo, e tomava parte nas suas danças e trebelhos. 
Os seus trombeteiros João Matheus e Lourenço Paulos, 
acompanhavam-no de noite pelas ruas, quando o ator- 
mentavam os seus pezares. Tocavam trombetas de pra-^ 
ta, segundo o costume do tempo, tal como se vêem ci- 
tadas na Chronica em verso de Du Quesclin, cujas can- 
ções oá foram conhecidas. 

6 — O povo nâo poupou nas suaEk canções el-rei 
Dom Fernando (1367-1383); por ter roubado a mu- 
lher a João Lourenço da Cunha, lhe fizeram a canção 
de Lafior de altura, que começava: «Ay, donas! por- 
que tristura?» (1) 

7 — A poesia pojpular mostra a sua verdadeira ef- 
florescencia durante o reinado de Dom João i (1385- 
1433). Estava constituido o terceiro estado, havia tam- 
bém vida sentimental. Os documentos doesta época 
são mais numerosos. Temos primeiramente a Canti- 

(1) Floresta de Romances, p. zzxvij. 



27Z EPOPÊAS DÁ <EAÇÁ UOSARABE 

ga dcL9> .múShetés no- cêvto de Lisbífm, qae veoDlbor» 
FevnSo Lopes; (1) n^^ poesia hespanèiola' a^pareoe ttm 
casito poTtugUeB'á'pa)defiwáe Aljubarrota), n qpaed^ap 
maxvami CmdardUú; (^) atiièa^ intèrddado no romatnoe 
El €Êma$ae afahaéh. O e jeio' naeíond ítHié formando 
ÍD»iMisiveliiioiPt6^ e d Gondestan^li toififavâ^ rai^ leááa» d' 
nos cantos fú]^xúmfa» as propordes à& nm^ GiÃ^ Jorgeí 
Canrdoso e) Freií Jèsâ Feveiira^ de^ Samiftai Anua' fieeoifte- 
rattiai^ns ãMi(Mintaves>(^a4^itipHai&avttm) ás danças 
sobre a sepaltora do> Oondestai^elv IkhúJÚief se p^ocnra- 
na^ricw-^^ia hespatnlMiis^ esta fiJinsfa;- <}ite sé ôonser\>oi} 
casualmente em< Povtiiigai»- Biz^ Jbi^ge Canrdoso : irEns^ 
cujo dia (12 de Maio^ aiinivei<sarÍDJ da> morte do Con^ 
destavel) costumovai o povo de Lisboa^ e S6u> tenaii^ vir 
á sepuitora^ com- grandes festas ei demonstrações- de 
alegria^, agradeceivlke a^Uberàade da patm^- coni< a ae- 
leberrima batalha de Aljubarrota,, e^otttvaeide qne es»- 
t3b eheias* as* Chyonieas^ entoando<conv ^aça eStJá- leâra : 



Et gmn- Còadestable 

Nuno Alvares Perera, 

Defendió Portugale 

GòD^stibiindéiii 

B coQ su pendone. 

No me lo digadès, none, 

Qm sttntô es' ed Conde. 



S! 



Cancioneiro poptUar, n.** 6, p. 9. 
Floresta de SammmèSy^p» xaoj^ 



CAPITSUbO VI 273 

«Estas seguidillms eriusa oraitae, ãe que só achamos 
o seguinte pé, com que todas rematavam : 



No UM lo digiadee, ooae 

Qa« eanto es el Conde. (1) 



A Chnmica doã Carmelitas é mais explicitai lA 
imítfiçSo 4o8 ejrrÍQA, c<MA que de pres^ate os povoa eoa- 
tumam ir de romaria satisfazer mn% votos a algumas 
imagens luilagrosaPi yinbaiaa toinl^eni a esta egreja{do 
Carm^y oode está a sepultura dp Condestavel) differ^n- 
Uè& ajantain^tos de devotos, repartiotdo eoitre 9Í os dias 
mais acpmmodados . do anno, piara u'^es execniarem 
09 e&itos da sua muita obi^igaçSo que coofeasaTam «de- 
¥er ao sa^to Condestavel* A gente da cidade o feste- 
java oa fjSrma que ;pefere o allegado frei* Jaronymo da 
£oaarnaç2oy o qual diz as9im: v^ Quando o venerável 
corpo do Conde jassia soterrado no chão... as mulhe- 
res dos cidadilofl da cidade de Lisboa, com algumas 
d'eUas se juntavam na Capella-maior do Mosteiro do 
CariaO; (que o Conde fez) um dia depois da Paschoa 
florida, quo ara a primeira outava, com seus pandeiros 
e adufes, e outras tangendo as palmas: e com muito 
prazer e folgança, cantavam e dançavam á roda d^onde 
o soterrado estava, começando uma das mulheres que 
melhor voz tinha, e as outras respondiam ó que ella 
cantava; e diziam doesta guisa: 

(1) Agiologio Lusitano^ t. in, p. 217. 



JSf6 EP0PÊA6 DA BÁÇÂ VOSARABE 

Ky até Qoeios dias por este infiuenoiaieondeiiniEda pelo 
canonunao* 

Foi no seouio xiv, que o génio poético de» povoB da 
Península attingiu nma altnra sarpveiiendente; n«mca 
a kumanidade mostron tazrto vigor de conoep^; tudo 
quanto ha nos Romanceiros hespantioesTerdadeiram en- 
te bello e aaonymo data doeste período unioo da histo- 
ria, sendo por men, curiosidade iscolhidoo pelos livrei- 
ros em folhas volantes. Em Portugal nfto se recolhiam 
senfto as Canções cultas; mas para se vêr qual a rique- 
za estupenda da poesia do povo portuguez no século xv, 
basta lançar os olhos pelos Cantos populares do Archi- 
pelago açoriano ^ que, apesar de andarem incertos na 
tradição oral, apresentam cantos antigos desconhecidos 
nas colIecçSes hespanholas, e em que os usos dos Fo- 
raes ainda estSio vigentes. 

9 — O caracter da poesia do povo no reinado de 
Dom Affonso v (1438-1484) é ainda o mesmo dos Lol- 
lardê. Na Ordenação Affonsina, fala-se nas danças 
dos mouros e judeos, que tinham de sair ao encontro 
do rei em certas festas ; prohibe os clérigos jograes, 
bem como: co tergeitador^ e qualquer outro que por 
dinheiro por si fas ajuntamento do povo ; e o goliardo, 
que ha em costume almoçar, jantar, merendar ou be- 
ber na taverna; e bera assy o hxrfam, que por as pra- 
ças da villa ou logar traz o almáreo ou arqueta ao eól- 
io, com tenda de marcaria para vender» ; (1) por esta 

(1) Ord, Áffims.y liv. m, tit lõ, § 18. 



CAPITULO VI 2f7 

Ordenação os clérigos que andavam n'esta vida^ a que 
em Hespanha chamava o Arcipreste de Hita la tuna, e 
nós ainda tunante, perdiam o fôro privilegiado e caiam 
najurisdicçSo secular. No Cancioneiro deResende, le- 
mos: 

Estudantes pregadores 

metem santas escripturas 

em sermões 

dirivados em amores, 

fazem de falsas feguras 

tentações. 

Quando virem tal caminho 

de uma pregação s'afastem, 

08 que ouvem, 

dem-lhe todos de focinho, 

taes metáforas contrastem, 

e deslouvem . (1) 

Nas Universidades da Europa os estudantes canta- 
vam pelas portas, como sabemos pela mocidade de Lu- 
thero; em Hespanha, chamava-se-lhes Sopistas e Es- 
tudantes da tuna, e d^elles diz o Arcipreste de Hita: 

Cantares fiz algunos . . . 

. . .para escholares que andam nocherniegos. 

(Est. 1489.) 

Como typo da JSstudantina temos nos Cantos do Ar- 
chipelago a Xacara do Galante, (2) e os versos a Dona 
Guiomar da Cutilada. (3) A vida dissoluta dos cléri- 
gos e escholares na edade media, deu origem a uma 

(1) Fl. 25, col. 1, V. E também Sá de Miranda, Carta Ih 
est. 33. 

(2) Op. eit.,r\.° 82, pag. 385. 

(3) Cancioneiro popular, p. 205. 

18 



278 BPOPÊAS DA RAÇA MOSARABB 

ordem de cançSes obscenas, em latim, em que as virtu- 
des sociaes e todos os sentimentos, ainda os mais pu- 
ros eram verberados. Esta confraternidade cómica foi 
personificada no mjtho de Golias, d'onde lhe veiu o 
nome de Goliardos. Pelo século xiii se vulgarisaram 
mais taes chocarrices, fustigadas pelo Concilio de Nor- 
mandia em 1336, e pelos Estatutos synodaes de Quer- 
cj. Assim o génio ecclesiastico influenciava de um 
modo profano sobre e povo, dando-lhe esse caracter li- 
cencioso de muitas das suas cantigas. Na Ordenação 
Affonsina, ha uma prova da existência dos Goliardos 
em Portugal. 

A mesma influencia erudita e clerical, se devem at- 
tribuir as salvas ou prosas marítimas que os nossos 
navegadores do século xv cantavam. Qtil Vicente re- 
mata a Nau de Amores com esta rubrica: «Começa- 
ram a cantar a prosa, que commumente cantam nas 
Naus á salve, que diz: 



Bom Jesus, nosso Senhor 

Tem por bem de nos salvar, etc.» 



A Salve era a cantiga do cair da noite, como se de- 
prehende doestes versos do mesmo Auto : 



Y luego todos digamos 

La Salve antes dei dormir. (1) 



(1) Obras de GU Vicente, t. irr, p. 321. 



CAPITULO VI 279 

A prosa tomou-se uma designação usual da poesia 
do povo; na Itália e na Hespanha assim chamaram ás 
composições rythmicas cantadas na linguagem vulgar; 
Berceo, na Vida de San Domingos de Silos, emproga-a 
significando narração poética: 

Quiero fer una prosa en roman paladino... 

Dante no Purgatório, emprega : 

Verei d'amore & prose di romanzi... 

(Cant. XXVI, v. 118.) 

Commentando este verso, diz Baggioli: «Prosa^ no 
italiano e provençal do século xiii, significa precisa- 
mente historia, narração em verso.» Nos latinistas ec- 
clesiasticos se encontra como designação hymnologica, 
d'onde proveiu para a poesia hespanhola, segundo Wolf ; 
pelo contrario Gayangos e Vedia, annotando Ticknor, 
acham-na introduzida pela poesia provençal. Quer pe- 
la poesia ecclesiastica, provençal ou hespanhola, que 
todas exerceram uma acção profunda sobre o nosso po- 
vo, a prosa, segundo uma allusão de Gil Vicente, tem 
um sentido mais amplo, chegando até a abranger todo 
e qualquer canto lyrico, 

Gil Vicente, o que melhor comprehendeu o génio 
da Renascença em Portugal, conservou muitas formas 
poéticas da edado madia, que os cultistas desprezaram; 



^ EP0PÊA9 DA EAÇ4 IfOSARABE 

4'e}le tira^ie^iofi ob hymnoe farns, p^i^ sq coobocer o 
çaractfs^ <la P^i^ia <io ^epulo ív, Afaria, v^m ã/^fari, 
e teve na li^ua origep o valor de interpretação, expliea- 
ç^; t;^ye na edade ipedli^ u(Qa tal e^tíiteoflio este costu- 
me, que se tornou uma da^ maiores creações burlescas. 
Du Méril traz nas Poesias populares latinas^ um cPa- 
ter noster» farsi, composto por Pedro Cabreil, Bispo 
de Sens. Todas as orações da missa foram reduzidas 
á farsiture. No Velho da Horta, de Gil Vicente, en- 
contramos um Pater nosUr farsi, quo copiamos como 
typo do género : 



Pater noster creador, 
Qui es in ccelis poderoso, 
Sanctifieetur, Senhor, 
Nomentuum vencedor 
Nos céos e terra piedoso. 
Adveniai a tua graça 
Kegnvjm tuum sem mais guerra ; 
Voluntas tua se faça 
Siout in co&lo et ia terra. 
Panem nostrum, que comemos, 
Quotidianum teu é ; 
EscuBí^I-u uão podemos ; 
Iridíi que o nSo merecemos 
Tu da nohis hodié, 
Dimitte nobisy Senhor, 
Debita, nossos errores, 
Sicut et nos por teu amor 
Dimittimtts qualquer error 
Aos nossos devedores. 
Et ne nos, Deos, te pedimos, 
Inducas por nenhum modo 
In tentaiionem caímos, 
Porque fracos nos sentimos 
Tornados do triste lodo. 



CAPITCLO VI 2M 



8ed libera nossa fraqueza 
Noê a maio u'e8ta vida. 
Amen por tua graça 
£ nos livre tutf aheza 
Da tristeza sem medida. (1) 



V^ítíoB AO* seidulo XIV e XV o povo reduzir as ora- 
ções litúrgicas á farêiture, misturando, como diz Ma^ 
gnm, a linguagem "Julgar com o latim; da parte doS' 
emditOB dá-se um facto análogo: os desprezados ro-^ 
mancee populares começai^am também a ser gloêodoÉ 
pelos poietos dio CancioTiero de Herivati dei Oastillo. 

4(K*^**Na entanto a poesia do povo estava vigoro^ 
sano tempo de Dom JoSo ii (1484-1495) apezar de 
86 acharem mui pouoos vestígio» der romance nas trovsís 
que recolheu Resende; prova-se o sem vigor po» um 
meio inditecito: a morte do príncipe Dom Áffonso,* que 
caiu de um oavallo abaixo e deixoci este monar^ha 
sem desdenídenoifl, impressionou talo profundamente & 
povo portngu)^, que ainda hoje se cantam nsa/ ilhas 
dos Âçoires vários romances a esse desastre ; taes c^ 
o Casamento mallogrado e a Má nova. (2) Os dois* 
poeta» quffi ai»da floresceram na côrfce de I>om JoSo iiy 
Jorge Femeira die yaiBOonoello9 e Gil Vicente, sSo os 
esoríptores d'este período que maisí conheceram os 
rem&DciBs populares, porque aláudem a elles eom fire- 



(1) OhraSf t. iii, p. 64. Acha-se condemnado no Index de 
1624/ 

(2) Cantos do Archipekt^o, n."^ 54 e 55. -» Hise, dó Tktàtro 
portuguesy t. i, p. 49. 



282 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

quencia. Esta sympathia pelos cantos e locuções do po- 
vo é um documento da sua funda probidade. 

É no século xv, que mais se despresa a poesia po- 
pular portugueza, justamente quando em Hespanha 
se começou a formar essas collecçòes de Romanceiros, 
que são hoje o assombro da Europa; publicaram-se 
primeiramente em pliego suelto ou folha volante em 
letra de Tortis, e sem data. No Ca,ncionero general 
de Heman dei Castillo, começado a formar ilo fim do 
século XV, e impresso em 1511, eacontram-se trinta 
e dois romances populares antigos, glosados por diffe- 
rentes poetas cultos, e conservados a pretexto das glo- 
sas; (1) no Cancioneiro de Resende apenas apparece 
uma glosa ao romance Tiempo bueno. 

Em consequência do muito artificio da poesia pro- 
vençal commuaicado á poesia culta hespanhola, até ao 
principio do século xvi os Romances populares conti- 
nuaram a ser despreaiveis para os eruditos ; Portugal 
ia atraz da Hespanha em poesia artística; na corte de 
Dom Affonso v e Dom João ii, seguia-se as pisadas 
dos poetas do Cancionero de Baena. Mas um facto 
inexperado veiu contribuir para a renascença da poe- 
sia popular da Península, fazendo-a acceitar pelos es- 
criptores, e imprimindo-lhe uma forma litteraria e sub- 
jectiva: foram as luctas contra a introducç&o da £s- 
chola italiana em Hespanha e Portugal. (2) 



§i 



Floresta de Bonianceêy p. ix. 

Tratado já na Historia dos Quinhentistas, 



CAPITULO VII 2a3 



Reacção da Poesia hespanhola contra a Eschola 
italiana da Renascença 



Ob Cantares de Gesta e os romaDces peninsulares.-^Como os Ro'- 
mances foram o primeiro elemento das Chronicas, e como 
DO século xYi foram tirados da prosa histórica por Sepúlve- 
da. — Os romances glosados. -* A DonzeUa mal maridada e 
o Conde Claros^ primeiros romances colligidos do povo. — 
Romances citados por escriptores portugueses antes da pu- 
blicaçfto das primeiras CoUecções hespanholas. — Gil Vicente 
6 Jorge Ferreira. — As Constituições dos Bispados prohibem 
08 cantos do povo. — O romance sacro Con rabia está el-rei 
David.— ^ A eschola da poesia nacional, lucta contra a iutro- 
ducç&o dos metros italianos, imitando a poesia do povo. — 
Influencia da musica nos cantos do povo. — A musica jus- 
qoina. — Cantos prohibidos pfelo Index de 1581. — Roman- 
ceiros hespanhoes em Portugal. — Costumes tradicionaes. — 
O Romanceiro de Segura. — Os Jesuitas combatem os roman- 
ces do povo. — Tristeza publica causada pelas oraçOes d» 
Padre Ignacio, auctor da Cartilha — Contrafacção dos roman- 
ces do povo, segundo o gosto mourisco. — As Xacaras e os 
Fados.^-OB romances amorosos nos claustros do século xva. 
— Os romances carolinos tornam-se ridículos nas folhas vo- 
lantes. — O costume da Dança da Morte em Portugal. — 
Morte moral do povo portuguez. — Reconstituição do Boman* 
ceiro portugtiez do século XVL 



Os romances populares andavam na tradição da 
Península desde o século xii; sabe-se da sua existên- 
cia positiva^ porque n^este tempo eram elles um gran- 
de subsidio para authenticar os factos históricos; o 
chronista dissolvia-os na prosa das suas narrativas. A 
grande verdade da alma do povo era comprehendida 
em parte pelo erudito. Affonso Sábio, na Chronica ge^ 



284 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

nerale de Espana aceeiton os faetos conservados nos 
romances tradicionaes ; Argote y de Molina foi o pri- 
meiro que descobriu isto, dizendo: cy son una Iniena 
parte de las antigoas hístok*ias eastellanas de quien el 
Rey don Alonso se aprovechó en su historia^ j en ellos 
se' conserva la antiguídad y propriedad de nuestra len- 
gua.» (1) Os romances primitivos que entraram na 
Chromca de Affonso o Sábio, foram os de Bernardo 
dei Carpia j dos Sete Infantes de Lara, do Cid e de 
Fevnào Gonçalves. Eis agora as citações em que o mo- 
narcha allude a essas fontes épicas : «E algunos dicen 
en sus cantares de gesta,, que fue este Don Bernaldo 
fijo de Dona Tiber . . . » (2) — «E algunos dicen en sus 
cantares de gesta, que lo dijo entonces el Iley:==:D(m 
Bernaldo, oy mas non es tiempo de mucho fablar. .. 
E dicen en los cantares que Bernaldo le dijo, que era 
sobrino dei rey Carlos el Grande. . . E dicen los canta- 
res que caso entonces con una duena que avie nombie 
Doiia Galinda. . . non lo sabemos por cierto sinon quan- 
to oymosdecir á losjuglares en sust cantar e»-,i^ (3) Ain- 
da hoje na linguagem popular portugueza se usa a lo- 
cução a dizer nos seus cantares» para significar uma 
opinião individual. Os versos latiaoios sobve a. Conquis- 
ta de Almeria, também alludem aos cantos do povo 
sobre o Cid. (4) Ma Chronicado C.idyQ»Íèo também ia- 



(1) IHsourêOê de la lengua ocuMUma^ â. 1Í7. v« Bd» 1^2; 
It) Fl. ccxxv, V,. 

(3) Id, fl. ccxxxvii. Vid. também fl. cclxxxvii e xcv. 

(4) Vefso 229. Aptrd Pidai, Canc. de Baenaj p. v., t. i^ 



CAPITULO VU ãW 

daidot bastantes roEnanceiy tae» oomo na passagem do 
juramento de ASonao vi dado nat mSos do Cid^ o ar- 
razoado de Alvar Panea ao Cid* (1) 

Estes factos explicam a maaeira fatil oom. que no 
meado do secnlo xvi, Lorenao de Sepúlveda pôa em 
versos octoayllabos 08 principaes episódios da Chro- 
nica generale de Affonso o Sábio. Exemplificamos oom 
estes versos dos R<miance8 sacadas de varias kiãttíria»: 

Sóbrinoa esêtê a^ueros 

Para nos gran bien seria : 

Porqa« nos dan a entender 

Que bieD nos succederia, 

Granemos grande victoria 

Nada no se perderia, 

Don Nufio lo hizo mal 

Que convusco non venia^ 

Mande Dios fiM st arrepienta», (2) 

Eis as mesmas palavras na prosa da Chrwèica gè* 
nerale: aSçbrihos estos aguevos. qne obstes, muah&a sen 
huenos; cá vos dan a entender que panaremos muff 
gran alg» de lo ageno, é de lo nuestro non perderemos ; 
é jUol muy mal Don NvAo Salido en non venir eon* 
vusoo, é mande Dios gue se arrepienta, etc.» (S) 

Entre a Chronica generale e os JRomanceis d&Sbpni^ 
veda deeoiTe um período de quiatrco séculos, em q^ne se* 
passaram os mais curiosos pbenomenos n& elaboração 

f?^ PMtth Op. cit.y p. VI, sol. 1. 

|J2) Sepúlveda,. MÓvmnces^ fi. 11, v.: lÀegadoã. son loe In- 
fantes, 

(3) C^^Tfm, generalt, Part. uf, A. 77, s. 



286 EPOPÊAS DA RAÇA IfOSARABE 

poética das Epopêas mosarabes: deu-se primeiramente 
o facto de serem recolhidas da bocca do povo para oon- 
struirem as Chronieas, depois caíram no desprezo dos 
eruditos, até que em 1551, foram extraídas das histo- 
rias em prosa para serem de novo metrificadas e atira- 
das á tradição oral. Do século xiii a zvi a poesia po- 
pular da Peninsula esteve completamente despresada 
pelos «ttltiiitas que, absorvidos pela admiração das can- 
ções amorosas dos provençaes, chegaram até a desco- 
nhecer a sua existência. Foi justamente n'este peripdo 
do desprezo, em que o romance foi deixado ás classes 
infimasy como diz Santillana, que elle tomou a efflores- 
cencia e riqueza, reduzindo as canções de Gesta a uma 
forma breve, tornando-se narrativo e dramático, accen- 
tuando as situações com traços profundissimos, e mais 
que tudo adquirindo esse caracter do mais impenetrá- 
vel anonymo. Este periodo dos Romanceiros foi bastan- 
te vigoroso em Portugal ; a prova s&o os oitenta roman- 
ces anonymos que existem recolhidos da tradição oral, 
com allusões aos symbolos jurídicos das Cartas de 
Foral, que subsistiram na memoria do povo até hoje, 
apezar de todos os terrores do Queimadeiro e dos ín- 
dices Expurgatoríos. D^eutre os dois mil romances hes- 
panhoes, oitenta ou pouco mais, serão rigorosamente 
anonymos; com este. caracter, o Romanceiro português 
é ainda hoje mais rico. 

No século XV começa outra vez a saber-se da exis- 
tência dos romances populares. O Arcipreste de Hita 
compôz vários cantos no gosto do povo, para serem can- 



CAPITULO VII 287 

tados pelos cegos pedintes e pelos eetudaníes da tuna, O 
poeta BoperO; que seguiu o artificio provençalesco, li- 
dicularísa outro poeta por nSo ter invençSlo : 

De arte de dtgo juglar, 
Qae canta viejas fazafiás, 
* Que oon an solo cantar 
Cala todas las Espa&as. (1) 

O gosto das novellas cavalheireseas em prosa tam- 
bém vem fasser esquecidos os romances do povo; mas 
03 poetas cultos^ caoçados de metrificar sobre allego- 
rias vagas da casuistica sentimental, enfaidados de pai- 
rar no vácuo das invenções caprichosas, sentiram o que 
havia de vida na ^.cçSlo e narrativas heróicas dos roman^ 
ces; os trovadores palacianos, que tanto haviam <:on- 
demnado a creaçâo popular, foram os primeiros a sub- 
metel-a a uma nova transformação, tomando-lfaes o» 
versos mais pittorescos para ^erern. glosados, Suppõcrse 
que algumas folhas volantes, impressas em gothico e 
sem data, pertencem ao meado do século xv ; mas a im-* 
prensa entrou em Barcelona só em 1473, em Valença 
em 1474, em Saragoça em 1475, e em Sevilha em. 
1476 (2), e nos seus primeiros ensaios occupado^na 
reproducção dos livros ecclesiasticos e clássicos, não ti- 
nha va^ar para dar publicidade a essas folhas volan* 
tes, que a gente boa desprezava. Havia porém cader- 



1^ Apud. Pidal, Canc. de Baena, 1. 1, p. xviu. 

[2) Bernaid, De V origine de Vlniprimenej t. u, p, 451. 



2M EPOPÊÁS DA HA^A UlCkfiARABE 

n^ mmviííértpim àt ttmittticéis. Pot tatítd^ a pi^im^ita 
veisi que a^fMrecér àm romfkieeé poptf lât0d impressofl foi 
no Cancionêto genefule coligido por Héruan det Cas- 
tillo, publicado em Valência de Aragão em 1511; co- 
meçou esta anthologia st ser formada em 1491, e n'ella 
entrou uma secção para os romances com glosas : cCo- 
mieuçan los RofrUinc&s con glosas y siti ellas. Y este 
primero es dei Conde Claros, con glosa de Francisco 
d&LeSo^y (l)D'e9te' romance só f eco^lbett t^rancisct)' de 
Leon v«inte sei» veveww, yindo em 1551 a ap^reder 
completo em uma coUecçSé de SeTiiba-; é dos roman* 
cesi mais vivo» temda fia tpadiçSiO ora) portuglieiia» N'es- 
ta ÇoUecção iiiHtam»*se «litros romanoefs já aMigos, co>- 
moa Ssniegô de ii Muhomaj parodiado» pc^i^ Diego de 
Seat F^^àrOy o Digú^-me tu d e>rmii(mo parodiado por 
Oimílks^ e OQtvos romaneies já entto oonsidefado» an- 
tigos. O nome de Dom* Jo^Manfoel/; de Juan àé ia E»^ 
cinav de Bada^off e^ outtos muitos poetas palacianos, já 
ai appaTeeei» nâo b& glosando y msts tam>bem dando fima 
forma Ittterscria ao8> romances do povo. Temos até aqtíi, 
antes da introdtio^ d)$i Bscbola clássica italiana, â pri- 
meiras tentativa de renaâeisnça do8« cantos Iradioio^aes; 
em Hespanba^ até ás Collecç5eB de Sevilha e Ánv^grs exà 
1550 e^l5d5y nM- se tom>oii a lalar maÂs tt^elles; etti' Pet- 
tugal ioí este o periodo da sua mais bella phadé liliei^ 
ria. Vejamos^ 



(IjP CfíÊM, gtkír. ft, úo^. Bd. de Affvenr, de 1^7. 



No Cancioneiro de Resend^ o poeta Nuno Perei- 
ra, do tempo de Dom JoSo iii queixanva 4^iitra Dooa 
Leonor da Silva, por se ter casado, deixando os cavai- 
leiros que a serviam, e nos seus verãos allude ao ro- 
mance da Bella nial maridada: 

Donzella mal marydada 
Que 86 DOS vay doesta terra, 
deoa lho dê vida peuada, 
por que lhe Reja lembrada 
rainlia pena lá na serra. (1) 

O romance da BeUa mal maridada só appareoeu 
completo na collecçâo hespanbola de Sepúlveda e«i 
1551; (2) no entanto já o achamos glosado nos primei- 
ros versos de Sá de Miranda escriptos antes de 1521, 
e duas vezes citado por Gil Vicente, contrafeito na lin- 
guagem doa pretos escravos, que inundavam Lisboa 
OBíi 1525: 

Le hiUa mal maruvada 
Be linde que a mi vê, 
Ve}o*ta triste, nojada 
Dize tu razão puruquê. 
A mi cuida que doromia 
Quando ma foram casaá 
Se acorda ro a mi jflzia 
Esse nunca a mi lembra. 
Le bdla mal maruvada 
Não sei quem cussa a mi, 
Mia marido nAo vale nada, 
Mi sabe razão puruquê. (3) 

(1) Fl. 33. Rd. 1516. 

(2) Jifimaiices sacados de varias historiai, fl. 258. 

(3) Gil Vicente, Obras, t. ii, p. 3â3. 



290 BPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 

Esta Terafto parece-se com a recolhida por Sepúl- 
veda apenas nos três primeiros versos: 



Lâ bellft mal mandada 
De las lindas que yo vi, 
Veo-te triste anojada 
La verdad dila tu a mi. . . 



Em 1516, publicou Garcia de Resende, no seu Can- 
cioneiro uma glosa a um romance Tiempo hueno, tiem- 
po hueno, e Gil Vicente parodiou o romance Yo me 
estaca em Coimbra, quando na Farça dos Almocreves, 
representada em 1526, diz: 

£ grosarei o romance 

De Yo me estava em Coimbra. (1) 

Este romance só appareceu na collecçSo de Anvers 
em 1555, d*onde se conclue que era vulgar em Portu- 
gal quando vinte nove annos mais tarde o recolheram 
os Najeras e os Nucios. Em 1521, citava Jorge Fer- 
reira na Eufrosina o romance do Conde Claros. Sâo 
innumeras as citaçSes por onde se vê que antes de 
apparecerem a Sylva de Romances de 1551, em Sevi- 
lha, e o Cancionero de Romances de Anvers, em 1555, 
estava o Romanceiro da Península vivissimo na tradi- 
ção portugueza, por isso que todos os nossos escriptores 
do século XVI alludem a esses romances ou aos versos 
mais celebres sempre em forma de provérbio, como 

(1) Id., t. tii, p. 202. 



CAPITULO VII 201 

cousa muito sabida. Gil Vicente, Jorge Ferreira de 
YasconceUoSy Gregório Silvestre, Nuno Pereira, Ber- 
nardim Ribeiro, Sá de Miranda, António Prestes, Jorge 
Pinto, Gamões, Bernardes, Frei Luiz de Sousa, Baltha- 
zar Dias, todos eiles citam romances populares, que sXo 
aquelles que appareceram mais tarde com caracter ano- 
nymo nas coUecções hespanholas da segunda metade do 
século XVI. Não falamos já dos romances compostos 
por Gil Vicente e Jorge Ferreira, mas somente dos que 
pertepcem ao povo da Peninsula. N'este tempo os ro- 
mances populares foram postos em muerica pelos gran- 
des compositores do século xvi, e foi talvess isto que 
os tomou admittidos na boa sociedade. Com a desco- 
berta da índia, os nossos aventureiros iam levar a Hes- 
panha as drogas e especiarias do novo commercio, e 
por lá cantavam romances portugueses. Na Flor de 
vários Romaficea, publicada em Madrid em 1597, con- 
ta-se a aventura de um lanceiro portuguezs, que em um 
logar da Mancha cantou de noite debaixo da janella da 
sua amada o romance anonymo do Cid: 

Áfóra, afora Rodrigo. 

Por outra parte, o casamento do príncipe Dotn Af- 
fonso com uma filha de Fernando e Isabel, de Hespa- 
nha, e também o casamento de Dom Manoel com duas 
princezas filhas doestes mesmos monarchas, estreitaram 
a alliança dos dois povos, e os romances cruzaram-se 
na tradição. A lingua castelhana tornou-se de uso pa- 



992 EPOPÊÁS Vk RAÇA MOSARABE 

laciano, a expressão amorosa dos sarios da côrte de 
Portugal. Dom Manoel, como aí&rma Damião de Góes: 
€trazia na soa odrte chocarreiros castelhanos.» (1) Gil 
Vicente e todos os poetas de quinhentos rimavam na 
língua hespanhola ; este interprete fiel do nosso povo 
reoonheoe essa língua própria para as fioçSes : 

Por que cniem quizer fingir 

Na Castelnana linçuageni 
Achará quanto pedir. (2) 

O infante Dom Duarte traeia comsigo um mancebo 
castelhano chamado Ortie, que tangia e cantava chibes, 

Á influencia hespanhola oKercia-se com fascinação, 
e amava^se a musica de Luiz Millan sobre os roman- 
ces antigos. Jorge Ferreira, na Avhgixiphiaj de 1554, 
protesta contra esse uso: «Não ha entre nos quem per- 
doe à hua trova portuguesa, que muytas vezes he de 
vantagem das castelhanas, que se tem aforado oomnos- 
co e tomado posse do nosso ouvido.» (8) Jorge Ferrei- 
ra condemnava a substituição dos romances castelha- 
nos aos portuguezes, mas queria que se adoptasse a 
forma litteraria, como a usavam já os cultistas caste- 
lhanos. E isto o que se deprehende com a approxinia- 
çSo da seguinte passagem do Memorial dos Cavalleiros 
da Stgwada Thvola Redonda: «com huma voz mui al- 
ta e suave, ao som de huma viola d^arco, cantava o se- 

(1) Chi'onica íie D. Manoel, ParL iv, cap. 84. 

(2j Obrtu, t. III, p. 449. 

(3j Act. II, 80. 9, fl. 66. Ediç. 1619. 



CAPITULO VII 



guinte ronlance^ que ho Cronista aqui quiz poer pêra 
que Be sayba que víetsUf e per este modo usaram ospas- 
êodos celebrar seus heroyoos feitoSy porque a gloriosa 
memoria d-elles assi viesse a nossos tempos e se còn» 
servasse, de que tan^bem em Espanha se íâsou fnuyto, 
e usar-se agora pêra estimulo de imitação não fora 
máo^n (1) Estas palavras de Jorge Ferreira refetem-se 
ao tempo em que o romance popular ia perdendo o oa* 
racter dramático e narrativo^ e tomado uma forma cu^ 
ta^ litteraria, ficando por consequência deacriptivo, oom 
um lyrismo subjectivo que o povo nSo entende. 

Mas o romance popular^ que fêra sempre anonymo, 
vae dar que faser a todos os escriptores, que pugnando 
contra a introducção dos metros endecasyllabos ita- 
lianos, se acolhem a elle como a um reducto d'onde 
metralhar a,eschola nova de Navagero, com a facilida^ 
de e graça da redondilha. Com a vinda de Sá. de Mi^ 
randa da Itália, em 1526, começou a grande lucta em 
que os cultistas queriam por todos os modos fazer va- 
ler a nova metrificaçâlo. A lucta travou-se renhida; o 
poeta portuguez Gregório Silvestre foi o que mais se 
distinguiu ao lado de Castillejo combatendo péla es- 
chola nacional. De todos os quinhentisttus, somente o 
Doutor António Ferreira conseguiu desprezar de um 
modo absoluto o verso octosyllabo; mas o gosto do pu- 
blico pelas antigas historias em verso ejra tal, que o 
mesmo Ferreira escreveu a Historia de Santa Comba 



(1) Op. gU.^ p. 10, ult. ediç. 
19 



294 EPOPÊAS DA BAÇA! MOSABABE 

dos Valles^ na forma italiana da outava. (1) Aquelles 
que no século xv chamaram ínfimos e despresiveis aos 
que cantavam romances, chamavam no século xvi hu- 
milde e rasteiro ao verso octosjllabo. Mas a questão 
dá eschola italiana veiu fazer com que se ouvissem com 
curiosidade os Romances velhos, e Sepúlveda confessa 
que adoptou essa forma, por ser a que em 1551 mais 
se usava. Em Portugal as ^bras poéticas da eschola 
italiana permaneceram inéditas até ao fim do século 
XVI ; (2) assim os romances históricos ficaram na men- 
te do povo como o seu único thesouro poético, sem ou- 
tras tendências que os fizessem esquecer. Em Hespa- 
nha, os livreiros de Sevilha e Barcelona formaram as 
primeiras collecções para venderem aos soldados das 
expedições da Itália e dos Paizes Baixos, e para as co- 
lónias da America; em Portugal a imprei^sa foi quasi 
que exclusivamente absorvida pelas obras de theolo- 
gia, os romances ficaram na voz oral. De Portugal 
partiram para Hespanha muitos romances, como o Dom 
Duardos de Gil Vicente, recolhido das versões oraes 
para o Cancionero de Romances de Anvers, de 1555; 
de Hespanha nos vieram também grande numero de 
romances sobre a nossa Historia, sobre os amores de 
Ignez de Castro, de Bernardim, morte do Príncipe D. 
Affonso, já anonymos, já litterarios. 

Cotíi a descoberta do caminho da índia, a burgue- 



m vid. 

tisfXlS^ iiv. II. 



Vid. ae phases doesta lucta na Historia dos Quinken- 

V. II. 

(2) Introducçào á Historia da Zdtteratura, p. 324. 



CAPITULO VII 296 

8ia portuguesa adquiriu um bem estar que desconhecia ; 
o uso dos romances, postos então em musica, aceusa 
essa alegria que dá uma certa riqueza. No romance 
hespanhol El Amante apaleado, em que é o heroe um 
portuguez galanteador, quando o lanceiro namorado 
não canta romances debaixo da janella d'aqaella que 
ama, fala-Ihe das riquezas de Lisboa, dos biarros da 
China, e das especiarias da índia. Em todas as situa- 
ções em que os poetas dramáticos do século XYI retra- 
tam a vida burgueza, yem sempre o romance velho ca- 
racterisar a feição nacional. Ha na Comedia de Rvòena, 
representada por Gil Vicente em 1521, uma longa en* 
numeração das cantigas populares usadas no século xvi : 



Fbiugbiba : E que cantigas cantaes? 
Ama : A — Criancinha despida — 

— Eu me sam Dona Giralda — 

E também — Val-me Lianor — 

£ — De pequena matais Amor — , 

E — Em Paria está Dona AJda 

— Di-me tUy sehora, de — ' 

— Vam^-no8, dijo mi tio — 
E — lÃevadmepor eL rio — 
£ também — óxlbi ora bi — 
£ — Llevanteme un dia — 

— Lanes de Ma%ana — 

£ — MuLioína^ Muliana — 

£ — Não venham alegria 

E outras muitas doestas taes. 
FEiTiCEmÁ : Deitae no berço a senhora ; 

Embalae e cantae ora, 

Veremos como cantaes. 
Ama (canta) Ideoantéme wn dia,,. (1) 



(1) Gil Vicente, Obras, i, n, p. 27. 



BOe EPOPÊAfi DA BAÇA MOSABABE 

Eftta ultima can^ ji acima foi aoouaada pela ama 
de Oismena^que por certo a bavia de oompletar na 
aoena; maa o auctór deixou-a apenas indioada como 
bem oonbecida. Maia adiante a FeitíoeirA repete o se* 
ghndo verso da B^lla mal 



Caettrá o demo mn grito 
De U» mas lindoê j«te yo vi. 



Muitos dos romances citados de Gil Vicente na i2u* 
bwa, appareóeram em 1555 na coUecçSO de Anverst 
Em Paris ê9ta Dona Alda, Vamonos, dijo mi tio. To 
me eêtaha alia ém dntnòra, Lo$ kijoa dé Dana JShn* 
nha e Mal me guieten en Castilla, pertencem a este nu- 
mero. Também no Auto da Barta da Olàría, o arràes 
do inferno chama o conde paora irem ainda de dia, di- 
zendo: 

Oantaremtos á iK>rfia 

IjOê kijúê de Dona Sancha, (1) 

Segundo Duran, (n.^ 666) o te!sto que começa desde 
o verso de Gil Vicente Mal me qtderen en CaatiUa^ (2) 
é a parte mais popular dos romances dos Sete Infantes 
de Lara. No- citado Auto da Barca, allude-se a outro 
romance, hoje desconhecido: 

T lloranilo cantareis 
Nunca fut pena mayor, . . 

(1) Obras, 1. 1, p. 2W. 

(2) Obras, t. ni, p. 143. 



OAPITtJliO VII Wt 

Outras óa^itigas dispdss Gil Vicente para se irem 
oaiKiaodo n^ partida da Lifaata j)ara Saboja ; na Tragi- 
comedia das Cortes de Júpiter, iâdioa este fragmente; 

Nunca fue pena fnayor^ 
Ni tormento tan tsttaVío, (1) 

Vasta mesma tragioomedia aponta ontracaatigajA 
citada na Rvhena^ cOaotaifto todas eetas figuras en 
dbacota a cantiga de LUvadmepor d Ho.t^ 

Bm Jorge PerveÍTa de VasoonoeUos slo sem mun^ 
10 as referencias aos cantos srnMBianoes populaves do 
seeuio i(vi; em upia seena da AuUgrofhia, dois pa^* 
gene ^ntretem^se A espera dos amos, e para se distva^ 
rem cantam á guitarra um romance; n^eat^ tempp 00 
romances ainda nlo «ram reeados, como lK>je. Um dos 
perscmagens afina a guitarra: 

«Di«íAiiH> : Ora pojs, fueiuwi.te tocar^y : Oraf^ <íp Con^ 
de Daroa. 

Rocha : De praser Tem vosso amo, algum passarinho flo^ 
vo vitt lá» 

Cabdobo : Veria, muyto má ventura, (^ue sempre anda após 
esceB* •• 

D«l^sDo; CConto) 

• . Bng tmnãíii ja» ta» gmrr oê 

J)e Franda contra 4r<igimê.,* 

Bqqh4 ; O qgJd dle tw para seu remédio é geoti) vps I* . 
thNAipo : (Continuando a cantar) 

Como lai Tuiria iritU 
Vtio, eomo y pwadorf,» 



(1) Idem, fò., t. n, p. 410. E tamiíSm a p<; 



29a EPOPÊAB DA BAÇA MOSARABE 

(Qiubra^^e-lhe uma corda.) Ah, pezar de Maf ana I 
Cabdoso : Quebrou-lh6 a prima, inda bem ! 
DiNABDo : Vêded, este desar tem a musica, quando estaes 
no melhor, deiza-vos em branco uma prima falsa...» (1) 

Também Bernardim Ribeiro glosou o romance de 
Durandarte, desde o verso: Oh Belerma, oh Belerma; 
e Bernardes glosou o romanee de GayfeiroB, desde o 
Terso : CamaUero, s^.a França idea, muitos annos antes 
de serem recolhidos na collecção de AjGLVers. A ediçSo 
dos versos de André Falcão de Resende; amigo dè Sá 
de Miranda, e também amigo de CamSes^ começada 
em Coimbra por um manuscripto possuído pelo fe- 
lecido Joaquim Honorato de Freitas, interrompeu-se 
na parte que se intitula Ghms e Bomances em caste- 
lhano» (2) A eschola italiana nSlo fez tanto mal aos 
romances populares, como as censuras ecdesiasticas 
que precederam os índices Êxpurgatoríos. Nas Consti- 
tuições do Bispado de Évora, de 1534, renovava-se as 
disposiçSes do concilio bracharense: «Defendemos a 
todas as pessoas ecdesiasticas e seculares, de qualquer 
estado ou condição que sejam, que não comam nas 
egrejas, nem bebam, com mezas nem sèm inezas; nem 
cantem, nem bailem em ellas, nem em seus adros..»» (3) 
Nas Co^tituiçdes do Bispado do Porto, especi£ca-se 
melhor o género de cantigas : <E porque não é decente 
interromper o Santo sacrificio da Missa, e deixar de 

1) Act. m, BC. 1, foi. 84. 
r2) Op. cit., p. 477. 
[3) Gonst. x,tit. 15. 



CAPITULO Vn . 299 

cantar o que a egreja n^elle tem ordenado se cante, por 
intrometter n'elle chansonetas e viUancicos, e ainda 
que sejam pios e devotos; conformando-nos com a dis- 
posição do Concilio Provincial Bracharense, prohibi- 
mos que nas Missas cantadas em logar do Tracto, Of- 
fertorio, Sanctus, Ágnus Dei, Post Communio e mais 
cousas ordenadas pela egreja, se cantem chansonetas, 
e villancicosj nem motetes, antiphonas^ e hymnos, que 
não pertençam ao sacrificiQ que se celebra, nem em 
quanto. se disser alguma missa se consinta ca/atar cat^. 
tigaa profanei, nem festas, dansas, autos, oollo^ios, 
posto que sejam sagrados, clamores, petitorios de es- 
molas... 9 (1) 

Apesar doestas probibiçSes o povo amava a sua 
poesia, como vemos por estas Alvoradas de Pombal: 

a Cantigas muito velhas, cantadas a outo pessoas na 
festa de Nossa Senhora do Cardai, ao alvoreoer; pelo 
que se lhes paga meio tostão, um pão, um bolo e três 
quartilhos de vinho a cada uma: 

Vindas são as alvoradas.' 

É levada alva. 
Que são da Virgem sagrada. 

É levada alva. 
Bainha dos céos, 

É levada alva. 
Sois dos anjos coroada; 

É levada alva. 
A porta doeste mordomo 

É levada alva. 

■ 
(1) Ccnsi, do Biep, do Porto, llv. n, tít. 1, oonst. 7, p. 175. . 



aOO EPOPÊAS DA Áf^A M08ARABE 



9eo8 lhe deixe f ater o l^ocb 

. ' É levada alva. 
Que elle tem muita vontade i 

Elevada alva. /. 

DeoB Ih^ dê muita saúde. 

É levada alVa. ^ 
Pam Fraudes é andada 4|k 

É levada alva. 
Parreiríuha de Aguada. 

É levada alva.» 



Esta ISirma já se oâcontra usada em Beroeo; nos 
cantos pòpttlares de Jè^uê Mendiga tambetn apparece 
empi^ôgada. Ap62 esta cantiga usa ò p<m^ de Pombal 
^atra alvorada ebamada a Mmvríêca^ que comera : 



Vamos beijar a Cms 
Pois n'elU pozeram Jesus. 



£bv seguida perecerem as ruas cantando : 

N*eBta rua m^ querem ]^eiider; 
Mas 08 ferros nfto querem prender. 

Oh alcaide da vara vermelha, 
Soltae^me que estou na oàdeia. 

Pois me prendestes Alcajdf, 
Pois me prondestes soltae-uM. 

Da peste de 1507 a 1509 se instituiu em Guima- 
rães uma procissão em que o povo cantava uma anti- 
pb9lia,ei|ivi4gajr. Di»p,FadreTorG«to; sÁntígamente 



CAPITULO Vil 301 

hiam Aresta procisBfto muitos homen» com bftticteirinhM 
em umaa vfiras compridas, danando e cantando ! 



Sam Miguel de Greixomil 
Dae-nos favor e perrexil, 
Castanhiuhas temol-as qós; 
Senhor Deos, ouvi a nós. 
Santiago que de Chrísto 
Apostolo és, 

Magdalena roga por nós, 
£ rogae a Daos por nós. 



«D^edta antiguidade se nSo uira já (1692); poie se 
tiraram aos povos muitas ridicuksdequeusaivam.» (1) 

No livro A Mêditaçêh em eêtylo metrificado, man* 
dado imprimir pelo Bispo d.^^ Leiria Dom Bt^aasi, sni' 
1547, éo»ãe9!Oiiam^se os romanoes populares; ai se tè 
esta declavaç&o do impressor: <k£ depoie de ser empre- 
mida, mandoQ a mi Joam da Barreji^, emjffeseer dei 
rei nosso silor, em esta catholica universidade, que 
ajuntasse aa mesnui Meditaiç&a as seguintes trovas, 
porque lhe pareceram devotas e proveitosas especial- 
mente pêra mujtos religioeos e religíoaas que sam 
grandes músicos e por falta de cousas espirituaes muy- 
tas vezes tangem e oantam couaas »e<»ilares e profanas. 
Por isso os avisa e lhes roga, que em logar das vai- 
dades mundanas, cantem e tanjam estaa espirituaes e 
devotas. E porque o romance que aqui vay acharam 
apontado singulamneiite por Bad^oz^ musico da ca- 

(1) Memorixu ressttBtàtiadmi^ pi â&l. 



302 EPOPÊAS DA RAÇA M08ABABE 

mara dei rey nosso sejlor. E o vilancete do Parto da 
Senhora, se bade cantar por o duo que compoz Tori^s 
da letra de Inimiga foy madre; e ho do Pranto da Se- 
nhora caminho de monte calvário, por a composição do 
Motete Fili mi ÂbsalZ, do qual foi a letra tomada. E 
doesta maneira será Deos louvado in cbordis e organo, 
e o spiritu sancto que foy o primeiro inventor e mestre 
da arte de metrificadura será servido.» Ás ideias da 
Reforma haviam penetrado em Portugal nos AvJtos de 
Gil Vicente, nos escriptos de Marramaque, e com a 
vinda de Damião de Góes; na reacçSo movida pelo 
Concilio TridentinO; a poesia do povo foi a que. mais 
soffireu; ^deâde .o meado do século xvi o povo emude- 
QQia, perdeu a aleglria. Vejamos o motete do Fili Âha- 
lon, cantado em Portugal em 1547, e já oonhecido tal- 
vez em 1513, por isso que a elle se tefere o verso do 
Auto do Dia de Jvdzo: ^Que é da tmi formomraf : 



Com raiva está el rei David 
Rasgando o seu coraçAo, 
Ao saber da triste nova 
Da morte de AbsalAo I 
Bota o manto na cabeça 
Subiu a um torreão, 
Com as lagrimas dos olhos 
Covas abria no ch&o: 
— O fili mei, fili mei 
Fili meij Abaalão ! 
Que é da tua formosura 
Que é da tua perfeição ? 
Que ó dos teus cabellos louros 
Que ao sol fios de ouro sfto ? 
Os teus olhos mais azues 
Que 08 jacinthoB de Sião ? 



CAPITULO VII 308 



Oh mãos que tal commetterai9y 
Inimigas da rasão I 
Oh Joab qn6 físteste I 
EUe não merecia, não. 
Náo viste que era meu filho 
Gerado em bendrção, 
Quem a elle desse a morte 
Dobrava a minha paixão. 
86 para mim foi mau filho 
Eu lhe daria o perdão ; 
Se o meu mandado cumpriras 
Trazias-m^o em prisão I 
Oh madce que tal pariste, 
Quem terá consolação ? 
Bompam-se as tuas entranhas 
Basgue-se o teu ooração ; 
Choremol-o pae e mãe 
O fructo da bendição, 
O Fili mei, fili me% 
Oh fili mei Ahaalào, 



Somente em 1555 foi este romance oolligido no 
Caiicionera ãe Anvers; em Portugal perdea-se na tra* 
diçSo popular. Os Bispos aproveitavam-se da toctda a 
que eram cantados os romances, para vttlgarisarem 
cantígas de viar-sacra. O espirito ecclesiastico penefaroii 
na legislação, em que se prohibia as $erenadcí$^ com 
pena de prisão, multa e perda de instrumentos. (1) 
Pela sua parte os moralistas empregavam todos os meios 
para extinguir a alegria doeste povo. Diz o Padre Ma- 
noel Bernardes: «Emende-se o celebrarmos as noites 
do Natal nas Egrejas (como eu vi celebrar em imia) 

com pandeiros, adufes, castaoiheta», £9guetes, tiros de 

, . • • . . . • ..•■'■ 

(1) Ord. liv. V, tit. 81. 



Ml. £POPÊAd DA ÉAÇA IfOSABABE 

pistola e risadas descompostas..,» (1) Kos Autos de 
Prestes allude-se ás muska» jusquinaa^ talvez pelo 
muito que se cantavam as Ohansonetas de Josquim des 
Prés, também citado por Joio de Barro». Sobre todas 
estas causas dissolventes, é pi*eci80 não esquecer o cul- 
tismo supercilioso dos poetas da escbola italiana. O Al- 
feres Segura, no seu Romancero, diz:- 



Gradas a Diofl qn^l earíofiid 
De los Toècanoe poetas 
No tendrà que oeroenafte, 
Porque em nada los semejas. 



Dom João III acceitára a dedicatória do Livro 
Musica, de Luiz de Millan em que vinham vários ro- 
mances postos em musicas; seu neto el-rei Dom Sebas- 
tião, m pArtir pava Afriea, ia ouvindo dxiirante.a viagem 
roíoaQeea ««atiulos pelo seu musico Dowogoa Madei* 
m» Eia um faeito importante, oolkido na Ckronica ie 
Uiofln JSfibaatiãQ por Frei Bernardo da Crua: cOotro 
(ptieaagio funMto) ouja si^ificagio nSo se eageitoa, 
foi, que iundo pelo oaar Doiningos Madeira, muaico dfl 
el-rei) cantando^lhe e tangendo. eai hujna vipla, cume* 
çott de cautaor usa ixNaaanoe : 

'\Aytr fuiste rey ck EspaSía: 
hàff na tmtee un eoêtUlo. , . j^ ^ ^ 

tttnto fiii Jttto tomado em mau agouro^ qi» logo Ifanod 
Coresma lhe disse deixasse aquella cantiga triste e can- 

(1) Florestcu, t. n, tit. 1. 



CAWTULO TH 806 

tasse outra mais alegre, v (1) Este romance era um dos 
muito desastrosos presagios com qt^e 'intentavam aco- 
bardar o animo do monareha, e que^nâo pouco concor- 
reram para a perda em África; desanimando os qué o 
acompanhavam! O romance ^ue Domingos Madeira 
contava referia-se a Dom Bodr^, vencido na balalha 
de Ouadalete; é o undécimo íio T^eoro de Ocbôa; o 
verso AyerfúiêU rey dé Empana é aonde começa a par«- 
te maí£ popular doeste romance^ e este mesmo final ap* 
pareoe no decimo quarto, e em geral todos se fundam 
sobre essa antitbese. Depois do. reinado de Dom Ma- 
noel 08 romapces bespanhoes invadiram o nosso povo ; 
da premente citaçSo póde-se concluir que os romances da 
derrota d'el-rei Dom Rodrigo eram vulgares em Portu^ 
gal. Na tradiçSk) do Algarve ainda ee canta uvt roman* 
ceq.ue começa: 



I 



Dom Rodrigo, Dom Bodrígo 
Bei sem alma e sem palavra... 

• 

N8o obstante as duas influeiSciad ooptrariae a6 es- 
pírito Daci<mal, a EscboU italiana e os índices Expur^ 
gatorio9, o povo ainda romanceava os sucbessoi» do 
tempo. Tomos a prova no seguinte fhagmetito de um 
romance antigo, que se perdeu: 

Oh Dona Maria, 
Pombinha sem fel, 



(1) Op. cU.y p. 308. 



tm EP0PÊA8 DA BAÇA MOSABABE 

lialy P&regríha de Oenehra, Perla preciosa, Deêenga- 
no de perdido», e aa Ttovaa de Bandarra, os versos que 
mais consolavam o povo no desalento das suas esperan- 
çaSy qae havia iiaito do sapateiro de Trancoso o seu 
Merlín, o propheta de uma nacionalidade. 

O Index de 1581 coincide com a reproduoçSo do 
Caneionero de Romances en que csta/n recopilados la 
nmifor parte de romances castelhanos, que hasta agora 
st han eompuesto, feita em Lisboa, por Manoel de Ly- 
ra. Este livro ó uma reimpressSo do celebre Canciom" 
ro de Somances, de Anvers, de 1550; eonsta de cento 
e outenta e dois romances, grande parte dos quaes ain- 
da boje existem na tradição oral. Foi esse um dos pri- 
meiros livros em que appareceram romances directa- 
mente coibidos da genuina tradiçSo popular. Pôde esta 
eoUecçSo dividir-se em três partes, se é que nSo houve 
essa intenção: Bomanoes do eyclo carlingiano; Bom&n- 
009 pertencentes á Historia de Hespanha e Portugal e 
outro» paizes, com alguns da Tavola Redonda; a ter- 
ceira parte é formada de uma miscellanea dos citados 
romances mouriscos e da fronteira, amatorios, doutri- 
naes e satyricos. Não tem ainda aquelle lyrismo e va- 
go metaphysioo qué o romance recebeu dos poetas cul- 
tos no principio do século xvii> Com o domínio de Fbi- 
lippe II em Portugal reproduziamrse entre nós os Ro- 
manceiros^ do mesmo modo que em Anvers; estávamos 
em égua) dependência. Esta acção anulióu põr um pou- 
co a influencia dos índices de 1564 e 1581 ; é por isso 
que r3o uos admiramos de vêr imprimir-se em Portu- 



CAPITULO YH 30» 

gal^ em 1§98 o Ramilhete de Flores, qwrta, ^inta, y 
meta Parte da Flor de Romanoeê nuevos, hasta agora 
nunea impressos y Uamado Flores; de mochas graves y 
diversos autores recopilados, no con poço trabajo por 
Pedro Flores^ librero; etc. Lisboa, António Alvarez, 
1593 (in.l2). 

A influencia do governo hespanhol era realmente 
profunda, porque em 1597 publioou-se em Lisboa um 
terceiro Lidex^ em que se nSo prohibem oê romances ; 
condemna-se ai em geral a poesia da edade media: 

Gesta Romanomm (â. 29); Lollardus (ã. 49); Oge- 
ri Dani Fabidce (fl. 58); Cymbalum Mundi, de Bona- 
venture de Perriers, etc. 

A impressSo dos Romanceiros bespanboes levava 
em mira captar a affeiç2o do povo subjugado, assim co- 
mo o dinheiro e a corrupçiío dos altos cargos serviam 
para vencer a nobreza. Em 1605 imprimiu-se pela pri- 
meira vez em Lisboa o Romancero dei Cid; esta data 
derroga a de 1612, que Duran attribuia á primeira edi- 
ção deste livro feita em Alcalá. (1) As licenças são 
datadas de Lisboa, do Convento de Sam Francisca de 
Enxobregas, a 14 de Septembro de 1605, e assignadas 
por Frei Luyz dos Anjos. Em 1613 tornou-se a reim- 
primir em Lisboa, signal de que havia grande consum- 
mo para esta coUecção de Escobar. O gosto pelos ro- 
mances hespanhoes arreigavarse no povo; em 1610, e 



(1) Temos presente a edição de 1605, offerecida pelo Dr. 
Henrique Nunes Teixeira. 
20 



310 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

em 1614 imprime o Alferes hespanhol Francisco de 
Segara um Romanceiro sobre a Historia de Portugal, 
fazendo para nós o mesmo que Sepúlveda fizera para a 
Historia de Hespanha. 

No prologo do Romancero historiado, de los ham- 
^osos hechos de los Christianissimos reys de Portugal, 
pelo alferes Francisco de Segura, em 1610, vem estes 
curiosos factos: «parece queoygo algunos, con su aços- 
tumbrada manera de murmurar, dezir, que quien me 
ha metido a mi, en tratar los hechos de que en este Bo- 
mStcero hago mencion, pues, ni yo era deste Reyno, ni 
era possible que supiesse las cosas tan de rayz, que pu- 
diesse determinadamente escrevillas, a mas de que po- 
ços escriven cò realidad lo verdadero, pues los natura- 
' lez para ei^andecer su pátria siempre se alargan, y 
los que no lo son callan sus prohezas, y si las dizen, 
es con alguna capa quV.ncubra lo mejor, a lo qual res- 
pondo que en mi no hade tener fuerça el ser nacido de 
padres toledanos, ni criado en la Villa de Atiença (que 
lo uno y lo otro es casí, ò sin casi, lo mejor de Castila) 
para que dexe de escrivir lo que he sentido de la in- 
victissima nacion portugueza, principalmente de los 
que se habilitan con sangre illustre, pues estas a lo 
mejor dei mundo se ygualâ. Realmente yo los amo con 
grandíssima terneza, y no se espante nadie desto, por 
que me tuviera por muy ingrato a no hazello HLsi : lo me- 
jor de mis a9íos passe entre ellos, que fue desde los tre- 
ze y médio, (1582) que quede hsrido en Punta Delgada, 



CAPITULO VII 311 

Civdad cabeça de la Ista de San Miguel : de Iff, Batai- 
la Naval, que fuvo el volientissimo Marquez de Santa 
CruZj CO la Armada de Phelippe Estroci, hasta el afio 
de noventa y quatro, que eali delia con licencia de mi 
Rei/j adonde fueron tantos los beneficios que desta na- 
cion recebi, juntamente con Ia merced que el Ulustrissi- 
mo Conde de Villa Franca, j el esforçado Cavallero 
Gonçalo Vaz Coutinho ambos mi Generales Capitanes 
me hizieron que de puro obligado quise, para mostrar 
agradecimento, componer este Romancero, en que trato 
los hazafiosos echos dei Christianissimo Rey Don Afonso 
Enriquez hasta Don Alfonso, quinto, e segundo desto 
nombre, con restauracion j grandezas de Lisboa, con- 
quista de Santaren, SiivQs, Ebora y otras Ciudades, 
con que tambien he querido pagar este Reyno el aver 
dado ai mundo ai excelente poeta Duarte Nuilez luzita- 
no, el qual con maravilloso estilo, escrivio un Poema 
heróico, en que trato la restauracion de Granada, por 
los catholicos Reys Don Fernando y Dona Ysabel, de 
gloriosa memoria, y no es mucho que pues uvo un por- 
tuguez que cantasse prohezas de Castellanos, aya otro 
Castellano que cante hechos y victorias de Portugue- 
zes...» Em seguida ao prologo vem uma Carta de 
Dom Gonçalo Vaz Coutinho, datada de Santarém, que 
começa: «Nunca desejei de ser poeta como agora... » 
Levado pela erudição clássica. Dom Gonçalo Coutinho 
explicava o novo gosto de pôr a historia em verso, pe- 
lo uso dos Gregos: c desejava que aprendêramos dos 
Lacedemonios, que costumavam escrever em preto os 



M2 EPOPÊAá ÒA ÉAÇÁ lííÔSARABE 

feytos heroycos dos setls, pêra que os moços os cantas- 
sem , e d'aqui lhes nacesse tiam só fft2?erem-se práticos 
nas historias de sua pátria, que importa muyto perà o 
bom governo, setiam moverem-se e incitarem-se a obras 
similhantes e levarem este desejo desde as tetas das 
mâys e creeer-lhes com a idade., e pêra isto é maravi- 
lhoso e fácil o estilo dos Romances, it N*estd mesma 
Carta, Dom Gonçalo condemna os que combateram pe- 
lo Prior do Crato, ou da independência nacional. 

Gregório de Sam Martin, no prologo do seu poe- 
ma El triumfo mas formoso, fala contra os romances 
populares, segundo o espirito dos índices já publicados: 
i los muchachos aprenden tanta multitud de cantares 
perversos y mundanos, que a no ser prohibidos, es gran- 
de fkita para Ias Republicas, ínas no pongo tanta cul- 
pa a los que las gobiernan y rigen, como a los padres 
de familia, que oy-endoles cantar alguna chacota profa- 
na a sus hijos ò criados que ai momento les dexen de 
castigar con niucho rigor, para recõnocimiento de su 
emmienda, como es necessário, ensefiandoles a los actos 
de la virtad y obediência, y si los tales fueren inclina- 
dos a romances y versos, esses sean en alabança de Dias 
y sus santos» » Estas palavras foram escriptas antes de 
1624, por que no Index doeste anno já se prohibem os 
romances. Os romances desagradavam aos jesuitas por- 
qtie as cantigas do povo de Santarém e Lisboa con- 
demnavam a infâmia do Cardeal Rei, e sustentavam a 
esperança da vinda de Dom Sebastião o Des^ado. 



CAPITULO Vil ?13 

O» Je^u^.t^s^ no ívollegio de Santo Antão, forjaram 
o yjQlui^oao Jfidex de 1624, o livro que mais obscure- 
ceu ^ sociedade portugueza. Os romances, nao escapa- 
ram ao anatlxema da roupeta. 

Romances riscados e mutilados pelo Index Expur- 
^aíamde 1624: (í'ol. 26: Abindarraez)— {Foi 33: Te- 
nta una vinda) — (Foi. 35 : La mo^q. Gallega) — (Foi. 3i6: 
cpl. 2. Un mercador, Q^^) — (Foi. 37 : Una bella casadil- 
la e .0 rom. : Una Villand) — (Foi. 39 : Agora que estoy 
deeepacio) — (Foi. 42: o rom. : Que te hize) — (Foi. 43: 
Galanes los^ etc.) — (Foi. 45 : Oi/d O/mar^tes, etc.) — (Foi. 
64: Justo es gm, etc.) — (Foi. 66: Esperando, etc.) — 
(JFol. 68; Ungrapde Tahul, etc) — (Foi. 81: Enla an- 
iecaraara, etc.) — (Foi. 87 : Quando yo peno, etc.) — 
(Foi. IIÇ: Los que mis culpas, etc.) — (Foi. 125 : Ven- 
tffmazQ para mi, etc.) — (Foi. 126 : Yo tuve con der- 
ta do^, etç.) — (Foi. 147 : Manchetes de mi puehlo) — 
.(Foi. 21?: Gallardo passea, etc.) — (Foi. 222: Occu- 
pada enun papel, etc) — (Foi. 223: Enun prado corq- 
nado, etc.) — (Foi. 227 : Vida de mi vida, e Yo soy Mar- 
tiguello) — (Foi. 231: Todos estanmal,etc.) — (Foi. 248: 
ia ronda deste lugar, etc.) — (Foi. 249 : Regalandose, 
.etc.) — (Foi. 252: cantiga: Madrugastes vezina, etc.) 
— (Foi. 253 : Hizo calor, etc.) — (Foi. 257 : Oyd seno- 
ra, etc.) — (Foi. 262 : El arbol gue ahorcô, etc.) — (Foi. 
275: Satyra contra o amor, e^tc.) — (Foi. 280: Diez 
çiíios, etc.) — (Foi. 303 : Yo estoy, etc.) — (Foi. 310 : La 
be.ata regadora) — (Foi. 311: fistasse el jurisprvden- 
te, çtc): — (Foi. 324: -ár^or corw inter cadencias)-. — (Foi. 



314 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

344: Huvo un cierto) — (Foi. 357: Memorias tristes^ 
etc.)-^(Fol. 373 : Entiendame quien, etc.) — (Foi. 392: 
A vos oiros los que, etc.) — (Foi. 402: Ya de mi dulce, 
etc.) — (Foi. 403: No viene a mi, etc.) — (Foi. 423: 
Durandarte buen) — (Foi. 434: La sangre sola, etc.) 

— (Foi. 441: Caracoles me piede, etc.) — (Foi. 449: 
Dexade que me alegre,) — (Foi. 450: Que un galan, 
etc.) — (Foi. 451 : Toca a la chacona, etc.) — (Suppl. Foi. 
32: La^ redes) — (Foi. 211: Por veria seria) — (Foi. 
213: Oallardo passea) — (Foi. 228: El desgraciado) 

— (Foi. 347 : De mi Amor, etc.) 

Os Jesuítas apoderam-se das crianças, para domi- 
narem o ultimo quartel do século xvi. O padre Igna- 
cio, auctor da celebre Cartilha, ia pelas ruas com a 
bandeira da Santa Doutrina, tocando uma campainha, 
e ajuntava todas as crianças na occasiSLo em que saiam 
das escholas. Levava-as para sítios afastados da cida- 
de, e ensinava-lhes .versos piedosos. Diz Balthazar 
Telles, na Chronica da Companhia: «De outras mui- 
tas santas traças usava para trazer contentes os meni- 
nos, e para os fazer tomar de cór a doutrina; hia-os 
buscar ás escholas, falava com os mestres, a estes tinha 
muito de sua parte, dava-lhes o modo e direiçSto por 
onde haviam de doutrinar aos discípulos, fazendo-lhes 
todos os dias ensinar as orações, entoando-a dois d^elles 
em voz alta, e repetindo logo todos ; e para que os me- 
ninos fugissem de musicas deshonestas, fez compor, e 
elle mesmo compôz algumas cançSes espirituaes e can- 
tigas devotas que andam no fim da Cartilha, as quaes 



CAPITULO VII 315 

ainda que nam são as que estimam os cultos sSo as 
que prezam os Santos, e estas lhes fazia tomar de cór 
e lhes fazia cantar de dia e de noite ; que assim lemos 
d'aqaelle grande Padre Gregório Nazianzeno, que se 
oocupava em compor versos e escrever poemas, nos 
qaaes metia os mysterios de nossa santa fé, para com 
este mel de poesia adoçar a curiosidade aos de menos 
edade e resijstir á impiedade do Apóstata Juliano. . . 
Ordinariamente no principio da doutrina, depois de se 
benzer e dizer algumas orações, mandava cantar por 
dous meninos de vozes excellentes: 



Todo o fiel Ghristam 
He mui obrigado 
A ter devaçam 
De todo coraçam 
A Santa Cruz... 



cA esta cantiga chamava elle cantiga dos Anjos, a 
razam d^isto era a que elle contava muytas vezes». •» 
Era o caso, o tel-a ouvido cantar no mar das índias 
aos anjos que salvavam uns náufragos! Continua o 
Chronista: «Esta sua cantiga lhe celebravam os An- 
jos ; vejamos outra, que parece lhe ensinaram ou emen- 
daram 08 mesmos anjos. Entre os motetes que andam 
na Cartilhay o primeiro dos quinze mysterios, tinha 
elle composto doesta maneira : 



Virgem sagrada 
madre de Dios, 
quien en el mundo 
tal oomo vós? 



31i6. EPOPÊAS. DA RAÇA MOSARABE 



Del Angel Gabriel 
faistes annunciada, 
y hablatido con el 
quedastes prefíada 
dei hijo de Dios... 



«Porém nSo lhe soava bem^ nem lhe contentava 
aquella palavra d'este ramo Q^edaeteê prelíctda, porque 
posto que explica o mysterio, comtudo desejava dtte 
outra que dissesse mais com a pureza da Virgem purís- 
sima e com a modéstia de suas palavras. — Com estes 
pensamentos andava lidando (porque estes eram os seus 
.cuidados) porém por mais vezes que mordia as unhas 
e tomava o verso á lima^ como aconselhava o Mestre 
da Poesia, nam havia remédio pcçorrer-lhe outra phra- 
se. Indo elle huma vez para entrar em Sam Roque, 
vindo de fazer a doutrina, e occupado todo n^esta lida, 
se chegou a elle um menino de muy formoso aspecto e 
puxando-lhe pelo manteo, lhe disse: — Padre Mestre 
Ignacio : 



Quedastes morada 
dei hijo de Dios. 



«Aquietou logo o pensamento que tSo cansado anda- 
va buscando aquella emenda que o menino lhe dava, a 
qual notavelmante lhe contentou, ficando igualmente 
satisfeito da palavra e admirado do corrector, no qual 
logo reparou ; pois parecendo n^enino, lhe sabia os pen- 
samentos e lhe emendava os veirsa»^ í^ jl»^scando-o logo 



5i. i}A?m3w.m .. »7 

par» em satís&çSo 4e tom boa obra lhe dar mn premio, 
como oostumAVft aos d^aqudUa edadi^y de^pparçpçi^ 9^ 
menmo a nunca maÍB o viu ; entendendo qM^ epra An^. 
jo. . . (l) 

Depois d^efita atrosi condemnaçSo da poesia popii- 
Ur, 06 Tomances ficaram outra vez esquecidos; apenas 
Dom Francisco Manoel de Mello em uma acena do Fi- 
dalgo Aprendiz, cita os romances da Sylvana, da /f^- 
fanbina], Mis amorosos cuidador, A ândorinhç^ glorio- 
9flLj e o Oamàõjí gavião bremco. Em 1696 publiciou-r8($ 
em Lisboa á Primamra y Flor de los mqores roman" 
ces que han ^solido, aora nuevavíente en esta Corte, re-* 
eogídos de ¥arioB poetas, por el Lioeoeíado Pedj^o ArJA^. 
Perez; o Alferes Francisco de 'Seguira ajuntou^ a. esta 
coilecção uma segunda parte, que tem quatorze folhas. 
Além da edição de Matheus Pinheiro, Duran cita outra 
edição de Lisboa, de 16^^ por Juau de la Cuesta. (2) 

Estes romances sSo de um lyrismo que repugna ao 
caracter narrativo e heróico dos cantos populares ; assi- 
gnalam uma época em que se perdeu a comprehensSo 
do génio do romance. Depois da conquista de Grana- 
da, e da extincçâo do dominio árabe na Peninsula, os 
poetas, que até então e^am quasi sempre guerreiros, 
não tendo com quem luctar, inventaram uma socieda- 
de árabe, com pai^Ses e interesses modelados pelas im- 
pressões que haviam recebido, e assim formaram esse 



1) Chron. da Cpmp.. Part. ii,.liy. 4., cap. 49, p. 225. 
[2) Duran, Rornmmíto gfinfivc4n\ ^^ -j;^, ÍÍ^. 



À 



32P EP0PÊA3 DA I( AÇA . W)SABABE 

vam e tangiam >£^a1,uJ^8 ç p^4^irp8» . . ^ (1) Em árabe 
xacara significa burla; este género nlo se prende ás 
tradições históricas^ apesar de ser narrativo ; da classe 
social que usava estes cantos, os ocaques ou gitanos, 
veiu a denominação de xacara e xacar andina. O com- 
mentador de Quevedo, diz que esta forma poética ca- 
hira em desuso por causa da sua origem desprezível; 
Quevedo deu-lhe a cultura litteraria, e fel-a novamente 
vulgar no século xvii. A sua celebre xacara de Escar- 
raman, acha-se- prohibida no Index de 1624. A phrase 
de Dom Francisco Manoel: «começaram um dialogo 
em verso, á maneira de xacara . . . » nao authorisa a 
crer que esta forma seja dramática, como o asseverou 
Garrett; a (íma^eira de xacara"» refere-se á linguagem 
de giri^^ As xaccLras escriptas por Quevçdo tem a fór- 
pjua epistolçir. :Foi este geniçro quQ no século xviii re- 
cebeu em .Hespanha uin máximo desenvolvimento nas 
folhas volaates impressas em Sevilha pela viuva de 
Francisco, de Leffdael e herdeiros de Thomaz Lopes 
de Haro, em que na forma de romance se celebravam 
as façanhas de Guapos e Valentes salteadorp^. Duran 
recolheu alguns d estes pliegos sueltos, como os que ce- 
lebram as façanhas de Francisco Estevan, de Jvian de 
Arevalo, de Don Salvador Bastante, Pedro Cadenas e 
outros muitos. 

Em Portugal este mesmo género ficou esquecido; 
os livreiros não tinham que especular com um povo 

(1) Chron,y cap. 84. 



OAPiTtJLO VII Ml 

morto. Que essa forma existiu, temos uma prova nos 
Fados, xacaras modernas em que a aeçSo se nSto titã 
da vida heróica, mas se funda era uma narração minu- 
ciosa e plangente dos sucessos ou logares que entre- 
tecem o existir das classes miseráveis da sociedade. Pe- 
los Fados do maruja, da. Severa, do Soldado, do De- 
gredado, podemos concluir que esta forma tem a conti- 
nuidade do descante, seguindo fielmente uma longa 
narrativa, entremeiada de conceitos grosseiros e 'pre- 
ceitos de moralidade, com uma forma dolorosa, obser- 
vação profunda, graça despretenciosa, monotonia de 
metro e de canto, que infundem pezar quando os sons 
saem confusos do ftindo das espeluncas. O rythmo does- 
te canto é notado com o bater de pé e cora desenvolto^ 
requebros. Da côr sensível de fatalidade que ha na poe- 
sia do povo, parecerá talvez provir o nome d'esta for- 
ma do Fado, Charaa-se Fadista ao vagabundo noctur- 
no que no meio das suas aventuras modula essas can- 
tigas; no velho francez, Fatiste significa poeta, e Ede- 
lestand Du Meril pretende que esta designação vém do 
scandinavo fata, vestir, compor. (1) Assim podemos 
ver que o Fado é uma degeneração da xacara, que 
pelas transformações sociaes, veiu a substituir a canção 
de gesta da edade media. 

No século XVII perdeu-se completamente o conhe- 
cimento da existência de uma poesia nacional no povo 
portuguez ; ainda em Jorge Cardoso se encontram ves- 

(1) HÍ8t. de la Poesie Seandênate, p,^90, not. 1. 



322 EPOPÊÁS DA BAÇA MOSABABE 

tigioB de um romance sobre o martyrio de Santa Antó- 
nia, o qual em Ceia «afirmam pessoas fidedignas que 
ouviram cantar muitas vezes a suas mães e avós : 

AntoDÍna peqaena ' 

Dos olhos grandes, 
Mataram-na idolatras 
E feros gigantes.» (1) 

Frei Bernardo de Brito conheceu o valor histórico 
dos romances, mas nSo se soube aproveitar d'elles ; Mi- 
guel Leitão de Andrade traz de longe em longe na sua 
Miscellanea algumas cantigas soltas, Frei José Ferrei- 
ra de Santa Anna, recolheu os cantos sobre o Condes- 
tavel; a crermos Garrett, o Cavalheiro de Oliveira foi 
o único coUector consciencioso da poesia popular no sé- 
culo XVIII, e por via d'elle pôde restaurar a lição do ro- 
mance de Dom Aldxo, Dom Duardos, Dom Gaifeiros, 
e Marquez de Mantua. N^este tempo a poesia do povo 
caíra na mais Ínfima gentalha; os eruditos não se oc- 
cupavam com essas cousas. Em um poemeto sobre Holr 
dãoy declara-se a classe que ainda no século xviii ama- 
va os romances. O cavalheiro de Oliveira não podia ir 
além do seu tempo, e Garrett mentiu. O povo, fanatisa- 
do pelo catholicismo e cretinisado pelo despotismo, nos 
Autos do século xviii já não citava os romances he- 
róicos mas alludia ás Orações, que os índices também 



(1) Ágiolo^ Lm., t. o, p. 12. 



CAPITULO VII 828 

lhe haviam condemnado. No entremez dos Cegos Enga- 
nados, vem : 



Mandem-me resar, senhores 
A Oração de Santo Anselmo, 
A do Santo Nicodemus, .... 
A de Sam Bartholomeu 
Que tem por uma cadeia 
Presos todos os diabos. (1) 



O romance, quando acertava de passar pela mão 
dos cultistas era tratado sem respeito; inventou-se um 
género chamado romance em endecasyllahos e ás ve- 
zes em redondilha com assoantes, com que os frades fa- 
ziam os seus requebros seraphicos. Frei António das 
Chagas teve fama n'este género insulso. Nas Memo- 
rias do Bispo do Grão Pará vem uma anedocta que 
bem caracterisa o estado do romance no século xviii ; 
diz elle: «Meu tio... o doutor Frei Ignacio de Jesus, 
monge de Sam Bento, foi muito eloquente e celebre nas 
erudições dos Seiscentistas, muito lido em romances e 
comedias, e algumas vezes applicando passagens alheias 
com graça. Indo eu com elle ao passeio do Padrão em 
a pátria de ambos, Matosinhos, reparamos em uma da- 
ma, que recostada no braço adormeceu; e alli se en- 
tendia esperava o seu galenteador. Diz promptamente 
Frei Ignacio: 



(1) Hiit. do Tkeatro portuguezj t. lU) p. 187. 



SM EPOPÊAS =0A BAÇA MOSABABB 

• 

Dormido yaze «1 amar - 
en el regazo de Vénus, 
inflamando las saetas 
con la suavid dei sueno. 

«Então se lhe disse: 



£1 dulce suefio la tíeue 
en dos soles usurpados ; 
pêro abraza en hermosura 
auu f altandole los raios. > (1) 



Imaginem-se as situações mais caprichosas da vida, 
tudo servia para improvisar d'estes requebrados ro- 
mances. Vejamos também o caracter das composições 
escriptas para o povo. 

Em uma folha volante de 1790, vem a Vida do fa- 
çanhoso Roldão, èm verso de redondilha, contendo 211 
quadras. E um phenomeno curioso vêr tratar outra vez 
em verso, o que havia caído já na mais' miserável pro- 
sa ; mas basta vêr alguns versos da invocação, para co- 
nhecer que nos faltava o espirito que ditava as antigas 
epopêas. Eis algumas quadras em que se invoca as gal- 
linheiras, os pretos, os gallegos, justamente a classe do 
baixo povo que ainda amava os romances: 



E vós outras que vendeis 
As ades bem depennadas, 
Lançae de ilharga a beatilha 
Ouvi, ficareis pasmadas. 



(1) Op. cit,^ p! 95. 



CAPITULO VII 825 



Também vós oh gente adusta 
Lá d^essa Costa da Mina, 
Deponde agora a canastra, 
Deizae a vossa mofina. 



Vós calejados çallegos 
Que gemeis baixo ao jugo, 
Vós esfolas, vós e vós 
Que sois da gente o refugo; 



Vós que vestis melandraus 

g Ilustres gatos pingados) 
epende os vossos def unctos 
Ficarei resuscitados. 



Ouvi, ouvi todos juntos 
Professores, aprendizes 
D*alfaiates, sapateiros 
E dos que vendem niizes, etc. 



O resultado doesta lucta do catholicismo e do des- 
potismo contra a poesia e liberdade dos Mosarabes, vê- 
se na mudez e falta de festas nacionaes do povo portu- 
guez. Quando a burguezia da Europa trabalha e ri, 
sentindo-se forte, productora, com a consciência dos seus 
direitos, em Portugal ainda se obedece ao pezadello da 
Dança da Morte que aterrou na edade media. Da ci- 
dade de Bragança, encontramos descripto o seguinte 
costume: «Em quarta feira de cinza, na Misericórdia 
d'esta cidade, costuma alugar-se a quem mais der, um 
vestido qtiê figura a Morte; o individuo que o aluga 
veste-Oy e com 9, fouce na mSo persegue os rapazes, que 
o acompanham com grande vozeria, dizendo: 

21 



326 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

Oh Morte, 
Oh piella, 
Tira á chicha 
Da panella. 

«O alugador não pode demorar o vestido mais que 
uma hora; finda ella, torna a proceder-se a nova arre- 
matação; e assim se continua até sair a procissSlo de 
Cinza, que o ultimo rematante do vestido acompanha, 
indo a seu lado um anjo que leva a art^ore do Paraiso. 
O producto doestas remataçSes entra no cofre da Mise- 
ricórdia.» (1) Com isto divertem a aliíia popular. 

O povo portuguez estava morto politicamente; o 
rei governava, mas para elle a nação tinha uma enti- 
dade phantastica; concedia-Ihe direitos pela sua alta 
generosidade, e á maneira do Deos dos Theologos que 
introduz o milagre na ordem physica, introduzia o pri- 
vilegio na ordem social. Ninguém ouviu a voz do po- 
vo até á Revolução de 1820; e comtudo o povo soffireu 
e cantou. A revolução contra o dogmatismo da Arte, 
chamada Romantismo, é que hade vir revelar os. poe* 
mas tradicionaes do esquecido mosarabe. (2) 



(1) J. A. d'AhT)cida, Dicc. abreviado de Choroffraphiaj 
i. I, p.l90. 

(2) Para completar o quadro da poesia nacional no século 
XVI, importa vêr nos Estudos da Edade Media: Poesia da Na- 
vegação portugueza; nos Cantos do Archipelago a Nota n.° 37 
sobre oh Romances dí Nan Catherineta; no Cand&neiro popu- 
lar a nota sobre as Origens celtibas da lenda de Dom Sebastião; 
e na Floresta de Hòmances, as Transformardes do' Bomance no 
século XVI ^,XVJh 



CAPITOLO Vil 



327 



Ruiuaiicdru purlugues, í to riii ad u dos romances (to"9e- 
culo XVI e XVn, (pie andaram na tradição oral, e 
se perderam por não terem sido recolhidos : 



Anro 



bohajtOe 



EBOBIFTOB QUB O OLTÁ 



1491 
1516 



1516 
1516 
1523 
1523 
1523 

1523 
1519 
1519 

1521 

1521 

1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1521 
1523 

1524 
1525 



Donzella mal m&ridada 
CavalleiroB vi assomar 



• 



Nunca fiie pena mayor 

En el mez era de Abril . . 

De las mas lindas que yo vi. 

Nunca fuera caballefo . . 

Helo, helo por do viene 

el moro por la calçada . . 

Biberas dei Dauro arriba 

Los hijos de Dona Sancha . 

Nunca fue pena mayor 

ni tormento tão estra&o . . 

Bom. dos Infantes de Carrion 

A criancinha despida . . . 

£u me sam Dona Giralda . 

Valme Leanor 

De pequena mataes amor 
£m Paris está Dona Alda . 
Dime tu, seâora, di 
Vamo-nos, dijo mi tio 
Llevadme por el rio 
Calbi ora bi . . . 
Llevanteme un dia. 
Muliana, Muliana . 
Non venhaes alegria 
Mal me quieren en 'Castilla . 

Durandftrte, Durandarte . . 
I^a bella mal maridada . . 



Canc, Geral, foi. 33. 
Garcia de Resende, imitação 

de Yo me. estando em Gi- 

romena. 
Canc. de Resende, iol. 155; 

Citados no Auto de Bo- 
drigo e Mendo por Jorge 
Pinto ; sobre a data doeste 
Auto, vid. Hist do Theatro 
portuguez, t. i, p. 268. 

Gil Vicente, Obr,, 1 1, p. 227. 

■ r 

Id., ib^, t. n, p. 410. 

Frei Luiz de Sousa, Ânnaes 
de D, João III, p. 35. 

Gil Vicente, Comedia de iS«- 
bena. Obras, t. d, p. 27. 

Id., ib. 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib,j Farça de Inas Pe- 
iem, t. ni, p. 143. 

Bernardim Ribeiro, OhriV, 

Gil Yieeaíb^Fragoade amar, 
t. n, p. 333. 



£P0PÊA6i DA KAÇEA! lIOSARABE 




1525 

152& 

1527 

Í5^ 

1527 
1^9 
1,629 

m 

Í52í 
15^9 

152á 

1529 
1529 
16S8 

t58d 
15BÍ5 

1535 
1535 
1536 

1536 

1536 
1536 



D'onde estas que te no veo 

que es de ti esperança mia .|G il Vi cente, Obras j t n, p. 



Yo nuB eitafaft en Coiítibra . 

Por aquel postigo biejo . . 

•Buéik Cetàáeí Féftlft» Gonsal- 

Conde ClarOB 

Moro Atealâe, moro Alcaide 
Yo le daria bel Conde . . 
Sereis vos meu Durcunkit^rte . 
yah^onoSy dijo mi tid . . . 
Yo le daria bél Conde 
quanto darsele podia' . 
Ibá 



}Áúdé las caáadas. 



Vamonos dijo mi tio » . . 
Tifátíado de EMliunêàrte . . 
Gi»i Vâlelnçii) Gúai Valença 

Bn el mez étn. de AbHl . . 
Miff atreoB t^ota ias armas. . 

Sospiraste ...:.. 

Baldovinos 

Padre nuestro ebiqtfUttto Pâ** 

pa • • • 

O Belerma, ó Bèlerhifa . . 

Justa fue mi peèdictdn . . 
Meu Dom Duafãos posúi^o . 



327. 
Id., Ftrça dos Âlmoúram^ 

t m, p. 202. 
Jorge Ferreira de Vascon- 

Id., ib, 

Id., ib,, p. 19. 

Pt«âteli) Atitddá Aiíè-MáAà. 

\A^i ib. 

Id., ih. 

Iâ<^ A«tD do Pttmuriídw; 

lá.^ tô., p. 5Sl 

Id., Auto' do Ptaòtítado¥f t. 

Iá*y4b.^p. Idi. 
Mv ^6.^ p. 136. 
Git> Yieeiíte, Auto dà Ldá- 

tania, t. ni, p. 270. 
Idij D. Duaràoê^ t u, p. 949. 
Luiz Milan, Libro de Musica 

dedieádo a D. ãútj^ HL 
Id., ih, 
id., ib. 



\bã%€ovidt GUiroê cdn atMoreSi . 
1536 Fálèò, maio, engíuiador . . 
I5M <iue la òéna O'^ Valença . 
1586 Owty Vaie&^^0¥áy Valença 



AifAré de Bedékide^ Vida, do 
Ifrfank D, Dumrié, è. 14. 

Bemátdífiii BibeifO) Obttu^ 
p. 356. Ediíçâo de 1892. 

Id.) ^i., p. 361. 

Preftes^ Attto do Dééeríibar- 
gtÈáàr, p. 180. 

Id., t&., yt 206. 

Id., t6., p. 226. 

iái, ifr., ^. 2asi. 

Id.^ Auto doi Cántáriiàidê, 
i p. 446. 



\ 



<sAPís^V!Lâ) ya 



aa» 



ASNO 



jt^Muroi: 



mas&wm que o cití^ 



1536 



lik86|0^aQee la Minm ofos . 
..-...£ Mariãada 

Íe laa çoAslind^ que 70 vi .jHáM iit., p; 30^. 



1536 
1536 
1542 



1542 
1542 
1542 
1544 

1547 

1547 

1547 
1547 
1547 

1547 
lS6é 



en su cavallo a la p^oáa. 



Ya si cavs^l^ OflkTiios . . 

I 
Mi cama son duras iMAas . 
Velho maio eu minha >eama . 
La que yo vi por^mimal. . 
Sobre mi vi guerra ariDiar 

Betrahida está la\XQ&nta m 

Para que paristes «ladre 
tuu.filh« tau deaáieba^o . . 
Pregonadas «on laA guerras. 
Auto do Marquez de Mfgifiua 
Fili mi Absalão 

Si^lmig» fue madre. . . , 
BliegQnadas . ao» las guerra^. 



Prestes, Auto dos JOois Ir- 

mãos, p. 260. 
Xd.) AnioÃ9k(QÍQ8aj p. 300. 



Id., Auto do Mouro Encan- 
tado, p. 396. 
Camões, Auto dos Anmhy- 

4riÕ€9rP' 119' £d. de 1686. 
Ld., Obrasy p. B49. 
Id., ik. 
Id., tlè. 
ãerQT!iiym> BíHmíto, Atttp>4Q 

JPhy^o. 
Jojigie Fieira, U^^wpp, p. 

âõ6. 

Id. ib., p. 260. 

Id., ib.y p. 117. 

Id., ih 

MedUmçiSfi «m /estyk metrí- 

fioado. 
md. 
Jorg^ Ferneira, Aukaraphu^f 

aot. w, 81C. j, foi. íq4. 



1555 



Vvlgarisa-se a CoU^^çção de 



«H 



SilvçL de MomUnceè, Se $eyi- 
Iha, 1^51 ; Cq>ncionerp <?« 
romance* de Anvers^ I]pj?5« 



1555 



1555 



1555 
1564 



Mi çadre,?r* iJ^.RíVWlfi 
y mi madjv^jde Antequçra 

Riberas #} Pauro a^l)a 
cavalgaa t^PP çamorangs . 

Afora, af^^ Bpdrigp . 

Romances tirados ao pé(^4i 

letra do Evangelho . . ^ 



Camões, Dèipar^ds Aa In-, 
fim, p. tu. S4. áfiami 

id., Cai?te:i5. e;© xamapf et^^m 
Ao ^<>«!(f»nc9tw<deilteefÃf»r; 






dSO 



EPOPÊÁS DA RAÇA MOSARABE 



mm 



AHRO 



«OHAirOB 



ESOftlPTOB QUE O CITA 



1578 
1578 
1578 



1580 

1580 

1580 
1580 
1580 
1580 
1580 
1580 

1580 
1580 
1581 

1581 



Retrahida está la Infanta 
^Vtagí do Marquez de Mantoa 
Ayer fuiste rey de Espanha 
boy no tlenes nti castillo . 

Una adarga até os peclios . 

Mirando la mar de Espafia . 

Vi benir pendon verinejo. . 

La flor de la Barberia . . 

Ricos aljubes vestidos. . . 

Caballeros de Alealá . . . 

A las armas Monriscote . . 
D'onde estás que te no veo 

que és de ti esperança mia . 

Y que nova me traedes . . 

Mira Nero da Tarpeia. . . 

Florestas héspanbolas . . 

Com ravia esta el rei David, 
e todos os mais tirados do 
Velho Testamento ou Novo 

Os Sete Infantes de Lara. 

Ogeri Dani Fabulae . . 

Pois que Madanella 

rememou ineu mal . . . ' 

Afora, afora Rodrigo . . 

Hincado está de rodillas . 



1595 
1597 
1602 

1602 

1616 

1^24|A.«:e8ftarr«içao de Lasaro - 

1624 

1624 

1624 

1624 
1624 
1624 
1624 



O juizo de Salomão . . 

Escarramâo 

Romance de Escar ramâo con 
vertido ao divino . . 

Coplas da Burra ... 

Con rabia está el rei David 

Romance do Moro Calaynos 

Romance de um desafio que 
se teve em^Paris entfeMon- 
tesinboi e 01íV6im>b. . . 



Baltfaaear Dias, Glosa, 
Id., ib, . 

Fr. Bernardo da Cruz, Chron, 
de D. Seboêtião, p. 308. 

Camões, Obras, t. i, p. 45. 
£d« de Juromenha. 

Id., ib. (Romance del-Rey 
d'Aragâo.) 

Id., tb: 

Id., ib, 

Id., ib- 

Id., ib, 

Id., ib, 

Id., ib, 
lá., ib. 
Id., ib. 

Prohibidas no Inãéx doeste 
anno, foi. 19, y. 



Id., ib., foi. 22. 
Soropita, ObraSf p. 109. 
Prolubido no Ind^ de 1597. 

Hòníàncero general. 
Ibiã. 

Miguel Leitão, MieeeUanea. 
iimÍM^ a» 1624* 
Ibid., M. 175. 
> 116. 

'» » 117. 
. 109. 
. 174. 
.174. 



174. 



CAPITULO VII 



aai 



▲MNO 



BOMAMOE 



KSCRlPTOlt QUE O CITA 



1 624 AbÍQâÀrr&.ez . . 
1624 Tenia una Viuda 
1624 La moça gallega 
1624 Un mercadm* 
1624 Una bclla casadíUa 
1624 Una villana . . 
1624 Agora que estoy de espaeio 
1624 Que te hize . . 
1624 Galanes (lô$) . 
1624 Ojde amantes . 
1624 Justo es que. . 
1624 Esperando . 
1624 Un gran Tahul . 
1624 En la antecâmara 
1624 Quando yo peno 
1624 Los que mis culpas 
1624 Ventanazo para mi. . 
1624 Y tuvo con cierta dona 
1624 Manchetes de mi pueblo 
1624 Gallardo passea . . 
1624 Ocupada en un papel . 
1624 En un prado coronado 
1624 Vida de mi vida . . 
1624,To soy. Martiguelo. . 
1624 Todo^estan mal . . 
1624 Laxonda doeste lugar. ^' 
1624 Kegalandose. . . . 
1624 Madrugastes vezina . 
1624 Hizo calor .... 
1624 Ovd sefiora .... 
1624 El arbore que ahorcó . 
1624 Satyra contra o amor. 

1624 Diez afios 

1624 Yo estoy 

1624 La beata rezadora . . 
1624 Estasse el Jurisprudente 
1624 Amor con inter cadencias 
1624 Hubo un cierto . . . 
1624 Memorias tristes . . 
1624 Entiendame quien . . 



Index de 1624, foi. 26. 
Und,, foi. 33. 

35. 

36Í coL 2. 

37. 

37. 

39. 

42. 

43. 

45. 

64. 

66. 

6a 

81. 

87. 

116. 

125. 

126. 

147. 

213. 

222. 

223. 

227. 

227. 

23L 

248. 

249. 

252. 

253. 

257. 

262. 

275. 

280. 

303. 

310. 

311. 

324. 

344. 

357. 

374. 



EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 



▲mro 


BOMÁVCB 


SBOBIFTOB QUB CITA 


1624 


A TOB otroB los qne 


. . Index de 1624^ foi. 392. 


1624 


Ya de mi dulce. . . 


, . . md., foi. 402. 


1624 


No viene a mi . . . 


. . > > 403. 


1624 


DnraiMiarte buen . , 


. . . > > 423. 


1624 


Tia san^e sola . . . 


... > 434. 


1624 


Caracolefl me pide . . 


. . . » » 441. 


1624 


Dezad que me alegre . 


. . . » .449. 


1624 


Que un galan . . . 


. . . . .450. 


1624 


Toca la chaeona 


. . . . .461. 


1624 


Las redes . . . 


. . . Suppl.^ foi. 32. 


1624 


Por veria eeria . . . 


. . . . . 211. 


1624 


Gallardo passea 


. . . . . 213. 


1624 


£1 disgraciado . . 


. . . . .228. 


1624 


De mi amor . . . 


. . . . » 347. 


1644 


Passeava-se Sylvana 


. . . Francisco Manoel de Mello, 
Fidalgo Aprendvt, 


1644 


A caçar v& el cabalki 


ro . . Id., »6., p. 97. 


1644 


A andorinha gloriosa 


. . . Id., ih. 


1644 


Gavião, gavião brancc 


) . . Id., tò., p. 247. 


1644 


Se is a E^rancia el ca 


ballero 




por Gaifeyros perguni 


»d. . Id., Obras metr,, t. n, p. 97. 


1644 


Mis amorosos cuidado 


B . . Id., Fid. Aprendi», p. 247. 


1644 


Mais louçãos que Dor 


Q Rey- 




naldos .... 


. Id., Ohroê meir,. d. 116. 


1644 


Forçado de Dragut 


. . ^ . Id., tò., t. n, p. 215. 



CAPITULO VIII âO 



Influencia do Romantismo sobre a comprebensão da 

Poesia popidar 

A Gasn de Bragança e a decadência da i(ae« moaambè.^^O Bô- 
mantiamo descobre o elemento nacional da poesia antiga. — 
Ftdta de critério em João Pedro Bibeiro. — Os trabalhos dos 
Cantos populares em Inglaterra despeitann Garrett, no 1)etn- 
po da emi^raç&o. — Percy, Rodd, Walter Scott e Èllis, pri- 
meiros iniciadores de Garrett. — Historia da colleccionação 
do Riímúneêiro de Garrett; — Pessoas que ootlaboratatn eom 
eHe. — Defeitos do seu systeraa de classificação — Falsa ideia 
histórica formada por Garrett sobre a origem dos cantos po- 
pulareu e epopéas nlK^ionaee. -^Gafvett dettirpa a rerdiade doa 
cantos do nosso povo, aperfeiçoando-ot, — Sua influencia de- 
sastrosa nos poetas modernos. — Espirito e systema do Can- 
tianéiro t Bomanúèiro geral púrtugwi. ^^ Os defeitos "prripa^ 
gados por Garrett prevaleceram na oollecçfto dos romances po- 
pulares do Algarve. — É indispensável para a comprehensfto 
da poesia de utii povo o conhecimento da sna etlinogniphia. 
— Estado moral do povo portugiiez. — Ausência de festaa 
nacionaes. — A santidade da Revolução, no paroxismo de uma 
nfKíionalidade. 

Depois que a casa de Sragança reasanmia em 1640 
o domínio de Portugvd, nunea mais se «cube da exk^ 
tencía da poesia popalar. AbramHsie todos osdratnas da 
vida bnrguessa, lodos os Hvms emfini; nenfanm allúde 
a um canto, a um pobr^ romance ! É porque realmente 
estava anmilado o porá; a sua tose dSo chegava aos de- 
graus do tfaronoy íiem era ouvida pelos que ditigiam o 
espirito do tempo. No fim do século xviil, dizia o Du- 
que de Chatelet na sua Viagem a Portugal^ qnf tiSo se 
podia imaginar um povo mais bem «fomeáticado pdo 



a» fiPOPÊÁS DA iRAÇA M06ABABE 

do respeito académico pava*o tomarem a tfi&nna «enii'- 
d* de «ma oMionalidade. Wolf au8peiideii'OS tKábalhoc 
pam sondar m questfto'; a piiU&ca;çSo dos SebdioB ^trene* 
zianoB rein ootafirmaino de ^ue Qora«ro nHQoa tiniia 
existido. Fnsderíco Sdilegel yeia darinleresie e vigor 
á tirgumentBiçSo pkiiofegica) « <£izer entrar zui corren* 
te das ideias fda Boropi^ a novaipoesba anti-^academiea. 

Daira^se aqiri um phenomentf maraivilhoso; ao passo 
que em França õ povo proclaimava os seoa direitos oqm 
a SeToloçfto, «ia ÂH«sianha os primeiros teabiilkos de 
Romantismo) 'consistiam em restituir «o ponro^nMiis *eako 
da antiguidade a epopSa dos Besui*feito8, que.andan^ em 
nome de uma individualidade >sem realidade. A$ eonr 
sequenmas d '«abe phenomeno fiaram bmlliantes : Primei- 
ramente Jaeob Grimm estudou o Romittioeiro aniâfpo da 
nossa 'PeniflBula:; ntf AUemanha LaeluBaone GbmllMr** 
me Orimm proenraaram as. origens do Niébtlmfígen^ (na 
Inglaten» in^esítigarasn^-se e idiacatíiiam-^se os oanèas 
gaéIiooBy .procuro!n«iie a realidade do Iwrdo Ossian ;.em 
EVamça oomeçou-^e a publioaçSo da«£popêas beroioas, 
das'3èí»^(wd» «eculo xiti <e xm, pela primeira Feadndi- 
oada8<em um fielatomo die Quinet; e em Itnlia inTttsti" 
garam^8e«S(ori^gensdaZMi»na (Í2ti7it«flíia antes de Dianto; 
e «a fciUiographia doeromanees de CSa^ralleria. Diaiuitse 
uma.renaBcençado genb popular em todos (0S)pata6S 
daEniippa. 

A Portugal nada ofa«fpau idWste^jnoidmenÉoI Esia- 
iiamoa«Mniio esAdonDontas ida iradiçSou Jxilo Bedi» Bi<» 
boâioi, fle^ado ipela •aua ^osvetídade d^rirnsatti ca, re)«í* 



<náPITUBO/Vl£L 837 

toa ai oíaeo reliquias* oonhmdas cUi Mrtig» potfna por- 
togadsa tporfáUa deprovcut da sma antiguidade. » lífto 
tfei ottiâou €túí procurav arganientoa^- Mm mesmo sablia 
OB novoa pvoedasoa eiriticotii nutrodnaidoa por Wolf. Pela 
fSOM; parte Antoiio Ribeiro dog Santos nte sonibei de- 
fetudiBr esses /ndkoB momiiDeatoe sem se servir nnieah 
mente dós glosctario» pbilologico»^ Come se podia co- 
nhecer a poesia popodar, se a mesma revoloçSo- de 
18ã0v e primeiro passo para a liberdade, qae demoe, 
M ensoiado' pelos jnriscoiisulto» e siagistrados? Coibio 
sa podi» cKunhiQcer o génio do pon^o^ se os reformadores 
dos* Foraes, de 1S22, já nSo compreliendiam. estes oo- 
digoa dâ indepeíideiieia da vaca moearabe ? (1) 

Apesar de tido^ entre o poYò estava ainda viva a 
sna poesia tradicional ; esqaecera-se das ipsimínnidadeB 
doa tfeus F^yrae»^ mas ainda se lembrava dos sjmbolee 
jorídieos ; os trabalhadores do campo e as velhas cria- 
das ãm servir ooMinnnrara a resar os rrananoes bisto- 
riccw. Garrett conta como foi embalado ao som doa ro- 
mances do Conde Ála^cos pela Sua ama Rosa de Lima 
e pria velha tia Brígida; (2) mas esta primeira imsocu- 
loção do geilio nacional ficou bastante tempo anulla- 
da pdà diree^ clássica do bellenista Joaquim Alves 
e de seu tio Frei Alexandre. Estamos chegados ao 
potÉío em que Almeida Garrett descobriu que em Por- 
tugal também eattstia uma poesia popular. Como se 



(1) Hist, do Direito Portuquez, p. 140. 

(2) Ht9L do Theatro PoiiMÍguay t. iv, p. 124. 



338 EP0PÊA8 DA BAÇA - M08ABABE 

deu «ste phenittieiíò moral j esteaoio reflexo do aen 
espirito? Facilmente. e de um. modo quasi material. 
Depois da queda da Consta tuiçSo,. em 1823; Almeida 
Garrett emigjrou paca Lofedrea^ chegando"a^ &m junho 
de 1824 ; em Inglaterra oa estttdiodí dos cantos nacionaes 
estavam no seu maior fervor^' O eiceraplo fez: tudo: 
cAntes que, éxoitado pdo que via e lia em Inglaterra 
e AUemánha, eu* começasse a ^ii|Nrehender n^^este sen- 
tido â rehabilitaçiio do. rom^ce nacianal, já Grimm, 
Rodd, Dépping, MuUere, outros Tarids tinham publi- 
cado importantes trabalhos sobre as tSo preciosas quam 
mal estimadas antigas collecçioes . caatelbanas.» (1) O 
trabalho! de Jacob Grimm era « Siiva de Romances 
vieJQ&, de. 1611 y aonde pela primeira vez; se reduziu o 
yerso: oefcosyllabo á .forma árabe lon^ alexandrina, de 
que mais tarde. Cbnde.tivou tanto partido; o traba- 
lho de Depping era a Cúlleetiim de romemces espaí^o- 
les recopilado» y arregladoe^^m 1817; o trabalho de 
Don Juan Muller era atnova edição .do Romancero dei 
Cid^ de António de Esóobar^ feitlsi em. 1829. Garrett 
ignoravat esta idireeçSo, e leu. de preferência as ooUeo- 
çSes inglezaa que lhe serviram de modello; eram entib 
vulgares em Londres os quatro volum:es da Old Bai- 
lada publicadas em 17 80. por Thomaz Evans, e os dois 
volumes das Popular JScu22a(2«^' publicados em 1806 
por sir Robert Jamieson; Garrett estudou as collecções 
de Ellis, de Percy e de Walter Scott. Elle próprio o 

(1) RomanceirOf t. i, p. xm. 



; CAPITUnavIII 339 

confessa : cE tomaiido para modello as estiniacLas ool- 
leoç5efí de Ellis e do Bispo Percy, e a das fronteiras 
da Eacossia por siir Walter Scott> comecei a dar maijs 
amplos limites á minha compilação, que ao principio 
intitulara Romanceiro portuguez,"» (1) 

A eollecçSU) de George Ellis datava já de 1811, ^ 
intitulava-se Specimetis of early English metrical ror 
mances, chiefiy written during the early pa/rt of the 
fourtheen century^ em trez volumes. De 1823 dataívam 
os quatro volumes do Bispo Perey, intitulados Beliquee 
of aricient English Poetfy, co^êisting of oldheroichoif 
lads, êong$, and other pieceê of our earliet poet». . A 
imitação que fez Qarrett doestes modellos levou -o &no^ 
taveis erros; primeiramente entendeu ;que a- poesia po^ 
pular só poderia servir de tbema a poemas cultos que 
dessem melhor forma ás trádiçdes nacionaes, e come" 
çou por contrafazer o romance peninsular na sua Ado^ 
zinda; a designaçSLo de bailada desnorteou-o na critl*- 
ca, nunca o deixou distinguir as Aramas dos mosara- 
bes do culti^mo provençal das bailadas imitadas na Inr 
glaterra e AUemanha; por ultimo faltava-lhe o. respeito 
que Jacob Grimm exige em quem consultar as fontes 
da tradição. N'este estado do espirito, com ideias mal 
definidas, ignorando, a constituisão orgânica, da raça 
portugueza, ignorando a unidade das tradições poéti- 
cas da edade media, ignorando o viver pittoresoo das 
nossas províncias, lançou mãos á obra. A intuição das 

(1) Ji{mafictiro,%. n, p. xmu Bd. .1861. 



M) EPOFÊAS DA BAÇA M08ABABE 

oouMs bcUos, qne eDepof80ÍAemaltograii,ii2oo pdde 
tslvar do abjvmo. Vejamos oomo elle prooede: £m 
1886 T<dtoa o fN)eta a Portagal; ficara-lhe na alma a 
impresBlo que recebam da importância qne os cantos 
do povo mereciam em Inglaterra; logo que chegou á 
pátria, começou a escrever a Adoztnda em Campolide, 
e veia terminal-a no Limoeiro. E!m mna Carta que es- 
creveu ao seu amigo Duarte Lessa, que ainda estava 
em Londres, c^nta-^lhe miudamente os processos que se- 
guiu, desde os primeiros dias de desterro: cReoorri á 
tradi^: estava eu «itfto fóra de Portugal; estimula- 
va-me a leitura dos muitos ensaios estrangeiros que 
n'esse género iam appareoendo todos os dias em Ligla- 
terra e França, mas principalmente na Âllemanha. Uma 
estimável e joven senhora de minha particular amisa- 
de« • . foi quem se incumbiu de me procurar em Porta- 
gal algumas copias de xacaras e lendas populares. De- 
pois de muitos trabalhos e indagaçSes de conferir e es- 
tudar, muita copia barbara que a grande custo se ar- 
rancou á ignorância e acanhamento de amas-seccas e 
lavadeiras e saloitis velhas, hoje principaes deposita- 
rias doesta archeología nacional • . . alguma cousa se pô- 
de obter, inlcMine e mutilada pela rudeza das mSos e 
memorias por onde passou; mas emfim, era alguma 
cousa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me 
davam e que tanto custou. Assim eonsegui umas quin- 
ze rhapsodias, ou mais propriamente, fragmentos de 
romances e xacaras que em geral são visivelmente do 
mesmo estylo, mas de conhecida differença em antigui- 



CAPITULO VIU 341 

dade, todavia remotíssima em todos. Comecei a arran- 
jar e a vestir alguns com gm engracei mais; epara lhe 
dar amostra do modo porque o fiz, adiante copio um 
dos mais curiosos (Bemal Francez) ainda que nSo dos 
menos estropiados e com eUe, o restaurado ou recomr 
posto por mim, o melhor que pude e que sube, sem alte- 
rar o fundo da historia, conservando quanto era pos- 
sivel, o tom e estylo de melancholia e sensibilidade que 
faz o principal e peculiar caracter doestas peçets. A 
minha primeira ideia foi fazer uma coUecção de roman- 
ces assim reconstruida e ornados com os infeites sin- 
gelos porém mais symetricos da moderna poesia român- 
tica com o titulo de Romanceiro portuguez,..T^ Em 
mna nota a esta formidanda revelação, Garrett nSo se 
peja de dizer: «É o pensamento que agora se reali- 
sa.D (1) Tudo isto se passara em quanto esteve emi- 
grado em Inglaterra até 1826 ; n'este anno regressou á 
pátria, e preso em 1827 pelo despotismo de Dom Mi- 
guel, nos cárceres do Limoeiro se lembrou dos cantos 
populares para distrair a sua solidão e terror. Submet- 
teu a este seu processo de aperfeiçoamento o romance 
popular da Sylvana c obtido em Lisboa pelo paciente 
zelo de uma menina da minha amísade, que ia escre- 
vendo no papel o que ora lhe cantava otsl lhe rezava 
uma criada velha da provincia do Minho, ha muito an- 
no aqui residente.) (2) Depois continua: «Assim pas- 



1) Bomanceiroy t. i, p. 15 a 17. 

2) IMd,, t. n, p. 99. 



.U4 EPOPÊAS DA RAÇA UOSABABE 

oompletM e moopq)!»!», aeereaceMei «A8Ím oa môus 
luweres eom uma» cincoe(Káa e tantae peças d'ellM aao- 
nymas .e verdadeiramente tradieioaaeAy 4'&Ua9 de aa- 
otor xMHihâcido, 1^ que nas ledv^Ses 4e suas obras ee m- 
«ontram^ taes como Bernardim Kibeiro, Gil Vic^e e 
Bodri^neB Lobo, mas que differíam das impreasas wn- 
flideraireimeate ia ^v^ezee, «luitM tító na liugoagem 4a 
oMnpQsiiçIo^ pois que <»2i -aoie»' em português, e mam- 
feBtamente anjigo e da reapectíva epoc^^ éos ^piaes jtó 
atèdam impresaas em eaêtelfu»nQ. Com este auxilio cor- 
rigi d^ ttOKTo noiiios dos exemplares, que já tinha, e 
completei j^guns fiiagmentoo que j^ desesperava de po 
iler yir imnoa a reetoanar.t (1) £m 1932 embarcou 
âftmrtt para a jUía Tereeíra, d'onde bavi^ de partir s 
expediçSo doe «ete mil e quiobentos bravos; e ali em 
campanbia de «umas maidas velhas de sua mãe e uma 
mulata bi»â5Íleíra» aoereseeutottcopíosameateoaeuiit)- 
mancúro, Oarrett oSo suspeitou a riqueza da rhapso- 
día nacíoual do ]»^ipelago açoriano. Tendo recebido 
'virdam tontos pomences da «^bonina de Lisboa em 1827 ; 
ApfOf^etomáo eíncoeuta e tantas fcrovas dos manuaoriptos 
do Oavalheiív de Oliveira em Inglaterra em 1829, oom 
o dulditaiaaieato copioso das eriadas de sua mSe na Hha 
Teneeira em 18329 devia o seu Romanceiro constar já 
ia esse tempo de perto de eem reliquias tradicionaes. 
Mas tudo isto ora pbantastico; Garrett tinha o máo 
sestro de gabarnse de beUei^a, de juvenilidadei^ de pre- 

(1) jRomaftceiro^ p. xi. 



cocícl«d!6t VeJAm0« ft prava do bosso ascertow Depoktf 
de ba^rer trim&phado a cêrteo âo« Povio e eou ellò & 
causa lílieral, Garrett recebea da Cha. Terceira em- 
1834, ft 8U» edttecçtto' ão Romxmcéiroy que àehtára em 
poder è& dtfa mSe. D» ISdé a 1842 dliz elle ^ue cocl^ 
títtu^ôu a emri^eeel-O'; «E n'^tea ouéo anãos tem-se lo»* 
cuplôtado confiiddrareiniente e&m as edmtribniçSe» de 
muitds anrigofl e b>0n^volente8^ a aIg»mB doa quaes nem 
posso^ ter o gO0lo> de agradecer aqui o £avor recebidro»^ 
porque ineíladoB pela leitura, da Aãomi^det, xae rém^ 
teram anonymente pelo correio o fimeto de moA colhieí'*' 
tas.» (I) Do- Miabo^ recebeu Gbaiirett versfies oraes; o 
arcade-Castilho* offõ^eeeu-lhe tambete os seu» rei^gos 
n^esta eeáraf Mn Picboii; cônsul francéa no Porto éon- 
fioit4he a sua collecçib' de sacavas pertuguezas íermar 
da entre 1832 e 183d; o Doutov Esaygdio Ce^t&con- 
fiou-lbe eguahnente ca soa larga colleeçâo^ priuci]^- 
mente feita nas duas Beiras ; o antigo bibtiiKtkeeari» de 
Svota Joaquim Helioâoro da Ounba Bivara^ a à^ Bíaga 
Rodrigues de Abreu^ o* Doutor J. Elioy Nunes Cardoso, 
todofif estes: cavalheiros o a|'^daram eom < copias» laberio- 
samcmte escriptas sob e didar dx^s rústicos depositário» 
das nossas^ IradiçtHes populares, y (2) 

Hengfulaeno^ e ainda por ultimo o* »nr. Jciâo Teixei- 
ra Soares o vieram ajudar n^esta vastissima coUeogSé^ 
Devia custar a peoulícr dxy t&O' elaborado ítcmtmçêiro. 



s 



1) Eomccnceiro, p. xix. 
í&., 1. 1, f. tti. 



346 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

de centenas de trovas ; den-o Garrett á luz publica, 
e só constava de trinta e dois romances anonymos 
e cinco com forma litteraria, de auctores conhecidos. 
Podia ser que não chegasse a redigir, ageitar ou aper- 
feiçoar os que lhe restavam, mas é certo que ao tem- 
po da sua morte em 1854, não se lhe acharam mais 
manuscriptos d'este género. A prova de que Garrett 
nSo tinha este pecúlio, confirma-se pela falta de coor- 
denação que ha nos três volumes publicados, que se 
iam formando á medida que obtinha alguns romances. 
Eis o plano que seguia: 

cLrvRO I — Romances da renascença^ imitares, 
reconstmcçdes e estudos sobre o antigo.-» 

Este livro nSo pertence á poesia popular, é um ar- 
remedo d'ella, e a boa critica manda que se expunja. 

«LiVBO 11 — Romances cavalheirescos antigos de 
aventuras e que não tem referenjcia á historia ou não 
a tem conhecida ^-^ 

Aqui a tradição anonyma está confundida, porque 
os romances são architectados pelo coUector com va- 
riantes de todas as províncias, não se conhece o cara- 
cter local ; não se conhecem os cjclos épicos da edade 
media, e misturam-se com os romances de forma litte- 
raria de Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e Balthazar 
Dias. 

cLr^RO III — Lendas e Prophedas.i^ 

Não se encontroa entre os papeis de Garrett. 

€ Livro rv — Romances históricos compostos sobre 
factos ou mythos da Historia portugueza e de outras.» 



CAPITULO VIII 347 

Também se nSo encontrou no espolio de Garrett. 
 nfto serem as relíquias poéticas condemnadas por 
Jo&o Pedro Ribeiro, os fragmentos do poema da Ba^ 
tcdka do Solado, o romance ao terremoto de Villa- 
Franca, e o Romance da morte de Dom Sebastião, es- 
te livro só podia ser da composição do poeta. 

cLiVBO V — Romances vários ^ comprehendendo to- 
dos os que não são épicos ou narrativos^ » 

Depois de publicados os romances de Bernardim 
Ribeiro, esta parte só podia ser formada á custa de 
D. Francisco Manoel e Rodrigues Lobo. G-arrett nem 
chegou a extractal-os. 

Depois da monstruosidade d'esta classificação dos 
cantos populares, Garrett atreve-se a condemnar o 
systema de D. Agustin Duran, dizendo que é falso « e 
o obriga a subdivisões tão minuciosas que por muitas 
demais, confundem em logar de elucidarem.» (1) 

Olhando nós para a classificação creada por Dom 
Agustin Duran, vêmbs como na nomenclatura chimi- 
ca ; o logar que o romance occupa, indica a sua ori- 
gem/ a sua época, o seu caracter e as suas transfor- 
mações. Garrett deveria dizer, que rejeitava a classi- 
ficação de Duran, por se não poder applicar a 37 ro- 
mances o systema que abrangia 2:000 ! Reproduzimos 
aqui esse vasto plano com que Duran abrangeu as in- 
finitas epopêas peninsulares : 



(1) J?om., t. II, p. xLiv. 



34§ EPOPÊAS DA BAÇA MOSABABE 

(l.^-^Bomances velhos, directamente popukreS; 
on que se presumem menos alterados em sua actua) 
redacçSo. (OhjectvooB e narrativos.} 

2.^ — Romances vdhos de procedência tradicional, 
em que existe algum reflexo de orienkalismo. fOhfé- 
ctivos e nm ianio epico4yrico8.J 

3.^ -^Romances velhos jogralescos de época tradi- 
cional. (Objectivos.) 

4,0 — Romance» antigos popularisados e de imita- 
ifix) artificial. (Objectivos com iniciaqào de subjectivas,) 

5.® — Romances antigos popularisados. Época tra- 
dicional. São sua base as primeiras três classes, mas 
já reformados um tanto artisticamente. (Subjectivos 
com vestiffios de objectivos.) 

6.^ -^Romances novos e vulgares^ que ainda con- 
servam alguns vestigios dos antigos, e sSo para a sua 
época mais civilisada, o que foram os velhos para a 
sua, isto é, para o vulgo. (Objectivos e subjectivos si- 
rmãta/neamenie*) 

7.® — Romances antigos e artisticos de trovadores 
do século XV e primeiros annos do século xvi. (Svhje- 
ctivos e lyricos.) 

8.^ — Romances artisticos e novos, forecursores ou 
contemporâneos da eschola de Lope de Vega, e d'ella 
mesma* (O seu elemento essencial i suijetivo e lyrico, 
apesar da peHen^ a objectivos.)* 

Esta classificação é histórica e verdadeira, mas 
nSlo pôde ser applicada ao pequeno Romanceiro portu- 
guez. Garrett só conseguiu preencher a primeira e a 



CAPITULO YHI 319" 

oit&ra classe. £m*-Uie ímpossivel ter um dyatema ver-i 
daãeiro de ealIeccionaçSo; porque elle não sabia cara* 
cterisar as fS&rmas da poesia popular^ com sinceridade 
o confessa: ^trovas e romances populares^ oDoearas e 
soláosy designações qne, sduceramente o oonSesso, nSo 
sei ainda quadrar bem nas diversas espeeies e varie- 
dades em que se divide o género. » 

No pequeno estado sobre o romance de ReginaJdo 
entra mais detidamente nas definições doestas fiSrmas : 
cAcliam-se, é verdade, estas variadas designaçSés: ro- 
mance ou rimanoe, xacara, Mláa^ que paireeem indicar 
espécies e ainda as que pareeem ser mais geoeneas; de 
trova, cantiga^ cantar^ canção; mas o que ellas sem- 
pre designem nâo é £scil determinal-o com segurança. 
Mais modernas cuido que aão as d^iofoinaçSes de lòa^ 
barca, tenção, chacota; e também estas não estão bem 
apuradas em suas distineções caracteristicoa*» (1) Em 
seguida passa a definir o que era romance. Oomo o po- 
derá definir quem não tiver conhedmento da Arama pe- 
ninsular, e da Cantilena germaiíica e das Oestas fran- 
cesas? N^este ponto Garrett dá phrases por ideias. De-* 
finindo a scácara diz, que é toda dramática i Bem seva 
que ignorou a Xacarandina, cuja linguagem de giria 
veiu a formar as coplas de burlas do século xvii; Ghur- 
rett se tivesse lido Quevedo e os seus oommentadotet 
não formaria esse género que não tem realidade. A 
forma do soláo, que apenas define com a citação de 

(1) iHi., t. n,p. 121. 



350 EPOPÊAS DA BAÇA M08ARABE 

Bernardim Ribeiro tirada do Diceianario de Moraea, e 
de Sá de Miranda, tirada do Vocalndario de Blateau, 
também nSo foi comprehendida; esta designação en- 
contra*Be repetidas vezes nos poetas provençaes, e o 
trovador Bonifácio Calvo fala em Soláos a Affonso x. 
Isto basta para provar que nâo era de usa popular. Á 
lôa também não foi comprehendida por Garrett; ella 
tem duas formas, uma lyríca derivada dos lai bretões 
ou dos liod germânicos, e outra dramática, derivada 
dos ludus, que o povo representava nas festas hieráti- 
cas da edade media. A Chacota^ segundo G-arrett cera 
uma cantiga de riso e brincar, mas que mordia nos vi- 
cies, e nos ridiculos dos homens e dos tempos; uma es- 
pécie de 8ÍTvente...ii (1) Mas quem lhe disse isto? Co- 
mo elle confunde a poesia popular com o artificio dos 
trovadores provençaes ! A Chacota é um vestígio que 
no século xvi ainda restava das Checones, que da Itá- 
lia se derramavam por França, Hespanha e Portugal. 
Garrett ouvia falar nas descobertas de Raynouard, e 
queria mostrar-se ao par da sciencia; é por isso que 
elle adoptava como populares as formas de Canção, 
Barca, Tenção e Sirvente, que define como Deos quer, 
mas que nSio pertencem ao caso sujeito. Vale-lhe pelo 
menos confessar que «as observações são imperfeitas e 
quasi todos estes cálculos fundados em hypotheses va- 
gas.» (2) 



ri) Ibidem^ p. 127. 
[2) Ibidem, p. 128. 



J 



CAPITULO VIII 5il 

As ideias históricas sobre a poesia popular portu- 
gueza também andavam no espirito de Garrett em es- 
tado de nimbo suspenso ; recolheu o que pôde das dis- 
sertações descoloridas de Walter Scott e deslocou o 
que Raynouard applicava á lingua d'Oc, tomando um 
tom. de superioridade com enfatuados parenthesis e com 
digressões humoristicas. Fala das epopêas carlingia- 
nas^ do cyclo da Tavola Bedonda^ e eis que nos lança 
a contas com os trovadores subjectivos assim de repen- 
te! Emfim o estado cahotico das suas idei^^s, se se po- 
dem chamar ideias, está nos períodos em que divide a 
poesia popular portugueza. Garrett assignala-lhe sete 
épocas : 

Na primeira, comprehendeu as cinco reliquias co- 
nhecidas pelo estigma de João Pedro Ribeiro. 

Na segunda época, filia o Cancioneiro do Collegio 
dos Nobres! o Cancioneiro de Dom Diniz, e algumas 
coplas do Cancioneiro de Resende. 

A terceira época é assignalada por elle no tempo 
de Dom Fernando, com a moda da Tavola Redonda, 
com versos de Dona Philippa, de Dom Duarte; e 
egualmente com o género germânico do reinado de D. 
Affonso V e D. João ii! Ha aqui uma mescla intrinca- 
vel, e sobretudo nSo se pôde saber o que era para elle 
o género germânico. 

Á quarta época chama-lhe normando-hyzantina! 
Aberta com Bernardim Ribeiro, Gil Vicente, Francis- 
co de Moraes e Garcia dé Resende. NSo é possivel sa- 
ber o que isto significa nem com relação ao romance 



3d9f EPOPÊAS Dá baça IKOSABABB 

popurlar fiem com rekçSo A litten4ttFfli. Õ meUior ain- 
da, é que termma esta época com (v fim do seeoto X¥iy. 
coiiyprefaendendo» 8á de Miranda,. FerreÍFa e CamSeal. 

A quinta époea é caracterisad» pela usurpa^b he»* 
patíhola, e pelo gosto mourisco; os escriptores são Ih. 
Francisco Maaioel de Mello e F^aneiseo> Rodrigaea Lo» 
bo ; a poesia popular está reduai^a ás proiphecia» do 
Bandarra. Â sestta época é o triump&o eiassíco da Ar- 
cádia e a septima a introducçSlo do Romantismo em 
1835 e 1896 com a sua Dona Bran4» e CanOê^ (1) 
Fa2 pena rêr aquelle espiritO' sem educaçto meutifica 
ter pertençSé» a erudito! eomo' elle cònfiiâdie as cirei^ 
ç8es anonymas com os modelos artisticos nas menenas 
épocas. <íy peor é que se ficou n'Í9fo, e pcuaa»eu-se dian- 
te de tanta concisão e novidade. (2) C> correctivo does- 
tas phantaEtias de G^arrett sâo os factos positiro» do fim 
ãò capitulo ?1 doesta o%ra. 

A ignorância da historia fSl-o tratar m romaaees 
popufares sem respeito. Raro será o romance quec nSo 
esteja retocado. No romance da Betta Infanta ^ iizt 
«No corrigir do texto, segui como faço quasi sempt^e^ 
a lição da Beira Bai^a, que é a mais segura,» Do Can- 
de Ycmo, di2r: <E geralmente sabido» por todo' o reina^. 



(1) Bom., t. n, p. zxz a XLn. 



snr. V«iga,. no Botiuumeiro da Álgarot^ copia em to- 
da a SQft extensão^ estas épocas, de p. zvn á xxyn, rematando 
nfanan^ents : < Acpii àca portanto deS6trrd.tido o grandfe qtí^ 
ém doesta Uttevatara, qae mio Valdoasi ste.' ousasá cetfiCMTV. . » 
Effte snr. toma o estado do seu espirito pelo limite da iatelli- 
gencia humana. 



OAPKTOXiO VHI a» 

■mito popular, e a« 'VArittates mm^tOBW^» Qpimí tadas 
«s <qae valiam a peaa as Í7»c&rporei "oo Ugcto., porque 
algumas eram complemievitareB ide ouirAs, ^ muita« ac- 
clanavam o sentido e ataFam o fio da nadrcativa» » O 
jroaftiaee do Conde de Állemanha também foi ai3$im 
ageitado: c<}oUac)OQfiodo umas oópías com outras e 
«om a liçSo castelliaiia «eigundo D^piog a Agustiji 
Duran, apurei o qu9 me parece o texto mais legitimo 
e verosimíl.» No romanee de Donik AUisw» chegou a 
m«tier versos seios: «i)oin Aleixo é dos romacoes po- 
puliocrefl o que me (^egou mais «eorrupto, interpolado e 
do que menos lições provineiaes pude obter; aó uus 
fragmentos da Beira Alta e eutros de Lisboa* Se nSo 
i&ra a eopia do Cwoalheiro dt Olvimra^ de que me iiAo 
valho flffliSo em extnemos por que lhe dou «nenos fé que 
ás tradições oraes do povo, tínha^me eido imporóviel 
iBstituil-o. Ainda assim, algumas palavras foram por 
mim conjectumlmeato substituídas. Taes aSo na copla 
que diz: 

Ou 06 és ahna que itnda em penas, 
Tt farei encommendar. • 

O romance de BemaUF7\a7Kez paesoa por uma «la- 
boração mais artística: «Vou pôr aqui, restituído e 
apurado por longo trabalho de meditaçSo e compai».- 
ção de muitos exemplares^ o texto original do Bemol 
FrmkeeZy segando o conservou essa tradição. -^ A que 
dou agora, além de revista pelos mcmaseriptos da Ca- 



354 £POPÊâS da RAÇA MOSARABE 

valheiro ãe OKveira, foi aperfeiçoada ainda pela ool- 
laçSlo com as diversas copias das províncias do norte, 
especialmente da Beira Baixa, que sSLo, em meu en- 
tender, as xnais seguras.» O Reginaldo nSLo escapou ao 
embellezamento : «SSLo infinitas e mui disparatadas as 
variantes que desprezei na maior parte ax> emendar 
conjecturalmente o romance.i^ A Dona Aaeenda foi re- 
composta pelas duas versSes da Estremadura e Alem- 
tejo. O Romance de Dom Qaifeiroe apparece tão ex- 
tenso, que se duvida logo que o povo o podesse repetir 
de memoria; este canto foi formado, como Garrett o 
confessa, de uma lição manuscripta do Cavalheiro de 
Oliveira, e de varias cópias de Traz-os-Montes, sup- 
prindo a narrativa com a versão castelhana do Roman- 
cero de Duran: «Tinha-o encontrado na coUecçSo ma- 
nuscripta do Cavalheiro de Oliveira... o romance é 
corrente na tradição de Traz-os-Montes. Tenho em mi- 
nha mão cópias authenticas do cantar do povo. . . Apu- 
rei por todas ellas o texto como aqui dou, recorrendo, 
nas frequentes difficuldades e duvidas em que me achei, 
á lição castelhana tal como a dá Duran...» 

O romance da Romeira é também aperfeiçoado: 
cNão me consta que ande por mais terras nossas do 
que pelas do Minho e Traz-os-Montes. Só pelas duas 
versões doestas províncias o tive de apurar. p Do ro- 
mance da AlbaninJia, de Traz-os-Montes, diz Garrett: 
«Três differentes, mas pouco differentes versões d'ali 
me vieram; e, aproveitando de todas se restituiu o tex- 
to como aqui vae.» Com relação ao romance da Pere- 



CAPITULO VIII 365 

grina: «A HçSo que principalmente segui veiu-me do 
Porto, e é a mais completa. Das outras provincias só 
obtive fragmentos muito interpolados. Com tudo apro- 
veitei bastante d'elles para restituir o texto e dar nexo 
e clareza á narrativa.» Do romance da Morena j diz : 
«é vulgar na Extremadura e Beira e nas duas provin- 
cias do Alemtejo. Seguiu-se principalmente o exem- 
plar vindo de Castello Branco, que era o maÍ9 amplo ; 
mas aproveitou-se de outras liçSes provinciaes o que 
foi necessário para lhe dar complemento.» E accres- 
centa: «Não foi preciso, como n'outros casos muitas 
vezes é, cozer a telia rasgada ou avivar o desenho su- 
mido...» O romance do Cegador foi formado pela fusão 
das versões da Beira e Traz os Montes; o de Dona 
Guiomar^ por duas versões do Alemtejo e Extremadu- 
ra. O Dom Duardos^ tirado da lição manuscripta do 
Cavalheiro de Oliveira, é sem duvida uma traducção 
a gosto de Garrett. O romance o Cordão de Ouro é 
formado de três versões de Traz os Montes: «cd^ellas 
se apurou o presente texto. i> Em fim diante doestes fa- 
ctos se vê que o Romanceiro de Garrett nâo merece fé, 
nem pôde servir para os estudos da ipoesia de uma ra- 
ça. Aconteceu-lhe muitas vezes conhecer*Be embaraça- 
do com as suas reconstrucçSes, como no romance do 
Conde Nillo e Reginaldo, em que agrupava acções 
d'outros romances. Este seu trabalho foi feito para con- 
descender com a frivolidade de uma sociedade que 
não quer pensar; faz lembrar um canteiro de buxo re- 
cortado, ou uma cascata de jardim comparados com 



356 EPOPÊAS 3>A BÁíQA MOSARABE 

uma brenha espessa ou uma estrondosa catadupa. A 
poesia popular nlo está ali com toda a sua verdade. A 
peor consequência d'e8te erro de Garrett, foi a moda 
da poesia do povo, nSo consultada nas fontes vitas da 
tradiçlk) oral, mas na imaginação estéril de desespera- 
dos metrificadores. Ignaeio Pizarro de Moraes Sar- 
mento publicou logo um Romanceiro que elle próprio 
compSz, reduzindo a verso octosjUabo algumas len- 
das históricas. Como poderia animar o passado quem 
o nSo con^rehendia ? Seguiu''se a este o amaneirado 
José Freire de Serpa, que se dava como creador dos 
Soláot, versos de redondilha, com logares communs 
dos tempos da cavalleria andante, moldados em um 
typo plangítivo e donairoso, sem mais nada. Segui- 
ram*se os dramas ultra-romantieos de Mendes Leal, 
que começavam com a melopêa de rom^moes focados ; 
todos os jonnaes litterarios regorgitttvam eoin roman- 
ces de juras « emprasamentos, de espectros que se re- 
volviam nas campas, assignados por Latino Coelho, 
António de Serpa, JoSo de Lemos, Passos, e outros 
tantOB, uns já mortos, outros cavilando n^esta noite de 
Walpurgis da pqlitica portugueza. 

EJsqueoeu^se a legitima poesia popular; fc»ram após 
as bailadas tristes, que se cantavam nos theatros, nas 
salas e nas serenadas. Na Europa proseguiam os es- 
tudos sobre os cantos naeíonaes; procuraram^-se as c(d- 
lecçSes portugnezas e só a>ppareceu o livro de Garrett, 
citado por Du Puj^viiâigre e Amador de Los fijos. Es- 
tadaamn por elle os nossos cantos, e resultou d^aqui o 



OAPITULO VIII W7 

espalharam uma falsidade histórica motiyada por Gar^ 
rett« Diz Da Puymaigre, que os romances portngue^ 
zes sBo mais bem metrificados e dramatisados do que 
os do Bomanceiro hespanhol, circumstanoia que o levou 
a crer serem os nossos resultado de uma segunda ela- 
boração mais moderna. E esta a ideia que hoje reina 
na Europa; teve culpa d'isto Garrett com os seus aper^ 
feiçoamentos. Todos os nossos esforços, desde que em» 
prebendemos uma nova colheita de cantos populares 
ou nacionaeSy tem sido o provar que o povo portugtiezy 
o mosarabey trabalhou simultaneamente com o hespa- 
nbol no Romanceiro peninsular. Eis o espirito e sjste- 
ma d'essa obra : 

O Cancioneiro popular colHgido da tradi^^ oral, 
foi a primeira tentativa d'este género em Portugal; as 
cantigas soltas ainda nXo haviain sido reunidas. Condi- 
çSes espeoiaes facilitaram este trabalho; na Universi^ 
dade encontra-se a mocidade de todas as províncias do 
reino. Quando ella deixa o ninho paterno para vir cur- 
tir saudades no banco das escholas, as recordaçSes da 
infância apparecem então longinquas mas cada vez mais 
risonhas; lembram as festas domesticas, os cantos da 
lareira, as cantigas dos trabalhadores. O Cancioneiro 
popidar está dividido em seis partes : 

I. Relíquias da Poesia portugueza dos séculos XH 
a XVI, !N'esta secção se incluem os antigos monumen- 
tos do Romance de Cava, das canções do Figueiral, de 
Egas Moniz, e Traga-Mouros, que primeiro colherain os 
eacríptores do século xvr por mera curiosidade. Vem o 



358 EPOPÊâS da raça MOSABABE 

principio de um Cancioneiro do Condestavel, o typo mais 
popular da nossa historia, que os moradores de Restei- 
lo, de Sacavém e dos arredores de Lisboa iam insen- 
sivelmente formando. As antigas poesias do Dr. João 
Claro, conservadas nos códices de Alcobaça, e tidas 
hoje por simples traducç5es das glosas de HernSL Perez 
de Ghizman do Cancionero generais, também se acham 
ali para provar o conhecimento da poesia hespanhola 
do século XV em Portugal. 

n. Silva de cantigas soltas. SSo os cantos com que 
o povo se distrae nas fadigas do dia, e no remanso da 
noite; sSo o que ha de mais bello na linguagem do 
amor. Para escolher esse limitado numero colhemos 
para cima de quatro mil cantigas; estSo todas dispos- 
tas por uma ordem psychologica da paixão que descre- 
vem. N^esta parte imitámos o Carícionero do^ snr. D. 
Emilio Lafiiente y Alcântara, sábio coUector £Eillecido 
haverá três annos. Muitas doestas cantigas sSo com- 
muns aos dois povos, e tem o espirito dos disticos árabes. 

III. Fados e canções da rua. As antigas xácaras 
do século XVII, popularisadas por Quevedo, foram co- 
nhecidas em Portugal; o Fado, como elle se canta ain- 
da hoje, e pela natureza dos assumptos, mostra evi- 
dentemente que é a xácara moderna, transformação 
das que existiram ailteriores a Quevedo. As cançòes 
demandam um estylo mais culto, e por isso só se en- 
contram imperfeitas e em pequeno numero. 

IV. Fastos do Anno e Orares, As cantigas das Ja- 
neiras, dos Reis, de Maio, de S. João, de Santo Anto- 



, CAPITULO VIII 959 

nio, do Natal bSo por assim dizer a parte mais intima 
da vida do povo; no Minho^ Porto, Penafiel, Algarve 
e Coimbra recolhemos os preciosos documentos doesse 
viver primitivo, que encerram as verdadeiras origens 
da nossa poesia. 

y. Prophecias nacionaes. Foram ellas que alenta^ 
ram este povo duratite o cativeiro de Castella, e que o 
animaram na sua decadência. As que apresentamos 
foram recolhidas de manuscriptos antigos, mais como 
typo do género do que como cousa popular. Na Torre 
de Tombo existe um grosso volume que contem a.qua-^ 
si totalidade d^ellas. Seria talvez d'ali que Garrett pre- 
tendia tirar o seu terceiro livro do Bomanceiro, que 
nflo chegou a publicar ? 

VI. Aphorismds poéticos da lavoura. SSo infinitos 
os thesouros da sabedoria popular conservados nos 
seus anexins. EUes ainda têm a aliteração gothica. En- 
tre nós recolheram-se sem a forma poética; em Hespa- 
nha, já no século xv haviam sido recolhidos alguns pcT 
lo Marquez de Santillana; entre nós tentou este traba* 
lho o curioso padre António Delicado, e d'elle se servitf 
bastante o padre Raphael Bluteau no Vocabulário por* 
tuguez para estabelecer a vernaculidade das suas locu-^- 
çSes. Este ramo precisa um trabalho especial. 

Romanceiro geral. — Encetamos a coUeccionaçSo 
possuídos de uma convicçHo proíunda na verdade da 
poesia popular; os idiotismos, formas grammaticaes 
primitivas, palavras de giria, laconismo de expressão, 
phrases que se referiam a superstições e costumes ob- 



m £POPÊAÍ t>A BJJÇA !lt08ABABB 

HtiétildoÉí^ tudo oonserrálÀot ttftBiia.mte^dadé veinb- 
tÁúâikJ Ás veses o noni^ dado pelo povo t um romaii- 
éé lembrava a origem de q^ie elle já estava bem a&s- 
tado^ oemo noa àoooedea com o do Chnde Ni9Ut^ Acoeí- 
támos todos os romances que versavam sobre o mesmo 
atídUmpto; por isso vimos o génio poetioo de dada pro- 
vííièí^ eomò bordava a tradxçXo. A fieira Baixa^ cen^ 
fro dás pov^çOes mú^areibet^ e adnde ostrabaifaioB se* 
dMtariós sSo em grande escala^ ai oa romances acham-' 
se em maior numero e na sua pureza. Só os excedem 
em rudeaa primitiva os cantos das ilhas dos Açores, 
aèndé oa rómanoes estfto no mesmo estado em que 
afiavam' no seoulò xv. D^esses romances HÍmilhan- 
tes não os agrupávamos em um aó^ como. fez (j^arrett; 
nSò tínhamos coragem de bolir na Arca Saáta da tradi- 
çBo, n^m tSo pouco fizemos caso de meras variantes 
do Tersow Adoptámod a seguinte linguagem teohnolo- 
gíi^y que nos serviu para a melhor disposição doa ro- 
m^nees, chamando Fst^sâo^ ao romance mais extenso 
colhido da tradição oral ; Variceuté ao romance mais 
bréve e modãmo Sobre o mesmo assumpto, em que 
havia alguma circumetanoia nova no draima; LiijcU), ao 
romance já publicado, ou por* Gil Vicente, ou pelo ca- 
valheiro de Oliveira, òu. por outro qualquer colieotor. 
As veáes a linguagem do ronmnce ena confiísa, 
porqlie as peripécias «dramáticas se amontoavam, e ap« 
paoreoiam a £alaii novos interlooutoresE não annuneia^ 
dos no dialogo. Seguindo o systema de não alterar 
eds' nada o romaoee, assea^táraos separar com um espaço 



CAPITULO VIII m 

t 

mx blraiico toda» «s par£e daaorífNkivAs, que p^ ailsim 
dÍ8er eram o logar da' Bcena ou és rttbHeas posAerM-" 
das casualmente. Nos diálogos entre dois personagens^ 
distitiguimoB o primeiro que fida^a com o aignal -^-, o 
segundo com o signal < ou vice-versa, owuiervando po- 
rem a regttUricUdd- na notftçSa ; intervincb maia ty- 
pos Íamos empregando ^^-^j^ ^i-^, e q». Ecrtas mmp)490 
cbnviMftçBes •tapalham uma Iojb ímmenaa na intelligeticâft 
do dialogo, attribuindo as falas a quem a ac^ indiel^ir 
liliwliiiai romanoe qne recebemos traria uma.minima 
distincçSo no dialogo; d'a( a diffiauldade de entmi 
delno, 6 o aborneeimeiubo da obscuridade* Depois )d0 
amontoarmos grande num^fo do romances, e de filSar- 
lhes «s Auas ioersíf^ o variantes j &ltA¥» 4indâ o trabsr 
lho da clasnjieação; eneontraupp^nos eom pâq^uenaa di* 
^wrgoacias oom os ooUoeÉores do Folhd C»nçimera dé 
Romances de Ánvers, de 1550, e com Jaeob Ghmni»^ 
na Siiva de R&mcuitcee viejoê, 

O celebre Càfneionâfv d« Bamance$^ derivado im\ 
mediatamente da .fonte oral, esti dividido em três alaif- 



i: 



l/-^B0mAnees tíelbos et priMtÍ¥0k9^ o\i le¥oi^enti9 
modificada», eujo as&umpto é o ^yclo de Qarlos Hagno^ 

2.*^~Cií>ntin4a o cycb c»rli»gifW), com íwsw»ptfli9 
da HisítociA. de Heapanba o de Portugal e oõtroi fmfmi 
e um ro0iane0 aràsti0O4 

84*r*^MÍ0ceUa«e4i da^ dnaa clas9oa aot^on^a leom 
HMMíieos Aonríseos ida frAnteíra^ aiMtoríioB,. dontcíxxaM 
o {««íIitíoqs» . 



i 



362 EPOPÊAS DA RAÇA MOSARABE 

 Silva de Romances viejos, formada por Jacob 
Qrimm, que Duran chama excellente, está dividida em 
duas secçScs : 

1/ Romances de Carlos Magno e dos Doze Pares. 
' 2.* Romances yarios. 

No trabalho de classificação do Romanceiro gercd 
pofiuguez^ favoreceu-nos esta direcção, e sobre tudo os 
modernos trabalhos sobre as epopêas gallo-fi:tinkas. Di- 
vidimol-o: 

I —Flor dos romances anonymos do Ctclo Cak- 
LiNOUNO E DA Tavola Redokda: Âcham-se os ro- 
mances confundidos, por ser impossivel discriminar o 
cyclo poético, a não ser pelo meio artificial de julgar- 
mos bretão o romance em que predomina o maravilho- 
so, e carolino aquelle em que ha audácia cavalheirosa. 
Mas esta forçada confusão acha*se esclarecida na dis- 
posição seguinte: 

1/ Romances communs aos povos do Meio Dia da 
Europa. — Os estudos do cavalheiro Nigra sobre a poe- 
sia popular do Piemonte, demonstraram o grande prin- 
cipio da unidade dos romances que se cantam na Ita- 
lia^ França, Hespanha, Portugal e Grécia moderna, 
como do tempo das Cruzadas, e diffluindo de um cen- 
tro eommum — a Provença. Para todos os romances que 
juntamos nWa classe, encontramos sempre paradi- 
gmas nos cantos populares da Itália, de França ou 
da tradição moderna. Alguns até nomeam a Terra San- 
eta, como o da BeUa Infanta, ou as terras de além- 
mar, como o da Noiva roviada; outros, como o roman- 



CAPITULO VIU 363 

ce da Encantada, mostram a sua origem franceza, como 
o aventou primeiro Wolf. Os romances doesta classe 
sSo poucos, e nenhum d^elles tem referencia particular 
a algum facto histórico ; contam simplesmente aventu- 
ras fáceis de naturalisar, e por isso andam espalhados 
na tradição do Meio Dia. 

2/ Romances de supposta origem portugvsza. Ou- 
tra vez podiamos debater a duvida dos espirites me- 
ticulosos que negam a originalidade das tradiçSes épicas 
do nosso povo. Já o fizemos no estudo sobre as Trans- 
formações do romance popular. Nos povos neo-latinos 
a creaçSo cia linguagem, das formas sociaes, do direi- 
to, tudo é espontâneo e commum. Porque é que se 
ha de expungir d'esta lei as tradições épicas que pri- 
meiro foram sentidas antes de serem cantadas? NSo 
foram essas poesias que soltaram as linguas modernas 
da sua gaguez, que lhe formaram a sua prosódia? Que 
tem que o Romanceiro hespanhol fosse começado a pu- 
blicar por uns livreiros curiosos, para que o povo por- 
tuguez nSo tenha uma poesia contemporânea e gémea 
d'aquella, desprezada pelos cultistas litterarios? A pri- 
meira faculdade critica é a intuição, e essa faculdade 
repugna á gente mediocre. Os romances de origem 
portugueza formam uma classe hypothetica, por isso 
mesmo que as creaç5es épicas n^elles cantadas sSo 
communs aos povos do Meio Dia. O romance da Sil- 
vana, vinha, como portuguez, por isso que o nSo en- 
contrara nas collecçSes castelhanas; foi recolhido por 
Amador de los Bios nas Astúrias, bem como o final do 



M4 EP0PÊA6 DA BAÇA MOSABABE 

roma^e da ífau Càthérineta, fragmônto BftgrAdo da 
noMa e(>opêa marítima. 

3/ Romances que se encoTdram nas collec^^ hes* 
panholas, Od romanced contidas n^esta olaaee sSo todos 
do sectdo XVI ; recolhidos da tradi^So hespanhola por 
Esteban de Najera, e publicados na êua Sihéí de Và- 
r(ós Romances em Saragoça em 1550; esta foi depois 
reproduzida em Anvers por Martin Nucío com o titulo 
dtt Gandonero de RofMinces, no mesmo anno. D'^ta 
ce>Uecção derivada immediatamente da tradição oral, 
di2 o snr. Duran: «Este livro é o manancial mais co- 
pioso, aonde, ex-profeeso e pela primeira vez se reuni- 
ram grande ntunero de romances, que, tradicionalmen- 
te a mivior parte, e a minima cm algumas fcdhas vo- 
lantes impressas no principio do século xvi, se cooMr* 
vwram nos cantos dos cegos e dos jograes.» A vista 
d'ÍBto retraita uma coiiclus9k>: Os romances Antigos ci« 
tadob nas obras de Gil Vicente, que sXo anteriores ás 
collecç5e$ de Saragoça e Anv^s, enoontram-se hoje. na 
maior parte d^essas anthologias; d'onde se deduz que 
efies cá andaium na tradição, d'ondc os recolheu Na^ 
jera; com os citados nas obras de 'Camões sucoede <o 
mesmo, it^orém tivemos o criminoso desleixo de os nft» 
ter sabido av^livur e recolher n'esta época. O que é 
ttiais paira ^miraçXo do philoiogo, é que os romances 
^ miodema tmdição popular portuguesa sBo aindii 
ioransfbrmaçSes dos antigos, de que nos restam memo^ 
Iria pâa coliecç8o de Anver». E que trabalho mimose 
<ò dè (X)nfro«tar m lavoí^es da imaginação nas dua« 



CAPITULO Vm M6 

epocAsJ No aecalo svi Imvia um grande vigor « «eiva 
de iittagínaçSo de qiie dó restam uns apagados vestigios^ 
mais próprios para fitser snppôr que nfto tivemos poesia^. 

II. -^ VbBOEL de BOMÂNOfiS HfOURISGOS, OONTOS 
DE CATIVOS, LfiNDAS PIEDOSAS, XÁGARAS E OÓPLAS DlB 

BU&LA8. Muitas das observaçd^» das èlasses anteriores 
oabem também a esta divisão. Os romances mouriscos 
são anònymos^ nada tem do commum oóm osd^ periock 
artificial a que pertencem os de Dom Francisco Manoel 
de Mello e Francisco Rodrigues Lobo. A nossa :Kácara 
dO; Cego andante, parece uma apropriação dos ueos 
do antiqtiissimo romance mourisco ¥o me 4ra mora 
Moruyma. Nas lendas piedosas revelannse os nossos 
costumes prknitivos; a lenda de Santa Iria lembra as 
luctas foraleiraS; quando os burguezes «Io consentiam 
que Os cavalleiros pousassem nas suas villaa. Moitas 
das tradições populares coincidem com a prosa das 
<^<fxmieas, como snccede eom o romance do Terremoto 
de Villa Franca do Campo, citado por Gaspar Fni^ 
ctuoso; ao milagre de Santo António, contado na Chro* 
nica dos Menores por Frei Marooti de Liêboa; e ao ca* 
tivo livrado pela Senfaora d(0S Martyres, da versão do 
Aigarve^ contada na irónica 4» 8am Domingos. A 
classe das sacaras e coplas de burlas compiSe^se pro- 
priamente lie <}ue lia de maia modenao ua tradição, isto 
é, dos sentioMntos e crenças da sociedade actual^ a 
Linda Pastorinha, os Conversados da Fonte, o jfW- 
reiro nain&radío, a Freira wrrepemdiAa, ji pcitencemá 
edade da fvosa, nada tem de commum oom o mundo 
cavalheiresco da edade media. 



866 EP0PÊÁ8 DÂ RAÇA MOSARABE 

Mal acabáramos de publicar o Romanceiro geral 
portuguez, quando recebemos da Ilha de Sam Jorge 
um mimoso presente de romances e cantigas, recolhi- 
das da tradição açoriana. Fizera a valiosa offerta o sr. 
Jo2o Teixeira Soares, coUector insulano do Romancei- 
ro de Garrett, Pela sua correspondência e trabalhos 
de investigação conhecemos que é um caracter integro, 
nSo contaminado pela rancorosa inveja que diríje a 
penna dos que entre nós se dão como homens de letras. 
Os cadernos de romances traziam muitos novos, ainda 
ignorados na tradição; resignavamo-nos a esperar que 
se extinguisse a edição de 1867, mas as suocessivas 
riquezas remettidas pelo illustre cavalheiro da ilha de 
Sam Jorge, decidiram-nos a tentar a publicação dos 
cantos açorianos: 

Cantos populares do Archipelago açoriano. D'este 
trabalho dizia-nos o nosso collaborador, o snr. João 
Teixeira Soares: «Sobre a publicação do Romancei- 
ro açoriano, permitta-me que exponha, que elle é pa- 
ra V. além d'outro8 motivos, um titulo de gloria, por- 
que é legitimo filho do seu Romanceiro geral; sem es- 
te elle nunca veria a luz publica, nem cresceria tanto 
em forças; e não será também para a nação uma 
gloria a conservação das suas tradiçSes poéticas por 
uma colónia, filha legitima, quando essas tradiçSes 
se acham em boa parte obliteradas e menoa bem con- 
servadas na mãe pátria ?f A lealdade d'estas pala- 
vras pagam-nos de todos os esforços. O estudo que fi- 
zemos das varias trovas que iamos recebendo mostrou- 



J 



CAPITULO VIII 367 

nos que a poesia popular das ilhas dos Açâres estava na 
sua pureza, senão inteireza primitiva. 

As classes que constítuem os Cantos populares do 
Archipelago sSo as mesmas adoptadas no Cancioneiro 
popidar e Romanceiro geral; servem-lhe de comple- 
mento: 

I. Cait CIONEIBO DAS Ilhas — As cantigas insula- 
nas tem um caracter pittoresco especial; abundam ali 
as Oraçdes^ compostas ainda com a mesma liberdade 
com que o povo nos primeiros séculos do christianismo 
formava os Evangelhos apocryphos. De facto se a Arte 
moderna se inspirou do christianismo, foi sempre pro- 
curar com predilecção os seus assumptos a esses Evan- 
gelhos, que nada mais são do que reuniões de orações 
populares. Nas ilhas ainda hoje se encontra a antiga 
festa aristocrática do Espirito Santo, que a fidalguia 
portugueza celebrava; lá continuam a chamar a essas 
festas Império dos Nobres, e dão ainda aos cantores 
ambulantes o nome de foliSes, dos quaes dizia D. Fran- 
cisco Manoel, nas Cartas em que tanto imita Sá de Mi- 
randa: 

Nfto enchoto ob foliões, 
Que é desenfado do povo. 

CÇanf. d^Euterp,, p. 66.) 

No continente a festa do Espirito Santo já nXo exis- 
te ; apenas ha um vislumbre d'ella nas margens de Zê- 
zere, e nos Açores tomoa-*se popular; 

Esta classe subdivide-se em Rosal de Namorados, 



Sm EP0PÊA8 DA RAÇA iiOBARABB 

oúlleeçSo da» tsáiilígaB a^dta»; «eAi Ser»nai€í8 >do Umt, 
no gosto da zácara moderna, ^ Dimirifuei de ora^ks. 

n. BofiANGAiBô Ds ABAVIAS.*^ Muitos éou roman- 
eeé 4M»óa{iileitaiii0nte perdidos na- tcadiçSo oral ào •coo- 
tincottke .do reíaiio apparecem «indá nos Ai^Sres. O bel* 
lo e antiguissimo romance do Rico Franco, do Cem- 
ciúfiero de AnÊvers, íbi recolhido eoa doas TersSes na 
yílla idoa Rosaas da lUia de^ Sam Jorge, com o tit»k> de 
Dom JFlranco. O celebre lomanoe de Qíl Vieemtey inti'* 
tttlado. i>am Duardos, qme a citada coUecgXo dp An-* 
vers seeolliea sem nome de aisctor^ e4]«ie o «aFaliíeiro 
de Oliveíira deacobriu aasimilado pelo nosso povo, «on-^ 
tra -vez « «etnalmenAe ee deseobrin na iika de Sam Jor- 
ge. Ali se oaAtaoDft iaiobem vários jnomances marítimos, 
restando apenas no oontinente a versBo da Nau Catíie- 
rin$tíia; as neoordaiçSes dafi viotorias ile Dom JoSo de 
Áustria DA. Batalha ide Lepanto lá se cantam beje. Por* 
taoAo erêmos eom a publieaçSo . dos 4^!éntw fofula* 
TBê do Arohipdago açoriano, ter afppresentado o melhor 
oompleisesíte («o Cancumeiro e Romasumro fend por* 
tuguez, conservando o que ha de mais genoino e primor* 
dial das nossas tradiçSes. 

Emprehendemos este trabalho sem esperança de 
lucros, nem de ^gloria; o publico não está sufficiente- 
mente illustrado para conhecer por si os livros que lhe 
intwesâam ; miíem os qiue escrevon tem a longanimida- 
déparar praticarem a jnsiiça de necommendar .uma obra 
que nSo podem fazer, ou oSe^qneireiíi eompiebeaden iPer 
JMMidMun oQtotAvanoaleraflr atsabeo lillimoivóliimaiâresta 



CAPITULO Vin 8C9 

empzeza que encerra todos, o» príaeipaéB romancet com 
fiirma Utteraria em que le imitoa noa bochIob xvi e x vn 
o gosto popular «NSo noa faltava o animo, mas temia* 
mos as diffioaldades da impressão^ ^pie sèiBpre' encon- 
tram trabalhos que exigem leitores illnstrados e da boa 
fó. Esses sia diminutos em toda & parle, e em Portngal 
obstmam-se em nSo se quoremm dar a codiecer. Dn-i 
rante os longos e difficultosoe processos- da. cdlecoiona^^ 
çSo dos òantos do nosso po^vO)> tivemos sem|>rd diante doa 
<^os um modelo de abne^sçSo sublime no anmymo que 
desinteressadamente eompuaeva essas ereaçSea épicas. 
Os eoileotores da Beira Baixa, do Minho, de Tráa^òs: 
Montes e dos Açores^ quando aceediam ás minhas m*^ 
stancias nSo ouravam de gloria Utteraria. Mandavam o 
resultado das suas investigações, sem saber' que iam 
amontoando as pedras de um monumento nacional. 
Os obreiros das Cathedraes gotbioas trabalhavam com 
O mesmo esmero na santa obscuridade. £m todos es- 
tes estudos tivemos sempre por divisa, as palavras de 
Jacob Qrimm: fpodemos affirmar que nas tradições e 
cantos do povo n^nea encontramos uma mentira; o po^ 
vo respeita-oB bastante para os tranamittir como elles 
sSo e como os sabe*)» 

A classlficaçiLo que adoptamos é deduzida da his- 
toria; por tanto para ser completa, faltava coUigir 
os romances de transformação artística. Sou novo, e 
pela primeira vez senti na vida ^ goato de vêr comi 
pleta uma obra, cujo pensamento occupou. todas as 
horas de provação. Hoje a Floresta de vários romai^i 



870 EPOPÊAS DÁ RAÇA MOS AR ABE 

ees já veia fundamentar a asserção, de que o romance 
em Portc^al soffireu as mesmas modificações que em 
Hespanha, na reacçSo contra a Esóhola italiana. 

Florestade ▼arios romances e cançdea com lôraia 
littararia. Muitos dos Romauoes de composiçBo jogra^- 
lesca e erudita, foram de tal forma aeceitados na cor- 
rente da tradiçSo popular, que hoje se consideram 4»mo 
anonymos, Taes sfto os romances do Cid ; entre nós o 
romance de Dom Duardoa^ de Gil Vic^ite, é o mais 
flagrante documento que temos. Alguns romances da 
guerra de Troja, por Jorge Ferreira de Vasconcellos, 
principalmente os da morte de Policena, encontram-se 
romanceados no Cancionero d'Anvers em bespanhol, 
descobrindo assim uma tradiçSo oral commum. A Flo- 
resta de Vários compSe-se de todos os romances daEs- 
chola hespanfaola e de Lope de Vega, imitada em Por- 
tugal; divide-se em duas classes: 

1.* Romances e cançSes com f erma litteraria, até 
ao secido XVIL — N'esta parte se contêm os principaes 
fisustos da historia portugueza, contemporâneos dos ro- 
mancistas ; taes sSo a morte do Príncipe D. Affonso, 
cantada por Álvaro de Brito, no Cancioneiro de Resen- 
de ; a morte do principe Dom João, cantada por Jor- 
ge Ferreira; a morte de D. Manoel, a acclamaçSo de 
Dom JoSo III, e o casamento da Infanta D. Beatriz, 
por Gil Vicente. Occupam um logar importante os 
romances artisticos de Bernardim Ribeiro, ecoo remoto 
da lyra provençal, e as folhas volantes de Balthazar 
Dias. 



CAPITULO VIII a7í 

2.* Rwnancero historial, dos feitos da Historia 
portugueza, colligido das CoUeç^ castdhanas. — N&> 
só 08 romances cavalheiros, por despreisados se perde- 
ram na tradiçSo portagueza; mesmo os romances. que 
se referem á nossa historia n^ sâo conhecidos entre 
nós, ao passo que se enthesouraram nas gigantescas 
coUecções hespanholas. O romance dos Amores de Ber- 
• nardim Ribeiro, que vem no Cancioneiro de Anvers 
com o nome de Bemaldinos, já se nSo encontra em^ 
Portugal. Como foi parar a Hespanha ! Um romance do 
Eomancero general, que começa : Un laneero portu- 
guez, explica esta fuga. No século xvi, os nossos ne- 
gociantes de retiJho e grosso corriam as varias cidades 
de Hespanha para venderem as mercadorias do Orien- 
te; um d'esses apaixonou-se por uma dama da Mancha, 
e fazia-lhe os seus requebros cantando-lhe de noite 
debaixo das j ancilas vários romajices. No documen- 
to que citamos se conserva um fragmento de romance 
em portuguez. No Romancero historiai estão recolhi- 
dos todos os romances da Historia portugueza desde 
Dom AfiFonso Henriques até ao tempo de Dom Sebas- 
tião, compostos por Lorenzo de Sepúlveda, por Juan 
de la Cueva, Grabiel Lobo Lasso de la Vega, Fray 
Ambrósio de Montesino, e de anonymos, outr'ora reco- 
lhidos na Mor de Enamorados, Rosa Esparta, Livro 
de los cuarenta cantos, e outros conhecidos pelo infati- 
gável D. Agustin Duran. Cremos fazer um serviço 
apropriando-nos d^ei^s riquezas que nos pertencem. 



ait EP0PÈÂ8 DÀiSAQÀ M06ARABE | 

XJltilnaikieiíto acaba de aair i luz o Rmaanceif^ do \U 
Aiffarve; é o sou coUdotor o war. S. P. M. Estaoio da ;)Qe 
Veiga, MoQQ fidalga da real casa fiddissima, e ccmvi- \m 
ct)0 partidário do tbrono e do altar. O colleotor es&r- ■)ji 
ça-9e paxá eonvencer o publieo, de que a. sua obra esta- i i 
va na gaveta desde 185^; mostra nisto um empenho uai 
ei^oassivOy para o que nSo bastam prólogos, n^n notas, liai 
nem pareotbesís. Qual será o motivo d'isso? É porque, /:o! 
como psropugnador do antigo regimen, nXo quiz mudar )l 
as soas !. Telhas ideias sobre o romance popular, con- :ç 
fundidas entre a. erudição atrazada de Huet e Moreri e i 
as hjpotheses inscientes de Garrett. O Romanceira do \ 
AlgckTve tem lun prologo de trinta e outo paginas sobre 
as origens e transformações do romance; ali os erros 
e equívocos sSo tantos como as palavras. Se áquiUo se I 
pôde dar o nome de ideias, estavam ellas em um esta- 
do pbantasmagorico. Este Rcmanceiro traz Irinta e 
oinco romances recolhidos da tradição do Algarve. E 
reoolhidos, como? Oomo quem nSo vê outra luz além 
dos processos de Garrett. O Bamaneeiro do Algarve 
também Mcsti adulterado, aperfeiçoado pelo. ooUector, 
que formou versões novas com as variantes que rece- 
bia* O romance de Dom Jvlião soffreu este processo: 
«consegui varias lições, que simultaneamente coteja- 
das, poderam produzir eeia, que na essência não dif- 
fere de nenbuoiKa, e de todas mais ou menos se aproxi- 
ma.» Como é que conseguiu varias lições^ se o ooUe- 
ctQr> diz: «é forçoso aocrescentar... a raridade com 
que o povo já o conserva de memoria. No Algarve ci- 



CAPITUW) VIII 3W 

dades inteiras ha que p 4e90onb9Gi9m;9 Ora sabendo-se 
que os nomes de pessoas e de legares sSo a primeira 
cousa que se oblitera na tradiçSo, um romance que traz 
o nome do Dom Rodrigo, de Pona C&^ft» Dom Jolilo 
e do trádor Dom Oppas, que se refere a Ceuta, a Gva-^ 
nada, a Oespanlua e Andaluzia, traz em si a prova i% 
úJsidAde. No romitnoe O CavaUeiro da Siha, dado 
eomo nliio conhecido^ (1) o verão : cDitas que eram taes 
hhindicia$,9 o^Qstra o retoque da mSo irreverente. O 
Fesujtado d'estei aperfeiçoamentos é vermos o romance 
Almenda formado de dois A Infaniina, e um vestígio 
do Figueiral; é veiamos a Nau Cathermeita, amal-^ 
gamada com um romance de Dom Ja8a ãe Auêiria. 
Da Na» Caíherinéta, diz Stacío da Veiga: tOnze 
liçSes obtive para poder produzir e$ta, fU0 mmto m$ 
custou, porque entre tantas nSo havia muitas que fos- 
sem idênticas.» Do romanee de Dom Joaquim, diz: 
•É indubitavelmente a primeira vez que appareee es- 
cripto.» Mas no Romanceiro geral de 1867 vem uma 
versZo de Coimbra, (n.^ 60) e nos Cantos do Árchipe- 
lago, encontram-se muitas variantes (n.^' 44, 45, 46). 
O roíBiaace dos Calme, aocusa origem erudita; o meS" 
mo com relação á Aldeana. O romaoioe da Pastora 
tamb^n foi ageitado pelo agrupamento de versSes de 
Faro, de Portimão, de Tavira e da aldeia de Mar- 
tim Longo. No romance a AMseneia, os versos : 



(1) Vid. Cantos do Archipelago^ n.® 47, p. 314. (1869.) 
24 



574 EPOPÊAS DÀ RAÇA BI08ARABE 



Amargamente diMa: 
D*iMta0< praiaa orenoto».. 



para quem sabe que o povo nSo usa de epithetoe va- 
riado9; é* evidente a superfetaçfto. O Frade traz o se- 
^iiite prologo: tOffereceu-me este romai^ alguma 
dificuldade para o poder de algum modo restaurar ou 
tomar pelo ç«diio« compreheneivd . . . duas rapsódias 
pude cotejar. . . adoptei de ambas o que me pareceu 
dever ser mais conforme á UçSo primitiva, para pro- 
dúzir esta, que, podendo nSo ser completa, foi toda- 
via reconstitui da com o possivel escrúpulo.» O verso: 
«N^sto a vU prelada foi-se a retirar» as palavras subli- 
nhadas estão accusando a mSo profana do snr. Stacio 
da Veiga. Da le»da de Santa Cêcilia, diz: <é sem du- 
vida nova para as letras ; por isso aqui a registro com 
agrado.» Já desde 1867 existia uma versSo, a Devota 
da Ermida, no Romanceiro geral (n.** 48); a Senhora 
das Angustias já se recolhera em diversas versSes nos 
Cantos do Archipelago (n.^ 69 e 70). O senhor Stacio 
da Veiga diz com relação á poesia popular do Algarve: 
«Faz lastima vêr como a nossa poesia tradicionsd an- 
da desfigurada e corrompida, e como ao mesmo tempo 
se vae despedindo da memoria popular, seu quasi iini- 
co archivo.» Isto podemos eom toda a verdadei volver 
contra o coilector algarvio,' que se obstinou a seguir as 
pisadas de Garrett sem o ter criticado. Como Q-arrett, 
elle ainda labora na confusão do romance com a xáca- 



CAPITULO VIII 37* 

ra, e também dá bypotheses imaginosas por ar^g^umen- 
tos. Dos triota e cinco romances colhidos no Algarve^ 
muito poucos merecem fé; está ainda por fazer aquella 
exploraçSO) porque, os centros da verdadeira; poesis^ 
popular portvgueza sSp a Beira B^ixa^ as IlhM . dos 
Açores e Algarve, aonde os mosarabea permaneceram^ 
e o sur. Veiga nSo foi dirigido na sua investigação 
n^esta ultima província pelo methodo ethnographico. 

Tal é a exposiçSo dos trabalhos qua se tem feito 
na exploraçBo da nossa poesia. nacional. Este livro é a 
synthese d^elles todos, e a determinação da^ leis. histó- 
ricas. Tristes consequências resaltam ao confrontar o 
vigor da nossa poesia com o da nacionalidade. 

O povo portuguez nSo tem festas »nacionaes; ficou 
com a tristeza sepulchral do catholicismo da edade me* 
dia; tem a desconfiança que lhe deixou o despotismo, 
e o assombro estúpido causado pelas fogueiras do San- 
to Officio. Uma naçSo que não tem festas,. é porque se 
esqueceu das suas tradiçSes; sem tradiçSes não ha uni- 
dade moral para completar a unidade politica do ter-: 
ritorio. Um leve abalo a desmorona, e a acç&o, do tem: 
po por si a dissolve. A imica alegria que o povo ainda 
mostra, é nos insultos com que certas localidades se apo- 
dam, e principalmente nas festas religiosas com um^ 
pouco de saturnal grotesca, meia do paganismo, m^ii^ 
d,OB fabliaux. Qual o meio de tomar a alegrar-8e„de 
inventar essas formas com que no meio da expansSo 
fraternal se communicam os dogmas cívicos? Ninguém 
sabe! Oomtudo a natui^eza é sempre fecvmda, e temjre» 



9» EPOPÊAâ DÁ RAÇA liOSARABE 

ctltMlr ^tte mtgiieifi ccmhece. Quando ás eiândes hut-* 
gúetM do fim da edade media radioaram a dua Uber^ 
áad^y iiaBoeratti logo a« festaâ publicas; trasiam ainé» 
a appar«tio9a de combates < Â estaenda em MilãO) o 
Campo Fiore em Verona, o óampo de M«rte em Vie^n-t 
Wy ét*Am a IradiçBo renovada pelas repubHoas italianas. 
Em Pisa, a tu<»fà da Ponte nasceu da oommeinora^ de 
Kízioa>'^tte defendera a paiaria ccmtra um^ stttpres^do» 
Sátiiaôenòs; em Sena a feâta de Sam Jdfge Vencendo 
é' Bragio, heáeria^e também á segurança puUica. Quer 
na LorenA, eín LeSLo, em Pbitiers, em BuSo, por feda a 
parte as festas da edade media tiftham uma remlni8e«ftt' 
cia politica. Tííh nunca vivemos polilicati^enlè. 

£m Porttfgal; iodas ^ festas populares fo^am des- 
naturadas pelo obscurantismo eoclesiastico, è cheg^a- 
ram a deBapparécer , porque oa nosso» monaroiias iiutiea 
r^èonhecev&m a vida politica doeste poderoso Memento 
fMmhibe. O que é uma casa reiífiante, de uma ivnbe^ 
cilidfade pi^verbiál, dè mãos dadas eom o cathoHc»»- 
mo^, e teplorando ambos a eidátetída d'este pot^ò, se^ 
nio á redtieçSò dô uma íiaeit>naHdade á condição de boi 

Um dòfif maiores espiritou á'edte secuto, que áàaiy^ 
tíM d génio da^ ptíncipaes nacionalidade£t da Europa, 
o AèUcobtidof daé epopêa» gailo-frankas, um dos escfi- 
plfôréu què levantou o nivel moral da lEuihdpa, Edgar 
Quitlét) visitou Portugal em 1944 1 Oonro lhe parecéil 
t&ià imôi !BndÍúbu-nos o verdAdeif o erit^io para lêr 
QimOeé, deti^4lMf 'pòi^.éWimentàrio os Jeronymos de 



Beleni; e- acbou eoà Portugal «a mndbt^ a sMcUb dê 
tmtúB nofâú ou dê uma Qonwrrbd gubnMrgidaib Para eUe 
< a liÍB^M deDi Maria íi siipilhava a corte de Ignefe de 
OastoO) qae' tendo sido desentcmida, estava aásentada 
sobre am' tbfona pofttkouiiDy governando, entre a ban*- 
ca-rota e o jesuitismo, uma monarchia defimota^i» Ninn 
gaem percebeu estas eternas palavras, e vamos passan- 
do de herança em herança como semoventes para o go- 
verno paternal dos somnambulos. 

 semente que brota entre as fendas do rochedo 
cresce e racha o bloco enorme. É que a céllula orgâ- 
nica é mais forte do que a matéria inerte. Hade ser 
assim a Revolução, que tem de apagar essas ^uas for- 
mas de uma tradição anacbiKiiica, que procura susten- 
tar-se violando a natureza e a liberdade, conservando 
a ignorância da multidão, propagando a desconfiança 
individual, e corrompendo ou esgotando com pequenos 
interesses a força moral, que é a única força que tudo 
pôde. (1) 

O povo portuguez, o pobre mosaraie, não sabe que 
o desnaturaram; tem acceitado até hoje o domínio 
d'aquelles que lhe inocularam o virus da sua degrada- 
ção. Chegou-lhe já a sua hora de desconfiança; falta 
ainda o momento da critica. Os meios da revolução 



(1) Sobre este ponto nada ha mais eloquente do que as 
Ccuuaa da decadência doe Povos peninetUareSf pelo snr. Anthe- 
To do Quental, o homem que melhor escreve a hngua portugue- 
za, e que relanceou a nossa historia da mesma altura a que 
Edgar Quinet penâon a PhUaeòphia da Hintúría de Ffaiiça. 



S7S 



EPOPÊAS DA BAÇA MOSARABE 



alo &ceÍ8 : extingo! o- recrutamento e o fiico, que a 
authoridade cairá como o idolo falso diante da arca sa- 
grada; e para que o principio da ordem se ulo pertur- 
be um instante, ai tendes vigoroso, como em nenhum 
outro paiz da Europa, o costume e respeito dos j>eque- 
nos^Munioipíos. 



, I 



INDEX 



EPOPÈAS DA RAÇA MOSARABE 



PAO. 
Advebtebcia V 



Capitulo i — ' Os Mosarabes e a Nacionalidade porta- 

gueza 1 

Capitulo it — Vestígios da poesia ^othica no povo por- 

toguez 35 

Capitulo ui — Elemento árabe na Poesia popular porta- 

gaeza 111 

Capitulo iy — Mytbos da sociedade Mosarabe: — Lenda 

do Abbade João — Canção do Figueiral 167 

Capitulo v -— Bomanisação das Epopêas germânicas pelo 

génio gallo-fraako 208 

Capitulo vi — A Poesia mosarabe banida pelas Canções 

provençaes dos coltístas gallo-romanos. 258 

Capitulo vu — Reacção da Poesia hespanhola contra a 

Esehola italiana da Renascença 288 

Capitulo viu «- Inflaencia do Romantismo sobre a oom^we- 

hensão da poesia popular portogoeza. . 820 



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